Mostrando postagens com marcador Traduções. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Traduções. Mostrar todas as postagens

“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [03/03]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por: Elyon Somniare

Saudações! Ansiosos para a terceira e última parte do discurso do “Nelinha”? Suspeito que alguns deverão ter esperado para ter a tradução toda disponível, de modo a poderem ler tudo de uma assentada. Para esses, o tempo de esperar terminou =)

Enjoy:

“(…) Sexto. Vou transmitir algum conhecimento freelancer secreto. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil a alguém que planeia criar arte para outras pessoas, que queira entrar no mundo freelancer de qualquer área. Eu aprendi-o com as comics, mas também se aplica a outros campos. E é isto:

As pessoas são contratadas porque, de algum modo, são contratadas. No meu caso fiz algo que nos dias de hoje seria fácil de verificar e que me deixaria em sarilhos, e que quando eu comecei, nesses dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu tinha trabalhado, mentia. Listava um punhado de revistas que me pareciam prováveis, soava confiante, e conseguia os trabalhos. Mais tarde tornei questão de honra escrever algo para cada uma das revistas que listei para conseguir aquele primeiro emprego, para que não tivesse mentido de verdade, só cronologicamente desafiado… Consegues trabalho de qualquer maneira que consegues trabalho.

As pessoas continuam a trabalhar, num mundo freelancer, e cada vez mais e mais do mundo de hoje é freelancer, porque o seu trabalho é bom, e porque são fáceis de se lidar com, e porque entregam o trabalho a tempo. E nem sequer precisas de todas estas três coisas. Duas de três é bom. As pessoas vão tolerar quão desagradável és se o teu trabalho é bom e o entregas a tempo. Vão perdoar o atraso da entrega se o trabalho é bom e se gostam de ti. E não tens de ser tão bom como os outros se és pontual e é sempre um prazer conversar contigo.

Quando concordei com este discurso, comecei a pensar qual foi o melhor conselho que me deram ao longo dos anos.

E veio do Stephen King, há vinte anos, aquando o sucesso de Sandman. Eu estava a escrever uma comic que as pessoas adoravam e estavam a levar a sério. King tinha gostado de Sandman e do meu livro com Terry Pratchett, Bons Augúrios, e viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo isso, e o seu conselho foi este:

“Isto é realmente bom. Devias aproveitar.”

E eu não aproveitei. O melhor conselho que tive que ignorei. Em vez disso preocupei-me. Preocupei-me sobre a próxima deadline, a próxima ideia, a próxima história. Não houve um momento nos catorze ou quinze anos seguintes em que eu não estivesse a escrever alguma coisa na minha cabeça, ou a questionar-me sobre isso. E não parei e olhei em volta e pensei, isto é mesmo divertido. Queria ter aproveitado mais. Tem sido uma viagem fantástica. Mas houve partes da viagem que perdi, porque estava demasiado preocupado sobre coisas correrem mal, sobre o que viria a seguir, para aproveitar o momento em que eu estava.

Essa foi a lição mais difícil para mim, penso: deixar-me ir e aproveitar a viagem, porque a viagem leva-nos a alguns lugares memoráveis e inexplicáveis.

E aqui, nesta plataforma, hoje, é um desses lugares. (Estou-me a divertir imenso.)

A todos os graduados de hoje: desejo-vos sorte. A sorte é útil. Irão descobrir com frequência que quanto mais arduamente trabalharem, quanto mais sabiamente trabalharem, mais sortudos serão. Mas a sorte existe e ajuda.

Agora mesmo estamos num mundo em transição, se estás em qualquer tipo de campo artístico, porque a natureza distributiva está a mudar, os modelos pelos quais os criadores lançavam o seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um tecto sobre as cabeças e comprar sanduíches enquanto o faziam, estão todos a mudar. Tenho falado com pessoas no topo da cadeia alimentar em edição, venda de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe como o quadro será daqui a dois anos, quanto mais uma década. Os canais de distribuição que as pessoas têm construído durante mais ou menos o último século estão em fluxo para as impressões, para as artes visuais, para os músicos, para as pessoas criativas de todos os tipos.

O que é, por um lado, intimidador, e, por outro, extremamente libertador. As regras, as suposições, os “agora é suposto que nós” que vêem o teu trabalho e o que fazes a seguir, estão a quebrar-se. Os porteiros estão a deixar os seus portões. Podes ser tão criativo quanto precisas de ser para ter o teu trabalho visto. O Youtube e a Web (e o que quer que seja que venha depois do Youtube e da Web) podem dar-te mais pessoas a verem o teu trabalho do que a televisão alguma vez pôde. As velhas regras estão a desintegrar-se e ninguém sabe quais são as novas regras.

Então inventa as tuas próprias regras.

Recentemente alguém perguntou-me como fazer algo que ela achou que seria difícil, neste caso, gravar um audiobook, e sugeri que ela fingisse ser alguém que o conseguisse fazer. Não fingir que o fazia, mas fingir que era alguém que o conseguia fazer. Para esse efeito ela colocou um recado na parede do estúdio, e disse que ajudou.

Então sê sábio, porque o mundo precisa de mais sabedoria, e se não consegues ser sábio, finge que és alguém que é sábio, e então limita-te a comportar-te como alguém sábio se comportaria.

E agora vai, e comete erros interessantes, comente erros maravilhosos, comete erros gloriosos e fantásticos. Quebra regras. Torna o mundo mais interessante por estares aqui. Faz boa arte.”

Neil Gaiman


Não irei escrever muito mais por aqui, visto que a Nelinha já falou imenso, mas não podemos negar que são palavras que valem a pena ler. Estou apenas a ranger os dentes perante a grande quantidade de “and/e”, ahah.

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

0

"Faz Boa Arte": Um Discurso de Neil Gaiman [02/03]

terça-feira, 26 de julho de 2016


Por: Elyon Somniare

Welcome back! Não me prenderei com grandes introduções: informo apenas que esta é a segunda parte da tradução do discurso de Neil Gaiman aos finalistas da University of Arts, em 2012, e que se ainda não leram a primeira parte é essencial que o façam antes de ler esta segunda. Até já!


“(…) Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles.

O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso, ainda que limitado, é a convicção inabalável de que estás a conseguir alguma coisa, e que agora serás apanhado a qualquer momento. É o Síndrome do Impostor, algo que a minha mulher Amanda baptizou de Polícia da Fraude.

No meu caso, estava convencido de que bateriam à porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que tinha uma prancheta, na minha cabeça ele tinha-a) estaria lá para me dizer que tinha acabado tudo, que me tinham apanhado, e que agora teria de ir e arranjar um emprego de verdade, um que não consistisse em inventar coisas e escrevê-las, e em ler livros que eu queria ler. E então eu afastar-me-ia com calma e arranjaria o tipo de trabalho onde nunca mais teria de inventar coisas.

Os problemas do sucesso. São reais, e com sorte vocês irão experimentá-los. O momento em que pararão de dizer sim a tudo, porque agora as garrafas que atiraram ao oceano estão todas a regressar, e vocês têm de aprender a dizer não.

Observei os meus iguais, e os meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu, e vi quão miseráveis alguns deles se sentiam: ouvia-os a dizerem-me que já não conseguiam prever um mundo onde faziam aquilo que sempre tinham querido fazer, porque agora tinham de ganhar uma certa quantia por mês só para se manterem onde estavam. Não podiam sair e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso parecia uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de falhanço.

E depois disso o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para te impedir de fazer a coisa que fazes, porque tu és bem sucedido. Houve um dia em que ergui a cabeça e percebi que me tinha tornado alguém que responde aos emails profissionalmente, e escreve como passatempo. Comecei a responder a menos emails e fiquei aliviado ao aperceber-me que estava a escrever muito mais.

Quarto, espero que cometas erros. Se estás a cometer erros, significa que andas por aí a fazer alguma coisa. E os erros em si mesmos podem ser úteis. Uma vez soletrei mal “Caroline”, numa carta, trocando o A e o O, e pensei “Coraline parece um nome real…”

E lembra-te que seja qual for a área em que estás, quer sejas um músico ou um fotógrafo, um artista plástico ou um cartoonista, um escritor, um dançarino, um designer, seja o que for que faças tem algo de único. Tu tens a habilidade de fazer arte.

E para mim, e para muitas das pessoas que tenho conhecido, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas final. Leva-te através dos bons momentos e leva-te através dos outros.

A vida às vezes é difícil. As coisas correm mal: na vida, no amor e nos negócios e na amizade e na saúde e em todas as outras maneiras em que a vida pode correr mal. E quando as coisas se tornam difíceis, é isto que deves fazer.

Faz boa arte.

Estou a falar a sério. O marido fugiu com um político? Faz boa arte. A perna é esmagada e depois comida por uma jibóia mutante? Faz boa arte. As Finanças andam atrás de ti? Faz boa arte. O gato explodiu? Faz boa arte. Alguém na Internet pensa que o que fazes é estúpido ou maléfico ou já foi feito antes? Faz boa arte. É provável que as coisas se ajeitem de algum modo, e o tempo irá eventualmente apagar a ferroada, mas isso não importa. Faz aquilo que fazes melhor. Faz boa arte.

Fá-la também nos dias bons.

E quinto, enquanto o estás a fazer, faz a tua arte. Faz aquilo que só tu consegues fazer.

Ao começar, o impulso é o de copiar. E isso não é mau. A maioria de nós só encontrou a sua própria voz depois de soar como muitas outras pessoas. Mas aquilo que tens que mais ninguém tem és tu. A tua voz, a tua mente, a tua história, a tua visão. Então escreve e desenha e constrói e actua e dança e vive como só tu podes.

No momento em que sentires, apenas possivelmente, que estás a caminhar nu pela rua, expondo demasiado do teu coração e da tua mente e do que existe lá dentro, a mostrar demasiado de ti mesmo. Esse é o momento em que talvez possas começar a consegui-lo.

As coisas que fiz que melhor resultaram foram as coisas sobre as quais tinha mais dúvidas, as histórias em que tinha certeza que ou iam resultar, ou, mais provavelmente, se iam tornar no tipo de falhanço embaraçoso a respeito do qual as pessoas se juntariam e comentariam até ao fim dos tempos. Essas histórias sempre tiveram isso em comum: olhando para trás, para elas, as pessoas explicam o porquê de elas terem sido um sucesso inevitável. Quando as estava a escrever, eu não fazia a menor ideia.

Continuo a não fazer. E onde estaria a diversão de fazer algo que saberás que irá funcionar?

E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há histórias minhas que nunca foram republicadas. Algumas delas nem sequer saíram de casa. Mas aprendi tanto com elas como aprendi com as coisas que funcionaram. (…)


Num aparte pessoal, esta é possivelmente a minha parte favorita do discurso. Várias vezes relembrei – e apliquei – o conselho da boa arte. Não só ajuda a criar, também ajuda a lidar melhor com aquilo que nos está a deitar para baixo.

A terceira parte será a última, encontramo-nos lá!


Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

2

“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [01/03]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por: Elyon Somniare

Em 2012 Neil Gaiman discursou para os alunos da University of the Arts que se licenciavam. A sua mensagem tornou-se tão popular que os comentários pipocaram, traduções foram feitas e quadradinhos foram desenhados. Pessoalmente, posso dizer já ter seguido o(s) conselho(s) presente(s) nestas palavras, com resultados que muito me agradaram, e que pretendo continuar a segui-lo(s): além de ajudar à arte, ajuda à pessoa. E essa – arte e ser humano – é uma colaboração que nunca deve ser perdida de vista. Assim, apesar de ser já um discurso antigo e de provavelmente existirem outras traduções em português, considerei que tanto o blog quanto os seus leitores ficariam mais enriquecidos com um lembrete sobre a existência deste discurso. Devido, contudo, ao seu tamanho, terei de infelizmente o dividir em três partes. Eis a primeira dessas partes:


“Nunca esperei encontrar-me a aconselhar pessoas que se licenciam de um estabelecimento de educação superior. Eu próprio nunca me licenciei de nenhum estabelecimento do tipo. Nunca cheguei, sequer, a entrar num. Escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de ensino forçado antes de me poder tornar o escritor que desejava ser era sufocante.

Saí para o mundo, escrevi, e tornei-me um melhor autor à medida que escrevia mais; e escrevi mais um pouco, e ninguém nunca se pareceu importar por eu estar a inventar à medida que avançava, simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não pagavam, ou, com frequência, davam-me comissões para lhes escrever outra coisa qualquer.

O que me deixou com um respeito saudável e um carinho pela educação superior de que os meus amigos e familiares que frequentaram universidades já foram curados há muito tempo.

Olhando para trás, tenho tido uma viagem memorável. Não tenho a certeza se lhe posso chamar uma carreira, porque uma carreira implica que eu tenha tido algum tipo de plano de carreira, e eu nunca o tive. O mais próximo que tive foi uma lista que fiz quando tinha quinze anos de tudo o que queria fazer: escrever um romance adulto, um livro de crianças, uma comic, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de “Doctor Who”… e por aí fora. Não tive uma carreira. Simplesmente fiz o item seguinte da lista.

Então pensei em dizer-vos tudo o que eu gostaria de ter sabido quando comecei, e algumas coisas que, olhando para trás, eu suponho que sabia. E também em dar-vos o melhor conselho que alguma vez me deram, o qual falhei completamente em seguir.

Primeiro de tudo: quando começas uma carreira nas artes não tens nenhuma ideia do que é que estás a fazer.

Isto é óptimo. As pessoas que sabem o que estão a fazer conhecem as regras, e sabem o que é possível e impossível. Tu não. E nem deves. As regras do que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não testaram os limites do possível, não indo além deles. E tu podes fazê-lo.

Se não sabes que é impossível, é mais fácil de o fazer. E porque nunca ninguém o fez antes, nunca inventaram regras para impedir alguém de o fazer outra vez, por enquanto.

Segundo, se tens uma ideia daquilo que queres fazer, daquilo que foste aqui colocado para realizar, então simplesmente vai e fá-lo.

E isto é muito mais difícil do que soa e, por vezes, no final, muito mais fácil do que possas imaginar. Porque normalmente há coisas que tens de fazer antes que possas chegar ao lugar onde queres estar. Eu queria escrever comics e romances e histórias e filmes, então tornei-me um jornalista, porque aos jornalistas é permitido fazer perguntas, e simplesmente ir e descobrir como é que funciona o mundo, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisava de escrever e escrever bem, e estava a ser pago para aprender como escrever de forma objectiva, clara, por vezes sob condições adversas, e pontual.

Por vezes a maneira de fazer o que esperas fazer estará bem definida, e por vezes será quase impossível decidir se estás ou não a fazer o correcto, porque terás de equilibrar os teus objectivos e esperanças com a necessidade de te alimentares, de pagares as contas, de encontrar trabalho, de te acomodares com o que conseguires.

Algo que funcionou comigo foi imaginar que o ponto onde eu queria estar – um autor, primariamente de ficção, fazendo bons livros, fazendo boas comics, e sustentando-me com os meus trabalhos – era uma montanha. Uma montanha distante. O meu objectivo.

E eu sabia que desde que continuasse a caminhar na direcção da montanha, eu ficaria bem. E quando realmente não tinha certeza do que fazer, podia parar e pensar se aquilo me estava a levar na direcção da montanha, ou a afastar-me dela. Disse não a trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que me teriam dado dinheiro adequado, porque eu sabia que, ainda que atractivos, para mim eles teriam sido um afastar da montanha. E se essas ofertas de emprego tivessem surgido mais cedo eu poderia tê-las aceitado, porque teriam estado mais perto da montanha do que eu estava naquela altura.

Aprendi a escrever escrevendo. Eu tendi a fazer qualquer coisa desde que tivesse a sensação de aventura, e a parar quando a sentisse como trabalho, o que significa que a vida não teve a sensação de trabalho.

Terceiro, quando começas, tens de lidar com os problemas do falhanço. Precisas de ter pele dura, de aprender que nem todos os projectos irão sobreviver. Uma vida freelancer, uma vida nas artes, é, por vezes, como colocar mensagens em garrafas, numa ilha deserta, esperando que alguém encontre uma das tuas garrafas, a abra e a leia, e coloque na garrafa algo que retorne para ti: apreciação, ou uma comissão, ou dinheiro, ou amor. E tens de aceitar que podes despender uma centena de coisas para cada garrafa que retorna.

Os problemas do falhanço são problemas de desencorajamento, de falta de esperança, de fome. Queres que tudo aconteça e queres que aconteça agora, e as coisas correm mal. O meu primeiro livro – um trabalho de jornalismo que fiz por dinheiro e que já me tinha comprado uma máquina de escrever eléctrica em adiantado – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter-me dado uma data de dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente entrado em liquidação entre o esgotamento da primeira edição e o lançamento da segunda edição, e antes de quaisquer direitos de autor pudessem ser pagos, tê-lo-ia feito.

E encolhi os ombros, e ainda tinha a minha máquina de escrever eléctrica e dinheiro suficiente para pagar a renda por uns meses, e decidi que no futuro faria o meu melhor para não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se não tiveres o dinheiro, então não tens nada. Se eu fizesse um trabalho de que me orgulhasse, e não tivesse o dinheiro, pelo menos teria o trabalho.

Uma vez ou outra esqueço-me dessa regra e, sempre que o faço, o universo pontapeia-me e relembra-ma. Não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada do que fiz tendo como único propósito o dinheiro valeu a pena, excepto como experiência amarga. Usualmente também acabava a não ter o dinheiro. As coisas que fiz porque estava animado, e porque as queria ver a existir na realidade, nunca me deixaram mal, e nunca me arrependi do tempo que dediquei a cada uma delas.

Os problemas do falhanço são difíceis.

Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles. (…)”


Não me esfolem. O post já vai longo e até aqui se recorre aos cliffhangers, ahah. A segunda parte desta tradução recomeçará com os problemas do sucesso, e avançará com o discurso.

Até lá!

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

0

National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin

segunda-feira, 21 de setembro de 2015
National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin
Tradução por: Elyon Somniare

Saudações, juventude!
Hoje vamos deixar-vos com uma pequena tradução: o discurso da autora Ursula K. Le Guin, aquando o recebimento do prémio National Book Awards. Como as palavras delas têm mais conteúdo que as minhas, vamos lá!

“Obrigada, Neil [Neil Gaiman, quem anunciou o prémio], e os meus agradecimentos do fundo do coração aos atribuidores deste lindo prémio. A minha família, o meu agente e os meus editores sabem que o facto de eu estar aqui é tanto devido a eles como a mim, e que este lindo prémio é tanto deles como meu. E regozijo-me ao aceitá-lo por, e a partilhá-lo com, todos os autores que foram excluídos da literatura por tanto tempo, os meus companheiros, os autores de Fantasia e Ficção-Científica — escritores da imaginação, que durante os últimos cinquenta anos viram os lindos prémios serem atribuídos aos tão-chamados realistas.
Penso que tempos difíceis se aproximam, tempos em que quereremos as vozes de escritores que podem ver alternativas ao modo como vivemos agora e que conseguem ver através da nossa sociedade, acometida pelo medo e pelas suas tecnologias obsessivas, até outros modos de ser, e até mesmo imaginar alguns terrenos reais de esperança. Vamos precisar de escritores que se possam lembrar de liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade maior.
Neste momento, julgo que precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção de mercado e a prática de uma arte. Desenvolver material escrito para se adequar a estratégias de vendas, em ordem a maximizar o lucro corporativo e o rendimento publicitário, não é exactamente a mesma coisa que publicação e autoria responsáveis.
No entanto, vejo departamentos de vendas a terem controlo sobre o factor editorial; vejo os meus próprios editores num pânico tonto de ignorância e cobiça, cobrando a bibliotecas públicas seis ou sete vezes mais por um ebook do que aquilo que cobram a um cliente. Vimos há pouco tempo um aproveitador tentar castigar um editor por desobediência, e escritores ameaçados por leis corporativas, e vejo muitos de nós, produtores que escrevemos e fazemos os livros, a aceitar isto. Deixamos que os exploradores de mercadoria nos vendam como desodorizante, nos digam o que publicar e o que escrever.
Os livros, sabem, não são apenas mercadoria. O objectivo do lucro está frequentemente em conflito com a aspiração à arte. Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte – a arte da palavra.
Tenho tido uma carreira longa e boa. Em boa companhia. Agora, no final dela, não desejo ver a literatura americana a ser traída. Nós que vivemos da escrita e da publicação queremos – e devemos exigir – a nossa justa parte dos proventos. Mas o nome do nosso lindo prémio não é lucro. É liberdade.
Obrigada.”

Le Guin abordou dois dos temas que mais são discutidos entre as comunidades de escritores e leitores, não apenas americanas, mas em geral: a resistência em encarar os géneros da Fantasia e da Ficção Científica como “literatura séria”, e o dilema da “arte vs lucro” que nos é trazido aquando a chegada — ou tentativa de — dos livros ao mercado. Julgo que a opinião da afamada escritora em um e outro assunto ficou bem clara nas suas (poucas) palavras. Qual é a vossa?

2

Por que quebrar as regras

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Por: Rodrigo Caetano

Quem me conhece e já leu os meus artigos sabe muito bem que eu sempre trago algumas regras ditadas por autores famosos e consagrados na literatura, para servirem de dicas a quem se interessar. Outros betas também trouxeram dicas interessantes para o blog, e sempre somos muito bem recebidos. Já trouxemos dicas de Elmore Leonard, Margaret Atwood, Roddy Doyle, Geoff Dyer, e até mesmo de Neil Gaiman, George Orwell e Chuck Palahniuk, traduzindo-as para a nossa língua materna e deixando aqui para serem consultados a hora que vocês quiserem.

Acho um processo natural para nós, autores iniciantes, sendo amadores ou com aspirações profissionais, olhar para cima e observar aqueles que já alcançaram algo similar ao que almejamos. Assim, sempre vi as regras como um tipo de guia para nos ajudar a conseguir o que queremos alcançar.
Porém, a medida que fui lendo e estudando as diversas regras dos mais diferentes autores ao redor do mundo, percebi que nem sempre podemos segui-las. Na verdade, nunca podemos segui-las todas.
Sim, muitas vezes podemos usá-las como guias, mas, mesmo assim, com alguma reticência. Escrever é um processo muito pessoal, assim como qualquer tipo de arte. Arte que seja limitada por regras é justamente isso: limitada. A sua voz no papel é o que faz a literatura, e não um texto dentro dos conformes que quem veio antes ditou, quando fazia justamente o que você está tentando fazer.
Eles acharam o caminho deles, e por mais sucesso que tenham obtido, não podemos seguir atrás. Temos que achar um caminho próprio.
Foi lendo um artigo de autoria de Andrew Blackman, um autor britânico de menor expressão, que encontrei expresso em um estudo mais detalhado o que eu havia percebido inicialmente. “Escrever é, por natureza, um processo anarquista” diz ele. “Ele sobrevive de surpresas, quebra de regras, novos modos de ver as coisas. Se todos seguissem as mesmas regras, seguissem os mesmos caminhos, a literatura morreria rapidamente”.
Ele estudou as mesmas regras que eu estudei, todas baseadas em um artigo publicado pelo jornal “The Guardian”, chamado The Ten Rules of Writing Fiction (As Dez Regras para Escrever Ficção), que serviu de base para as minhas traduções. O que ele percebeu e provou foi a dificuldade imensa que alguém teria ao tentar seguir as regras ditadas pelos autores. Vou deixar aqui para vocês a minha tradução do que ele muito inteligentemente selecionou, desmontando as regras que, desde sempre, eu guardei com tanto carinho:

  • Roddy Doyle disse para “Encher as páginas o mais rápido possível – utilize espaços duplos, ou escreva pulando linhas”. Michael Morpurgo diz para “Escrever em letras muito pequenas, para que você evite acabar a página e ter que encarar a próxima em branco”;
  • Neil Gaiman te fala para ler o seu trabalho fingindo que você nunca o leu antes. Margaret Atwood diz que “você nunca vai conseguir ler o seu próprio livro como alguém que nunca o leu antes, logo, mostre para outra pessoa”;
  • Ian Rankin diz: “Seja persistente. Não desista”. Geoff Dyer diz: “Se algo se provar muito difícil, desista e faça alguma outra coisa”;
  • Geoff Dyer recomenda escrever em um computador com um auto-corretor bem refinado, para poupar tempo digitando. Zadie Smith fala para não usar um computador que seja conectado à internet. Annie Proulx lhe diria para escrever apenas à mão;
  • Richard Ford diz: “Não tenha filhos”. Helen Dunmore diz “Se você teme que cuidar da sua casa e dos seus filhos vai prejudicar a sua escrita, lembre-se de JG Ballard” (três filhos e vários prêmios na literatura);
  • Jonathan Frazen diz para “escrever na terceira pessoa, a menos que uma voz em primeira pessoa muito especial se ofereça de maneira irresistível”. Anne Enright diz “Escreva da maneira que bem entender”;
  • Margaret Atwood alerta que você precisará de um Thesaurus. Roddy Doyle manda deixar o Thesaurus numa prateleira no fim do jardim, pois “provavelmente as palavras que lhe vierem à cabeça servem”;
  • Michael Moorcock diz “Leia tudo em que você possa por as mãos... de Bunyan a Byatt”. Já Will Self diz: “Não leia ficção. É tudo mentira, de qualquer jeito”;
  • Andrew Motion lhe fala para “decidir quando no dia ou na noite você se sente melhor escrevendo”. Hilary Mantel fala que escrever pela manhã pode “ser a melhor coisa que você faz por você mesmo”;
  • PD James diz: “Quanto maior seu vocabulário, mas efetiva é a sua escrita”. Joyce Carol Oates prefere “usar palavras familiares e simples em vez de palavras polissilábicas e grandes”;
  • AL Kennedy diz: “as melhores coisas lhe farão lembrar delas, então você não precisa tomar notas”. Will Self diz para “sempre carregar um caderno... A memória de curto prazo apenas retém informações por cerca de três minutos”;
  • Jeanette Winterson diz: “Nunca pare quando você ficar preso”. Hillary Mantel diz que “se você está preso, pare e saia da sua mesa – dê uma volta, tome um banho, vá dormir; o que quer que você faça, não fique lá remoendo o problema”;
  • A única constância é conselho de cortar as coisas. Jonathan Fraze diz para evitar usar “então” como uma conjunção, e para ficar atento aos “verbos interessantes”. Sarah Waters aconselha cortar “frases redundantes, adjetivos distrativos, os advérbios desnecessários.” Elmore Leonard diz para cortar prólogos, descrições sobre o clima, qualquer verbo que não seja “disse” para diálogos, cortar advérbios, pontos de exclamação, dialeto regional e o termo “de repente”. Hilary Mantel diz para cortar o seu primeiro parágrafo. Esther Freud diz para cortar todas as metáforas e sorrisos. Não sei direito o que sobra, depois que cortamos isso tudo – talvez alguns substantivos.

2

Katie MacAlister: o segredo para planejar uma carreira de escritor profissional

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Tradução por: Ann Vinyso

O primeiro passo para o sucesso é elaborar um plano de ação e ter a capacidade de incorporá-lo em nossa vida diária. Propor a si mesmo uma meta, definir um prazo razoável para cumpri-la e – talvez o mais difícil de tudo – pô-la em prática.
Katie MacAlister, autora de Nobre Destino e Dragões de Prata, explica-nos seus 5 passos essenciais para planejar nossas carreiras como escritores profissionais.
  1. Em primeiro lugar, você deve saber claramente quais são suas aspirações.
Responda com toda a honestidade às seguintes perguntas:
- Que tipo de carreira quer seguir? Uma de curto ou longo prazo?
- Você se conformaria em publicar apenas um livro?
- Pensa em escrever uma série ou livros independentes?
- Você prefere desenvolver o seu trabalho dentro de um determinado gênero ou está disposto(a) a abordar múltiplos gêneros?
  1. Seja realista em suas expectativas financeiras.
Você espera ganhar a vida escrevendo ou considerará o dinheiro que pode ganhar como escritor(a) apenas como um complemento ao seu salário?
Além disso, é realmente importante para você ver seus livros nas prateleiras das livrarias? Aceitaria desenvolver a sua carreira através de meios alternativos de publicação (no meio digital, autopublicação, etc.)?
  1. Conheça bem suas habilidades e limites.
Quantos livros pode escreve emr um ano? Quanto tempo você pode se dedicar a escrever sem prejudicar sua vida familiar?
Você é capaz de realizar múltiplas tarefas simultaneamente (exemplo: escrever um original enquanto edita um segundo livro e promove um terceiro)?
  1. Decida se vai contar com a ajuda de uma equipe de apoio.
Tem um agente literário? Você se propõe a encontrar um ou vai se ocupar sozinho(a) na tarefa de divulgar o seu trabalho?
Sua família e amigos estão cientes de seus objetivos literários? Você pretende envolvê-los e contar com a ajuda deles ou prefere mantê-los fora disso?
  1. Defina a sua ideia de sucesso.
Todo mundo tem sua própria ideia de êxito. Quanto mais precisa for a sua ideia, melhor saberá medir o tempo e o trabalho que precisa para materializá-la.
Você considera um sucesso ver seus livros publicados, estar incluído nas listas de autores famosos, ter leitores em todo o mundo, tornar-se um best-seller?

Os níveis de trabalho e persistência variam de acordo com o tamanho dos seus sonhos.
Lembre-se de que todo projeto tem uma data de validade. Atualize seu plano profissional à medida que for alcançando os seus objetivos. Reveja suas ideias, reavalie a direção de seus esforços, se livre do que não lhe serve mais e proponha-se novos desafios.
Mas uma vez que você decidir qual o seu plano, siga-o até as últimas consequências. Essa é a verdadeira chave para o sucesso de qualquer escritor profissional.


ᴥ Publicação original por Lilly Cantara, “Katie Macalister: 5 claves para planear una carrera de escritora profesional”, consultado em abril de 2015. Disponível em: http://www.escriberomantica.com/2010/08/katie-macalister-5-claves-para-planear.html
0

Cometa Erros Interessantes

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Por: Hairo-Rodrigo

“Como que se faz para escrever bem?"

Eu sempre gostei de saber o que os escritores profissionais faziam para escrever. De que modo eles trabalhavam. Qual o caminho que eles escolheram para isso. Talvez porque um dia eu queira me tornar um escritor profissional também, mas há aquela parte de mim que simplesmente faz aquela pergunta: “O que faz o trabalho deles tão diferente do meu?”.

Mas sempre que eu procuro saber o que um escritor profissional tem de tão especial, eu encontro a mesma resposta: ele escreve.

Nossa, mas que raiva que isso me dá... Eu sei que ele escreve, oras. Eu sei que o que ele faz é escrever, afinal, o cara é um escritor! Eu quero saber como ele escreve. O que ele faz para escrever, e ninguém nunca entende isso. Todos eles sempre têm a mesma resposta: “Simplesmente escreva”.

Até que outro dia, sentado em um bar, conversando sobre uma ideia de história com uns amigos que nunca escreveram nada, eles me fizeram exatamente a pergunta que eu sempre fiz aos outros: “Como você escreve isso, cara?”.

Aquilo era uma conversa inocente de bar, em meio a copos e aperitivos, e eu não estava pensando muito. Estava relaxado e encarei a pergunta justamente como ela me foi apresentada, sem pretensões e cheio de inocência. Mastiguei um punhado de amendoins enquanto pensava em uma resposta e, quando terminei, não tinha chegado a qualquer conclusão. Respondi então, dando de ombros: “Sei lá, pô... Eu só escrevo”.

A realidade do que eu disse só foi me atingir quando cheguei em casa e relembrei o bate-papo. A primeira reação foi a de me sentir estúpido por ter feito exatamente o que eu sempre reclamei que faziam. A segunda foi até falta de modéstia, pois não me contive em pensar: “Será que eu estou me tornando um daqueles autores para quem eu sempre quis fazer aquela pergunta?”. Fez bem para o ego, admito, mas passou.

Por último, porém, veio um misto de aceitação e compreensão. Não é que a resposta que eu sempre odiei seja insuficiente. Eu apenas nunca a entendi direito. Ela podia não ser aquilo que eu queria ouvir, mas isso não faz dela menos verdadeira. Entendem?

Com isso em mente, trago para vocês um cara muito bem-sucedido, daqueles para quem eu sempre quis perguntar o que ele fez para chegar onde está e que, mais do que ser um escritor profissional, faz exatamente o que eu disse: ele escreve.

Seja na série de quadrinhos “Sandman”, nos scripts de “A Lenda de Beowulf” ou nas páginas de “Stardust” (esse mesmo, que virou filme há alguns anos), Neil Gaiman está sempre escrevendo. Mais do que autor, roteirista ou cartunista, ele é um escritor, no sentido mais amplo da palavra. O que ele sempre quis fazer era escrever, por tanto, ele escrevia. E escreve muito.

Aqui estão as respostas dele para aquela minha pergunta lá do início e, no fim, o vídeo de um discurso espetacular que ele fez na formatura da Faculdade das Artes, em 2007, na Filadélfia. O discurso ficou tão legal que, posteriormente, foi transcrito e vendido na forma de livro, intitulado “Make Good Art”. Talvez ele, com um pouco mais de propriedade, seja mais capaz de ajudar vocês a entenderem aquela resposta do que eu. Cada palavra vale a pena. Aproveitem. 

As regras para escrever de Neil Gaiman:

1 – Escreva;
2 – Bote uma palavra após a outra. Escolha a palavra certa e escreva;
3 – Termine o que você estiver escrevendo. O que quer que você precise fazer para terminar, termine;
4 – Coloque o livro de lado. Leia como se você nunca tivesse lido antes. Mostre a amigos que tenham uma opinião que você respeite e que gostem do tipo de história que você escreveu;
5 – Lembre-se: Quando as pessoas dizem que tem alguma coisa errada ou que alguma coisa não funcionou para elas, elas quase sempre têm razão. Quando elas te dizem exatamente o que está errado e como consertar, elas quase sempre estão erradas;
6 – Conserte. Lembre-se de que cedo ou tarde, antes que aquilo atinja a perfeição, você vai ter que deixar aquilo de lado e começar a escrever a próxima coisa. Alcançar a perfeição é como alcançar o horizonte. Siga em frente;
7 – Ria das suas próprias piadas;
8 – A principal regra sobre a escrita é que, se você fizer isso com segurança e confiança o suficiente, você pode fazer o que você quiser (isso pode ser uma regra para a vida também, mas definitivamente é verdade para a escrita). Então escreva sua história como ela precisa ser escrita. Escreva honestamente e conte-a da melhor maneira que você puder. Não tenho certeza se existem outras regras. Pelo menos não regras que importem... ”.


O vídeo:
Caso as legendas não apareçam de primeira, basta ativá-las na barra de controle do vídeo, ao lado da engrenagem das configurações, próxima à opção de colocar em tela cheia.

Fontes:
GAIMAN, Neil; “Neil Gaiman’s Rule for Writers; Publicado em 22 de fevereiro de 2010, disponível em: http://www.theguardian.com/books/2010/feb/22/roddy-doyle-rules-for-writers

3

O Professor da Terra dos Duendes

quinta-feira, 27 de março de 2014

Por: Hairo-Rodrigo

“ ‘Fuck’ era a melhor palavra. A palavra mais perigosa. Você não podia sequer sussurrá-la. ‘Fuck’ era sempre muito alto, explodia no ar sobre você e caía devagar sobre a sua cabeça, tarde demais para ser impedida. E então vinha o silêncio total, nada além do ‘Fuck’ flutuando para baixo...”

Esse é Roddy Doyle, um escritor irlandês conhecido por seu bom-humor, sua careca lisa, seu par de óculos redondos, além de, é claro, seus diversos livros de sucesso, entre eles “Paddy Clarke Ha Ha Ha” e “The Commitments”, adaptado para o cinema em 1991 e atualmente sendo adaptado para os palcos dos teatros, como um grande musical.

 “Eu não sou tão reconhecido assim. Sou apenas um cara careca que usa óculos, e tem um monte desses em Dublin. Seria diferente se eu usasse um moicano...”

Ah, não vem com essa, Roddy! Sem falsa modéstia, que você não é disso. Se bem que um moicano não chamaria lá tanta atenção, principalmente em Dublin, um lugar tão divertido e cheio de vida...

“Isso é tudo uma grande farsa. Nós vendemos o mito de Dublin como um lugar sexy muitíssimo bem; porque é um porcaria de um lixão, na maioria do tempo.”

Espera aí, como assim?! Os seus personagens são tão vivos, tão divertidos e tão charmosos! E a maioria vive aí! Como é que você consegue fazer isso se o lugar é uma “porcaria de um lixão”?

“Eu vejo as pessoas em termos de diálogo e acredito que elas são o que elas falam. A melhor maneira de se revelar o caráter de uma pessoa é fazer com que ela abra a boca.”

É um modo interessante de ver o mundo, com certeza. Mas posso voltar para a sua apresentação? Então... Como eu estava dizendo, esse cara abandonou a antiga carreira para escrever, já publicou diversos livros para públicos de todas as idades e é internacionalmente reconhecido por seu trabalho, tendo vencido diversos prêmios literários e fazendo parte da Sociedade Real da Literatura, uma organização britânica fundada em 1820, pelo Rei George IV.

“Eu não trabalho por comissões. Eu apenas faço o que quero fazer. Meus romances vêm de dentro. São coisas que eu sinto que quero fazer.”

Eu sei, Roddy. Não era isso que eu estava querendo dizer... Só queria que o pessoal entendesse que você é um tipo de autoridade no assunto, antes de falar sobre as regras de ouro que você segue para escrever seus livros. É bem melhor do que simplesmente dizer que você era um professor de colégio, que passava grande parte do dia falando com crianças, entendeu?

“Algumas vezes os adultos parecem ter cortado a ligação com o seu lado infantil.” 
“É ótimo conhecer as crianças, porque você nunca sabe o que elas vão dizer”
“Algumas das pessoas que mais parecem normais são, provavelmente, as pessoas mais piradas tentando parecer normais.”

É o que eu percebi hoje... Diz logo as suas regras então, antes que todo mundo aqui acredite que você é maluco.

1. Não coloque uma foto do seu autor favorito na sua mesa, especialmente se o autor é um daqueles famosos que se suicidou;
2. Você pode ser generoso com você mesmo. Encha as páginas o mais rápido possível; use o dobro de espaços ou então escreva pulando linhas. Considere cada nova página como um pequeno sucesso...
3. ...Até você chegar à página 50. Então se acalme e comece a se preocupar com a qualidade. É normal se sentir ansioso. São ossos do ofício;
4. Dê um nome ao seu trabalho o mais rápido possível. Seja dono dele, o visualize. (Charles) Dickens sabia que “Bleak House” (Casa abandonada) iria se chamar “Bleak House” antes de começar a escrever. O resto deve ter sido fácil;
5. Você vai ter que restringir a sua navegação à alguns sites por dia. Não chegue perto das casas de apostas online – a não ser que seja pesquisa;
6. Tenha sempre um thesaurus, mas na estante, nos fundos do jardim, ou então atrás da geladeira. Algum lugar que exija esforço, locomoção. Na maioria das vezes a palavra que lhe vier à cabeça vai servir perfeitamente bem, como “cavalo”, “correu” ou “disse”;
7. Você pode, ocasionalmente, cair em tentação. Lave a cozinha, pendure as roupas lavadas... É tudo pesquisa;
8. Mude de ideia. Boas ideias são constantemente assassinadas por ideias melhores. Eu estava trabalhando em um romance sobre uma banda chamada “The Partitions”. E então eu decidi chamá-los de “The Commitments”;
9. Não procure no Amazon pelo livro que você ainda não escreveu; e
10. Gaste alguns minutos do seu dia trabalhando na biografia de capa – “Ele divide seu tempo entre o Kabul e Tierra del Fuego.” Mas depois volte ao trabalho.
Fontes consultadas:

DOYLE, Roddy; “Roddy Doyle’s Rule for Writers; Publicado em 22 de fevereiro de 2010, disponível em: “http://www.theguardian.com/books/2010/feb/22/roddy-doyle-rules-for-writers"
BROWN, Mark; “The Commitments to be turned into West End Musical”, Publicado em 23 de Abril de 2013; Disponível em: http://www.theguardian.com/stage/2013/apr/23/the-commitments-west-end-musical
FIRETOG, Emily; Interview with Roddy Doyle; Publicado em maio de 2012; Disponível em: http://columbiajournal.org/wp-content/uploads/2012/05/doyle.pdf
???; Roddy Doyle Quotes; Disponível em: http://www.brainyquote.com/quotes/authors/r/roddy_doyle.html
???; Roddy Doyle Quotes; Disponível em: http://www.goodreads.com/author/quotes/10108.Roddy_Doyle
5

Conselhos do autor de Clube da Luta

quinta-feira, 6 de março de 2014

Por Deathless Nokas


Queres enriquecer a tua escrita, aprendendo a usar os verbos a teu favor e aprendendo a envolver mais o leitor nas tuas palavras?

Então não podes perder este artigo de Chuck Palahniuk, o autor de “Clube da Luta” e de inúmeros artigos sobre escrita muito aclamados. Aqui ele ensinar-te-á a deixar de usar verbos como “pensar”, “saber”, “compreender”, “entender” e “considerar”, por acreditar que eles te impedem de passar a mensagem que queres com a intensidade que desejas. Ah, e “acreditar” também é outro desses verbos...

A tradução foi feita por mim e, no final, ficará o link onde poderás encontrar o original e uma tabela que também compus, com alguns dos “verbos de pensamentos” que o autor recomenda que deixes de usar. 


“Daqui a seis segundos, vais odiar-me.
Mas daqui a seis meses serás um melhor escritor.”

De agora em diante ― pelo menos por meio ano ― tu não poderás usar verbos “de pensamentos”. Estes incluem: Pensar, Saber, Compreender, Perceber, Acreditar, Querer, Recordar, Desejar e centenas de outros que tu adoras usar.

Esta lista também deve incluir Amar e Odiar.

E deve incluir Ser e Ter, mas vamos falar desses mais tarde.

Até passarem esses seis meses, não poderás escrever “Kenny pensou se Monica não gostava que ele saísse de noite...

Em vez de isso, terás de desmembrar a ideia: “Nas manhãs seguintes às noites em que Kenny ficava na rua até depois do último autocarro/ônibus passar, até ele ter de cobrar uma boleia/carona ou pagar por uma viagem de táxi para casa onde encontrava Monica a fingir que dormia, a fingir porque, ela nunca dormia assim tão silenciosamente, nessa manhãs, ela punha apenas a sua chávena de café no microondas. Nunca a dele.

Em vez de teres os personagens a saber alguma coisa, tu agora terás de apresentar os detalhes que permitirão ao teu leitor ficar a saber essa coisa. Em vez de teres uma personagem a querer alguma coisa, agora terás de descrever essa coisa para que seja o teu leitor a querê-la.

Ao invés de dizeres “Adam sabia que Gwen gostava dele”, terás de dizer:

No intervalo entre as aulas, Gwen encostava-se sempre ao seu cacifo/armário quando ele o tinha de abrir. Ela reviraria os olhos e ir-se-ia embora ganhando impulso com um pé, deixando uma marca negra no metal pintado com o seu calcanhar, mas deixando também o seu perfume para trás. A fechadura ainda estaria quente pelo toque do seu traseiro. E no intervalo seguinte, Gwen estaria lá novamente.

Resumindo, nada de resumires as coisas. Deixa ficar apenas os detalhes específicos absorvidos pelos sentidos: ações vistas e cheiros, sabores, sons e texturas. 

Normalmente, os escritores usam estes verbos “de pensamento” no início de um parágrafo (desta forma, podemos chamar-lhes “Frases de Teses” e manifestar-me-ei contra elas mais tarde). De certa maneira, a frase de tese expõe a intenção do parágrafo. O que se segue, serve para a ilustrar.

Por exemplo:

Brenda sabia que não conseguiria cumprir com o prazo. O tráfego acumulava-se desde a ponte, até depois das seguintes oito ou nove saídas da estrada. A bateria do seu telemóvel/celular tinha morrido. Em casa, os cães precisariam de um passeio, ou haveria uma sujeira para limpar depois. Para além disso, ela tinha prometido que regaria as plantas do vizinho...

Vês como o começo com uma “frase de tese” roubou a importância ao que se seguiu? Não faças isto.
Senão tiveres mais nenhuma alternativa, corta a frase do início e coloca-a depois de todas as outras. Ou, melhor ainda, move-a e muda-a para “Brenda jamais cumpriria com o prazo.

Pensar é algo abstrato. Saber e acreditar são coisas intangíveis e intocáveis. A tua história será sempre mais forte se tu apenas mostrares as ações físicas e os detalhes das tuas personagens e permitires ao teu leitor que seja ele a pensar e a saber. E a amar e a odiar.

Não digas ao teu leitor “Lisa odiava Tom”.

Em vez disso, constrói o teu caso como um advogado num tribunal, detalhe a detalhe. Apresenta cada pedacinho das provas. Por exemplo:

Durante a chamada na aula, no instante a seguir ao professor dizer o nome de Tom, no momento anterior à sua resposta, nessa altura, Lisa iria sussurrar-gritar ‘Otário’, mesmo antes de Tom dizer ‘Estou aqui’."

Um dos erros mais comuns que os escritores iniciantes fazem é deixar as suas personagens sozinhas. Ao escrever, podes estar sozinho. Ao ler, os teus leitores podem estar sozinhos. Mas as tuas personagens devem passar muito, muito pouco tempo sozinhas. Porque uma personagem solitária começa a pensar, a preocupar-se ou a considerar.

Por exemplo: “Enquanto esperava pelo autocarro/ônibus, Mark começou a preocupar-se com o quanto a viagem iria demorar.

Um bom desmembramento dessa ideia poderia ser: “O horário dizia que o autocarro/ônibus chegaria ao meio-dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram onze e cinquenta e sete. Podia ver-se a estrada toda até ao centro comercial, e não se via nenhum autocarro. Sem dúvida que o condutor estaria parado numa rua ali ao lado, a dormir uma sesta. O condutor estaria recostado, adormecido, e Mark chegaria atrasado. Ou pior, o condutor estaria a beber, pararia ali bêbado e cobraria a Mark o bilhete para a sua morte num grandioso acidente...

Uma personagem sozinha deve submergir em fantasias ou memórias, mas mesmo assim não poderás usar verbos “de pensamento” ou nenhum dos seus parentes abstratos.

Oh, e podes começar a esquecer o uso dos verbos esquecer e lembrar.

Não haverá mais passagens como “Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar-lhe o cabelo.”

Em vez disso: “Na altura do segundo ano de universidade deles, Nelson costumava escovar o cabelo dela com longos e suaves movimentos da sua mão.”

Novamente: desmembra. Não aceites atalhos.

Melhor ainda, junta a tua personagem a outra personagem, depressa. Coloca-os juntos e faz com que se inicie a ação. Deixa que as suas ações e palavras mostrem os seus pensamentos. Tu ― fica fora das suas cabeças!

E enquanto andas a evitar os verbos “de pensamento”, toma cuidado ao usar os verbos sem sal “ser” e “ter”.

Por exemplo:

Os olhos de Ann são azuis.
Ann tem olhos azuis.”

Ao invés, usa:

Ann tossiu e passou uma mão sobre a face, limpando o fumo de cigarro dos olhos, olhos azuis, antes de sorrir...

Em vez das desinteressantes frases com “é” e “tem”, tenta enterrar os detalhes de o que as personagens têm ou são em ações ou gestos. Na sua forma mais básica, isto será mostrar a tua história, em vez de a contares.

E para todo o sempre, depois de também teres aprendido a desmembrar as tuas personagens, tu odiarás o escritor preguiçoso que se deixar ficar por “Jim sentou-se ao lado do telefone, pensando sobre o porquê de Amanda ainda não ter ligado.”

Por favor. Por agora, odeia-me o quanto tu quiseres, mas não uses verbos “de pensamento”. Daqui a seis meses, podes até endoidecer de tanto os usares, mas aposto o meu dinheiro em como não vais querer fazer isso.

Os teus trabalhos de casa serão passares os olhos pelos teus textos e circular todos os verbos “de pensamento”. Depois, encontra alguma forma de os eliminares. Aniquila-os desmembrando-os.

A seguir podes passar os teus olhos por livros publicados e fazer o mesmo. Sê implacável.

Marty imaginou peixes saltando à luz da lua...
Nancy recordou a forma como o vinho sabia...”
Larry sabia que era um homem morto...

Encontra-os. Depois disso, encontra uma forma de os reescreveres. Torna-os mais fortes.”


Achar­­­
Conceber
Desejar
Interpretar
Perceber
Relembrar
Acreditar
Concentrar-se em
Especular
Lembrar
Perguntar-se
Reparar em
Adivinhar
Concluir
Esquecer
Memorizar
Preocupar-se
Saber
Aperceber-se
Concluir
Fantasiar
Notar
Querer
Sonhar
Calcular
Considerar
Imaginar
Opinar
Reconhecer
Supor
Compreender
Deduzir
Inferir
Pensar
Recordar
Teorizar
Amar
Odiar


Não te esqueças que vários destes verbos podem ter mais do que uma função ou sentido, está bem? Tem em consideração que o CONTEXTO é que determina se um verbo é ou não “de pensar”. Não deves abulir estes verbos da tabela do teu vocabulário ou da tua história. O CONTEXTO é que determina essa necessidade. Se uma personagem disser “Eu penso que deverias cortar o cabelo,” isso não terá de ser desmembrado. Se algum verbo que não estiver nesta lista tiver a função de resumir o que se passa na mente da tua personagem, então também deve ser riscado do texto.


Publicação original por Chuck Palahniuck, “Nuts and Bolts: ‘Thought’ Verbs”, consultado a 22 de Janeiro de 2014. Disponível em: http://litreactor.com/essays/chuck-palahniuk/nuts-and-bolts-%E2%80%9Cthought%E2%80%9D-verbs

17


As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana