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O retorno! A tradução nossa de cada dia - parte 2

domingo, 13 de dezembro de 2020

 

Por: Rebel Princess

Olá novamente, caros leitores deste blog que vos fala! Como prometido, aqui temos a segunda parte do retorno triunfal de “A tradução nossa de cada dia”. Para quem dormiu 2020 inteiro e, como eu, queria muito que o ano fosse cancelado de vez, temos aqui a primeira parte e, de um passado distante, o outro post sobre tradução que também teve um episódio especial no nosso Betacast.

Já sabem, né? Biscoitos liberados!

Agora retornemos ao amado Xeroque Romes xD

 

Das letras para as telonas

O título já é quase autoexplicativo, hoje trago aqui para vocês algumas considerações sobre as adaptações que o detetive peculiar sobre o qual estamos falando teve para o cinema ou para a TV. De curiosidade, a ideia para este post veio do meu contato com uma área maravilinda chamada Tradução e Adaptação, especificamente a tradução intersemiótica/intermidiática (de uma midialidade para outra) e sim, vai muito além do simples “vamos transpor isso aqui para o cinema”. Para não ficar discorrendo horas sobre a área, que vem ganhando notoriedade nos ambientes acadêmicos, deixo aqui duas referências para quem tiver interesse em conhecer um pouquinho mais!

Referência 1 - artigo de Álvaro Hattnher: Literatura, cinema e outras arquiteturas textuais: algumas observações sobre teorias da adaptação.

Revista Itinerários, de Araraquara, n. 36, 2013, p. 35-44.

Referência 2 – livro de Thaís Flores Diniz: Literatura e cinema: tradução, hipertextualidade e reciclagem.

Editora da Faculdade de Letras da UFMG, 2005, 99 p.


Quem já leu os livros de Conan Doyle deve ter percebido que a frase “Elementar, meu caro Watson” realmente nunca apareceu nas obras escritas. Esse bordão surgiu em algum momento no meio das várias adaptações cinematográficas e se tornou O BORDÃO de Holmes, que usa muito a palavra “elementar” em suas explicações. Esse fato só comprova uma das teses mais famosas da área de tradução entre mídias: não vamos encarar como “perda” ou “ganho”, mas sim como uma expansão, uma transformação daquele material de partida que estava nos livros e se tornou imagético e sonoro em filmes e séries.

Com personagens mundialmente conhecidos, é difícil de se fazer um inventário completo das adaptações que Sherlock Holmes ganhou para o cinema e TV desde a primeira aparição, ainda sem som, em 1900, com o título Sherlock Holmes Baffled. Assim, apresentarei dois clássicos e outras mais recentes e que conheço melhor, cada uma com suas características únicas!


Obs.: se quiser conferir uma lista gigante de adaptações desde 1908, só visitar este site: www.arthurconandoyle.com/film-sherlockholmes


      The Hound of the Baskervilles (1939) – dirigido por Sidney Lanfield, traz Basil Rathbone como Sherlock e Nigel Bruce como Watson, e trata da propriedade da família Baskerville assombrada por um cão. Foi o 1º dos 14 filmes de SH que Rathbone e Bruce protagonizaram.



      The House of Fear (1945) – também com a dupla Rathbone-Bruce, sendo este o seu 10º filme, é baseado no conto As Cinco Sementes de Laranja e dirigido por Roy William Neill.



   Sherlock Holmes (2009) – uma reinvenção do detetive é feita pelo diretor Guy Ritchie nesse filme que foi o 1º de SH a ser lançado depois de 1988 nos EUA. Robert Downey Jr. e Jude Law são os protagonistas Holmes e Watson respectivamente, e o caso será o último da dupla – ou não – devido ao casamento do doutor. Também há o retorno de Irene Adler, interpretada por Rachel McAdams. Sim, Xeroque Romes é o Homem de Ferro xD




   Sherlock Holmes: O jogo das Sombras (2011) – sequência do filme de 2009, neste temos o mesmo elenco e um enredo semelhante a O problema final, contando também com várias referências a outros casos dos livros. Ambos os filmes de Ritchie são dotados de um pouco de humor e estratégias que caem muito bem nas histórias, como a Holmes Vision, que mostra como Sherlock planeja suas investigações pouco antes de elas acontecerem, como se o espectador estivesse dentro da mente do detetive.



  Sherlock (2010) – esta série da BBC trouxe Holmes e Watson, interpretados por Benedict Cumberbatch e Martin Freeman maravilhosos, para o século XXI e todo um jeito de se aproveitar as tecnologias foi usado nas histórias, com títulos modificados a partir dos títulos das obras escritas. É uma série maravilhosa, criada por Steven Moffat e Mark Gatiss (que interpreta Mycroft na série), com 3 temporadas e que segue o mesmo estilo dos livros de Conan Doyle: você não precisa conhecer a fundo Sherlock para curtir a história.




Obs.: ora ora, parece que temos dois Xeroque Romes aqui? Sim, amigos, tivemos a fusão de mundos de dois Sherlocks no universo cinematográfico da Marvel, quando Cumberbatch foi anunciado como Doutor Estranho e já tínhamos Downey Jr. como Homem de Ferro. Nem é preciso dizer que os fãs sofreram um mindblowing.


Elementary (2012) – série da CBS que também traz os personagens para o mundo contemporâneo, e é estrada por Jonny Lee Miller como Holmes e Lucy Liu como Watson, versão feminina. Olha esse ícone de atualização de Watson com a Lucy Liu, gente!



     Mr. Holmes (2015) – traz um já aposentado Holmes de 93 anos, interpretado por Ian McKellen, ainda focado em um mistério que nunca conseguiu resolver. Dirigido por Bill Condon e não deve o reconhecimento que merece na bilheteria ~crying


·   

    Enola Holmes (2020) – ah, o sonho de todos os fãs do nosso mais novo Superman se realizando com Henry Calvin performando Sherlock Holmes! O filme, original Netflix, traz muitas “mudanças”, desde personagens até foco narrativo, direcionando os holofotes à irmã (nunca confirmada nos livros, com algumas aparições na série da BBC) de Sherlock, Enola, interpretada por Millie Bobby Brown.


Ufa, vários Xeroques! Seja pelas semelhanças de aparência dos personagens (chapéu do Sherlock e sua pose de pensador estressado ou o bigode do Watson, por exemplo) ou pelas diferenças de narrativa e ambientação das histórias, podemos concordar que cada adaptação é única e contribuiu, positiva ou negativamente, para a expansão do universo de Holmes ao longo dos anos.


Então era isso que eu queria deixar aqui com vocês, um pouquinho do mundo detetive no qual, assim que o descobri, me afundei nas suas páginas e me diverti muito. Além disso, as histórias de Sherlock e Watson ajudam muito a gente a descobrir muitos detalhes de Londres, da Scotland Yard, do público que procurava detetives e tantas outras coisas.


E se sentiu aquela pontinha de curiosidade sobre as histórias, lhe digo que é “Elementar, meu caro”, o que fazer em seguida: separe um Sherlock Holmes para ver/ler/comentar no fim de semana! Muita coisa achamos online ou nos serviços de streaming (Netflix, Amazon Prime e Globoplay) ♥


Obs.: todas as imagens foram retiradas do Google e não detemos direito autoral sobre nenhuma delas ;)






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O retorno! A tradução nossa de cada dia - parte 1

domingo, 22 de novembro de 2020

 

Tradução: um assassinato, oba!

Por: Rebel Princess

Pois bem, como o assunto é gigante, nada mais justo do que um post gigante. Porém não se preocupem, caros leitores, porque será dividido em duas partes e terá um foco maior em uma certa história de detetive.

 

“Elementar, meu caro Watson”

Está aí uma frase que você provavelmente nunca lerá no livro, mas certamente já ouviu em um filme. Como boa fã/amante de romance policial, tia Rebel não poderia deixar de dedicar um post a tudo com o que entrei em contato a respeito desse detetive consultor, o primeiro no ramo e que inventou o cargo também.

Ilustração de Sidney Page para a Strand Magazine

Tá, e o que tudo isso vai ter a ver com tradução?

Tudo a seu tempo, mumuahahaha. Na verdade, meu post será dividido em duas partes justamente por isso. Nos estudos da tradução, temos uma variedade de abordagens possíveis, aquela pela qual sou mais apaixonada é a tradução intersemiótica, ou entre meios, que trata da tradução de um livro para um filme ou vice-versa, de um filme para um jogo, de um jogo para um parque temático... as possibilidades são bem variadas.

Infelizmente, em se tratando de dedicação de programas acadêmicos, esse ramo ainda é o “primo pobre”, como se servisse apenas de “pretexto” para se chegar a outro campo, um mero detalhezinho ali nas ciências humanas.

Massss como bons apreciadores das artes, temos que ter em mente que esse negócio de tradução é complicado, requer tempo para se entender e, principalmente, reconhecimento de que o campo interfere de um jeito gigante nos produtos que chegam até nós!

Para que falar disso e Sherlock Holmes juntos? (Sim, o post é sobre Xeroque Romes!)

Pelo “simples” fato de que é uma das histórias mais traduzidas, adaptadas, transmidiadas de todos os tempos. Dê uma pausa aqui e conte quantos Sherlocks você já conheceu na vida.

Cada um desses moços pode ser entendido como uma tradução diferente daquela história publicada na Strand Magazine, a qual podemos tomar como o “texto de partida” para tantas outras interpretações do detetive que vieram depois.

Feitas essas explicações, no post de hoje, vamos nos deter mais em compreender um pouco do Xeroque de partida. No post seguinte, vou falar um pouquinho das muitas traduções dele para as telonas e telinhas de TV.


Warning! Muitas infâncias podem ser destruídas com o que se segue.

Sherlock Holmes (SH) foi criação de Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), médico e escritor britânico, nascido na Escócia, que falava sobre assuntos muito diversificados, até ficção científica, e conseguiu se destacar com o detetive mais peculiar já criado e que conquistou uma legião de fãs. E sim, caros leitores, Sherlock é criação de Conan Doyle, não foi alguém que realmente existiu.

*Pausa para o choro da infância destruída*

Com base na edição definitiva comentada e ilustrada – maravilhosa! – da editora Zahar, temos 56 contos e 4 romances protagonizados por Holmes e escritos por seu fiel companheiro de investigação Dr. John Watson, que serviu no Afeganistão e, no tempo em que se passam as histórias com Holmes, trabalhava por conta, quase como um médico aposentado; afinal, para acompanhar grande parte das investigações e se meter nas confusões que as tais criavam, ele precisava de muito tempo!

Os contos eram escritos a fim de serem publicados em revistas, a que mais expandiu a leitura foi a Strand Magazine, e o primeiro romance a ser publicado foi Um Estudo em Vermelho em 1887; ainda existem divergências entre os pesquisadores, que, por sinal, são muitos, sobre a ordem cronológica dos eventos relatados em todos os contos.

O cânone – sim, Holmes possui um cânone próprio! – é composto pelos conjuntos de contos intitulados As Aventuras de Sherlock Holmes, As Memórias de Sherlock Holmes, A Volta de SH, O Último Adeus de SH e Histórias de SH; e pelos romances Um Estudo em Vermelho, O Signo dos Quatro, O Cão dos Baskerville e O Vale do Medo. O leitor pode partir de qualquer ponto para se aventurar junto ao detetive, não importando a ordem de leitura, já que cada história tem uma contextualização – muitas vezes turva e quase impossível de se relacionar a uma época real da história do mundo – logo no início e algumas pistas de casos anteriores também estão perdidas no meio do texto.


Em Baker Street – os livros e o personagem

Atual 221b – Baker Street e o Museu SH ao lado

Quanto aos aspectos da história, um cenário constante é 221B Baker Street, um número que se tornou bem famoso e ainda existe em Londres, local do apartamento que Holmes e Watson dividiam; fora este, múltiplos espaços aparecem, cada um com uma peculiaridade a se arrastar pelo caso, como em O cão dos Baskerville , onde a fazenda de Henry Baskerville tem todas as características – e também pessoas – dispostas a criar a ilusão de um cão demônio gigantesco que procura vingança.

Também temos personagens recorrentes além dos protagonistas, como a Sra. Hudson, que é a senhoria do apartamento e governanta de Holmes e Watson; Mycroft Holmes, irmão mais velho de Sherlock, com um cargo influente que nunca é especificado e que se envolve em alguns dos crimes também sem nunca declarar a quem está disposto a ajudar.

O professor James Moriarty é o grande antagonista, não tendo muito espaço nos livros (sua única aparição direta é no conto O problema final), mas ganhando importância nas adaptações cinematográficas como “o vilão com o gênio do herói” e [SPOILER] sendo o responsável pela aparente morte do detetive, a qual nos livros justifica seu sumiço de alguns anos – para depois realizar seu triunfante retorno no volume 3 dos contos – e na vida real de Conan Doyle representa o tempo em que este deixou de lado as histórias de SH para se dedicar a outros gêneros de escrita.

Irene Adler também é uma personagem que ganhou notoriedade, mesmo aparecendo apenas no conto Escândalo na Boêmia, sendo referida por Holmes como A Mulher, já que foi a personagem que frustrou os planos de Sherlock, ou seja, foi a vilã que conseguiu escapar do detetive. Temos também Lestrade, inspetor da Scotland Yard, que recorre a SH quando seus casos estão em um nível impossível de resolução, e também possui um acordo mútuo que Sherlock o ajuda, mas nunca leva o crédito pela resolução do mistério.

Como detetive consultor, os casos de Holmes são selecionados e a clientela vem até ele na “surdina”, sendo o pedido de sigilo sempre uma das características. O próprio Holmes tem vários meios, alguns ilícitos, de conseguir informações e impedir de tragédias ocorram, como a rede dos meninos de rua que servem a ele como informantes dos fatos que nem mesmo os clientes tem coragem para lhe contar.


O pavio curto

Holmes geralmente é descrito como uma pessoa arrogante e sem muitos sentimentos para com alguma coisa. Frequentemente nas histórias, ele age friamente com os clientes, mesmo as mulheres que ainda na época, infelizmente, eram bastante submissas e vinham lhe pedir ajuda para livrar os maridos de problemas. Ainda assim, sua capacidade de raciocínio é incrível e qualquer problema, mesmo que de aspecto sobrenatural, é resolvido por um simples encadeamento causal; seus conhecimentos de Química e das ruas e lugares de Londres é extraordinário. Toca violino e se gaba por ter um Stradivarius, em muitos casos tem comportamentos estranhos como ficar sem dormir, apenas fumando seu cachimbo e pensando, além de algumas vezes Watson mencionar seu vício em cocaína.

Mesmo Watson também o julgando como egoísta, a preocupação e cuidado de Sherlock para com o doutor é notável, sutilmente. Os dois passam por vários episódios de conflito emocional, e Watson em muitas histórias diz que está morando por conta própria ou está casado – os pesquisadores também adoram tentar descobrir as identidades das esposas do doutor, sendo a mais recorrentemente citada a tutora Mary Morstan.

Na edição da Zahar, as notas ao final dos contos mostram esses aspectos curiosos e que são pesquisados, bem como clubes e sociedades sherlockianas que cruzam referências e por muito pouco não conseguem provar de vez que o Dr. Watson realmente foi um amigo de Conan Doyle e a veracidade da vida de Holmes. Esta edição é ótima para adentrar profundamente no mundo de Sherlock no final do século XIX, mesmo você ainda não conhecendo nada do detetive, eu mesma não conhecia muita coisa até obter os livros, e foi amor à primeira vista. <3

Por hoje é isto, amados! Não percam a próxima parte que iremos falar das adaptações e traduções, espero que tenham gostado até aqui! ^^


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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [03/03]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por: Elyon Somniare

Saudações! Ansiosos para a terceira e última parte do discurso do “Nelinha”? Suspeito que alguns deverão ter esperado para ter a tradução toda disponível, de modo a poderem ler tudo de uma assentada. Para esses, o tempo de esperar terminou =)

Enjoy:

“(…) Sexto. Vou transmitir algum conhecimento freelancer secreto. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil a alguém que planeia criar arte para outras pessoas, que queira entrar no mundo freelancer de qualquer área. Eu aprendi-o com as comics, mas também se aplica a outros campos. E é isto:

As pessoas são contratadas porque, de algum modo, são contratadas. No meu caso fiz algo que nos dias de hoje seria fácil de verificar e que me deixaria em sarilhos, e que quando eu comecei, nesses dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu tinha trabalhado, mentia. Listava um punhado de revistas que me pareciam prováveis, soava confiante, e conseguia os trabalhos. Mais tarde tornei questão de honra escrever algo para cada uma das revistas que listei para conseguir aquele primeiro emprego, para que não tivesse mentido de verdade, só cronologicamente desafiado… Consegues trabalho de qualquer maneira que consegues trabalho.

As pessoas continuam a trabalhar, num mundo freelancer, e cada vez mais e mais do mundo de hoje é freelancer, porque o seu trabalho é bom, e porque são fáceis de se lidar com, e porque entregam o trabalho a tempo. E nem sequer precisas de todas estas três coisas. Duas de três é bom. As pessoas vão tolerar quão desagradável és se o teu trabalho é bom e o entregas a tempo. Vão perdoar o atraso da entrega se o trabalho é bom e se gostam de ti. E não tens de ser tão bom como os outros se és pontual e é sempre um prazer conversar contigo.

Quando concordei com este discurso, comecei a pensar qual foi o melhor conselho que me deram ao longo dos anos.

E veio do Stephen King, há vinte anos, aquando o sucesso de Sandman. Eu estava a escrever uma comic que as pessoas adoravam e estavam a levar a sério. King tinha gostado de Sandman e do meu livro com Terry Pratchett, Bons Augúrios, e viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo isso, e o seu conselho foi este:

“Isto é realmente bom. Devias aproveitar.”

E eu não aproveitei. O melhor conselho que tive que ignorei. Em vez disso preocupei-me. Preocupei-me sobre a próxima deadline, a próxima ideia, a próxima história. Não houve um momento nos catorze ou quinze anos seguintes em que eu não estivesse a escrever alguma coisa na minha cabeça, ou a questionar-me sobre isso. E não parei e olhei em volta e pensei, isto é mesmo divertido. Queria ter aproveitado mais. Tem sido uma viagem fantástica. Mas houve partes da viagem que perdi, porque estava demasiado preocupado sobre coisas correrem mal, sobre o que viria a seguir, para aproveitar o momento em que eu estava.

Essa foi a lição mais difícil para mim, penso: deixar-me ir e aproveitar a viagem, porque a viagem leva-nos a alguns lugares memoráveis e inexplicáveis.

E aqui, nesta plataforma, hoje, é um desses lugares. (Estou-me a divertir imenso.)

A todos os graduados de hoje: desejo-vos sorte. A sorte é útil. Irão descobrir com frequência que quanto mais arduamente trabalharem, quanto mais sabiamente trabalharem, mais sortudos serão. Mas a sorte existe e ajuda.

Agora mesmo estamos num mundo em transição, se estás em qualquer tipo de campo artístico, porque a natureza distributiva está a mudar, os modelos pelos quais os criadores lançavam o seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um tecto sobre as cabeças e comprar sanduíches enquanto o faziam, estão todos a mudar. Tenho falado com pessoas no topo da cadeia alimentar em edição, venda de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe como o quadro será daqui a dois anos, quanto mais uma década. Os canais de distribuição que as pessoas têm construído durante mais ou menos o último século estão em fluxo para as impressões, para as artes visuais, para os músicos, para as pessoas criativas de todos os tipos.

O que é, por um lado, intimidador, e, por outro, extremamente libertador. As regras, as suposições, os “agora é suposto que nós” que vêem o teu trabalho e o que fazes a seguir, estão a quebrar-se. Os porteiros estão a deixar os seus portões. Podes ser tão criativo quanto precisas de ser para ter o teu trabalho visto. O Youtube e a Web (e o que quer que seja que venha depois do Youtube e da Web) podem dar-te mais pessoas a verem o teu trabalho do que a televisão alguma vez pôde. As velhas regras estão a desintegrar-se e ninguém sabe quais são as novas regras.

Então inventa as tuas próprias regras.

Recentemente alguém perguntou-me como fazer algo que ela achou que seria difícil, neste caso, gravar um audiobook, e sugeri que ela fingisse ser alguém que o conseguisse fazer. Não fingir que o fazia, mas fingir que era alguém que o conseguia fazer. Para esse efeito ela colocou um recado na parede do estúdio, e disse que ajudou.

Então sê sábio, porque o mundo precisa de mais sabedoria, e se não consegues ser sábio, finge que és alguém que é sábio, e então limita-te a comportar-te como alguém sábio se comportaria.

E agora vai, e comete erros interessantes, comente erros maravilhosos, comete erros gloriosos e fantásticos. Quebra regras. Torna o mundo mais interessante por estares aqui. Faz boa arte.”

Neil Gaiman


Não irei escrever muito mais por aqui, visto que a Nelinha já falou imenso, mas não podemos negar que são palavras que valem a pena ler. Estou apenas a ranger os dentes perante a grande quantidade de “and/e”, ahah.

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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"Faz Boa Arte": Um Discurso de Neil Gaiman [02/03]

terça-feira, 26 de julho de 2016


Por: Elyon Somniare

Welcome back! Não me prenderei com grandes introduções: informo apenas que esta é a segunda parte da tradução do discurso de Neil Gaiman aos finalistas da University of Arts, em 2012, e que se ainda não leram a primeira parte é essencial que o façam antes de ler esta segunda. Até já!


“(…) Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles.

O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso, ainda que limitado, é a convicção inabalável de que estás a conseguir alguma coisa, e que agora serás apanhado a qualquer momento. É o Síndrome do Impostor, algo que a minha mulher Amanda baptizou de Polícia da Fraude.

No meu caso, estava convencido de que bateriam à porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que tinha uma prancheta, na minha cabeça ele tinha-a) estaria lá para me dizer que tinha acabado tudo, que me tinham apanhado, e que agora teria de ir e arranjar um emprego de verdade, um que não consistisse em inventar coisas e escrevê-las, e em ler livros que eu queria ler. E então eu afastar-me-ia com calma e arranjaria o tipo de trabalho onde nunca mais teria de inventar coisas.

Os problemas do sucesso. São reais, e com sorte vocês irão experimentá-los. O momento em que pararão de dizer sim a tudo, porque agora as garrafas que atiraram ao oceano estão todas a regressar, e vocês têm de aprender a dizer não.

Observei os meus iguais, e os meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu, e vi quão miseráveis alguns deles se sentiam: ouvia-os a dizerem-me que já não conseguiam prever um mundo onde faziam aquilo que sempre tinham querido fazer, porque agora tinham de ganhar uma certa quantia por mês só para se manterem onde estavam. Não podiam sair e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso parecia uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de falhanço.

E depois disso o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para te impedir de fazer a coisa que fazes, porque tu és bem sucedido. Houve um dia em que ergui a cabeça e percebi que me tinha tornado alguém que responde aos emails profissionalmente, e escreve como passatempo. Comecei a responder a menos emails e fiquei aliviado ao aperceber-me que estava a escrever muito mais.

Quarto, espero que cometas erros. Se estás a cometer erros, significa que andas por aí a fazer alguma coisa. E os erros em si mesmos podem ser úteis. Uma vez soletrei mal “Caroline”, numa carta, trocando o A e o O, e pensei “Coraline parece um nome real…”

E lembra-te que seja qual for a área em que estás, quer sejas um músico ou um fotógrafo, um artista plástico ou um cartoonista, um escritor, um dançarino, um designer, seja o que for que faças tem algo de único. Tu tens a habilidade de fazer arte.

E para mim, e para muitas das pessoas que tenho conhecido, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas final. Leva-te através dos bons momentos e leva-te através dos outros.

A vida às vezes é difícil. As coisas correm mal: na vida, no amor e nos negócios e na amizade e na saúde e em todas as outras maneiras em que a vida pode correr mal. E quando as coisas se tornam difíceis, é isto que deves fazer.

Faz boa arte.

Estou a falar a sério. O marido fugiu com um político? Faz boa arte. A perna é esmagada e depois comida por uma jibóia mutante? Faz boa arte. As Finanças andam atrás de ti? Faz boa arte. O gato explodiu? Faz boa arte. Alguém na Internet pensa que o que fazes é estúpido ou maléfico ou já foi feito antes? Faz boa arte. É provável que as coisas se ajeitem de algum modo, e o tempo irá eventualmente apagar a ferroada, mas isso não importa. Faz aquilo que fazes melhor. Faz boa arte.

Fá-la também nos dias bons.

E quinto, enquanto o estás a fazer, faz a tua arte. Faz aquilo que só tu consegues fazer.

Ao começar, o impulso é o de copiar. E isso não é mau. A maioria de nós só encontrou a sua própria voz depois de soar como muitas outras pessoas. Mas aquilo que tens que mais ninguém tem és tu. A tua voz, a tua mente, a tua história, a tua visão. Então escreve e desenha e constrói e actua e dança e vive como só tu podes.

No momento em que sentires, apenas possivelmente, que estás a caminhar nu pela rua, expondo demasiado do teu coração e da tua mente e do que existe lá dentro, a mostrar demasiado de ti mesmo. Esse é o momento em que talvez possas começar a consegui-lo.

As coisas que fiz que melhor resultaram foram as coisas sobre as quais tinha mais dúvidas, as histórias em que tinha certeza que ou iam resultar, ou, mais provavelmente, se iam tornar no tipo de falhanço embaraçoso a respeito do qual as pessoas se juntariam e comentariam até ao fim dos tempos. Essas histórias sempre tiveram isso em comum: olhando para trás, para elas, as pessoas explicam o porquê de elas terem sido um sucesso inevitável. Quando as estava a escrever, eu não fazia a menor ideia.

Continuo a não fazer. E onde estaria a diversão de fazer algo que saberás que irá funcionar?

E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há histórias minhas que nunca foram republicadas. Algumas delas nem sequer saíram de casa. Mas aprendi tanto com elas como aprendi com as coisas que funcionaram. (…)


Num aparte pessoal, esta é possivelmente a minha parte favorita do discurso. Várias vezes relembrei – e apliquei – o conselho da boa arte. Não só ajuda a criar, também ajuda a lidar melhor com aquilo que nos está a deitar para baixo.

A terceira parte será a última, encontramo-nos lá!


Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [01/03]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por: Elyon Somniare

Em 2012 Neil Gaiman discursou para os alunos da University of the Arts que se licenciavam. A sua mensagem tornou-se tão popular que os comentários pipocaram, traduções foram feitas e quadradinhos foram desenhados. Pessoalmente, posso dizer já ter seguido o(s) conselho(s) presente(s) nestas palavras, com resultados que muito me agradaram, e que pretendo continuar a segui-lo(s): além de ajudar à arte, ajuda à pessoa. E essa – arte e ser humano – é uma colaboração que nunca deve ser perdida de vista. Assim, apesar de ser já um discurso antigo e de provavelmente existirem outras traduções em português, considerei que tanto o blog quanto os seus leitores ficariam mais enriquecidos com um lembrete sobre a existência deste discurso. Devido, contudo, ao seu tamanho, terei de infelizmente o dividir em três partes. Eis a primeira dessas partes:


“Nunca esperei encontrar-me a aconselhar pessoas que se licenciam de um estabelecimento de educação superior. Eu próprio nunca me licenciei de nenhum estabelecimento do tipo. Nunca cheguei, sequer, a entrar num. Escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de ensino forçado antes de me poder tornar o escritor que desejava ser era sufocante.

Saí para o mundo, escrevi, e tornei-me um melhor autor à medida que escrevia mais; e escrevi mais um pouco, e ninguém nunca se pareceu importar por eu estar a inventar à medida que avançava, simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não pagavam, ou, com frequência, davam-me comissões para lhes escrever outra coisa qualquer.

O que me deixou com um respeito saudável e um carinho pela educação superior de que os meus amigos e familiares que frequentaram universidades já foram curados há muito tempo.

Olhando para trás, tenho tido uma viagem memorável. Não tenho a certeza se lhe posso chamar uma carreira, porque uma carreira implica que eu tenha tido algum tipo de plano de carreira, e eu nunca o tive. O mais próximo que tive foi uma lista que fiz quando tinha quinze anos de tudo o que queria fazer: escrever um romance adulto, um livro de crianças, uma comic, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de “Doctor Who”… e por aí fora. Não tive uma carreira. Simplesmente fiz o item seguinte da lista.

Então pensei em dizer-vos tudo o que eu gostaria de ter sabido quando comecei, e algumas coisas que, olhando para trás, eu suponho que sabia. E também em dar-vos o melhor conselho que alguma vez me deram, o qual falhei completamente em seguir.

Primeiro de tudo: quando começas uma carreira nas artes não tens nenhuma ideia do que é que estás a fazer.

Isto é óptimo. As pessoas que sabem o que estão a fazer conhecem as regras, e sabem o que é possível e impossível. Tu não. E nem deves. As regras do que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não testaram os limites do possível, não indo além deles. E tu podes fazê-lo.

Se não sabes que é impossível, é mais fácil de o fazer. E porque nunca ninguém o fez antes, nunca inventaram regras para impedir alguém de o fazer outra vez, por enquanto.

Segundo, se tens uma ideia daquilo que queres fazer, daquilo que foste aqui colocado para realizar, então simplesmente vai e fá-lo.

E isto é muito mais difícil do que soa e, por vezes, no final, muito mais fácil do que possas imaginar. Porque normalmente há coisas que tens de fazer antes que possas chegar ao lugar onde queres estar. Eu queria escrever comics e romances e histórias e filmes, então tornei-me um jornalista, porque aos jornalistas é permitido fazer perguntas, e simplesmente ir e descobrir como é que funciona o mundo, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisava de escrever e escrever bem, e estava a ser pago para aprender como escrever de forma objectiva, clara, por vezes sob condições adversas, e pontual.

Por vezes a maneira de fazer o que esperas fazer estará bem definida, e por vezes será quase impossível decidir se estás ou não a fazer o correcto, porque terás de equilibrar os teus objectivos e esperanças com a necessidade de te alimentares, de pagares as contas, de encontrar trabalho, de te acomodares com o que conseguires.

Algo que funcionou comigo foi imaginar que o ponto onde eu queria estar – um autor, primariamente de ficção, fazendo bons livros, fazendo boas comics, e sustentando-me com os meus trabalhos – era uma montanha. Uma montanha distante. O meu objectivo.

E eu sabia que desde que continuasse a caminhar na direcção da montanha, eu ficaria bem. E quando realmente não tinha certeza do que fazer, podia parar e pensar se aquilo me estava a levar na direcção da montanha, ou a afastar-me dela. Disse não a trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que me teriam dado dinheiro adequado, porque eu sabia que, ainda que atractivos, para mim eles teriam sido um afastar da montanha. E se essas ofertas de emprego tivessem surgido mais cedo eu poderia tê-las aceitado, porque teriam estado mais perto da montanha do que eu estava naquela altura.

Aprendi a escrever escrevendo. Eu tendi a fazer qualquer coisa desde que tivesse a sensação de aventura, e a parar quando a sentisse como trabalho, o que significa que a vida não teve a sensação de trabalho.

Terceiro, quando começas, tens de lidar com os problemas do falhanço. Precisas de ter pele dura, de aprender que nem todos os projectos irão sobreviver. Uma vida freelancer, uma vida nas artes, é, por vezes, como colocar mensagens em garrafas, numa ilha deserta, esperando que alguém encontre uma das tuas garrafas, a abra e a leia, e coloque na garrafa algo que retorne para ti: apreciação, ou uma comissão, ou dinheiro, ou amor. E tens de aceitar que podes despender uma centena de coisas para cada garrafa que retorna.

Os problemas do falhanço são problemas de desencorajamento, de falta de esperança, de fome. Queres que tudo aconteça e queres que aconteça agora, e as coisas correm mal. O meu primeiro livro – um trabalho de jornalismo que fiz por dinheiro e que já me tinha comprado uma máquina de escrever eléctrica em adiantado – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter-me dado uma data de dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente entrado em liquidação entre o esgotamento da primeira edição e o lançamento da segunda edição, e antes de quaisquer direitos de autor pudessem ser pagos, tê-lo-ia feito.

E encolhi os ombros, e ainda tinha a minha máquina de escrever eléctrica e dinheiro suficiente para pagar a renda por uns meses, e decidi que no futuro faria o meu melhor para não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se não tiveres o dinheiro, então não tens nada. Se eu fizesse um trabalho de que me orgulhasse, e não tivesse o dinheiro, pelo menos teria o trabalho.

Uma vez ou outra esqueço-me dessa regra e, sempre que o faço, o universo pontapeia-me e relembra-ma. Não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada do que fiz tendo como único propósito o dinheiro valeu a pena, excepto como experiência amarga. Usualmente também acabava a não ter o dinheiro. As coisas que fiz porque estava animado, e porque as queria ver a existir na realidade, nunca me deixaram mal, e nunca me arrependi do tempo que dediquei a cada uma delas.

Os problemas do falhanço são difíceis.

Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles. (…)”


Não me esfolem. O post já vai longo e até aqui se recorre aos cliffhangers, ahah. A segunda parte desta tradução recomeçará com os problemas do sucesso, e avançará com o discurso.

Até lá!

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin

segunda-feira, 21 de setembro de 2015
National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin
Tradução por: Elyon Somniare

Saudações, juventude!
Hoje vamos deixar-vos com uma pequena tradução: o discurso da autora Ursula K. Le Guin, aquando o recebimento do prémio National Book Awards. Como as palavras delas têm mais conteúdo que as minhas, vamos lá!

“Obrigada, Neil [Neil Gaiman, quem anunciou o prémio], e os meus agradecimentos do fundo do coração aos atribuidores deste lindo prémio. A minha família, o meu agente e os meus editores sabem que o facto de eu estar aqui é tanto devido a eles como a mim, e que este lindo prémio é tanto deles como meu. E regozijo-me ao aceitá-lo por, e a partilhá-lo com, todos os autores que foram excluídos da literatura por tanto tempo, os meus companheiros, os autores de Fantasia e Ficção-Científica — escritores da imaginação, que durante os últimos cinquenta anos viram os lindos prémios serem atribuídos aos tão-chamados realistas.
Penso que tempos difíceis se aproximam, tempos em que quereremos as vozes de escritores que podem ver alternativas ao modo como vivemos agora e que conseguem ver através da nossa sociedade, acometida pelo medo e pelas suas tecnologias obsessivas, até outros modos de ser, e até mesmo imaginar alguns terrenos reais de esperança. Vamos precisar de escritores que se possam lembrar de liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade maior.
Neste momento, julgo que precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção de mercado e a prática de uma arte. Desenvolver material escrito para se adequar a estratégias de vendas, em ordem a maximizar o lucro corporativo e o rendimento publicitário, não é exactamente a mesma coisa que publicação e autoria responsáveis.
No entanto, vejo departamentos de vendas a terem controlo sobre o factor editorial; vejo os meus próprios editores num pânico tonto de ignorância e cobiça, cobrando a bibliotecas públicas seis ou sete vezes mais por um ebook do que aquilo que cobram a um cliente. Vimos há pouco tempo um aproveitador tentar castigar um editor por desobediência, e escritores ameaçados por leis corporativas, e vejo muitos de nós, produtores que escrevemos e fazemos os livros, a aceitar isto. Deixamos que os exploradores de mercadoria nos vendam como desodorizante, nos digam o que publicar e o que escrever.
Os livros, sabem, não são apenas mercadoria. O objectivo do lucro está frequentemente em conflito com a aspiração à arte. Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte – a arte da palavra.
Tenho tido uma carreira longa e boa. Em boa companhia. Agora, no final dela, não desejo ver a literatura americana a ser traída. Nós que vivemos da escrita e da publicação queremos – e devemos exigir – a nossa justa parte dos proventos. Mas o nome do nosso lindo prémio não é lucro. É liberdade.
Obrigada.”

Le Guin abordou dois dos temas que mais são discutidos entre as comunidades de escritores e leitores, não apenas americanas, mas em geral: a resistência em encarar os géneros da Fantasia e da Ficção Científica como “literatura séria”, e o dilema da “arte vs lucro” que nos é trazido aquando a chegada — ou tentativa de — dos livros ao mercado. Julgo que a opinião da afamada escritora em um e outro assunto ficou bem clara nas suas (poucas) palavras. Qual é a vossa?

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Por que quebrar as regras

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Por: Rodrigo Caetano

Quem me conhece e já leu os meus artigos sabe muito bem que eu sempre trago algumas regras ditadas por autores famosos e consagrados na literatura, para servirem de dicas a quem se interessar. Outros betas também trouxeram dicas interessantes para o blog, e sempre somos muito bem recebidos. Já trouxemos dicas de Elmore Leonard, Margaret Atwood, Roddy Doyle, Geoff Dyer, e até mesmo de Neil Gaiman, George Orwell e Chuck Palahniuk, traduzindo-as para a nossa língua materna e deixando aqui para serem consultados a hora que vocês quiserem.

Acho um processo natural para nós, autores iniciantes, sendo amadores ou com aspirações profissionais, olhar para cima e observar aqueles que já alcançaram algo similar ao que almejamos. Assim, sempre vi as regras como um tipo de guia para nos ajudar a conseguir o que queremos alcançar.
Porém, a medida que fui lendo e estudando as diversas regras dos mais diferentes autores ao redor do mundo, percebi que nem sempre podemos segui-las. Na verdade, nunca podemos segui-las todas.
Sim, muitas vezes podemos usá-las como guias, mas, mesmo assim, com alguma reticência. Escrever é um processo muito pessoal, assim como qualquer tipo de arte. Arte que seja limitada por regras é justamente isso: limitada. A sua voz no papel é o que faz a literatura, e não um texto dentro dos conformes que quem veio antes ditou, quando fazia justamente o que você está tentando fazer.
Eles acharam o caminho deles, e por mais sucesso que tenham obtido, não podemos seguir atrás. Temos que achar um caminho próprio.
Foi lendo um artigo de autoria de Andrew Blackman, um autor britânico de menor expressão, que encontrei expresso em um estudo mais detalhado o que eu havia percebido inicialmente. “Escrever é, por natureza, um processo anarquista” diz ele. “Ele sobrevive de surpresas, quebra de regras, novos modos de ver as coisas. Se todos seguissem as mesmas regras, seguissem os mesmos caminhos, a literatura morreria rapidamente”.
Ele estudou as mesmas regras que eu estudei, todas baseadas em um artigo publicado pelo jornal “The Guardian”, chamado The Ten Rules of Writing Fiction (As Dez Regras para Escrever Ficção), que serviu de base para as minhas traduções. O que ele percebeu e provou foi a dificuldade imensa que alguém teria ao tentar seguir as regras ditadas pelos autores. Vou deixar aqui para vocês a minha tradução do que ele muito inteligentemente selecionou, desmontando as regras que, desde sempre, eu guardei com tanto carinho:

  • Roddy Doyle disse para “Encher as páginas o mais rápido possível – utilize espaços duplos, ou escreva pulando linhas”. Michael Morpurgo diz para “Escrever em letras muito pequenas, para que você evite acabar a página e ter que encarar a próxima em branco”;
  • Neil Gaiman te fala para ler o seu trabalho fingindo que você nunca o leu antes. Margaret Atwood diz que “você nunca vai conseguir ler o seu próprio livro como alguém que nunca o leu antes, logo, mostre para outra pessoa”;
  • Ian Rankin diz: “Seja persistente. Não desista”. Geoff Dyer diz: “Se algo se provar muito difícil, desista e faça alguma outra coisa”;
  • Geoff Dyer recomenda escrever em um computador com um auto-corretor bem refinado, para poupar tempo digitando. Zadie Smith fala para não usar um computador que seja conectado à internet. Annie Proulx lhe diria para escrever apenas à mão;
  • Richard Ford diz: “Não tenha filhos”. Helen Dunmore diz “Se você teme que cuidar da sua casa e dos seus filhos vai prejudicar a sua escrita, lembre-se de JG Ballard” (três filhos e vários prêmios na literatura);
  • Jonathan Frazen diz para “escrever na terceira pessoa, a menos que uma voz em primeira pessoa muito especial se ofereça de maneira irresistível”. Anne Enright diz “Escreva da maneira que bem entender”;
  • Margaret Atwood alerta que você precisará de um Thesaurus. Roddy Doyle manda deixar o Thesaurus numa prateleira no fim do jardim, pois “provavelmente as palavras que lhe vierem à cabeça servem”;
  • Michael Moorcock diz “Leia tudo em que você possa por as mãos... de Bunyan a Byatt”. Já Will Self diz: “Não leia ficção. É tudo mentira, de qualquer jeito”;
  • Andrew Motion lhe fala para “decidir quando no dia ou na noite você se sente melhor escrevendo”. Hilary Mantel fala que escrever pela manhã pode “ser a melhor coisa que você faz por você mesmo”;
  • PD James diz: “Quanto maior seu vocabulário, mas efetiva é a sua escrita”. Joyce Carol Oates prefere “usar palavras familiares e simples em vez de palavras polissilábicas e grandes”;
  • AL Kennedy diz: “as melhores coisas lhe farão lembrar delas, então você não precisa tomar notas”. Will Self diz para “sempre carregar um caderno... A memória de curto prazo apenas retém informações por cerca de três minutos”;
  • Jeanette Winterson diz: “Nunca pare quando você ficar preso”. Hillary Mantel diz que “se você está preso, pare e saia da sua mesa – dê uma volta, tome um banho, vá dormir; o que quer que você faça, não fique lá remoendo o problema”;
  • A única constância é conselho de cortar as coisas. Jonathan Fraze diz para evitar usar “então” como uma conjunção, e para ficar atento aos “verbos interessantes”. Sarah Waters aconselha cortar “frases redundantes, adjetivos distrativos, os advérbios desnecessários.” Elmore Leonard diz para cortar prólogos, descrições sobre o clima, qualquer verbo que não seja “disse” para diálogos, cortar advérbios, pontos de exclamação, dialeto regional e o termo “de repente”. Hilary Mantel diz para cortar o seu primeiro parágrafo. Esther Freud diz para cortar todas as metáforas e sorrisos. Não sei direito o que sobra, depois que cortamos isso tudo – talvez alguns substantivos.

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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana