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Escritores e Leitores de Cada Signo

segunda-feira, 24 de outubro de 2016


Por: Edgar Varenberg


Os signos do zodíaco têm sido um assunto muito popular em qualquer meio de conversa informal, principalmente na internet. Esse post contribuirá com algumas descrições, envolvendo os doze signos conhecidos, baseados em suas características, voltados para escritores e leitores. Venha ver como o seu signo se comporta na hora de se aventurar numa história!

♈ Áries (21 de Março a 19 de Abril)
O escritor de Áries é aquele que adora uma iniciativa. Ideias surgem, ideias vêm, toda hora tem um enredo sendo construído. Embora tenha grandes planos que parecem promissores de início, ele pode apresentar dificuldades em prosseguir com alguns projetos. Entretanto, com os que ele consegue prosseguir, costuma fazer as coisas acontecerem sempre, dificilmente encontrando um roteiro mais calmo, com coisas que se desenvolvem aos poucos. Na escrita, o ariano é direto ao ponto, ainda mantendo o mistério necessário para suas ideias fluírem da maneira desejada.
O leitor de Áries é aquele que adora cobrar. Deixe-o esperando por um capítulo por muito tempo e, em poucos momentos, ele estará duvidando de sua existência literária. O leitor ariano costuma buscar personagens fortes, geralmente anti-heróis, para combinar com o seu jeito diferente de ver ações sendo tomadas da forma que ele considera correto. Além disso, costuma se envolver muito com enredos eletrizantes, principalmente momentos de revelações.

♉ Touro (20 de Abril a 20 de Maio)
O escritor de Touro é aquele que gosta de ter ideias. É um farejador bom de buracos no enredo e sabe muito bem como fechá-los. Também tem certa apreciação por trazer coisas novas, de um jeito que só a criatividade deles pode trazer. É muito insistente com seus personagens, isto é, quer fazer cada um como se fosse único e igualmente envolvente; além disso, gosta bastante de coloca-los em situações complicadas.
O leitor de Touro é aquele que gosta de adivinhar. Adora fazer suposições do que vai acontecer, de como ele imagina que algo vai funcionar e é capaz até de discutir com o autor se algo não funcionou como ele esperava. Também costuma se atrair por situações em que os personagens brigam por algo ou alguém.

♊ Gêmeos (21 de Maio a 20 de Junho)
O escritor de Gêmeos é aquele que gosta de contrastes. Histórias felizes com finais trágicos; situações tristes com finais felizes, provavelmente estamos falando da obra de um geminiano. Isso porque o seu foco é sempre procurar as coisas boas em lados ruins e vice-versa, tornando os seus textos verdadeiros espaços de desconfiança para os leitores, que, por mais que percebam um possível padrão nisso, nunca sabem o que esperar.
O leitor de Gêmeos é aquele que gosta das contradições. Não os erros de contradições, mas sim os personagens que cometem erros, geralmente grandes. Os geminianos costumam ser atraídos por histórias resultantes de erros, ou geralmente conteúdos em que o personagem precisa escolher entre duas coisas, numa indecisão mortal. Típico. 

♋ Câncer (21 de Junho a 22 de Julho)
O escritor de Câncer é aquele que gosta das uniões. Gosta de ver seus personagens se envolverem e de trabalhar plenamente em suas emoções, tanto negativas quanto positivas. Amante de um bom drama, essencial para o seu lado escritor é procurar as inspirações em pequenas coisas como música de fundo, aromas; tudo para imergi-lo dentro do próprio enredo.
O leitor de Câncer é o admirador da arte de shippar. Ele, em primeiro lugar, procura logo um shipp para chamar de OTP; envolvendo-se fielmente naquela união. Portanto, ler uma história de um casal passando dificuldades pode trazer bastante angústia para um canceriano que tenha pegado algum tipo de ligação com esse casal; embora seja mais fácil, para ele, gostar de uniões no geral.

♌ Leão (23 de Julho a 22 de Agosto)
O escritor de Leão é aquele que constrói enredos esperando o final. Enquanto geralmente os escritores têm suas ideias baseadas em um acontecimento específico, em tratar de um assunto; o escritor leonino é aquele que planeja suas histórias para um fim bombástico. Para ele, o fim justifica todos os meios e inícios do seu enredo e, portanto, ele é capaz de mudar qualquer ponto na história dele para que o fim aconteça daquele jeito espetacular que ele sempre sonhou.
O leitor de Leão é o ansioso. Ele é aquele que procura sempre o agora, um impacto diferente a cada capítulo. Se o título, capa ou qualquer coisa pré-leitura impactar, ele vai chegar e vai ter interesse, e esperar que isso continue. Além disso, costuma ter muito apreço por personagens corajosos, intimidantes e com algum tipo de passado difícil.

♍ Virgem (23 de Agosto a 22 de Setembro)
O escritor de Virgem é o que aprecia um bom e longo planejamento. É daqueles que só começa a escrever quando tem todas as ideias prontas, isto é, nada de ir decidindo ao longo do caminho. Gosta daquilo que é bem feito e reconhece isso em detalhes que só ele é capaz de enxergar, pois, afinal, só ele que procura se interessar por detalhes desse tipo.
O leitor de Virgem é aquele que gosta de descrições, sejam elas explícitas ou não. Ele quer imaginar aquilo que não foi dito nem colocado para ser lido. Além disso, costuma ser muito paciente, do tipo que lê todo um enredo monótono para ter a esperança de ter algo no final, o qual julga valer a pena o esforço. Gosta muito de personagens críticos e estratégicos.

♎ Libra (23 de Setembro a 22 de Outubro)
O escritor de Libra é eclético, é comum ver seus textos trabalhados em diversos temas, situações, formalidades. Por que não juntar aquele suspense todo com um pouco de comédia? Por que não adicionar um pouco de ação naquele drama bem planejado? Com todas essas junções e o conhecimento adequado de que as coisas se misturam e formam outras coisas interessantes, o escritor libriano sabe como trazer diversidade para os seus leitores.
O leitor de Libra gosta de elogiar. Claro, isso não significa que ele vai sair por aí elogiando qualquer um e a todos sem motivo algum; na verdade, pode ser difícil arrancar um desses elogios, mas é importante saber que ele gosta e faz com prazer. Gosta de personagens com bastante positividade e que contribuam muito com o enredo, geralmente protagonistas.

♏ Escorpião (23 de Outubro a 21 de Novembro)
O escritor de Escorpião gosta de atrair, e seus textos não indicam bem, no início, o que ele quer dizer. O escritor escorpiano é o amante do jogo de palavras e das figuras de linguagem, muito vem da interpretação do próprio leitor, mas ele busca atrai-los com tamanha subjetividade. Além disso, possuem muitos mistérios no enredo os quais, por preferência, não são revelados.
O leitor de Escorpião é poético. Ele consegue ser eclético, mas sempre busca mensagens mais profundas, muitas vezes particulares, no meio de tudo. Gosta de ver personagens misteriosos e situações dramáticas na medida certa. Além disso, é um apreciador de grandes reflexões estimuladas pela história, as famosas lições de moral.

♐ Sagitário (22 de Novembro a 21 de Dezembro)
O escritor de Sagitário é o apaixonado. Como sempre, o sagitariano coloca todo o seu corpo e alma naquilo que faz: escrever. Gosta de contribuir com obras de muito significado, mesmo que exageradamente individual, e é muito diverso também, equilibrando originalidade, paixão e foco. Entretanto, os resultados desse fervor são misteriosos até para ele mesmo.
O leitor de Sagitário é o animado. Gosta de ver as histórias acontecendo, do tempo real, mas sem deixar de, também, pensar no futuro; ou seja, é um leitor que se anima com o meio da história. Busca personagens independentes para se inspirar e se colocar na realidade junto com eles, de forma até mesmo para trazer essa inspiração para o seu próprio cotidiano.

♑ Capricórnio (22 de Dezembro a 19 de Janeiro)
O escritor de Capricórnio é o anacrônico. Gosta das coisas do jeito antigo, buscando inspirações de atores mais clássicos ou de qualquer outra forma que ele encontra e julga como superior. É muito focado em objetividade e tratar de assuntos simples, sempre na margem de trabalhar com o que é suficiente, ou seja, não é fã de enredos complicados se não ver a necessidade disso; por isso, é extremamente hábil em nivelar suas necessidades.
O leitor de Capricórnio é o objetivo. Não costuma ser muito seletivo, mas pode ser difícil de agradar; seu principal foco como leitor é justamente achar o que procura sem muitos rodeios, geralmente preferindo temas de maior racionalidade, envolvendo comportamento ou forma de pensar. Não costuma gostar muito de obras que escapam muito da realidade nem personagens indecisos.

♒ Aquário (20 de Janeiro a 18 de Fevereiro)
O escritor de Aquário é o revolucionário. Está sempre em busca de enredos novos, histórias nunca antes contadas, e ele nem se preocupa tanto se isso está fazendo sentido ou não, se pode ou não ser compatível com a realidade; o que importa, para o escritor aquariano, é a forma com a qual ele pode se expressar livremente na sua obra e, ainda assim, atrair leitores que estejam interessados em observar esse ponto de vista diferenciado.
O leitor de Aquário é o sonhador. Ler, para ele, é um convite aberto para a sua imaginação própria. Simplesmente, ele não lê sem escrever e vice-versa, tornando, assim, um usuário de um ciclo inevitável de leitura e escrita constantes. Gosta de personagens interativos que costumam quebrar seus próprios limites que, na verdade, jamais foram estabelecidos.

♓ Peixes (19 de Fevereiro a 20 de Março)
O escritor de Peixes é o produtor. É capaz de criar uma infinidade de situações, universos e afins e, ainda assim, se desejar, unir tudo em uma coisa só. Está interessado em temas populares bastante explorados, mas, mesmo assim, arranja um jeito de explorar aquilo de uma forma completamente nova, mesmo que esteja taxado como um extremo clichê. Também gosta de assumir diversas personalidades diferentes enquanto narrador.
O leitor de Peixes é o viajado. É aquele que busca uma interpretação extra para tudo, geralmente “só para ver no que vai dar”. É muito fã de debater os acontecimentos com outros leitores e de explicar teorias, fatos e quaisquer coisas que rendam assunto sobre determinada obra. São amantes de personagens carismáticos, porém incertos de como agir em momentos importantes da vida.

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Todo conteúdo apresentado aqui é puramente de conteúdo abstrato, sem nenhuma base científica ou espiritual, como qualquer astrologia popular, o intuito é apenas de entretenimento. Espero que tenham gostado.
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Como Fazer Críticas Construtivas?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Por Ana Coelho


Como expressar uma opinião com pontos negativos e positivos sem ofender o outro, e como transformar essa opinião num incentivo para levar alguém a melhorar o seu trabalho?

Comecemos com uma coisa que, por vezes, deixa muita gente confusa:

Em que consistem as críticas construtivas?

Bom, para podermos ter uma noção do conteúdo de uma boa crítica construtiva, temos de entender qual é a função dessas críticas. Quando alguém escreve uma, a sua intenção nunca é deitar um autor abaixo, mas tentar arranjar maneira de o fazer melhorar. Quer-se levar o escritor de uma história tanto a reconhecer as suas falhas, para as poder superar, como a reconhecer as suas maiores capacidades, para poder continuar a apostar nelas sem medos.

Assim sendo, depois de isso estar esclarecido, é-nos mais fácil entender que uma crítica construtiva aborda tanto pontos positivos quanto pontos negativos. Nelas é sempre explicado o porquê de algo ter funcionado menos bem ou de ter sido mal desenvolvido, para que o escritor possa vir a trabalhar nesses problemas e possa procurar resolvê-los. Por outro lado, também é sempre mencionado aquilo em que o escritor tem mais jeito, para que este possa ficar ciente das coisas que desenvolve, descreve ou cria melhor, e possa tentar algo semelhante noutra história, ou para que dedique o seu tempo a desenvolver outras áreas da sua escrita (não se preocupando tanto em aprender mais sobre um assunto que já domina relativamente bem).

O objetivo de uma crítica construtiva é sempre ajudar um autor a melhorar e, para isso, todos os aspetos bons e menos bons podem e devem ser mencionados — sempre com uma explicação para que o autor compreenda cada aspeto mencionado, compreenda que a crítica é justificada e tenha um caminho a seguir para poder tentar melhorar.


O que diferencia uma crítica construtiva dos outros tipos de comentários?

Nenhum comentário simples alguma vez se compara a uma crítica construtiva. Os comentários maldosos ou cheios de elogios bonitos, mas vazios, por exemplo, falham exatamente naquilo que é mais fundamental numa crítica: a intenção de levar um autor a melhorar. Um bom crítico, como já disse acima, explica todas as coisas que indica, boas e más, para que um autor possa ter algo com que trabalhar e melhorar.

Por exemplo, um comentário com más intenções somente indica pontos negativos, sem contrapeso algum, e o seu objetivo é, pura e simplesmente, atirar um autor para baixo. Usualmente os seus comentários são até de caráter pessoal e não recaem sobre a obra, não têm quaisquer argumentos que fundamentem aquilo que é dito ou, às vezes, não chegam a passar de insultos e xingamentos, melhor ou pior disfarçados.

Um comentário positivo mas sem conteúdo também falha porque, apesar de subir a autoestima a um autor, este não se irá tornar melhor por causa dele — não irá ter uma análise à sua obra feita por outros que têm um ponto de vista diferente do seu, não saberá o que a pessoa interpretou ou achou realmente do seu trabalho, não saberá quais são os pontos menos bons do seu trabalho e não terá uma base sobre a qual se apoiar para melhorar. O comentário pode estar cheio de elogios, muitas vezes adjetivos positivos para elogiar o autor, mas ele não ficará a saber o que motivou essa opinião, quais são os pontos fortes do seu trabalho que surpreenderam e agradaram tanto ao seu público.


Como escrever uma crítica construtiva?

Como fui dizendo ao longo do texto, há várias coisas que compõem uma crítica dessas e que devem estar presentes no resultado final.

Antes de mais nada, é preciso analisar o trabalho na sua totalidade. Foi maioritariamente bom? Ou foi maioritariamente mau? No caso de ser maioritariamente bom, e tendo em conta que nada é perfeito, como é que se pode transmitir ao autor que a história é boa, sim, mas que tem coisas que também podem ser melhoradas? E, no caso de ser maioritariamente mau, como é que se pode transmitir isso ao autor sem que ele fique ofendido ou magoado, e sem nos esquecermos das pequenas coisas boas que há no texto?

O "truque" está no equilíbrio e na forma como todos esses aspetos são abordados.

Assim, se o texto for maioritariamente positivo, não te esqueças de dizer que mesmo assim há coisas que podem ser melhoradas.
Por exemplo:

«A história tem uma linguagem fluída e natural, as personagens estão todas bem criadas e os diálogos são super realistas. No entanto, acho que poderás melhorar as tuas descrições; elas são um pouco pesadas e longas, tornando o texto mais aborrecido em certas ocasiões.»

E, depois, expande a tua ideia e tenta explicar por que algo não foi feito da melhor maneira:

«As descrições devem ser longas quando isso é necessário, e mais curtas quando aquilo que está a ser descrito for menos importante para a história. Por exemplo, quando a protagonista passeia junto à praia e descreves as lojinhas espalhadas pela areia, poderias simplesmente ter descrito uma loja ao pormenor. Elas são todas iguais e, quando as descreveste a todas com extrema minúcia, o texto tornou-se repetitivo e aborrecido. A tua história não se ia passar nas lojas, elas não eram importantes para o desenvolvimento do enredo. Por muito bonitas que aches que certas descrições são, às vezes é melhor cortar ou reduzir o que é acessório... Porque, mesmo que nem toda a gente tenha achado isso aborrecido, podes ter criado expectativas erradas nos leitores. Se dedicas tanta atenção às lojas e aos seus produtos, seria de esperar que eles fossem importantes para a história, certo? Num filme nunca vês coisas secundárias a ocuparem o plano principal por muito tempo. Isso acontece porque o que é secundário deve ser deixado para segundo plano, para que os teus leitores possam concentrar-se no que é realmente importante. Este foco tão grande apontado às lojas na praia tirou a atenção da trama principal e nunca deves querer que isso aconteça. Os "figurinos" nunca devem ser mais chamativos do que os "protagonistas".»

O mesmo vale para histórias maioritariamente negativas.

«A história tem bastantes erros ortográficos e gramaticais, que tornam a leitura difícil e confusa. Muitas vezes, por as frases não estarem muito claras, torna-se bastante complicado de entender o que queres dizer ou a quem te estás a referir... As tuas personagens sofrem alterações muito repentinas e não justificadas, o que faz com que seja difícil para um leitor levá-las muito a sério. Elas não reagem a nada, elas simplesmente vão andando pela história. Verosimilhança é algo muito importante numa narrativa e as tuas personagens não são muito realistas.»

A seguir tens de te focar em ajudar o escritor, desenvolvendo o porquê de algo não estar bem tratado no seu trabalho:

«Sugiro que consultes gramáticas e dicionários online para esclareceres as tuas dúvidas sempre que não souberes muito bem como algo se escreve. Podes sempre pedir ajuda a um amigo que seja bom a lidar com português, ou até a um beta reader. Mas não lhes peças correções; pede-lhes explicações dos teus erros, para que possas aprender e escrever cada vez melhor!
Sobre as tuas personagens, deixa-me explicar isso melhor, dando-te exemplos. Imagina que eu quero muito ser médica. Aqui em Portugal, tens de ter notas altíssimas para entrares em Medicina, é o curso em que é mais difícil entrar. No entanto, se eu não tivesse entrado por duas décimas, eu ficaria destroçada. Seria incapaz de, dez minutos depois de saber dessa novidade, ir sair com amigos e de estar sorridente e bem-disposta. As pessoas sofrem com coisas más, têm de ter tempo para as digerirem. Quanto mais importante algo for para alguém, de mais tempo esse alguém precisará para superar a dita coisa. Se eu tivesse tentado entrar em Medicina por acidente, então não ficaria triste. Mas, se ser médica tivesse sido o meu sonho de criança, a única coisa que eu me conseguiria imaginar a fazer no futuro, se fosse o meu objetivo de vida mais importante... eu quebraria por dentro e teria de me recompor antes de poder retomar à minha vida normalmente. E, ainda assim, em momentos chave, como ao ter os meus colegas a falar das suas faculdades, ou ao ter amigos a perguntar-me se eu entrei no curso, eu iria abaixo novamente. As pessoas reagem às coisas ao seu redor... Vivem, respiram, sentem e sofrem. E as tuas personagens devem fazer o mesmo. Devem agir como pessoas reais, e reagir como pessoas reais também. Quando as tuas personagens são contraditórias naquilo que pensam, sentem, querem ou fazem, parecem demasiado superficiais. Por vezes parece que não tiveste cuidado ao desenvolver as personagens, e não valorizas o que sentem ou pensam, e chegas até a ter momentos de contradição. É preciso ter cuidado com isso, e pensar sobre a forma como elas devem reagir e comportar-se nas situações que lhes apresentas.»

E tens de tentar compensar, dizendo coisas boas:

«Por outro lado, tenho a dizer-te que crias diálogos incríveis! São realistas e vivos, cheios de energia e sem conversa vazia aborrecida. Usaste sempre os diálogos para fazeres a história avançar, para criares ou resolveres conflitos, para dares a conhecer as tuas personagens.
As tuas descrições também são fenomenais! Não te prendes com detalhes irrelevantes e dás a informação certa para que o leitor se possa situar nos teus cenários, sem nunca abrandares a ação por causa delas. Consegues equilibrar muito bem as imagens que crias com o avançar do enredo.»

Para terminar, em qualquer uma das críticas, a destinada a uma história maioritariamente boa ou a uma com muitos problemas, menciona novamente tudo o que houver de bom antes de concluíres o texto, para subires a autoestima ao escritor. Isso é importante para que ele não se sinta humilhado e consiga ver que não pretendes deitá-lo abaixo, mas ser realista. Focar o lado bom é muito, muito importante porque, sem ele, destruirás uma obra e um autor. Lembra-te que o "truque" está no equilíbrio, e o lado positivo costuma ser o mais esquecido.
Esta é também a altura certa para dares uma opinião mais pessoal, se quiseres.

«Gostei muito da tua história! Os problemas e conflitos que foste desenvolvendo foram super originais e divertidos, e as personalidades de todos os protagonistas são muito engraçadas. Diverti-me muito!»


E pronto. Basicamente é isso. Espero ter-vos ajudado!

Se tiverem dúvidas, não hesitem em entrar em contacto com a Liga pelo nosso ask.fm/ligadosbetas, não hesitem em aparecer pelo nosso grupo de Facebook, o SBLAN, e falem conosco :) .
Podem sempre pedir sugestões de temas aqui para o blog por todos os nossos canais de comunicação :D .

Até a próxima.


Esse artigo pede por notas finais:

  • Críticas construtivas podem ser feitas a qualquer tipo de trabalho, criativo ou não, escrito ou não, e não só a histórias. Podes criticar um prato cozinhado por um chef, podes criticar um cachecol que a tua tia tricotou para ti, podes criticar um filme, podes criticar o que quiseres. No entanto, tendo em conta o universo em que a Liga dos Betas se insere, mantive o post sobre críticas de histórias, normalmente deixadas como comentários em plataformas como o Nyah, que servem para a divulgação dos ditos trabalhos escritos.
  • Sei bem que as críticas dadas como exemplo têm um vocabulário e uma forma pessoal/informal. Novamente, foram criadas tendo em conta a maior fatia do público do Nyah, e adequados ao meio informal da partilha de histórias online que é esse site.
  • As críticas de exemplo não foram feitas a nenhuma história específica. Foram exemplos elaborados a partir da minha imaginação. Se estiverem confusos, por favor, avisem-me, que eu criarei outros.
  • Normalmente, nas críticas que eu faço, costumo ser muito mais pessoal e menos "fria" (apesar de as críticas de exemplo terem um tom informal). Tentei criar os exemplos da forma mais neutra que consegui, para que a forma possa ser usada como base para todo o tipo de comentário. Sintam-se à vontade para serem menos frios nas vossas críticas, por favor! O que interessa é o conteúdo e a ajuda que quiserem dar a um autor, e não as palavras ou o nível de linguagem escolhidos para passar a ideia. Não precisam de ser duros ou parecer austeros para se fazerem e terem a vossa crítica reconhecida pelos outros. O que lhe dará o valor e o reconhecimento será sempre o seu conteúdo informativo, preocupado com as justificações para os apontamentos e em ajudar os outros. Desde que a crítica cumpra a sua função, em sites ou situações como no Nyah!, com um ambiente descontraído e "não-profissional", procurem divertir-se enquanto ajudam os outros!
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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [03/03]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por: Elyon Somniare

Saudações! Ansiosos para a terceira e última parte do discurso do “Nelinha”? Suspeito que alguns deverão ter esperado para ter a tradução toda disponível, de modo a poderem ler tudo de uma assentada. Para esses, o tempo de esperar terminou =)

Enjoy:

“(…) Sexto. Vou transmitir algum conhecimento freelancer secreto. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil a alguém que planeia criar arte para outras pessoas, que queira entrar no mundo freelancer de qualquer área. Eu aprendi-o com as comics, mas também se aplica a outros campos. E é isto:

As pessoas são contratadas porque, de algum modo, são contratadas. No meu caso fiz algo que nos dias de hoje seria fácil de verificar e que me deixaria em sarilhos, e que quando eu comecei, nesses dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu tinha trabalhado, mentia. Listava um punhado de revistas que me pareciam prováveis, soava confiante, e conseguia os trabalhos. Mais tarde tornei questão de honra escrever algo para cada uma das revistas que listei para conseguir aquele primeiro emprego, para que não tivesse mentido de verdade, só cronologicamente desafiado… Consegues trabalho de qualquer maneira que consegues trabalho.

As pessoas continuam a trabalhar, num mundo freelancer, e cada vez mais e mais do mundo de hoje é freelancer, porque o seu trabalho é bom, e porque são fáceis de se lidar com, e porque entregam o trabalho a tempo. E nem sequer precisas de todas estas três coisas. Duas de três é bom. As pessoas vão tolerar quão desagradável és se o teu trabalho é bom e o entregas a tempo. Vão perdoar o atraso da entrega se o trabalho é bom e se gostam de ti. E não tens de ser tão bom como os outros se és pontual e é sempre um prazer conversar contigo.

Quando concordei com este discurso, comecei a pensar qual foi o melhor conselho que me deram ao longo dos anos.

E veio do Stephen King, há vinte anos, aquando o sucesso de Sandman. Eu estava a escrever uma comic que as pessoas adoravam e estavam a levar a sério. King tinha gostado de Sandman e do meu livro com Terry Pratchett, Bons Augúrios, e viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo isso, e o seu conselho foi este:

“Isto é realmente bom. Devias aproveitar.”

E eu não aproveitei. O melhor conselho que tive que ignorei. Em vez disso preocupei-me. Preocupei-me sobre a próxima deadline, a próxima ideia, a próxima história. Não houve um momento nos catorze ou quinze anos seguintes em que eu não estivesse a escrever alguma coisa na minha cabeça, ou a questionar-me sobre isso. E não parei e olhei em volta e pensei, isto é mesmo divertido. Queria ter aproveitado mais. Tem sido uma viagem fantástica. Mas houve partes da viagem que perdi, porque estava demasiado preocupado sobre coisas correrem mal, sobre o que viria a seguir, para aproveitar o momento em que eu estava.

Essa foi a lição mais difícil para mim, penso: deixar-me ir e aproveitar a viagem, porque a viagem leva-nos a alguns lugares memoráveis e inexplicáveis.

E aqui, nesta plataforma, hoje, é um desses lugares. (Estou-me a divertir imenso.)

A todos os graduados de hoje: desejo-vos sorte. A sorte é útil. Irão descobrir com frequência que quanto mais arduamente trabalharem, quanto mais sabiamente trabalharem, mais sortudos serão. Mas a sorte existe e ajuda.

Agora mesmo estamos num mundo em transição, se estás em qualquer tipo de campo artístico, porque a natureza distributiva está a mudar, os modelos pelos quais os criadores lançavam o seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um tecto sobre as cabeças e comprar sanduíches enquanto o faziam, estão todos a mudar. Tenho falado com pessoas no topo da cadeia alimentar em edição, venda de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe como o quadro será daqui a dois anos, quanto mais uma década. Os canais de distribuição que as pessoas têm construído durante mais ou menos o último século estão em fluxo para as impressões, para as artes visuais, para os músicos, para as pessoas criativas de todos os tipos.

O que é, por um lado, intimidador, e, por outro, extremamente libertador. As regras, as suposições, os “agora é suposto que nós” que vêem o teu trabalho e o que fazes a seguir, estão a quebrar-se. Os porteiros estão a deixar os seus portões. Podes ser tão criativo quanto precisas de ser para ter o teu trabalho visto. O Youtube e a Web (e o que quer que seja que venha depois do Youtube e da Web) podem dar-te mais pessoas a verem o teu trabalho do que a televisão alguma vez pôde. As velhas regras estão a desintegrar-se e ninguém sabe quais são as novas regras.

Então inventa as tuas próprias regras.

Recentemente alguém perguntou-me como fazer algo que ela achou que seria difícil, neste caso, gravar um audiobook, e sugeri que ela fingisse ser alguém que o conseguisse fazer. Não fingir que o fazia, mas fingir que era alguém que o conseguia fazer. Para esse efeito ela colocou um recado na parede do estúdio, e disse que ajudou.

Então sê sábio, porque o mundo precisa de mais sabedoria, e se não consegues ser sábio, finge que és alguém que é sábio, e então limita-te a comportar-te como alguém sábio se comportaria.

E agora vai, e comete erros interessantes, comente erros maravilhosos, comete erros gloriosos e fantásticos. Quebra regras. Torna o mundo mais interessante por estares aqui. Faz boa arte.”

Neil Gaiman


Não irei escrever muito mais por aqui, visto que a Nelinha já falou imenso, mas não podemos negar que são palavras que valem a pena ler. Estou apenas a ranger os dentes perante a grande quantidade de “and/e”, ahah.

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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"Faz Boa Arte": Um Discurso de Neil Gaiman [02/03]

terça-feira, 26 de julho de 2016


Por: Elyon Somniare

Welcome back! Não me prenderei com grandes introduções: informo apenas que esta é a segunda parte da tradução do discurso de Neil Gaiman aos finalistas da University of Arts, em 2012, e que se ainda não leram a primeira parte é essencial que o façam antes de ler esta segunda. Até já!


“(…) Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles.

O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso, ainda que limitado, é a convicção inabalável de que estás a conseguir alguma coisa, e que agora serás apanhado a qualquer momento. É o Síndrome do Impostor, algo que a minha mulher Amanda baptizou de Polícia da Fraude.

No meu caso, estava convencido de que bateriam à porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que tinha uma prancheta, na minha cabeça ele tinha-a) estaria lá para me dizer que tinha acabado tudo, que me tinham apanhado, e que agora teria de ir e arranjar um emprego de verdade, um que não consistisse em inventar coisas e escrevê-las, e em ler livros que eu queria ler. E então eu afastar-me-ia com calma e arranjaria o tipo de trabalho onde nunca mais teria de inventar coisas.

Os problemas do sucesso. São reais, e com sorte vocês irão experimentá-los. O momento em que pararão de dizer sim a tudo, porque agora as garrafas que atiraram ao oceano estão todas a regressar, e vocês têm de aprender a dizer não.

Observei os meus iguais, e os meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu, e vi quão miseráveis alguns deles se sentiam: ouvia-os a dizerem-me que já não conseguiam prever um mundo onde faziam aquilo que sempre tinham querido fazer, porque agora tinham de ganhar uma certa quantia por mês só para se manterem onde estavam. Não podiam sair e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso parecia uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de falhanço.

E depois disso o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para te impedir de fazer a coisa que fazes, porque tu és bem sucedido. Houve um dia em que ergui a cabeça e percebi que me tinha tornado alguém que responde aos emails profissionalmente, e escreve como passatempo. Comecei a responder a menos emails e fiquei aliviado ao aperceber-me que estava a escrever muito mais.

Quarto, espero que cometas erros. Se estás a cometer erros, significa que andas por aí a fazer alguma coisa. E os erros em si mesmos podem ser úteis. Uma vez soletrei mal “Caroline”, numa carta, trocando o A e o O, e pensei “Coraline parece um nome real…”

E lembra-te que seja qual for a área em que estás, quer sejas um músico ou um fotógrafo, um artista plástico ou um cartoonista, um escritor, um dançarino, um designer, seja o que for que faças tem algo de único. Tu tens a habilidade de fazer arte.

E para mim, e para muitas das pessoas que tenho conhecido, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas final. Leva-te através dos bons momentos e leva-te através dos outros.

A vida às vezes é difícil. As coisas correm mal: na vida, no amor e nos negócios e na amizade e na saúde e em todas as outras maneiras em que a vida pode correr mal. E quando as coisas se tornam difíceis, é isto que deves fazer.

Faz boa arte.

Estou a falar a sério. O marido fugiu com um político? Faz boa arte. A perna é esmagada e depois comida por uma jibóia mutante? Faz boa arte. As Finanças andam atrás de ti? Faz boa arte. O gato explodiu? Faz boa arte. Alguém na Internet pensa que o que fazes é estúpido ou maléfico ou já foi feito antes? Faz boa arte. É provável que as coisas se ajeitem de algum modo, e o tempo irá eventualmente apagar a ferroada, mas isso não importa. Faz aquilo que fazes melhor. Faz boa arte.

Fá-la também nos dias bons.

E quinto, enquanto o estás a fazer, faz a tua arte. Faz aquilo que só tu consegues fazer.

Ao começar, o impulso é o de copiar. E isso não é mau. A maioria de nós só encontrou a sua própria voz depois de soar como muitas outras pessoas. Mas aquilo que tens que mais ninguém tem és tu. A tua voz, a tua mente, a tua história, a tua visão. Então escreve e desenha e constrói e actua e dança e vive como só tu podes.

No momento em que sentires, apenas possivelmente, que estás a caminhar nu pela rua, expondo demasiado do teu coração e da tua mente e do que existe lá dentro, a mostrar demasiado de ti mesmo. Esse é o momento em que talvez possas começar a consegui-lo.

As coisas que fiz que melhor resultaram foram as coisas sobre as quais tinha mais dúvidas, as histórias em que tinha certeza que ou iam resultar, ou, mais provavelmente, se iam tornar no tipo de falhanço embaraçoso a respeito do qual as pessoas se juntariam e comentariam até ao fim dos tempos. Essas histórias sempre tiveram isso em comum: olhando para trás, para elas, as pessoas explicam o porquê de elas terem sido um sucesso inevitável. Quando as estava a escrever, eu não fazia a menor ideia.

Continuo a não fazer. E onde estaria a diversão de fazer algo que saberás que irá funcionar?

E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há histórias minhas que nunca foram republicadas. Algumas delas nem sequer saíram de casa. Mas aprendi tanto com elas como aprendi com as coisas que funcionaram. (…)


Num aparte pessoal, esta é possivelmente a minha parte favorita do discurso. Várias vezes relembrei – e apliquei – o conselho da boa arte. Não só ajuda a criar, também ajuda a lidar melhor com aquilo que nos está a deitar para baixo.

A terceira parte será a última, encontramo-nos lá!


Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [01/03]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por: Elyon Somniare

Em 2012 Neil Gaiman discursou para os alunos da University of the Arts que se licenciavam. A sua mensagem tornou-se tão popular que os comentários pipocaram, traduções foram feitas e quadradinhos foram desenhados. Pessoalmente, posso dizer já ter seguido o(s) conselho(s) presente(s) nestas palavras, com resultados que muito me agradaram, e que pretendo continuar a segui-lo(s): além de ajudar à arte, ajuda à pessoa. E essa – arte e ser humano – é uma colaboração que nunca deve ser perdida de vista. Assim, apesar de ser já um discurso antigo e de provavelmente existirem outras traduções em português, considerei que tanto o blog quanto os seus leitores ficariam mais enriquecidos com um lembrete sobre a existência deste discurso. Devido, contudo, ao seu tamanho, terei de infelizmente o dividir em três partes. Eis a primeira dessas partes:


“Nunca esperei encontrar-me a aconselhar pessoas que se licenciam de um estabelecimento de educação superior. Eu próprio nunca me licenciei de nenhum estabelecimento do tipo. Nunca cheguei, sequer, a entrar num. Escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de ensino forçado antes de me poder tornar o escritor que desejava ser era sufocante.

Saí para o mundo, escrevi, e tornei-me um melhor autor à medida que escrevia mais; e escrevi mais um pouco, e ninguém nunca se pareceu importar por eu estar a inventar à medida que avançava, simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não pagavam, ou, com frequência, davam-me comissões para lhes escrever outra coisa qualquer.

O que me deixou com um respeito saudável e um carinho pela educação superior de que os meus amigos e familiares que frequentaram universidades já foram curados há muito tempo.

Olhando para trás, tenho tido uma viagem memorável. Não tenho a certeza se lhe posso chamar uma carreira, porque uma carreira implica que eu tenha tido algum tipo de plano de carreira, e eu nunca o tive. O mais próximo que tive foi uma lista que fiz quando tinha quinze anos de tudo o que queria fazer: escrever um romance adulto, um livro de crianças, uma comic, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de “Doctor Who”… e por aí fora. Não tive uma carreira. Simplesmente fiz o item seguinte da lista.

Então pensei em dizer-vos tudo o que eu gostaria de ter sabido quando comecei, e algumas coisas que, olhando para trás, eu suponho que sabia. E também em dar-vos o melhor conselho que alguma vez me deram, o qual falhei completamente em seguir.

Primeiro de tudo: quando começas uma carreira nas artes não tens nenhuma ideia do que é que estás a fazer.

Isto é óptimo. As pessoas que sabem o que estão a fazer conhecem as regras, e sabem o que é possível e impossível. Tu não. E nem deves. As regras do que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não testaram os limites do possível, não indo além deles. E tu podes fazê-lo.

Se não sabes que é impossível, é mais fácil de o fazer. E porque nunca ninguém o fez antes, nunca inventaram regras para impedir alguém de o fazer outra vez, por enquanto.

Segundo, se tens uma ideia daquilo que queres fazer, daquilo que foste aqui colocado para realizar, então simplesmente vai e fá-lo.

E isto é muito mais difícil do que soa e, por vezes, no final, muito mais fácil do que possas imaginar. Porque normalmente há coisas que tens de fazer antes que possas chegar ao lugar onde queres estar. Eu queria escrever comics e romances e histórias e filmes, então tornei-me um jornalista, porque aos jornalistas é permitido fazer perguntas, e simplesmente ir e descobrir como é que funciona o mundo, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisava de escrever e escrever bem, e estava a ser pago para aprender como escrever de forma objectiva, clara, por vezes sob condições adversas, e pontual.

Por vezes a maneira de fazer o que esperas fazer estará bem definida, e por vezes será quase impossível decidir se estás ou não a fazer o correcto, porque terás de equilibrar os teus objectivos e esperanças com a necessidade de te alimentares, de pagares as contas, de encontrar trabalho, de te acomodares com o que conseguires.

Algo que funcionou comigo foi imaginar que o ponto onde eu queria estar – um autor, primariamente de ficção, fazendo bons livros, fazendo boas comics, e sustentando-me com os meus trabalhos – era uma montanha. Uma montanha distante. O meu objectivo.

E eu sabia que desde que continuasse a caminhar na direcção da montanha, eu ficaria bem. E quando realmente não tinha certeza do que fazer, podia parar e pensar se aquilo me estava a levar na direcção da montanha, ou a afastar-me dela. Disse não a trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que me teriam dado dinheiro adequado, porque eu sabia que, ainda que atractivos, para mim eles teriam sido um afastar da montanha. E se essas ofertas de emprego tivessem surgido mais cedo eu poderia tê-las aceitado, porque teriam estado mais perto da montanha do que eu estava naquela altura.

Aprendi a escrever escrevendo. Eu tendi a fazer qualquer coisa desde que tivesse a sensação de aventura, e a parar quando a sentisse como trabalho, o que significa que a vida não teve a sensação de trabalho.

Terceiro, quando começas, tens de lidar com os problemas do falhanço. Precisas de ter pele dura, de aprender que nem todos os projectos irão sobreviver. Uma vida freelancer, uma vida nas artes, é, por vezes, como colocar mensagens em garrafas, numa ilha deserta, esperando que alguém encontre uma das tuas garrafas, a abra e a leia, e coloque na garrafa algo que retorne para ti: apreciação, ou uma comissão, ou dinheiro, ou amor. E tens de aceitar que podes despender uma centena de coisas para cada garrafa que retorna.

Os problemas do falhanço são problemas de desencorajamento, de falta de esperança, de fome. Queres que tudo aconteça e queres que aconteça agora, e as coisas correm mal. O meu primeiro livro – um trabalho de jornalismo que fiz por dinheiro e que já me tinha comprado uma máquina de escrever eléctrica em adiantado – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter-me dado uma data de dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente entrado em liquidação entre o esgotamento da primeira edição e o lançamento da segunda edição, e antes de quaisquer direitos de autor pudessem ser pagos, tê-lo-ia feito.

E encolhi os ombros, e ainda tinha a minha máquina de escrever eléctrica e dinheiro suficiente para pagar a renda por uns meses, e decidi que no futuro faria o meu melhor para não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se não tiveres o dinheiro, então não tens nada. Se eu fizesse um trabalho de que me orgulhasse, e não tivesse o dinheiro, pelo menos teria o trabalho.

Uma vez ou outra esqueço-me dessa regra e, sempre que o faço, o universo pontapeia-me e relembra-ma. Não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada do que fiz tendo como único propósito o dinheiro valeu a pena, excepto como experiência amarga. Usualmente também acabava a não ter o dinheiro. As coisas que fiz porque estava animado, e porque as queria ver a existir na realidade, nunca me deixaram mal, e nunca me arrependi do tempo que dediquei a cada uma delas.

Os problemas do falhanço são difíceis.

Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles. (…)”


Não me esfolem. O post já vai longo e até aqui se recorre aos cliffhangers, ahah. A segunda parte desta tradução recomeçará com os problemas do sucesso, e avançará com o discurso.

Até lá!

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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Uma reflexão sobre o processo criativo (03/03)

quarta-feira, 29 de junho de 2016


Edgar Varenberg 

https://fanfiction.com.br/u/581877/


Nesta terceira e última parte do artigo, chega a oportunidade para refletirmos sobre o conceito de potencial criativo. Nos textos passados, encaramos fatos sobre consciência e memória criativas, vimos a singela relação entre elas e, para fechar o nosso trio de relações, é a vez do potencial.

Temos como potencial criativo tudo aquilo que podemos fazer para expressar nossa consciência e memória; isto é, é o momento do nosso processo criativo em que sabemos o que estamos fazendo e aplicando nosso conhecimento, muito encontrado, geralmente, em recursos literários ou até mesmo quando você está discutindo com o seu beta a melhor maneira de representar uma ideia.

Com isso em mente, a ideia de potencial vem do plano concreto de já se saber o que fazer, ou seja, vem do pressuposto da linhagem da consciência criativa e da memória que já foram refletidas antes (por isso deixei para falar do potencial por último).

É simples. A consciência criativa trabalha com aspectos existenciais do seu texto; a memória com aspectos teóricos; e, por fim, o potencial trabalha com a parte prática, aquilo que nos faz “colocar a mão na massa”. E ela é formada justamente da soma consciência + memória.

Consciência + Memória = Potencial

Como eu disse mais acima, encontramos mais comumente essa etapa do processo criativo em recursos literários e discussões. Por que isso? Bom, os recursos literários são o uso concreto de toda uma reflexão que se tem acerca da literatura; por exemplo a aliteração, que é a repetição de fonemas no início de cada palavra durante a mesma frase para causar um efeito estilístico; temos por consciência saber que esse recurso não se usa naturalmente, ou seja, ele é pensado; ter a consciência de que isso não é natural da nossa mente, mas que pode ser configurada mesmo assim, apresenta evidências da consciência criativa, daí passamos a aplicar as palavras com as tais repetições, palavras estas que surgem da nossa memória, é essa memória que vai decidir o conjunto de palavras que você quer usar, qual o fonema que soará mais agradável para o seu texto, tudo diante das palavras que você já conheceu ao longo da sua vida, apresentando evidências da memória criativa.

A união de toda essa bagunça, da forma como trabalhamos isso para caracterizar nosso texto, e usamos, buscamos saber se causou um efeito legal (geralmente perguntando aos outros ou simplesmente seguindo nossos instintos), tornar isso mais frequente e construtivo na sua história apresenta as ideias do potencial criativo.

Agora que temos uma maior noção dos três principais termos, que tal vermos como isso se aplicaria numa construção de enredo? Consideremos a seguinte linha do tempo:

Abstrato – Memória – Rascunho – Potencial 1 – Ideia – Consciência – Potencial 2 – Enredo – Escrita

Primeiramente, quero esclarecer que essa não é uma linha do tempo obrigatória, que TODO processo criativo se passa por ela, muito menos de que é o único caminho. Lembremos que o objetivo deste artigo é apenas propor reflexão, não orientar necessariamente sobre algo, até porque orientar sobre processo criativo é uma coisa muito individual.

Pensa naquele momento que você está, por exemplo, voltando para casa, num transporte qualquer, ou até mesmo caminhando, e diversos temas começam a perambular pela sua mente; temas estes que começam a te despertar um interesse inicial por criar uma história ou acrescentar algo numa que já exista. Vamos denominar isso como Abstrato.

E então, dentro deste abstrato, começamos a recuperar informações que já estão na nossa consciência, ou prontamente ao nosso redor, seja conteúdos de outros textos ou um personagem que te inspira, ou até o que você almoçou na tarde da semana passada; são informações que já estão na sua mente que servirão para dar forma a essa abstração, e falamos deste tipo de informação antes, certo? Lá no segundo artigo, isto é, a Memória.

O objetivo da memória, como dito no parágrafo anterior, é dar forma à abstração. Porque, em forma, além da melhor visualização das suas informações, você tem ali base para construir algo, editar, mostrar para outros, obter opinião. Essa informação já concreta, já com forma, denominaremos de Rascunho.

E qual é o objetivo do rascunho? Mexer, remexer, pedir opinião, tudo que já citei acima, certo? Afinal, sua informação já tem forma, já está sendo bombardeada de informações, então é hora de refinar com todos os recursos que você tem disponíveis. E essa ideia de recurso nos lembra de qual conceito? O de Potencial.

Então, revisadas e refinadas suas informações, passada por opiniões (seja dos outros ou a sua própria), já temos um novo nível de criação, certo? Com tudo isso, com algo que já saiu do papel, já saiu da área de rascunho, já podemos dizer que temos uma Ideia. Basicamente, aquilo que se quer transformar numa história.

E é com a ideia que começamos a colocar nossa mente para funcionar, para vermos certos detalhes que foram questionados na primeira parte do artigo, ver o quanto você domina essa ideia e o quanto ela é simplesmente construída inconscientemente, e tentar equilibrar isso a seu favor. Como vimos na primeira parte do artigo, são as relações da Consciência.

A sua ideia atingiu um novo nível, mas ainda precisa ser melhor lapidada, conversada, revisada, porque todo o processo criativo é feito de pura revisão de fatos. Ou seja, novamente está na hora de darmos aquela parada de opinião, utilizarmos nossos recursos para ir mais longe, novamente aparecendo o Potencial.

E com isso lapidado, atingimos o novo nível, que é propriamente o Enredo, termo o qual todos conhecem muito bem. Uma ideia que está pronta para ser um pressuposto de uma história, um ponto de partida para a Escrita, que se trata de um termo extremamente relacionado com o Potencial, visto que a nossa escrita é moldada de memória e consciência puramente (aquela equação lá no início do artigo).

Conseguem refletir como o processo criativo é muito dependente dessa equação? De como as coisas precisam ser lapidadas, revisadas? Da importância de ler conteúdos para inspiração ou para aprendizado, simplesmente porque cada detalhe conta.

Se tiver dúvidas ou quiser mais reflexões, entre em contato comigo, ok?

REFERÊNCIAS

http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/criatividade%20e%20processos%20de%20cria%C3%A7%C3%A3o.pdf
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Uma reflexão sobre o processo criativo (02/03)

terça-feira, 14 de junho de 2016


Por: Edgar Varenberg

Na primeira parte do artigo refletimos sobre consciência criativa e em como esse aspecto da nossa cognição influencia na nossa maneira de escrever sem que, necessariamente, percebamos. Esta segunda parte tratará dos aspectos da memória criativa, ou seja, as informações que nos cercam e como a aplicação disso tudo funciona (ou pode funcionar).

Entendemos como memória criativa todas as informações que adquirimos ao longo do dia, da vida, basicamente tudo que nos cerca, seja ou não de nosso conhecimento. No artigo anterior falamos da consciência criativa, sobre ela agir conforme ou não nossa vontade; a memória trata justamente do conteúdo que encaixamos, conscientemente ou não.

E como captamos isso? Para que isso nos serve?

Às vezes vemos uma propaganda legal, lemos um texto interessante, ouvimos uma música mais intensa, atividades que nos estimulam a pensar e, posteriormente, ter ideias. Às vezes também acontece simplesmente de estarmos num ambiente propício a nos fazer refletir e relembrar situações, ou passar a notar certos detalhes não percebidos antes, tudo isso representa nossa memória criativa.

Em outras palavras, nossa memória criativa está diretamente associada àquilo que conhecemos como inspiração.

O que nos cerca e nos inspira são coisas armazenadas nessa memória, que vemos ao longo da nossa vivência e, de repente, lembramos para determinado efeito. A diferença é que podem ser lembranças bem específicas e precisas ou meros detalhes de coisas que você não faz ideia de que viu (como um cachorro na rua, por exemplo). Tudo que costumamos escrever provém desta fonte.

Quando utilizamos o inconsciente criativo é mais comum que trabalhemos mais com a parte inconsciente da memória, isto é, geralmente esses detalhes que não costumamos lembrar muito, que muitas vezes sentimos até como uma espécie de intuição. Por isso, como dito no artigo anterior, é importante termos noção da consciência criativa, pois trabalhando nossa mente de forma consciente faz com que essas memórias sejam melhor aproveitadas.

Daí vem aquela nossa inspiração de se basear em alguém que gostamos muito, querer retratar um ambiente que presenciamos, ou até mesmo usar palavras (ou termos, às vezes até frases) que sentimos trazer um determinado poder (o famoso soar bem ou ter uma boa mensagem) e que combina com o texto pretendido.

Tá, mas como eu uso essa memória em meu favor, Tio Edgar?

Sabe quando você deseja assistir, ouvir, ler algo ou entrevistar alguém para conseguir grandes inspirações para o seu texto? Então, aproveite muito bem essa experiência, não faça simplesmente por fazer. Também não faça só para ter um amontoado de informação e se iludir achando que é bom e o suficiente.

A memória tem que ser aquilo que te desperta interesse e inspiração, algo que te sirva de recurso natural, não como uma planilha a que você sempre tem acesso e tem tudo esquematizado de forma exata e concreta; isso desvia dos valores reais de uma inspiração, de uma memória, pois se torna um roteiro, um esquema de seguimento obrigatório. Tais esquemas não são ruins, só não fazem parte do processo criativo.

Refletindo todo o processo até então, temos a consciência criativa, que transporta as ideias da sua memória criativa, que é adquirida ao longo dos seus conhecimentos diários, e que podem ser usadas de forma consciente ou não. Parece um ciclo quase se fechando, mas ainda falta o último item: o potencial criativo, que consiste em como utilizar recursos para construir esse material que você possui naturalmente, de forma totalmente consciente (diferente da consciência e da memória, que podem atuar inconscientemente também).

Entretanto, isso é assunto para o próximo artigo!

REFERÊNCIAS:
http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/criatividade%20e%20processos%20de%20cria%C3%A7%C3%A3o.pdf
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212009000300017
http://www.espacoacademico.com.br/052/52silvafilho.htm
http://www.intelliwise.com/seminars/criativi.htm
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As Mil e Uma (e meia) maneiras de (d)escrever mensagens em livros [01/02]

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Por: Ladybug

Aspas. Itálico. Tabulação dupla. Tudo misturado. Coisa nenhuma. Apenas fonte de letra diferente, ou ainda a mesma fonte de letra, só que escrita com o tamanho menor — é possível encontrar várias maneiras de representar a modernidade das mensagens de texto via telefone (sms), aplicativos de internet, ou pelo clássico e-mail, tanto nos livros quanto nas fanfics.
A dúvida surgia sempre, e por não encontrar um texto que me desse uma orientação mais precisa, acabei descobrindo que tal orientação simplesmente não existe! Não é desesperador, tampouco significa que estamos livres na ousadia. As coisas não funcionam assim. É importante sermos coerentes e respeitarmos a norma culta.
A matéria não vai abordar a gramática ao escrever as mensagens, até porque é óbvio que não está certo sair abreviando tudo o tempo todo, devemos nos lembrar que o livro vai representar o assunto que será transmitido através de uma determinada mensagem, e não que a mensagem é de fato o que está acontecendo, portanto, podemos guardar aquele montão de “vc, qqr, bj, fds...” etc... etc... para nossos momentos de lazer e liberdade textual na nossa vida cotidiana. Então jogue fora, sem medo, esse conceito de que para descrever mensagens moderninhas, é preciso abusar da linguagem informal.
Aqui, vamos conversar sobre a diagramação dessas mensagens. E nos divertirmos um pouco com as várias maneiras, muito bacanas, de narrar o que os personagens estão fazendo, como estão se comunicando.

Na era dos e-mails...

Quem nunca se deparou com uma troca de e-mail durante uma narrativa, sem dúvida anda lendo muito os conservadores textos escritos antes da década de 70. Pombos-correios e telégrafo eram o top do momento nos livros ao estilo A Volta ao Mundo em Oitenta Dias. Com a escrita cada vez mais ambientada nos tempos contemporâneos, nada menos espantoso do que a representação da troca de mensagens eletrônicas entre personagens. Clássico, incorporado desde 1973, o famosíssimo correio eletrônico é descrito em diversas narrativas, “transcrito” também. A diagramação dessas conversas via e-mail costumam variar de acordo com o profissional que acerta as arestas dos livros, ou mesmo o autor, que decide o formato da sua edição.
Um exemplo, facilmente difundido e visto por milhares de pares de olhos, foi a troca indiscreta e dominadora de mensagens entre Christian Grey e Anastasia Stelle. A autora da trilogia (+1) de “50 Tons de Cinza” descreveu os e-mails com direito a data, horário, assunto... Igualzinho como se tivesse feito um print do correio eletrônico dos personagens e transportado para os livros.
(primeira troca de mensagem entre os personagens de E.L. James):


"De: Christian Grey
Assunto: Seu novo computador

Data: 22 de maio de 2011 23:15

Para: Anastasia Steele
Prezada Srta. Steele,
Creio que tenha dormido bem. Espero que faça bom uso deste laptop, como discutimos.

Aguardo ansioso para o jantar de quarta-feira.
Responderei com prazer a quaisquer perguntas antes disso, por e-mail, se a senhorita assim o desejar.
Christian Grey
CEO, Grey Enterprises Holdings, Inc.

________________________________
De: Anastasia Steele
Assunto: Seu novo computador (emprestado)

Data: 23 de maio de 2011 8:20

Para: Christian Grey
Dormi muito bem, obrigada — por algum motivo estranho —, Senhor. Entendo que o computador é um empréstimo, portanto, não pertence a mim.
Ana"


Repare que a autora passou uma linha para dividir as mensagens. Mas se um espaçamento duplo tivesse sido a escolha para separar os e-mails, também não haveria dificuldade para o leitor compreender o detalhamento de quem para quem nas mensagens. Foi mais ou menos o que optou a autora de Peça-me o que quiser, Megan Maxuell, entre uma mensagem de e-mail e a resposta, ela narrou o sentimento da personagem:


O livro Os e-mails de Holly, da autora Holly Denhan (que é um pseudônimo e, enfim, a história desse pseudônimo é longa, literalmente, “700 páginas”) é ainda mais interessante, pois o leitor praticamente olha por cima da tela, do monitor. O leitor (alerta de voyeurismo cômico) fica de frente para a caixa de e-mail da autora, não tem nada a ver com o print como no caso de E.L. James, a diagramação dos e-mails de Holly é muito legal e diferente. Aqui vai uma foto para verem do que estou falando:



Bem bacana, não é?
Parecido também com o livro @mor, do autor Daniel Glattauer (ele dispensou o itálico no corpo do e-mail, usou-o apenas em sua narrativa. Com a formatação especial, manteve os “RE” e “FW” em negrito):

33 dias depois

Assunto: Cancelamento
Prezados senhores e senhoras da editora Like,

Caso o fato de os senhores ignorarem insistentemente minha tentativa de cancelar uma assinatura tiver como objetivo não deixar cair o volume de vendas de seu produto, que está em lamentável e constante decadência, infelizmente devo lhes comunicar: eu não vou mais pagar!
Cordialmente,
E. Rothner

Oito minutos depois

Fw:
A senhora se enganou. Este é um e-mail particular. Meu endereço eletrônico é woerter@leike.com. A senhora certamente queria escrever para woerter@like.com. A senhora já é a terceira pessoa que me pede o cancelamento. A revista realmente deve ter ficado muito ruim.

Cinco minutos depois

Re:
Oh, me desculpe! E obrigada pelo esclarecimento.
Saudações,
E. R.”


Há um outro livro que traz uma diagramação diferente nessa troca de e-mails entre personagens, um montão de pares de olhos também passaram por esse livro. John Green foi direto ao ponto:

Na manhã seguinte, acordei cedo e fui logo verificar meus e-mails.
lidewij.vliegenthart@gmail.com tinha finalmente respondido.

Cara Srta. Lancaster,
Temo que sua fé tenha sido depositada no lugar errado — mas, para falar a verdade, é isso o que geralmente acontece com a fé. Não posso responder às suas perguntas, pelo menos não por escrito, porque redigir tais respostas constituiria uma continuação de Uma aflição imperial, que a senhorita poderia acabar publicando ou compartilhando na rede global que substituiu os cérebros de sua geração. Poderíamos utilizar o telefone, mas, nesse caso, a senhorita poderia acabar gravando a conversa. Não que eu não confie em você, é claro, mas não confio em você. Ai de mim, cara Hazel, eu jamais poderia responder a tais perguntas exceto pessoalmente, e você está aí, ao passo que eu estou aqui. (...)”

Em A Culpa é das Estrelas tem um bocado de troca de mensagens eletrônicas (e-mail, mensagem de texto via sms...), o diagramador manteve espaçamento entre a descrição da narrativa e narrativa das mensagens, mas, em qualquer dos casos, não houve detalhamento ao estilo print de mensagens, apenas o bom e velho itálico. E não encontramos caixinhas de texto desenhadas. A gente pode encontrar essas caixinhas em alguns livros também, mas é mais recorrente em mensagens via sms.
Eu li O Diabo veste Prada, da Lauren Weisberger, e por lá não há nenhum tipo de diferenciação na diagramação de e-mails. Chequem como ficou a cena:

“— Sim, ele é surpreendente — Emily dizia com um suspiro, torcendo o fio do telefone em seu dedo indicador. — Foi o fim de semana mais romântico que já vivi.
Pim! Você tem um novo e-mail de Alexander Fineman. Clique aqui para abrir. Opa, divertido. Elias-Clark tinha isolado o mensageiro instantâneo, mas, por algum motivo, eu ainda recebia notificações instantâneas de que tinha novo e-mail.
Oi, gata, como foi seu dia? As coisas aqui estão uma loucura, como sempre. Lembra que lhe contei que Jeremiah tinha ameaçado todas as meninas com um estilete que havia trazido de casa? Bem, parece que ele falava sério (...)”

Simples assim. Sem itálico, nem recuo especial, nem nada (as aspas acima ficam por conta da citação).
Então, até agora, temos alguns exemplos de gêneros e autores diversos, que conseguem se fazer entender sem que isso agrida nossos olhos (estou falando de diagramação, não levem tão a sério os exemplos, eu não estou defendendo nenhum livro aqui).
Beleza, encontramos um monte de maneiras de citar e-mails nos livros, mas, e em fanfic? Tem jeito de diagramar, de mostrar que é um e-mail sem que fique tosco? Ora, sem dúvida!
Apesar de inúmeras restrições que um site tem, o autor pode e deve contar com os travessões, underlines, as explicações de quem mandou o quê e a que horas sobre determinada coisa, e ainda há os negritos e itálicos. Desde que — e que isso fique bem claro —, seja tudo com muita moderação. Até mesmo quando as letras maiúsculas se fizerem necessárias. Não precisa abusar do itálico ou do negrito, lembre-se de que o leitor ficará com glaucoma se for obrigado a forçar demais a vista em textos inteiramente em itálico. No exemplo de “A Culpa é das Estrelas” (quem tem o livro, sabe do que estou falando), são e-mails curtos, o diagramador (ou o autor, não sei quem optou pelo itálico), não escreveu uma “carta régia” com mais de mil palavras em itálico, o texto fica bem organizadinho, não cansa a vista e o espaçamento entre as linhas também é aceitável, na verdade é bem-vindo.
Uma observação pertinente: Em casos de e-mails com horário, lembre-se de que há o tempo de digitação, mais o tempo para o envio e coisa e tal, para não extrapolar na incoerência. Imagine, um e-mail de duas mil palavras e uma resposta de outras duas mil palavras, com o “apito” de envio e recebimento em intervalos de trinta segundos? Oi? Exatamente, não vai dar certo... Se optarem por registrar até mesmo o horário, as mensagens têm de fazer sentido de acordo com o tamanho e complexidade do assunto. Também fica difícil de engolir, um e-mail de trinta segundos, para um personagem responder meia dúzia de palavras, porém, palavras tensas, como um rompimento quando ainda se ama, ou a notificação do falecimento de um ente querido que era realmente querido, ou qualquer coisa do tipo, logo, não deixe de ficar atento ao tempo de envio e recebimento dessa correspondência. Verossimilhança sempre!
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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana