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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [03/03]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por: Elyon Somniare

Saudações! Ansiosos para a terceira e última parte do discurso do “Nelinha”? Suspeito que alguns deverão ter esperado para ter a tradução toda disponível, de modo a poderem ler tudo de uma assentada. Para esses, o tempo de esperar terminou =)

Enjoy:

“(…) Sexto. Vou transmitir algum conhecimento freelancer secreto. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil a alguém que planeia criar arte para outras pessoas, que queira entrar no mundo freelancer de qualquer área. Eu aprendi-o com as comics, mas também se aplica a outros campos. E é isto:

As pessoas são contratadas porque, de algum modo, são contratadas. No meu caso fiz algo que nos dias de hoje seria fácil de verificar e que me deixaria em sarilhos, e que quando eu comecei, nesses dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu tinha trabalhado, mentia. Listava um punhado de revistas que me pareciam prováveis, soava confiante, e conseguia os trabalhos. Mais tarde tornei questão de honra escrever algo para cada uma das revistas que listei para conseguir aquele primeiro emprego, para que não tivesse mentido de verdade, só cronologicamente desafiado… Consegues trabalho de qualquer maneira que consegues trabalho.

As pessoas continuam a trabalhar, num mundo freelancer, e cada vez mais e mais do mundo de hoje é freelancer, porque o seu trabalho é bom, e porque são fáceis de se lidar com, e porque entregam o trabalho a tempo. E nem sequer precisas de todas estas três coisas. Duas de três é bom. As pessoas vão tolerar quão desagradável és se o teu trabalho é bom e o entregas a tempo. Vão perdoar o atraso da entrega se o trabalho é bom e se gostam de ti. E não tens de ser tão bom como os outros se és pontual e é sempre um prazer conversar contigo.

Quando concordei com este discurso, comecei a pensar qual foi o melhor conselho que me deram ao longo dos anos.

E veio do Stephen King, há vinte anos, aquando o sucesso de Sandman. Eu estava a escrever uma comic que as pessoas adoravam e estavam a levar a sério. King tinha gostado de Sandman e do meu livro com Terry Pratchett, Bons Augúrios, e viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo isso, e o seu conselho foi este:

“Isto é realmente bom. Devias aproveitar.”

E eu não aproveitei. O melhor conselho que tive que ignorei. Em vez disso preocupei-me. Preocupei-me sobre a próxima deadline, a próxima ideia, a próxima história. Não houve um momento nos catorze ou quinze anos seguintes em que eu não estivesse a escrever alguma coisa na minha cabeça, ou a questionar-me sobre isso. E não parei e olhei em volta e pensei, isto é mesmo divertido. Queria ter aproveitado mais. Tem sido uma viagem fantástica. Mas houve partes da viagem que perdi, porque estava demasiado preocupado sobre coisas correrem mal, sobre o que viria a seguir, para aproveitar o momento em que eu estava.

Essa foi a lição mais difícil para mim, penso: deixar-me ir e aproveitar a viagem, porque a viagem leva-nos a alguns lugares memoráveis e inexplicáveis.

E aqui, nesta plataforma, hoje, é um desses lugares. (Estou-me a divertir imenso.)

A todos os graduados de hoje: desejo-vos sorte. A sorte é útil. Irão descobrir com frequência que quanto mais arduamente trabalharem, quanto mais sabiamente trabalharem, mais sortudos serão. Mas a sorte existe e ajuda.

Agora mesmo estamos num mundo em transição, se estás em qualquer tipo de campo artístico, porque a natureza distributiva está a mudar, os modelos pelos quais os criadores lançavam o seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um tecto sobre as cabeças e comprar sanduíches enquanto o faziam, estão todos a mudar. Tenho falado com pessoas no topo da cadeia alimentar em edição, venda de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe como o quadro será daqui a dois anos, quanto mais uma década. Os canais de distribuição que as pessoas têm construído durante mais ou menos o último século estão em fluxo para as impressões, para as artes visuais, para os músicos, para as pessoas criativas de todos os tipos.

O que é, por um lado, intimidador, e, por outro, extremamente libertador. As regras, as suposições, os “agora é suposto que nós” que vêem o teu trabalho e o que fazes a seguir, estão a quebrar-se. Os porteiros estão a deixar os seus portões. Podes ser tão criativo quanto precisas de ser para ter o teu trabalho visto. O Youtube e a Web (e o que quer que seja que venha depois do Youtube e da Web) podem dar-te mais pessoas a verem o teu trabalho do que a televisão alguma vez pôde. As velhas regras estão a desintegrar-se e ninguém sabe quais são as novas regras.

Então inventa as tuas próprias regras.

Recentemente alguém perguntou-me como fazer algo que ela achou que seria difícil, neste caso, gravar um audiobook, e sugeri que ela fingisse ser alguém que o conseguisse fazer. Não fingir que o fazia, mas fingir que era alguém que o conseguia fazer. Para esse efeito ela colocou um recado na parede do estúdio, e disse que ajudou.

Então sê sábio, porque o mundo precisa de mais sabedoria, e se não consegues ser sábio, finge que és alguém que é sábio, e então limita-te a comportar-te como alguém sábio se comportaria.

E agora vai, e comete erros interessantes, comente erros maravilhosos, comete erros gloriosos e fantásticos. Quebra regras. Torna o mundo mais interessante por estares aqui. Faz boa arte.”

Neil Gaiman


Não irei escrever muito mais por aqui, visto que a Nelinha já falou imenso, mas não podemos negar que são palavras que valem a pena ler. Estou apenas a ranger os dentes perante a grande quantidade de “and/e”, ahah.

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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"Faz Boa Arte": Um Discurso de Neil Gaiman [02/03]

terça-feira, 26 de julho de 2016


Por: Elyon Somniare

Welcome back! Não me prenderei com grandes introduções: informo apenas que esta é a segunda parte da tradução do discurso de Neil Gaiman aos finalistas da University of Arts, em 2012, e que se ainda não leram a primeira parte é essencial que o façam antes de ler esta segunda. Até já!


“(…) Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles.

O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso, ainda que limitado, é a convicção inabalável de que estás a conseguir alguma coisa, e que agora serás apanhado a qualquer momento. É o Síndrome do Impostor, algo que a minha mulher Amanda baptizou de Polícia da Fraude.

No meu caso, estava convencido de que bateriam à porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que tinha uma prancheta, na minha cabeça ele tinha-a) estaria lá para me dizer que tinha acabado tudo, que me tinham apanhado, e que agora teria de ir e arranjar um emprego de verdade, um que não consistisse em inventar coisas e escrevê-las, e em ler livros que eu queria ler. E então eu afastar-me-ia com calma e arranjaria o tipo de trabalho onde nunca mais teria de inventar coisas.

Os problemas do sucesso. São reais, e com sorte vocês irão experimentá-los. O momento em que pararão de dizer sim a tudo, porque agora as garrafas que atiraram ao oceano estão todas a regressar, e vocês têm de aprender a dizer não.

Observei os meus iguais, e os meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu, e vi quão miseráveis alguns deles se sentiam: ouvia-os a dizerem-me que já não conseguiam prever um mundo onde faziam aquilo que sempre tinham querido fazer, porque agora tinham de ganhar uma certa quantia por mês só para se manterem onde estavam. Não podiam sair e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso parecia uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de falhanço.

E depois disso o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para te impedir de fazer a coisa que fazes, porque tu és bem sucedido. Houve um dia em que ergui a cabeça e percebi que me tinha tornado alguém que responde aos emails profissionalmente, e escreve como passatempo. Comecei a responder a menos emails e fiquei aliviado ao aperceber-me que estava a escrever muito mais.

Quarto, espero que cometas erros. Se estás a cometer erros, significa que andas por aí a fazer alguma coisa. E os erros em si mesmos podem ser úteis. Uma vez soletrei mal “Caroline”, numa carta, trocando o A e o O, e pensei “Coraline parece um nome real…”

E lembra-te que seja qual for a área em que estás, quer sejas um músico ou um fotógrafo, um artista plástico ou um cartoonista, um escritor, um dançarino, um designer, seja o que for que faças tem algo de único. Tu tens a habilidade de fazer arte.

E para mim, e para muitas das pessoas que tenho conhecido, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas final. Leva-te através dos bons momentos e leva-te através dos outros.

A vida às vezes é difícil. As coisas correm mal: na vida, no amor e nos negócios e na amizade e na saúde e em todas as outras maneiras em que a vida pode correr mal. E quando as coisas se tornam difíceis, é isto que deves fazer.

Faz boa arte.

Estou a falar a sério. O marido fugiu com um político? Faz boa arte. A perna é esmagada e depois comida por uma jibóia mutante? Faz boa arte. As Finanças andam atrás de ti? Faz boa arte. O gato explodiu? Faz boa arte. Alguém na Internet pensa que o que fazes é estúpido ou maléfico ou já foi feito antes? Faz boa arte. É provável que as coisas se ajeitem de algum modo, e o tempo irá eventualmente apagar a ferroada, mas isso não importa. Faz aquilo que fazes melhor. Faz boa arte.

Fá-la também nos dias bons.

E quinto, enquanto o estás a fazer, faz a tua arte. Faz aquilo que só tu consegues fazer.

Ao começar, o impulso é o de copiar. E isso não é mau. A maioria de nós só encontrou a sua própria voz depois de soar como muitas outras pessoas. Mas aquilo que tens que mais ninguém tem és tu. A tua voz, a tua mente, a tua história, a tua visão. Então escreve e desenha e constrói e actua e dança e vive como só tu podes.

No momento em que sentires, apenas possivelmente, que estás a caminhar nu pela rua, expondo demasiado do teu coração e da tua mente e do que existe lá dentro, a mostrar demasiado de ti mesmo. Esse é o momento em que talvez possas começar a consegui-lo.

As coisas que fiz que melhor resultaram foram as coisas sobre as quais tinha mais dúvidas, as histórias em que tinha certeza que ou iam resultar, ou, mais provavelmente, se iam tornar no tipo de falhanço embaraçoso a respeito do qual as pessoas se juntariam e comentariam até ao fim dos tempos. Essas histórias sempre tiveram isso em comum: olhando para trás, para elas, as pessoas explicam o porquê de elas terem sido um sucesso inevitável. Quando as estava a escrever, eu não fazia a menor ideia.

Continuo a não fazer. E onde estaria a diversão de fazer algo que saberás que irá funcionar?

E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há histórias minhas que nunca foram republicadas. Algumas delas nem sequer saíram de casa. Mas aprendi tanto com elas como aprendi com as coisas que funcionaram. (…)


Num aparte pessoal, esta é possivelmente a minha parte favorita do discurso. Várias vezes relembrei – e apliquei – o conselho da boa arte. Não só ajuda a criar, também ajuda a lidar melhor com aquilo que nos está a deitar para baixo.

A terceira parte será a última, encontramo-nos lá!


Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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