Mostrando postagens com marcador Hairo-Rodrigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hairo-Rodrigo. Mostrar todas as postagens

Resenha: O Teorema de Katherine

terça-feira, 19 de julho de 2016


Por: Rodrigo Caetano

Nerdfighters, olha o livro que apareceu aqui esse mês! Para quem não sabe o que é um Nerdfighter, não tema, pois vou explicar.

Você talvez conheça o nome John Green (ou João Verde, fique à vontade) como o autor daquele livro que virou filme, sobre a menina e o menino com câncer. Aquele chamado “A culpa é das estrelas”. Então, antes disso, ele escreveu um monte de outros livros, incluindo esse aqui. E, além disso, ele começou, em 2007, um canal no youtube com seu irmão, o Hank Green (ou Hank Verde), chamado vlogbrothers.

Juntos, nesse canal, eles construíram uma comunidade e são dois dos principais expoentes do youtube americano, com diversos canais e milhões de seguidores, incluindo o canal “Crash Course” — um canal educativo que dá aulas online de maneira bem simples e acessível sobre diversos temas, como biologia, história mundial, economia, física, filosofia e até propriedade intelectual.

Essa comunidade passou a ser chamada de Nerdfighters, mas não são pessoas que lutam contra os nerds. São nerds autoproclamados que lutam contra a crescente presença das coisas que são um saco (the word “suck”).

Então eu achei interessante trazer o último livro que li do John Green, justamente sobre um nerd assumido, e apresentar para vocês essa comunidade. Já deixei os links pelo texto, e, por fim, vou deixar uma pequena seleção de vídeos recentes e interessantes do canal original deles, e, se vocês quiserem, recomendo seguir pelo youtube. Sempre vale a pena.

Agora, vamos à resenha!E DFTBA (Don’tforgettobeawesome)!


Título Original: An abundance of Katherines

Título Brasileiro/Português: O Teorema Katherine

Autor: John Green

Editora: Intrínseca

Tradutora: Renata Pettengill


Sinopse: Se o assunto é relacionamento, o tipo de garota de Colin Singleton tem nome: Katherine. E em se tratando de Colin e Katherines, o desfecho é sempre o mesmo: ele leva o fora. Já aconteceu muito. Dezenove vezes, para ser exato.

Depois do mais recente e traumático término, ele resolve cair na estrada. Dirigindo o Rabecão de Satã, com seu caderninho de anotações no bolso e um melhor amigo bem fora de forma no banco do carona, o ex-garoto prodígio, viciado em anagramas e PhD em levar pés na bunda, descobre sua verdadeira missão: elaborar e comprovar o Teorema Fundamental da Previsibilidade das Katherines, que tornará possível antever, através da linguagem universal da matemática, o desfecho de qualquer relacionamento antes mesmo que as duas pessoas se conheçam.

Uma descoberta que vai mudar para sempre a história amorosa do mundo, vai vingar séculos de injusta vantagem entre Terminantes e Terminados e, enfim, elevará Colin Singleton diretamente ao distinto posto de gênio da humanidade. Também, é claro, vai ajudá-lo a reconquistar sua garota. Ou, pelo menos, é isso o que ele espera.


Resenha:

Essa é (mais) uma história sobre corações partidos, mas é sobre tantas outras coisas também... Colin Singleton é um adolescente que, como tantos outros, acha que tudo gira em torno de sua vida amorosa, e, quando esta vai por água abaixo, ele passa a questionar toda a sua vida e todas as decisões que toma.

E é isso que torna a coisa mais interessante. Porque apesar dessa coisa de corações partidos soar clichê, é justamente essa capacidade de um coração partido tem de levantar tantas questões diferentes que torna essas histórias tão interessantes. E, nesse caso, o coração partido pertence a um garoto bastante inteligente, que passou a vida sendo considerado um garoto prodígio, até que, de repente, percebeu que, como estava crescendo e não era mais um “garoto”, isso significava que ele não continuaria a ser um “garoto prodígio”.

Assim, buscando a grande ideia que o transformaria de prodígio em gênio de fato, ele observa parte em uma aventura para conseguir transformar todos os relacionamentos em que já esteve em uma única equação matemática, que preverá quando e quem irá por fim a qualquer relacionamento que você queira estudar.

Eu não vou dizer se ele consegue ou não, mas eu vou dizer que, apesar do tema, a matemática do livro é muito pouca, e você não precisa nem saber somar dois mais dois para entender.

Tá, talvez dois mais dois você precise saber para entender, mas você também precisa saber para viver...

O livro é interessante e, apesar de não ser surpreendente — como é “A culpa é das estrelas” —, esse livro é extremamente bem construído, e John Green com certeza sabe usar bem a linguagem na hora de escrever.

É interessante observar a simplicidade com que ele incorpora um sotaque diferente em palavras escritas e como isso é eficaz em ambientar a história em uma pequena cidade do interior. E é incrível como ele consegue brincar com anagramas — nosso protagonista é fascinado por eles — e com fatos históricos aleatórios — nesse caso, o autor é fascinado por eles —, sem torná-los chatos ou deixar o livro pesado.

Por sinal, uma crítica comum ao livro é como ele pode fazer com que você se canse de anagramas ou fatos históricos, ou como Collin pode ser irritante às vezes. Mas a verdade é que os anagramas e a personalidade fechada e específica do Collin são partes tão importantes do livro quanto às cenas mais agitadas e românticas. A brincadeira que eles têm em julgar o que é ou não é interessante é uma das questões mais importantes do livro, que nos ajuda a ver como o relacionamento que temos com um grupo ou uma comunidade, muitas vezes, é radicalmente mais complexa do que julgamos, e muitas vezes o fato de não nos darmos bem não é culpa nossa ou culpa dos outros. 

O fato de sermos considerados ou não interessantes pelos outros não necessariamente significa que você não é interessante para alguém, ou para outras pessoas; e, ainda assim, o fato de que aquelas pessoas que lhe acham desinteressantes não é necessariamente culpa delas. Na verdade, melhor dizendo, você não pode ser interessante ou desinteressante, mas as coisas são interessantes ou desinteressantes para pessoas diferentes. E você pode ter amigos e se dar bem com todo mundo mesmo que você goste de muitas coisas consideradas desinteressantes.

Apesar disso, o livro é relativamente lento, em comparação a outros livros que já li, e algumas das viradas da trama me pareceram mais convenientes do que naturais. E, pessoalmente, achei que o final ficou um tanto quanto desnecessário. Acho que o livro teria mais impacto caso Collin tivesse voltado à sua rotina no final.

Talvez seja uma questão minha, mas, apesar de concordar que a jornada do herói clássico está repetitiva, ela foi estudada justamente porque ela é repetitiva. Há milênios. Em culturas diferentes. E ela o é por um motivo.

Eu senti falta do retorno de Collin, da fase em que ele, após passar pelas fases, retorna ao ponto de partida, já evoluído e tendo vencido todas as suas batalhas.

Porém, ainda gostei muito do livro, e ainda o recomendo. Dos três livros que li de John Green, esse é o que menos gostei, mas ele ainda é um ótimo livro, e eu gostei tanto que fiz questão de vir contar a vocês sobre ele. 

Por enquanto é só! Até a próxima, galera!

P.S.: Não posso deixar de reconhecer aqui o lindo trabalho de tradução desse livro. Um livro cheio de anagramas e brincadeiras linguísticas que deve ter sido bem complicado de traduzir, e o resultado ficou muito legal. Quando lerem, prestem atenção nesse detalhe e vocês vão entender como esse trabalho é importante!
2

Resenha: O Guia do Mochileiro das Galáxias

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por: Rodrigo Caetano

Não entre em pânico! Sério, galera, está tudo bem. Eu sei que hoje não é dia de postagem, mas tem resenha hoje mesmo assim. Sabe porquê? Por que hoje é dia 25 de maio, o dia de homenagear ninguém menos que Douglas Adams.

Gente, de verdade, se vocês não sabem quem ele é, deem uma olhada. Esse cara era um gênio!

E o dia 25 de maio foi o dia escolhido pelos seus fãs para honrar esse grande escritor, e passou a ser conhecido como dia internacional da toalha. Sim! Da toalha! Hoje é o International Towel Day, e não é porque Douglas Adams foi o cara que inventou a toalha (eu juro que, se você ler o livro, isso tudo vai fazer sentido — talvez). Na verdade, o que ele fez foi escrever um livro.

Um não, uma trilogia. Uma das trilogias mais sensacionais que eu já li. A única que tem cinco (!!!)livros.

Então, sem mais delongas, venho aqui apresentar para vocês a resenha de O Guia do Mochileiro das Galáxias, o “volume um de uma trilogia de cinco”, que é seguido por “O restaurante no fim do universo”’; “A vida, o universo e tudo o mais”; “Até mais e obrigado pelos peixes”; e “Praticamente inofensiva”.

Título em Português: O Guia do Mochileiro das Galáxias

Título Original: The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy

Editora: Arqueiro

Sinopse: “Considerado um dos maiores clássicos da literatura de ficção científica, O Guia do Mochileiro das Galáxias vem encantando gerações de leitores ao redor do mundo com seu humor afiado.

Este é o primeiro título da famosa série escrita por Douglas Adams, que conta as aventuras espaciais do inglês Arthur Dent e de seu amigo Ford Prefect.

A dupla escapa da destruição da Terra pegando carona numa nave alienígena, graças aos conhecimentos de Prefect, um E.T., que vivia disfarçado de ator desempregado enquanto fazia pesquisa de campo para a nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias, o melhor guia de viagem interplanetário.

Mestre da sátira, Douglas Adams cria personagens inesquecíveis e situações mirabolantes para debochar da burocracia, dos políticos, da “alta cultura” e de diversas instituições atuais. Seu livro, que trata em última instância da busca do sentido da vida, não só diverte como também faz pensar”.


Resenha:


Gente, deixa eu começar dizendo que, apesar de ser uma ficção cientifica, esse é um livro, primordialmente, de comédia. E, tendo dito que é uma comédia, devo alertar que é o livro de filosofia mais engraçado que eu já li. Sem brincadeira, como a sinopse bem diz, ele busca descobrir o sentido da vida, e, se pode apresentar uma conclusão, ela vem escrita, de cara, na capa: “não entre em pânico”.

Nosso protagonista se chama Arthur Dent, um inglês que, como todo bom inglês, tem um apego a suas tradições e a seus costumes — como, por exemplo, a hora do chá. Seu melhor amigo se chama Ford Prefect — o nome de um carro muito popular há algumas décadas na Inglaterra. Arthur nem desconfia, mas seu amigo é, na verdade, um alienígena que trabalha para o Guia do Mochileiro das Galáxias, um repositório de conhecimento intergaláctico.

O Guia é, talvez, a coisa mais difícil de explicar dessa história inteira. Mas, de maneira simples, podemos dizer que ele é um livro, em forma de tablet— é até difícil acreditar que Douglas Adamsfoi publicado na década de 1970 — que funciona como uma Wikipédia de todo o universo conhecido — só que o universo conhecido é mesmo muito, muito grande. Nem dizer que é infinito ajuda a entender o quão grande ele é. Não se trata apenas do sistema solar e da nossa galáxia.

Ponto é que, em uma bela quinta-feira, Arthur percebe que — para sua surpresa — estão prestes a demolir sua recatada casa para construir uma estrada. E, pouco depois, seu amigo Ford o encontra discutindo com o pessoal da obra, e avisa que ele não tem porque se preocupar com sua casa, pois o planeta inteiro está prestes a ser destruído para a construção de uma hipervia espacial. E ele fala assim, como se não fosse nada demais, apenas mais uma típica quinta-feira.

Ford consegue fugir da terra com Arthur antes da destruição do planeta, e isso dá início a mais maravilhosa saga espacial já contada.

Misturando o absurdo com o comum, o autor brinca com política, com burocratas, com todas as instituições que conhecemos, e faz graça de tudo o que você possa imaginar, sem sequer te contar que está fazendo graça. É assim que ele te faz questionar o quão importante realmente são as coisas que você acha que são importantes. Você ri de tão absurdas que são as situações, e, quando percebe, chega à conclusão de que, na verdade, a vida não está nem um pouquinho — mas nem um “pouquinhozinho” mesmo — sob o seu controle.

Sem querer, quase em um passe de mágica, você percebe que está rindo dos próprios planos que fez para a sua vida, e é aí que entra a graça de tudo — justamente quando você para de rir. É aí que nós descobrimos o verdadeiro sentido da vida, e que o aviso que vem impresso na capa — na grande maioria delas, pelo menos — do livro vem bem a calhar: não entre em pânico!

O livro é tão sensacional e tão reconhecido que já inspirou muitas das coisas com as quais estamos acostumados. O tradutor oficial do Yahoo, durante muito tempo, tinha o símbolo de um peixinho amarelo, que é uma clara referência ao peixe-babel, um animal que Ford apresenta a Arthur nos primeiros capítulos do livro, capaz de fazer você entender qualquer idioma falado já inventado ou que possa ser inventado no futuro.

É o tipo de livro que você pode ler com dez anos ou com cinquenta, e você vai continuar aproveitando tudo que ele tem para dar. E você vai curtir mais ainda se ler aos dez anos e, de novo, aos cinquenta. E você pode ser astrofísico ou sociólogo, professor de jardim de infância ou de Harvard, o livro vai continuar despertando risadas das mais sinceras e pensamentos dos mais assustadores e revolucionários que você já teve. É, literalmente, um guia para o resto da sua vida. Afinal, o que somos nós, se não mochileiros das galáxias?

Não percam tempo. Vocês não têm ideia da maravilha que esse livro é. E ele é curto, tem menos de duzentas páginas, e costuma ser vendido em qualquer lugar da internet, por preços bem acessíveis. Você pode até comprar os cinco livros da trilogia, juntos, normalmente pelo mesmo preço de um livro comum.

Garanto que vocês não vão se arrepender, é só prestarem bastante atenção em onde guardam suas toalhas, e não entrar em pânico.

Um abraço e até a próxima! Feliz dia da toalha!
6

Resenha: Perdido em Marte

segunda-feira, 21 de março de 2016

Por: Rodrigo Caetano

E aí, galera, tudo bem? Hoje vim aqui falar de um livro que me surpreendeu muito, e positivamente. “Perdido em Marte” foi o livro que mais gostei de ler em 2015, e olha que li alguns que realmente gostei.

Porém, eu tenho um motivo especial para trazer essa resenha para vocês, que vai além do quão especial esse livro é ou do quão legal ficou a sua adaptação para o cinema (nomeado para nada mais nada menos do que 7 Oscars). Essa razão é o autor.

Andy Weir era um programador de computador formado na década de 90 que cresceu lendo ficção científica. Como muitos aqui, ele também gostava muito de escrever, mas tinha medo de perseguir a carreira. A instabilidade o assustava, e ele gostava de seu outro trabalho, que lhe permitia viver bem, mesmo que sem luxos. Isso acabou fazendo com que a escrita ficasse em segundo plano, como um hobby.

Para manter esse hobby, ele criou um blog, onde ele escrevia sobre várias coisas. Não apenas ficção, mas sobre assuntos de seu interesse, como ciência e programação. As histórias que ele escrevia por diversão eram apenas uma das coisas postadas lá. Foi então que ele começou a escrever e postar, capítulo a capítulo, a história de Mark Watney. Como todos nós, ele se demorava, e tinha de lidar com os leitores (no começo, não muitos) pedindo atualizações e reclamando das demoras.

Apenas anos depois de começar, Andy finalmente conseguiu escrever o último capítulo, e, enquanto isso, a história ia ganhando popularidade. Logo os leitores começaram a pedir para que ele facilitasse a leitura. Não queriam mais acessar o blog, queria poder ler em seus e-readers. Andy, então, disponibilizou gratuitamente o arquivo inteiro para download.

Porém, graças a alguns problemas de compatibilidade do arquivo com alguns leitores digitais populares (como o Kindle), Andy sofria com inúmeros pedidos para resolver o problema. Foi aí que ele resolveu postar o livro na loja virtual da Amazon, pelo preço mínimo que a loja permite: U$ 0,99 (Andy diz que gostaria de ter colocado gratuitamente, como no blog, mas a loja o obrigava a cobrar esse valor).

Aqui, gostaria de abrir um parêntese nessa história: quantos de vocês já reclamaram de seus leitores por diversos motivos? Porque o Andy, com certeza, reclamou. Depois de anos escrevendo, a galera o perturbava para criar um arquivo único, muitos por preguiça de entrar no site. Depois, ele teve o trabalho de compilar e disponibilizar o arquivo gratuitamente no blog, e a galera ainda não ficou satisfeita. Eles não queriam converter o arquivo para seus respectivos e-readers (existem locais na internet que você consegue fazer essa conversão gratuitamente em questão de minutos). O cara teve de aprender a lidar com a Amazon para conseguir atender o gosto dos leitores “preguiçosos”...

Só que, aí, o livro estourou. Foi lançar na Amazon que, sem explicação, as pessoas preferiam pagar 1 dólar do que baixar de graça no site dele (o arquivo continuava disponível, igualzinho). E a popularidade subiu tanto que ele chegou no Top 10 de ficção cientifica do site inteiro. O resto, é história. Ele assinou contrato com a editora e com a empresa para fazer o filme, tudo na mesma semana, e, em um ano, tudo já tinha sido preparado. Livro nas prateleiras, filme em processo de produção, e a vida inteira dele de cabeça para baixo.

Eu não sei vocês, mas a história do Andy me faz sorrir. Não apenas por ele e por ele ter realizado um sonho. Ela me dá esperanças. Não existe diferença nenhuma entre uma fanfic original e o que Andy Weir escreveu. Ele só postou no seu próprio blog, e nós postamos no Nyah! Andy é um de nós, que conseguiu o que sonhamos ter. O fato de a história que ele escreveu ser incrível é só a cereja do bolo.

Título Original: The Martian
Título Brasileiro: Perdido em Marte
Autor: Andy Weir
Editora: Arqueiro
Tradução: Fernanda Abreu

Sinopse: Há seis dias, o astronauta Mark Watney se tornou a décima sétima pessoa a pisar em Marte. E, provavelmente, será a primeira a morrer no planeta vermelho. Depois de uma forte tempestade de areia, a missão Ares 3 é abortada e a tripulação vai embora, certa de que Mark morreu em um terrível acidente. Ao despertar, ele se vê completamente sozinho, ferido e sem ter como avisar às pessoas na Terra que está vivo. E, mesmo que conseguisse se comunicar, seus mantimentos terminariam anos antes da chegada de um possível resgate.

Ainda assim, Mark não está disposto a desistir. Munido de nada além de curiosidade e de suas habilidades de engenheiro e botânico — e um senso de humor inabalável —, ele embarca numa luta obstinada pela sobrevivência. Para isso, será o primeiro homem a plantar batatas em Marte e, usando uma genial mistura de cálculos e fita adesiva, vai elaborar um plano para entrar em contato com a Nasa e, quem sabe, sair vivo de lá.

Com um forte embasamento científico real e moderno, “Perdido em Marte” é um suspense memorável e divertido, impulsionado por uma trama que não para de surpreender o leitor.

Resenha:
Definitivamente um dos livros mais divertidos e interessantes que eu já li. “Perdido em Marte” é uma leitura rápida, com uma história simples e, ao mesmo tempo, terrivelmente complexa, capaz de te fazer rir e tremer ao mesmo tempo, com uma simples mudança de parágrafo. E Mark Watney é um dos protagonistas mais carismáticos que já conheci. Uma personalidade magnética, de uma pessoa extremamente inteligente e divertida.

Em um ritmo acelerado, com alternâncias narrativas e um senso de humor impecável, Mark alcança umas das maiores façanhas da história da humanidade sendo nada mais do que um homem comum, de boa formação e treinamento. É fácil de se identificar e de se relacionar com um personagem tão simples, o que faz dessa leitura — praticamente um relato de seu isolamento — algo muito mais prazeroso do que o esperado.

Sim, existem explicações cientificas o tempo todo, e talvez você tenha dificuldades para absorver ou compreender totalmente algumas delas, mas a linguagem e o as artimanhas do autor fazem com que tudo fique razoavelmente compreensível, principalmente para uma pessoa com boa formação do ensino médio. E me sinto seguro ao falar isso por saber que toda minha base de conhecimento científico veio de lá. Vou até além: se você ainda estiver no ensino médio, mergulhe fundo nesse livro. Procure entender as explicações científicas com detalhes e pergunte aos seus professores. O livro pode te ajudar a entender conceitos complexo e difíceis com muito mais facilidade do que uma aula qualquer.

Apesar de ter gostado muito, encontrei uma série de defeitos no livro, que, na verdade, pouco prejudicaram no que senti ao lê-lo. Vou me explicar: em alguns momentos, sinto que faltou ao autor de primeira viagem uma experiência em construir ou desconstruir expectativa, ou de revelar ou não revelar certas informações, que poderiam ter potencializado os momentos de mistério e tensão. De certa forma, também uma falha do editor, já que são pontos que podem ser indicados na revisão e preparação para publicação.

Em alguns pontos, também achei que as formas narrativas (uma constante alternância entre diários de bordo, narrações em terceira pessoa da Terra, narrações em terceira pessoa da Nave espacial e narrações em terceira pessoa mais distante) ficaram mal organizadas e poderiam ter sido justapostas de maneira mais eficiente, para fazer com que a transição ficasse mais fácil, ou, em alguns momentos, para aumentar a tensão e a expectativa. Se você se interessa por organização textual, vale a pena ler o livro prestando atenção nesses aspectos e aprender um pouco com seus erros.

Por último, pessoalmente gosto de finais que se desenrolem um pouco após o clímax. E fiquei um pouco decepcionado ao ver o livro terminar imediatamente após a resolução da trama principal. Para mim, cabia um último capítulo curto de fechamento, até para terminar de amarrar todos os laços secundários e menos centrais da trama.

Porém, isso não me impede de reafirmar que foi um dos livros mais interessantes e divertidos que já li. Além disso, ao saber da história de publicação independente que contei lá em cima, e considerando que Andy é um autor de primeira viagem, consigo compreender melhor como algumas dificuldades editoriais possam ter causado alguns dos problemas que apontei. Afinal, o editor teve de correr para editar e preparar o livro para postagem, enquanto muitos já tinham tido acesso a uma certa organização pessoal do autor na Amazon e o roteiro do filme era preparado.

No geral, é um livro que recomendo fortemente, e a qualquer pessoa, de qualquer idade. Leiam o livro (de preferência, antes de ver o filme). Vale muito a pena.
0

Resenha: Star Wars – Marcas da Guerra

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Por: Rodrigo Caetano



E aí, galera? Tudo bem? Hoje venho aqui falar de modinha. Sim, modinha. Mas não é qualquer modinha não. Vim falar de Star Wars, a maior modinha de todos os tempos, a modinha das modinhas. E, por que não (?), talvez a melhor de todas elas.

Aos fãs de carteirinha e longa data, deixem-me explicar. Deixem-me esclarecer que não há nada de pejorativo quando digo que Star Wars é modinha. Nem quando digo que Star Wars foi feito para ser modinha. Ele foi a primeira saga de filmes feita para ser viral, antes mesmo do conceito de “viralizar” existir. Foi o primeiro filme a ser lançado acompanhado de jogos (não necessariamente de videogame), bonecos, propaganda de massa, livros e histórias secundárias.

Star Wars foi a primeira saga a tentar buscar fãs de todos os modos, em todas as mídias, de todas as idades, no mundo inteiro. Boba Fett é um personagem icônico e um líder de venda de bonecos, e tem apenas poucas falas nos filmes. Seu personagem foi inteiramente construído de maneira secundária na época da trilogia original, e hoje ele é conhecido mundialmente. Ele serve como exemplo de como Star Wars foi o primeiro filme a virar febre mundial e conquistar todos os públicos.

Star Wars foi feito para ser modinha, conseguiu e o é até hoje. Nenhuma saga, de livros, de TV ou de cinema, conseguiu atingir o que Star Wars conseguiu. Não discuto aqui qualidade, mas sim tamanho, proporção, poder de venda e apelo com o público. E é por isso que hoje, quase quatro décadas após o lançamento do primeiro e original filme, ainda estamos aqui, sentindo novamente a febre com o lançamento de um novo, vendo o filme quebrar recordes e mais recordes de bilheteria no mundo todo.

Goste ou não, Star Wars já é fato há muito tempo e faz parte da nossa vida de muitas e muitas formas. Já é referência cultural do mundo. Seja impresso no cereal que você vê no mercado, no livro que acabou de lançar na livraria, no pôster de cinema, no desenho de TV para as crianças ou no novo game lançado. No Youtube e no cinema, na loja de brinquedos e no supermercado.


E, agora, também no blog da Liga dos Betas.


Dessa vez a resenha é sobre o novo livro da saga Star Wars, o primeiro de uma trilogia que pretende preencher um pouco do vazio de história entre o sexto filme, O retorno de Jedi, e o novo, O despertar da Força. O livro faz parte de um esforço de publicação com o selo: Jornada para o Despertar da Força, que inclui quadrinhos, livros infanto-juvenis e livros adultos, como é o livro que será analisado aqui: Marcas da Guerra.

Um último comentário, antes de entrarmos na ficha do livro: já pensaram que máximo seria ser contratado para fazer a representação literária de uma obra do cinema da qual você é fã? Esse autor, assim como muitos outros, literalmente foi contratado para escrever e publicar uma fanfiction de Star Wars. E essa fanfiction entra para o Canon da saga! Que máximo!


Título Original: Star Wars – Aftermath
Título Traduzido: Star Wars – Marcas da Guerra
Autor: Chuck Wendig
Editora: Aleph
Ano: 2015

Sinopse: 

O que aconteceu depois da destruição da segunda Estrela da Morte? Qual o destino dos remanescentes do Império Galáctico e dos antigos Rebeldes, agora responsáveis pela fundação da Nova República? Marcas da guerra é o primeiro livro do cânone oficial a mostrar o que acontece depois do clássico Episódio VI: O retorno de Jedi, dando pistas sobre o que podemos esperar da nova trilogia que se inicia com O despertar da Força, a ser lançado nos cinemas em dezembro.
Nesse novo panorama galáctico, vamos descobrir que a guerra ainda não chegou ao fim... e que os traumas deixados por ela ainda serão sentidos por muitos e muitos ciclos. Capitão Wedge Antilles, almirante Ackbar, almirante Sloane, o garoto Temmin e a mãe, Norra Wexley, a caçadora de recompensas Jas Emari, o antigo agente imperial Sinjir: novos personagens e velhos conhecidos dos amantes da saga, que sempre estiveram envolvidos na luta, agora devem escolher o lado a que deverão jurar lealdade. Deverão colocar-se ao lado da Nova República, procurando estabelecer um novo governo democrático na galáxia? Ou juntar-se às fileiras imperiais, na tentativa de voltar ao poder absoluto depois das mortes dos lordes Sith Palpatine e Darth Vader?

Resenha:

Antes mesmo de comprar o livro, li algumas opiniões divergentes sobre Marcas da Guerra. Alguns diziam que era um livro terrível, feito única e exclusivamente para capitalizar em cima do lançamento do novo filme. Outros diziam que era uma ótima leitura, que lhe entregava exatamente aquilo que prometia entregar, e que apesar de não ser o melhor livro do mundo, era uma leitura prazerosa que valia a pena.

Como normalmente ocorre comigo nesses casos, minha opinião sobre o livro acabou recaindo em algum lugar entre uma posição e outra. Porém, provavelmente mais para o lado positivo.

Marcas da Guerra não me pareceu entregar tudo aquilo que se propunha. Algumas coisas ali dentro não foram bem construídas e soaram genéricas. Pareciam ter sidocolocadas ali apenas para explorar o universo e fazer referências aos filmes. Alguns fan-services não foram feitos com tanto bom gosto quanto o novo filme demonstrou ter, e, de modo geral, o livro demora um pouco demais para engrenar.

Na tentativa – correta, na teoria– de apresentar todos os seus personagens no primeiro arco do livro, o autor acaba sofrendo por ter tantos novos personagens principais a apresentar.Desse modo, o início, apesar de bem povoado de cenas emocionantes de ação, se arrasta. As cenas de ação — nem todas perfeitas, mas bem construídas — acabam sofrendo, por que não estamos envolvidos com os personagens.

É apenas mais próximo à metade do livro que conseguimos começar a criar laços mais fortes e a nos importar mais com aquilo que nos é apresentado. E, por tanto, é apenas a partir daí que o livro começa a crescer e cumprir mais com as suas promessas, de entreter e nos gerar interesse. Uma vez engajado, o leitor com certeza se divertirá e encontrará nele uma boa fonte de entretenimento.

O livro brinca com uma estrutura de narrativa complicada. Ele corta muitas cenas, sempre mudando o personagem-foco, em uma tentativa de deixar o ritmo acelerado, de forma similar ao novo filme. O problema é que, na mídia literária, isso acaba sendo um desafio maior do que na tela de cinema. E, com tantos personagens a serem a apresentados, isso se prova um desafio ainda maior. Por tanto, enquanto ainda não estamos engajados, esse ritmo acelerado mais atrapalha do que ajuda a narrativa. Apenas quando já estamos bem situados, esse ritmo começa a dar frutos.

Um dos melhores pontos do livro são os interlúdios. Apesar de numerosos e desconexos da história principal, é através deles que conseguimos ter uma noção maior do estado em que a galáxia se encontra, nesse período tão caótico, de troca de governo e últimos estágios da guerra. Vemos paisagens familiares e novas, conhecendo pequenos contos que nos servem de quadros para os diferentes pontos da galáxia, e como cada um deles está lidando com o período após os feitos da batalha de Endor. É aqui onde o livro mais brilha, ao cumprir a promessa de nos dar um bom entendimento sobre a queda do império e a ascensão da Nova República. Acredito que, se isso continuar durante toda a trilogia, os livros serão um material sem igual para retratar a mudança política na galáxia e, quem sabe, a criação da Primeira Ordem e da Resistência.

É, por sinal, em um desses interlúdios que o livro cumpre sua promessa de nos mostrar um dos personagens favoritos dos fãs. E, incrivelmente, esse foi um dos interlúdios que menos gostei.Ele me pareceu ter sido escrito única e exclusivamente para colocar esse personagem no livro, e poder dizer para o público que existe ali uma participação de alguém que eles gostam. Se você comprar o livro para ver um dos personagens mais queridos dos filmes, saiba que apenas o verá em algumas poucas páginas, e que elas não serão assim tão importantes para a história em geral, pelo menos por enquanto.

Apesar disso, o livro apresenta personagens interessantes e bem construídos, que fazem valer o esforço da leitura e o esforço de conhecê-los. Existem alguns momentos bastante animados e que me fizeram prender a respiração, e, no fim, me peguei roendo as unhas e torcendo para mais de um personagem, de ambos os lados da luta. Uma leitura de que não me arrependo e que me dá razões suficientes para indicá-la para qualquer fã da saga, principalmente um que se interesse pela construção de mundo e pelos por menores da história maior.


Eu aprovo, e com certeza porei as minhas mãos nos próximos volumes da trilogia.


Acho é isso. Espero que tenham curtido e até a próxima!
0

Resenha: A Droga da Amizade

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Por: Rodrigo Caetano

E aí, galera? Tudo bem? Hoje venho aqui falar de um livro que me pegou de surpresa na Bienal do Rio de Janeiro esse ano. Eu estava lá passeando, distraído com tanta maravilha quando, de repente, percebo uma fila para pegar autógrafos com ninguém menos que Pedro Bandeira.
Para quem não o conhece, Pedro é um grande autor brasileiro, principalmente quando se trata de histórias infanto-juvenis. E, ainda no colégio, eu fui apresentado ao trabalho dele através da sua série de livros sobre “os Karas”. Apesar de ter sido iniciada nos anos oitenta, a série ainda mantinha, nos anos 2000, todo o seu apelo pela aventura fascinante, os esquemas inteligentes, seus códigos secretos que passavam a ser usados especialmente pelos fãs para comunicações com seu próprio grupo de amigos, e os personagens relacionáveis que ele nos ensinou a amar.
Há muito tempo venho ouvindo a história de um último livro da série a ser lançado, mas confesso que a medida que cresci, fui deixando a história dos Karas de lado. Até que, com vinte e quatro anos, descubro que finalmente o livro que eu esperava quando era mais novo estava sendo publicado.
Então, achei que seria legal trazer essa resenha para o blog, tanto para falar com aqueles que, como eu, tem uma conexão antiga com a série, tanto para aqueles novos que nunca ouviram falar, e podem ter a chance de acessar todos os livros da série, que foram impressos novamente junto ao novo lançamento.

Título Original: A Droga da Amizade
Editora: Moderna
Sinopse: Como Miguel começou a turma dos Karas? Como conheceu e por que escolheu Magrí, Crânio, Calu, Chumbinho e a Americana Peggy para formar essa turma tão especial? E por que Andrade era um policial diferente, melhor do que qualquer outro? Como cada um deles demonstrou ao líder dos Karas que era uma pessoa especial, tanto pela coragem quanto pela honestidade, pelo caráter e pelo desejo de mudar o mundo para melhor? E o que terá acontecido com eles depois de todas as aventuras que estes sete heróis viveram? Em que terão se transformado todos eles depois de adultos?

Resenha:
Se você não conhece os Karas, você não sabe o que está perdendo. Se você conhece, esse livro foi feito única e exclusivamente para você. Esse livro foi feito para te fazer reviver tudo aquilo que você amava de um jeito totalmente diferente!
Eu sei, eu também fiquei um tanto quanto decepcionado ao saber que esse não é um livro como os outros, mas eu aprendi a gostar desse novo estilo, percebendo que o autor não tentou fazer uma repetição daquilo que fez da série o que ela é, pois o público da série já cresceu.
Por tanto, se você quer conhecer esse incrível grupo de amigos, eu sugiro que comece do início, com “A Droga da Obediência” (1984); “Pântano de Sangue” (1987); ”Anjo da Morte” (1981); “A Droga do Amor” (1994); e “A Droga de Americana” (2001), todos da editora Moderna.
Mas, se você já leu esses livros, então pode pegar a Droga da Amizade sem medo. Por que esse é o primeiro livro que conheçocapaz de, com sucesso, servir como prólogo, epilogo e ainda apresentar uma nova história, tudo em pouco mais de 150 páginas.
Não se engane, aqui veremos nosso líder já adulto, separado de seus amigos, relembrando e recontando ao mesmo tempo como os conheceu e tudo o que aconteceu com eles depois de deixarem o prestigiado e tão amado colégio Elite. Ao mesmo tempo que ele alude à mitologia do nosso grande pequeno grupo de aventureiros, ele também nos deixa mais presos ao chão, agradando tambémàqueles que prezam por uma abordagem mais realista e verossímil, que acaba nos atingindo a todos, em diferentes níveis, com a idade.
Mas, apesar dessa estrutura surpreendentemente fluida e bem organizada de memórias e de futuro, o livro ainda consegue nos apresentar a uma nova aventura, posterior àquelas do último livro, que mantém o nível de suspense e demonstra muito bem todo o grupo em ação da maneira que nós mais gostamos de ver, e que nos remete aos melhores tempos com esses amigos espiões e agentes secretos.
A narrativa tem falhas, sim, e, apesar de mirar tanto em novos públicos e velhos conhecidos, o estilo ainda é rápido e sem muito preocupações com detalhes, como é recorrente em muitos dos livros infanto-juvenis, principalmente baseados em histórias dos anos oitenta. Ele corre o risco de, ao tentar agradar a todos, não agradar ninguém,mas, na minha opinião, o livro consegue capturar tanto a imaginação dos novos leitores quanto o sentimento nostálgico dos fãs de longa data.
Dessa forma, Pedro Bandeira conseguiu dar o fim que essa saga merece e que ele ficou devendo durante mais de três décadas, e ainda mostra que é capaz de atingir os leitores, trazendo a várias gerações essa grande história de amizade, amor, aventura e, acima de tudo, esperança.

Recomendo essa leitura a todos os fãs, e, àqueles que não o são, recomendo fortemente que comecem a leitura da série. Vocês não sabem o que estão perdendo. Que sejamos todos Karas! O avesso dos coroas, o contrário dos caretas!
5

Resenha: As Mentiras de Locke Lamora

quinta-feira, 16 de julho de 2015
 

Por: Rodrigo Caetano

E aí, galera. Tudo bem? Pois é, parece que eu estou aqui novamente, dessa vez para fazer uma resenha. Vim falar de um livro bem diferente do que aqueles que o pessoal costuma falar por aqui. Espero que curtam!

Título Original: The Lies of Locke Lamora
Título Brasileiro: As Mentiras de Locke Lamora
Autor: Scott Lynch
Editora: Arqueiro
Tradução: Fernanda Abreu

Sinopse: O Espinho é uma figura lendária - um espadachim imbatível, um especialista em roubos vultosos, um fantasma que atravessa paredes. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres, enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula.
Franzino, azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada, Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho, cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?), mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes, que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas - os Nobres Vigaristas.
O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr, que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. Matando líderes de gangues, ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. Preso em uma armadilha sinistra, Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver.

Resenha: “As Mentiras de Locke Lamora” é o primeiro livro de uma série intitulada Nobres Vigaristas. Brincando com o tempo, o autor vai ao passado e volta ao presente, enquanto nos conta a história de um menino pequeno e franzino, com uma habilidade mais do que natural para o roubo e a farsa. Órfão, pobre e sem ninguém para olhar por ele, Locke aprende a se cuidar ao mesmo tempo que ensina a todos à sua volta que as aparências, por menores que sejam, enganam.
No prólogo somos apresentados à cidade de Camorr, ambiente onde toda a narrativa acontece, mesmo que o livro demonstre que o mundo criado por Scott Lynch é muito mais vasto. Em uma cidade dividida entre a nobreza e as gangues de ruas, ficamos sabendo que há um acordo, chamado de Paz Secreta, entre os nobres e o líder das atividades criminosas da cidade. Essa paz consiste na garantia de proteção da nobreza contra os criminosos e, em contrapartida, na garantia de intervenção mínima necessária do Estado, em relação aos crimes contra o povo comum.
Locke, uma criança de cerca de 10 anos de idade, órfã, é apresentado para o Aliciador, um homem que comanda uma grande trupe de ladrões infantis, que são treinados por ele para roubar pelas ruas. O Aliciador é apenas um dos líderes de gangues que responde ao Capa da cidade, o líder dos líderes, que comanda a todas as gangues clandestinas simultaneamente e o responsável pela Paz Secreta.
Logo, porém, o Aliciador se prova incapaz de conter o talento natural de Locke para a grandeza. O menino não foi feito para pequenos roubos nos mercados da cidade. Ele foi feito para a farsa e para o golpe – para a trapaça. Depois de cometer três grandes erros no início de sua carreira na gangue do Aliciador – erros que incluem incendiar uma taberna e ameaçar erradicar a Paz Secreta e começar uma guerra civil, sem contar o maior deles – o menino é condenado à morta pelo líder de sua própria gangue.
Porém, em um último momento de piedade – mais de ganância, na realidade – o Aliciador decide ofertar o menino como uma espécie de escravo, por um preço barato, ao Padre Correntes. Um farsante que se faz passar de padre cego, mas é o líder de uma gangue chamada Nobres Vigaristas. Essa gangue, apesar de obedecer e respeitar a autoridade do Capa de Camorr, não nutre respeito pela Paz Secreta, e busca miná-la passo a passo, escondida até do submundo da cidade.
Parece interessante? Pois é, isso é apenas o prólogo.
Os Nobres Vigaristas foram fundados pelo Padre Correntes e, no passado, eram liderados por ele, que ensinou e treinou não apenas Locke, mas também os gêmeos Calo e Galdo, Jean Tannen, um menino gordo, recrutado por sua habilidade com os números e sua capacidade de força bruta, além de Sabeta, uma menina que roubou o coração de nosso protagonista, mas que permanece um mistério durante toda a narrativa.
Já no presente, após a morte de Correntes e ainda sem notícias de Sabeta, vemos uma gangue liderada por Locke Lamora e formada por seus antigos amigos, com a jovem adição do menino Pulga, aprendiz e pupilo de Locke, além de mascote do grupo.
O primeiro capítulo abre com a preparação de um golpe contra uma das famílias nobres de Camorr, os Salvara, e o autor nos leva passo a passo, indo e voltando no tempo, para a execução da primeira fase, onde Locke é apresentado como um comerciante estrangeiro precisando de investimentos, enquanto vemos como todo o encontro foi preparado e estudado pela gangue nos mínimos detalhes.
Indiscutivelmente, a abertura desse livro é bem mais animada do que a da maioria dos livros por aí.
Logo, porém, descobrimos que a autoridade do Capa Raza está sendo posta em cheque por uma figura misteriosa, quase mágica, que se autointitula Rei Cinza, e pretende derrubar o poderoso chefe das atividades clandestinas da cidade.
O Rei Cinza começa a atacar, um a um, os líderes das gangues da Cidade e, em pouco tempo, Locke se vê preso entre a farsa que mantém vivo o seu golpe contra os nobres Salvara, ao mesmo tempo em que lida com as ameaças e os planos do Rei Cinza e tenta manter em segredo as violações à Paz Secreta que vem cometendo desde que começou a roubar da nobreza.
É então que os Nobres Vigaristas se veem presos a uma guerra da qual não desejam fazer parte, e em que não podem tomar nenhum dos lados. Sem ter para onde correr, cabe ao homem por trás do fantasioso Espinho de Camorr encontrar uma solução para o problema, mesmo que lhe prejudique o bolso ou a reputação. Em pouco tempo, a única coisa que passa a importar é enfrentar a tempestade e sair com vida.
O romance em si é subdividido 4 vezes, cada uma das secções chamadas de “Livros”. Cada um desses livros é subdividido em capítulos, que, por sua vez, são subdivididos em cenas numeradas e interlúdios. E é interessante observar como o narrador se aproveita dessa subdivisão para mudar o foco da leitura, mudar o personagem foco e apresentar outras maneiras de ver as coisas, além de, nos interlúdios - últimas cenas de cada capítulo - voltar no tempo para o treinamento oferecido à trupe dos Nobres Vigaristas pelo fascinante padre farsante.
Com o jogo de idas e voltas no tempo, o autor também consegue uma tarefa difícil, mas essencial para a devida compreensão do conteúdo que o livro se propõe a trazer para o leitor. É apenas com esse jogo de ritmos e de contraposições entre o passado infantil de Locke, o passado recente das atividades dos Nobres Vigaristas e o presente atribulado, que podemos compreender a profundidade que as farsas armadas têm, e como a mentira está entranhada em cada página desse romance.
É interessante também observar as armadilhas escancaradas que o autor monta, afinal, sabemos desde o título que os personagens desse romance são mentirosos. Mais do que isso, vivem e amam a mentira. Desse modo, somos ensinados, pouco a pouco, a não acreditar em todas as palavras ditas e/ou escritas no livro.
A linguagem é muito bem trabalhada, e alguns diriam que um pouco realista demais. Eu discordo desses poucos. Pela primeira vez vejo um livro em que os personagens, amigos de infância, íntimos, falam todos os palavrões a que tem direito, pregam peças que muitos diriam desrespeitosas e, ainda assim, amam-se e são mais sinceros do que qualquer outro personagem educado e seguidor da moral e dos bons costumes.
Além disso, o mundo criado por Scott Lynch é um lugar onde as diferenças ainda são igualadas a base do punho fechado, da lâmina de uma espada ou da flecha de uma balestra. Não há escassez de sangue, assassinatos, hematomas, sem contar urina, fezes e bile. E, apesar de não ser comparado a George Martin, Scotty Lynch não tem medo de matar alguns personagens legais.
Fica então aqui o aviso: se qualquer dessas coisas lhe incomoda, esse não é um livro para você. Que pena. Você não sabe o que está perdendo.
Por fim, como nada é perfeito e como eu falo muito, apesar de não ter falado tudo que devia, é importante fazer algumas críticas e observações finais.
Em alguns pontos, senti algumas incongruências, ou, no mínimo, uma falta de informação (que pode ser aceitável, considerando que ainda faltam seis livros para o final da série). Ainda assim, alguns pontos-chave ficaram sem explicação, e isso me incomodou um pouco.
Além disso, para um livro que se baseia na farsa e na mentira, em alguns momentos importantes o autor se esquece das lições ensinadas. A falta de cuidado de alguns personagens (experientes e que se mostraram cautelosos anteriormente) teria colocado todo o enredo por água abaixo, caso as informações que serviam de base para suas decisões fossem falsas ou imprecisas.
A impressão que tive, no final, é que esse era um livro teste. Ele funciona bem como o primeiro livro de uma série de sete, mas resolve muito da sua trama principal em si mesmo, deixando-se levar no fim para encontrar o final que precisa.
Além disso, ele deixa muita coisa do mundo criado em aberto, de modo que fica difícil julgar por ele a habilidade de criação de mundo do autor. Parece-me que ele focou mais no enredo do livro em si do que em explorar o seu mundo. Isso não é algo ruim, mas me passou uma certa insegurança – compreensível, ao se considerar que ele era um escritor iniciante em 2005, quando o livro foi publicado pela primeira vez em Londres.
Fica então registrada a minha esperança de que, nos próximos livros, já como um autor bem estabelecido, Scott consiga dar cabo de uma série que não é nada menos do que promissora, e que merece todos os elogios que recebe. Alguns leitores o comparam ao primo medieval de “Onze homens e um segredo” e do “Poderoso Chefão”. Já os autores fantásticos renomados como George R. R. Martin (“Uma história original, vigorosa e arrebatadora”) e Patrick Rothfuss (“Provavelmente é um dos cinco melhores livros que eu já li na vida”) não poupam elogios.
Para finalizar, ninguém melhor que o próprio Padre Correntes para lhes dar uma ideia do nosso incrivelmente carismático:
“Algum dia, Locke Lamora, algum dia você vai fazer uma cagada tão gigantesca, tão ambiciosa, tão avassaladora, que o céu vai se acender, as luas vão girar e os próprios deuses vão fazer chover cometas de tanta alegria. Só espero ainda estar por perto para assistir”.
Eu vou estar. Aconselho que estejam também...
Até a próxima, galera!
0


As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana