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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [03/03]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Por: Elyon Somniare

Saudações! Ansiosos para a terceira e última parte do discurso do “Nelinha”? Suspeito que alguns deverão ter esperado para ter a tradução toda disponível, de modo a poderem ler tudo de uma assentada. Para esses, o tempo de esperar terminou =)

Enjoy:

“(…) Sexto. Vou transmitir algum conhecimento freelancer secreto. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil a alguém que planeia criar arte para outras pessoas, que queira entrar no mundo freelancer de qualquer área. Eu aprendi-o com as comics, mas também se aplica a outros campos. E é isto:

As pessoas são contratadas porque, de algum modo, são contratadas. No meu caso fiz algo que nos dias de hoje seria fácil de verificar e que me deixaria em sarilhos, e que quando eu comecei, nesses dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu tinha trabalhado, mentia. Listava um punhado de revistas que me pareciam prováveis, soava confiante, e conseguia os trabalhos. Mais tarde tornei questão de honra escrever algo para cada uma das revistas que listei para conseguir aquele primeiro emprego, para que não tivesse mentido de verdade, só cronologicamente desafiado… Consegues trabalho de qualquer maneira que consegues trabalho.

As pessoas continuam a trabalhar, num mundo freelancer, e cada vez mais e mais do mundo de hoje é freelancer, porque o seu trabalho é bom, e porque são fáceis de se lidar com, e porque entregam o trabalho a tempo. E nem sequer precisas de todas estas três coisas. Duas de três é bom. As pessoas vão tolerar quão desagradável és se o teu trabalho é bom e o entregas a tempo. Vão perdoar o atraso da entrega se o trabalho é bom e se gostam de ti. E não tens de ser tão bom como os outros se és pontual e é sempre um prazer conversar contigo.

Quando concordei com este discurso, comecei a pensar qual foi o melhor conselho que me deram ao longo dos anos.

E veio do Stephen King, há vinte anos, aquando o sucesso de Sandman. Eu estava a escrever uma comic que as pessoas adoravam e estavam a levar a sério. King tinha gostado de Sandman e do meu livro com Terry Pratchett, Bons Augúrios, e viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo isso, e o seu conselho foi este:

“Isto é realmente bom. Devias aproveitar.”

E eu não aproveitei. O melhor conselho que tive que ignorei. Em vez disso preocupei-me. Preocupei-me sobre a próxima deadline, a próxima ideia, a próxima história. Não houve um momento nos catorze ou quinze anos seguintes em que eu não estivesse a escrever alguma coisa na minha cabeça, ou a questionar-me sobre isso. E não parei e olhei em volta e pensei, isto é mesmo divertido. Queria ter aproveitado mais. Tem sido uma viagem fantástica. Mas houve partes da viagem que perdi, porque estava demasiado preocupado sobre coisas correrem mal, sobre o que viria a seguir, para aproveitar o momento em que eu estava.

Essa foi a lição mais difícil para mim, penso: deixar-me ir e aproveitar a viagem, porque a viagem leva-nos a alguns lugares memoráveis e inexplicáveis.

E aqui, nesta plataforma, hoje, é um desses lugares. (Estou-me a divertir imenso.)

A todos os graduados de hoje: desejo-vos sorte. A sorte é útil. Irão descobrir com frequência que quanto mais arduamente trabalharem, quanto mais sabiamente trabalharem, mais sortudos serão. Mas a sorte existe e ajuda.

Agora mesmo estamos num mundo em transição, se estás em qualquer tipo de campo artístico, porque a natureza distributiva está a mudar, os modelos pelos quais os criadores lançavam o seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um tecto sobre as cabeças e comprar sanduíches enquanto o faziam, estão todos a mudar. Tenho falado com pessoas no topo da cadeia alimentar em edição, venda de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe como o quadro será daqui a dois anos, quanto mais uma década. Os canais de distribuição que as pessoas têm construído durante mais ou menos o último século estão em fluxo para as impressões, para as artes visuais, para os músicos, para as pessoas criativas de todos os tipos.

O que é, por um lado, intimidador, e, por outro, extremamente libertador. As regras, as suposições, os “agora é suposto que nós” que vêem o teu trabalho e o que fazes a seguir, estão a quebrar-se. Os porteiros estão a deixar os seus portões. Podes ser tão criativo quanto precisas de ser para ter o teu trabalho visto. O Youtube e a Web (e o que quer que seja que venha depois do Youtube e da Web) podem dar-te mais pessoas a verem o teu trabalho do que a televisão alguma vez pôde. As velhas regras estão a desintegrar-se e ninguém sabe quais são as novas regras.

Então inventa as tuas próprias regras.

Recentemente alguém perguntou-me como fazer algo que ela achou que seria difícil, neste caso, gravar um audiobook, e sugeri que ela fingisse ser alguém que o conseguisse fazer. Não fingir que o fazia, mas fingir que era alguém que o conseguia fazer. Para esse efeito ela colocou um recado na parede do estúdio, e disse que ajudou.

Então sê sábio, porque o mundo precisa de mais sabedoria, e se não consegues ser sábio, finge que és alguém que é sábio, e então limita-te a comportar-te como alguém sábio se comportaria.

E agora vai, e comete erros interessantes, comente erros maravilhosos, comete erros gloriosos e fantásticos. Quebra regras. Torna o mundo mais interessante por estares aqui. Faz boa arte.”

Neil Gaiman


Não irei escrever muito mais por aqui, visto que a Nelinha já falou imenso, mas não podemos negar que são palavras que valem a pena ler. Estou apenas a ranger os dentes perante a grande quantidade de “and/e”, ahah.

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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"Faz Boa Arte": Um Discurso de Neil Gaiman [02/03]

terça-feira, 26 de julho de 2016


Por: Elyon Somniare

Welcome back! Não me prenderei com grandes introduções: informo apenas que esta é a segunda parte da tradução do discurso de Neil Gaiman aos finalistas da University of Arts, em 2012, e que se ainda não leram a primeira parte é essencial que o façam antes de ler esta segunda. Até já!


“(…) Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles.

O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso, ainda que limitado, é a convicção inabalável de que estás a conseguir alguma coisa, e que agora serás apanhado a qualquer momento. É o Síndrome do Impostor, algo que a minha mulher Amanda baptizou de Polícia da Fraude.

No meu caso, estava convencido de que bateriam à porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que tinha uma prancheta, na minha cabeça ele tinha-a) estaria lá para me dizer que tinha acabado tudo, que me tinham apanhado, e que agora teria de ir e arranjar um emprego de verdade, um que não consistisse em inventar coisas e escrevê-las, e em ler livros que eu queria ler. E então eu afastar-me-ia com calma e arranjaria o tipo de trabalho onde nunca mais teria de inventar coisas.

Os problemas do sucesso. São reais, e com sorte vocês irão experimentá-los. O momento em que pararão de dizer sim a tudo, porque agora as garrafas que atiraram ao oceano estão todas a regressar, e vocês têm de aprender a dizer não.

Observei os meus iguais, e os meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu, e vi quão miseráveis alguns deles se sentiam: ouvia-os a dizerem-me que já não conseguiam prever um mundo onde faziam aquilo que sempre tinham querido fazer, porque agora tinham de ganhar uma certa quantia por mês só para se manterem onde estavam. Não podiam sair e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso parecia uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de falhanço.

E depois disso o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para te impedir de fazer a coisa que fazes, porque tu és bem sucedido. Houve um dia em que ergui a cabeça e percebi que me tinha tornado alguém que responde aos emails profissionalmente, e escreve como passatempo. Comecei a responder a menos emails e fiquei aliviado ao aperceber-me que estava a escrever muito mais.

Quarto, espero que cometas erros. Se estás a cometer erros, significa que andas por aí a fazer alguma coisa. E os erros em si mesmos podem ser úteis. Uma vez soletrei mal “Caroline”, numa carta, trocando o A e o O, e pensei “Coraline parece um nome real…”

E lembra-te que seja qual for a área em que estás, quer sejas um músico ou um fotógrafo, um artista plástico ou um cartoonista, um escritor, um dançarino, um designer, seja o que for que faças tem algo de único. Tu tens a habilidade de fazer arte.

E para mim, e para muitas das pessoas que tenho conhecido, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas final. Leva-te através dos bons momentos e leva-te através dos outros.

A vida às vezes é difícil. As coisas correm mal: na vida, no amor e nos negócios e na amizade e na saúde e em todas as outras maneiras em que a vida pode correr mal. E quando as coisas se tornam difíceis, é isto que deves fazer.

Faz boa arte.

Estou a falar a sério. O marido fugiu com um político? Faz boa arte. A perna é esmagada e depois comida por uma jibóia mutante? Faz boa arte. As Finanças andam atrás de ti? Faz boa arte. O gato explodiu? Faz boa arte. Alguém na Internet pensa que o que fazes é estúpido ou maléfico ou já foi feito antes? Faz boa arte. É provável que as coisas se ajeitem de algum modo, e o tempo irá eventualmente apagar a ferroada, mas isso não importa. Faz aquilo que fazes melhor. Faz boa arte.

Fá-la também nos dias bons.

E quinto, enquanto o estás a fazer, faz a tua arte. Faz aquilo que só tu consegues fazer.

Ao começar, o impulso é o de copiar. E isso não é mau. A maioria de nós só encontrou a sua própria voz depois de soar como muitas outras pessoas. Mas aquilo que tens que mais ninguém tem és tu. A tua voz, a tua mente, a tua história, a tua visão. Então escreve e desenha e constrói e actua e dança e vive como só tu podes.

No momento em que sentires, apenas possivelmente, que estás a caminhar nu pela rua, expondo demasiado do teu coração e da tua mente e do que existe lá dentro, a mostrar demasiado de ti mesmo. Esse é o momento em que talvez possas começar a consegui-lo.

As coisas que fiz que melhor resultaram foram as coisas sobre as quais tinha mais dúvidas, as histórias em que tinha certeza que ou iam resultar, ou, mais provavelmente, se iam tornar no tipo de falhanço embaraçoso a respeito do qual as pessoas se juntariam e comentariam até ao fim dos tempos. Essas histórias sempre tiveram isso em comum: olhando para trás, para elas, as pessoas explicam o porquê de elas terem sido um sucesso inevitável. Quando as estava a escrever, eu não fazia a menor ideia.

Continuo a não fazer. E onde estaria a diversão de fazer algo que saberás que irá funcionar?

E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há histórias minhas que nunca foram republicadas. Algumas delas nem sequer saíram de casa. Mas aprendi tanto com elas como aprendi com as coisas que funcionaram. (…)


Num aparte pessoal, esta é possivelmente a minha parte favorita do discurso. Várias vezes relembrei – e apliquei – o conselho da boa arte. Não só ajuda a criar, também ajuda a lidar melhor com aquilo que nos está a deitar para baixo.

A terceira parte será a última, encontramo-nos lá!


Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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“Faz Boa Arte”: Um Discurso de Neil Gaiman [01/03]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Por: Elyon Somniare

Em 2012 Neil Gaiman discursou para os alunos da University of the Arts que se licenciavam. A sua mensagem tornou-se tão popular que os comentários pipocaram, traduções foram feitas e quadradinhos foram desenhados. Pessoalmente, posso dizer já ter seguido o(s) conselho(s) presente(s) nestas palavras, com resultados que muito me agradaram, e que pretendo continuar a segui-lo(s): além de ajudar à arte, ajuda à pessoa. E essa – arte e ser humano – é uma colaboração que nunca deve ser perdida de vista. Assim, apesar de ser já um discurso antigo e de provavelmente existirem outras traduções em português, considerei que tanto o blog quanto os seus leitores ficariam mais enriquecidos com um lembrete sobre a existência deste discurso. Devido, contudo, ao seu tamanho, terei de infelizmente o dividir em três partes. Eis a primeira dessas partes:


“Nunca esperei encontrar-me a aconselhar pessoas que se licenciam de um estabelecimento de educação superior. Eu próprio nunca me licenciei de nenhum estabelecimento do tipo. Nunca cheguei, sequer, a entrar num. Escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de ensino forçado antes de me poder tornar o escritor que desejava ser era sufocante.

Saí para o mundo, escrevi, e tornei-me um melhor autor à medida que escrevia mais; e escrevi mais um pouco, e ninguém nunca se pareceu importar por eu estar a inventar à medida que avançava, simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não pagavam, ou, com frequência, davam-me comissões para lhes escrever outra coisa qualquer.

O que me deixou com um respeito saudável e um carinho pela educação superior de que os meus amigos e familiares que frequentaram universidades já foram curados há muito tempo.

Olhando para trás, tenho tido uma viagem memorável. Não tenho a certeza se lhe posso chamar uma carreira, porque uma carreira implica que eu tenha tido algum tipo de plano de carreira, e eu nunca o tive. O mais próximo que tive foi uma lista que fiz quando tinha quinze anos de tudo o que queria fazer: escrever um romance adulto, um livro de crianças, uma comic, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de “Doctor Who”… e por aí fora. Não tive uma carreira. Simplesmente fiz o item seguinte da lista.

Então pensei em dizer-vos tudo o que eu gostaria de ter sabido quando comecei, e algumas coisas que, olhando para trás, eu suponho que sabia. E também em dar-vos o melhor conselho que alguma vez me deram, o qual falhei completamente em seguir.

Primeiro de tudo: quando começas uma carreira nas artes não tens nenhuma ideia do que é que estás a fazer.

Isto é óptimo. As pessoas que sabem o que estão a fazer conhecem as regras, e sabem o que é possível e impossível. Tu não. E nem deves. As regras do que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não testaram os limites do possível, não indo além deles. E tu podes fazê-lo.

Se não sabes que é impossível, é mais fácil de o fazer. E porque nunca ninguém o fez antes, nunca inventaram regras para impedir alguém de o fazer outra vez, por enquanto.

Segundo, se tens uma ideia daquilo que queres fazer, daquilo que foste aqui colocado para realizar, então simplesmente vai e fá-lo.

E isto é muito mais difícil do que soa e, por vezes, no final, muito mais fácil do que possas imaginar. Porque normalmente há coisas que tens de fazer antes que possas chegar ao lugar onde queres estar. Eu queria escrever comics e romances e histórias e filmes, então tornei-me um jornalista, porque aos jornalistas é permitido fazer perguntas, e simplesmente ir e descobrir como é que funciona o mundo, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisava de escrever e escrever bem, e estava a ser pago para aprender como escrever de forma objectiva, clara, por vezes sob condições adversas, e pontual.

Por vezes a maneira de fazer o que esperas fazer estará bem definida, e por vezes será quase impossível decidir se estás ou não a fazer o correcto, porque terás de equilibrar os teus objectivos e esperanças com a necessidade de te alimentares, de pagares as contas, de encontrar trabalho, de te acomodares com o que conseguires.

Algo que funcionou comigo foi imaginar que o ponto onde eu queria estar – um autor, primariamente de ficção, fazendo bons livros, fazendo boas comics, e sustentando-me com os meus trabalhos – era uma montanha. Uma montanha distante. O meu objectivo.

E eu sabia que desde que continuasse a caminhar na direcção da montanha, eu ficaria bem. E quando realmente não tinha certeza do que fazer, podia parar e pensar se aquilo me estava a levar na direcção da montanha, ou a afastar-me dela. Disse não a trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que me teriam dado dinheiro adequado, porque eu sabia que, ainda que atractivos, para mim eles teriam sido um afastar da montanha. E se essas ofertas de emprego tivessem surgido mais cedo eu poderia tê-las aceitado, porque teriam estado mais perto da montanha do que eu estava naquela altura.

Aprendi a escrever escrevendo. Eu tendi a fazer qualquer coisa desde que tivesse a sensação de aventura, e a parar quando a sentisse como trabalho, o que significa que a vida não teve a sensação de trabalho.

Terceiro, quando começas, tens de lidar com os problemas do falhanço. Precisas de ter pele dura, de aprender que nem todos os projectos irão sobreviver. Uma vida freelancer, uma vida nas artes, é, por vezes, como colocar mensagens em garrafas, numa ilha deserta, esperando que alguém encontre uma das tuas garrafas, a abra e a leia, e coloque na garrafa algo que retorne para ti: apreciação, ou uma comissão, ou dinheiro, ou amor. E tens de aceitar que podes despender uma centena de coisas para cada garrafa que retorna.

Os problemas do falhanço são problemas de desencorajamento, de falta de esperança, de fome. Queres que tudo aconteça e queres que aconteça agora, e as coisas correm mal. O meu primeiro livro – um trabalho de jornalismo que fiz por dinheiro e que já me tinha comprado uma máquina de escrever eléctrica em adiantado – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter-me dado uma data de dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente entrado em liquidação entre o esgotamento da primeira edição e o lançamento da segunda edição, e antes de quaisquer direitos de autor pudessem ser pagos, tê-lo-ia feito.

E encolhi os ombros, e ainda tinha a minha máquina de escrever eléctrica e dinheiro suficiente para pagar a renda por uns meses, e decidi que no futuro faria o meu melhor para não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se não tiveres o dinheiro, então não tens nada. Se eu fizesse um trabalho de que me orgulhasse, e não tivesse o dinheiro, pelo menos teria o trabalho.

Uma vez ou outra esqueço-me dessa regra e, sempre que o faço, o universo pontapeia-me e relembra-ma. Não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada do que fiz tendo como único propósito o dinheiro valeu a pena, excepto como experiência amarga. Usualmente também acabava a não ter o dinheiro. As coisas que fiz porque estava animado, e porque as queria ver a existir na realidade, nunca me deixaram mal, e nunca me arrependi do tempo que dediquei a cada uma delas.

Os problemas do falhanço são difíceis.

Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém te avisa sobre eles. (…)”


Não me esfolem. O post já vai longo e até aqui se recorre aos cliffhangers, ahah. A segunda parte desta tradução recomeçará com os problemas do sucesso, e avançará com o discurso.

Até lá!

Discurso e transcrição originais disponíveis aqui: http://www.uarts.edu/neil-gaiman-keynote-address-2012

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Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [3/3]

segunda-feira, 14 de março de 2016

Por: Elyon Somniare

Boas, juventude!

Eis-nos aqui reunidos para a terceira e última (Ufa!) parte das estruturas mais comuns que encontramos nas histórias desta vida. Se não leram as duas anteriores, não é essencial lerem a segunda (embora fosse engraçadito), mas convinha passarem os olhos pela primeira: é uma introdução importante que não irei resumir pelo facto de este artigo só por si já ser beeeem longo. E não gostaríamos de o prolongar ainda mais, não é?

Mas avante, camaradas! No artigo anterior vimos dez das estruturas mais comuns, e para nos mantermos dentro do planeado, temos mais dez pela frente:

11) Metamorfose

Esta é uma favorita pessoal minha. Aborda a mudança, tanto física como psicológica. São exemplos deste tipo “A Bela e o Monstro”, “Drácula” e “Metamorfose”. Usualmente há uma maldição e uma saída, a qual é com frequência a “cura” da maldição através do amor (de qualquer tipo, e não apenas romântico, cara-metade e afins).

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: No primeiro acto conhecemos o amaldiçoado, mas não as razões da maldição (eis a pitada de suspense!). E quem mais? O antagonista, claro, que aqui raramente coincide com o vilão. Pelo contrário, o antagonista neste tipo de enredo surge como o cataclismo que reverterá a maldição: o escolhido. Pode não saber que o é, e frequentemente é uma vítima (vide, a Bela de “A Bela e o Monstro”). É costumeiro o antagonista sentir uma repulsa inicial, mas não incomum ceder ao feitiço da metamorfose. A sensação que se transmite é que o antagonista é directa ou indirectamente cativo do metamorfo, que, a adicionar a isto, não pode explicar a sua situação de amaldiçoado. Um fervilhar de possibilidades para mal-entendidos, portanto.

Acto 2: Centra-se na relação entre o metamorfo e o antagonista.Este último torna-se menos severo em relação ao metamorfo, mas ganha também poder sobre ele. A haver amor, é aqui que ele começa, assim como a possibilidade de quebrar a maldição. A repulsa inicial vai, portanto, desaparecendo.

Acto 3: Os termos que regem o quebrar da maldição atingem o ponto crítico. Usualmente há um incidente que serve de cataclismo final, e a maldição e suas causas são, por fim, explicadas.

12) Transformação

Enquanto na Metamorfose temos uma mudança literal, aqui a mudança é “apenas” interior. O enredo acompanha o protagonista durante um período de mudança significativa, examinando o processo da vida e o seu efeito na pessoa.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: É neste acto que figura o incidente transformador que leva à crise, ou seja, é onde começa o processo de mudança.

Acto 2: Explora os efeitos da transformação, o que na maioria dos casos implica uma auto-examinação.

Acto 3: É a altura do incidente clarificador, que representa a fase final da transformação. A personagem compreender a verdadeira natureza da sua experiência e como isso a afectou. O ganho de uma maior sapiência costuma ser acompanhada por uma maior tristeza. (Porquê? Porque somos uns tristes.)

13) Maturação

É um dos enredos mais positivos, abordando o tema do crescimento. Sou incapaz de olhar para ele sem me lembrar de “Inside Out” <3 (Está tudo proibido de falar mal desse filme!). Ao longo do crescimento, há lições a aprender que podem ser difíceis, mas que no final tornam a personagem numa pessoa melhor. Difere da Transformação porque aborda uma mudança que acontece durante a passagem de criança para adulto, em vez de se centrar em adultos em processo de mudança.

Em vez de apresentar a estrutura em actos, irei deixar alguns dicas a ter em consideração da elaboração deste tipo de enredo:

♦ O protagonista encontra-se na iminência de se tornar adulto, tendo os objectivos confusos ou ainda não muito claros. O leitor deve conhecê-lo bem e saber como ele se sente e pensa antes de a acção começar.

♦ A vida inocente, algo naïve, do protagonista deve ser contrastada com a realidade.

♦ A histórica foca-se no crescimento moral e psicológico da personagem.

♦ Como já vimos em estruturas anteriores, também aqui é necessário um incidente que abale as crenças do protagonista e os seus entendimentos sobre como funciona o mundo. Não precisa ser algo rebuscado, pelo contrário. No já referido filme “Inside Out”, este incidente foi algo bem mundano: a mudança de cidade.

♦ A personagem aceita ou rejeita a mudança? Acaba por rejeitar primeiro e aceitar depois? Ou vice-versa? Estas questões devem ser ponderadas, pois delas vai depender muito o rumo da história.

♦ O processo de mudança deve ser demonstrado ao leitor, não esquecendo também que este é um processo gradual: tal é necessário para a verosimilhança. O leitor não irá confiar se a mudança for brusca e demasiado rápida porque, na realidade, isso não acontece. Assim, é aconselhável que seja feito através de pequenas lições.

♦ Não se esqueçam que estão a caracterizar uma criança, não um adulto em corpo de criança!
Para terminar a história, terão de decidir qual o preço psicológico da lição, e como lhe reage a personagem.
14) Amor

Chegou o Cupido! Sendo do tipo de enredo mais frequente, existem, naturalmente, vários tipos. A estrutura mais comum é, no entanto, a dos amantes que se encontram e são separados (oh, crueldade) e, por isso, será o aqui abordado.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Os protagonistas são apresentados ao leitor (e por vezes um ao outro), começando e estabelecendo a sua relação. No final desta fase estão apaixonados (theyfondlove!), mas algo acontece que os separa.

Acto 2: Os amantes separam-se. Pelo menos um deles tenta reaproximar-se do outro, o qual ou espera pacientemente, ou rejeita as tentativas de aproximação. Pode haver uma luta com um antagonista.

Acto 3: Os amantes reúnem-se, devido ao amante activo, que encontra um modo de ultrapassar todos os obstáculos. E não podem ser os dois activos e fazer isso? Podem. O que interessa é que o amor foi testado e é agora maior e melhor.

Algumas dicas extra:

♦ Clichés não são necessariamente maus, mas é aconselhável que se evite o óbvio.

♦ O amor não acontece com facilidade. Sério. O leitor está cada vez menos disposto a suspender a crença para amor de bater o olho e tcharan!

♦ Não tem de ter um final feliz. (Boas notícias para quem gosta de angst, más notícias para quem gosta de fluffy.)

♦ As emoções das personagens são um ponto-chave, então é aconselhável que sejam beeem trabalhadas.

15) Amor Proibido

É todo aquele que vai contra as convenções duma sociedade, e, por isso, temos uma força implícita ou explícita a ir contra os amantes. São exemplos romances que se centram em adultério (“Anna Karenina”), incesto (“Os Maias”), homossexualidade (“Um Toque de Veludo”), diferença de idades, etc.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Define as personagens, a sua relação, e o contexto social onde se inserem. Que tabus são quebrados? Como lhes reagem as personagens e aqueles à sua volta?

Acto 2: A relação é posta à prova e ou começa a dissolver-se, ou fica sob grande pressão para o fazer.

Acto 3: Retrata a fase final da relação, onde usualmente os amantes são separados (por morte, por deserção, ou à força). Não é, contudo, obrigatório que o sejam, podendo continuar com uma relação secreta, fugir juntos… Apenas não é o mais comum e, ao fazê-lo, convém que o final seja credível.

16) Sacrifício

Assim como em enredos anterior, também este foca em uma transformação do protagonista, contudo, o foco encontra-se nos sacrifícios feitos ao longo do caminho, tendo um forte dilema moral como o centro da história.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O sacrifício vem a um grande custo pessoal, físico ou psicológico. O protagonista deve percorrer uma transformação importante para um estado moral mais alto que o possuído.

♦ Os eventos devem forçar a decisão do protagonista. Todos eles devem ser um reflexo do protagonista, testando-o e desenvolvendo-o.

♦ O protagonista deve estar bem construído, de modo a que o leitor compreenda o seu progresso ao fazer o caminho do sacrifício. As motivações devem, também, estar claras.

♦ A linha de acção equivale à linha de pensamento do protagonista.

17) Descoberta

O foco e o interesse estão mais na personagem a fazer a descoberta que na descoberta em si. Começa demonstrando quem é a personagem antes de as circunstâncias mudarem a forçarem em novas situações. Passado, presente e futuro são cruzados para alcançar isto, mas atenção para não se exagerar.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O cataclismo que força a mudança de equilíbrio para desiquilíbrio não pode ser trivial, mas algo importante para a personagem e interessante para o leitor.

♦ A proporção é essencial! A emoção e a acção devem ser balanceadas, e convém evitar melodrama.

♦ Coloco particular ênfase aqui, porque detesto quando o autor faz isto: não forçar ou doutrinar mensagens através da personagem. Deixem que sejam as acções da personagens, ou os eventos, a falar.

18) Excesso Infeliz

Geralmente é sobre o declínio psicológico duma personagem, o qual deverá ser baseado numa falha de carácter da dita personagem.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Como é a personagem antes dos eventos a começarem a mudar.

Acto 2: Como é a personagem à medida que ela gradualmente se deteriora.

Acto 3: O que acontece depois de os eventos alcançarem o ponto crítico, forçando a personagem a ceder completamente à sua falha (no caso de tragédia) ou a recuperar dela.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ Desenvolver a personagem não como um lunático, mas como alguém cujo declínio evoque simpatia, até mesmo empatia. O seu desenvolvimento é particularmente importante, pois o leitor tem de sentir a personagem como real. É aconselhável que se evite melodrama e que não se force mais sentimento do que aquele que o episódio pode abarcar.

♦ Não esconder informação que leve à simpatia do leitor pela personagem. Pelo mesmo motivo, não colocar a personagem a cometer crimes sem que haja uma grande compreensão de quem ou o que a personagem é. No ponto crítico ela deve mover-se ou para a redenção, ou para a total destruição, não permanecendo no limbo: o leitor não costuma gostar de final em aberto e não encara tal situação lá muito bem.

♦ A acção deve estar sempre ligada à personagem: os eventos acontecem porque ela faz ou não faz certas coisas.

♦ Sejam realistas. Pesquisem para saber e compreender a natureza do excesso que caracteriza a vossa personagem, não caindo na facilidade de desculpar com “loucura”.

19 e 20) Ascensão e Queda

Duas faces de uma mesma moeda, os nomes destes tipos de enredo são já auto-explicativos. O foco tende a ser numa única personagem (o protagonista), a qual deve ter força de vontade, ser carismática e aparentemente única. Todas as outras personagens revolvem à volta desta. Também aqui o enredo se centra num dilema moral, que testa a personagem e é a origem do cataclismo de mudança.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ A personagem e os eventos são próximos: tudo o que acontece é por causa da personagem.

♦ É uma mais-valia tentar mostrar a personagem como ela era antes do acontecimento de maior mudança, de modo a que haja uma comparação. Mostrem a mudança progressiva da personagem como resultado dos eventos. Se é uma história sobre uma personagem que ultrapassa circunstâncias horríveis, mostrem a sua natureza ainda nessa fase. Mostrem como a personagem foi de uma fase para outra sem saltar entre elas.

♦ As razões da queda devem existir, não sendo a dita queda um mero acaso. Ao longo do enredo, podem tentar pequenas/médias ascensões e queda, não fazendo apenas uma só grande ascensão e queda. Procurem variar as circunstâncias de vida da personagem e a intensidade dos eventos (com certeza não têm todos o mesmo peso na vida da personagem).

Respiremos fundo. Porque chegamos ao fim e, não sei quanto a vocês, mas eu estou exausta. Com certeza notaram que muitas dicas e sugestões cruzam os vários tipos de enredos abordados, o que só demonstra que algumas coisas são comuns aos enredos em geral. E, mais um vez, isto não se trata de regras, mas de ajudas.

Espero que estes artigos vos facilitem a hora de planear e escrever as vossas histórias!

Até uma próxima.


REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master PlotsandHowto Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999
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Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [2/3]

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Por: Elyon Somniare

Ohayo!
Na primeira parte desta sequência de artigos não passamos da introdução, mas julgo não estar errada em dizer que valeu a pena, que muito houve naquela introdução que se aproveitasse (razão pela qual sugiro que, se ainda não a leram, o façam antes de começar este). Mas desta vez estou particularmente empenhada em começar com as estruturas em si, e vou lançar o wild guess que vocês também têm algum interesse nisso, então, adiante, e para a frente com as estruturas mais comuns a determinados tipos de enredo!

1) Demanda.
Este tipo de enredo caracteriza-se por colocar o protagonista em busca de algo, físico ou não, que é tudo para ele. Ao contrário do que acontece nos filmes do Indiana Jones, por exemplo, este objecto de busca é, em si próprio, a razão do enredo, ao invés de ser uma desculpa para a acção. Ademais, tem ainda um grande papel sobre a personagem, influenciando-a e mudando-a, usualmente em consequência do conhecimento ganho. O comum neste tipo de enredo é a personagem começar e acabar em casa, enquanto pelo meio está sempre em movimento.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: Estabelece a personagem no seu ponto de partida, bem como a “casa”, mas também qual o motivo da demanda do protagonista, demonstrando a força que o leva a mover-se, seja por necessidade, seja por desejo. Coloca a pergunta que será respondida no acto 3.
Acto 2: É a viagem, onde os obstáculos e peripécias se encontram, e o que torna a história interessante.
Acto 3: É onde se encontra a resposta da pergunta colocada no acto 1. É aqui que se dá a revelação, quando a personagem obtém - ou vê recusado - aquilo que deseja.
Quais as dicas a ter em conta neste tipo de enredo?
⚈ Não esquecer que, desde o seu início até ao fim, a demanda implica uma mudança na personagem. Por essa mesma razão, o foco encontra-se no conhecimento;
⚈ Deverá haver um incidente inicial, e não começar a demanda só “porque lhe apeteceu”. Enquanto leitora posso afirmar: é de revirar os olhos quando o autor faz isso;
⚈ Um companheiro de viagem evita que a dita se torne demasiado interior;
⚈ O que a personagem encontra é muitas vezes diferente daquilo que originariamente procurava.

2) Aventura
Assemelha-se em muito à Demanda, estando a diferença no facto de o foco ser mais na acção que na personagem (mente vs corpo). Os eventos tornam-se importantes pela causa-consequência e um bom exemplo deste tipo de enredo são os contos-de-fadas tradicionais.
Ao contrário da Demanda, a personagem não muda necessariamente, e o que usualmente procura é a fortuna que raramente encontra em casa. Mas também esta partida pelo mundo é incentivada por algo ou por alguém.

3) Perseguição
Podemos dizer que é a versão literária do jogo das escondidas. A sua estrutura básica é bem simples, podendo ser resumida em: estabelecer o herói e o vilão, bem como o porquê de um estar atrás do outro. Um bom exemplo deste tipo de enredo são as personagens Coiote e Bipbip dos Looney Toons.

4) Resgate
A denominação já é um pouco auto-explicativa, e o que logo se salienta é a trindade de personagens Vilão - Herói - Vítima.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: A separação (entre o herói e a vítima) apresenta-se como incidente de motivação, ou seja, o que vai levar o herói a querer resgatar a vítima. Consequentemente, estabelece as identidades do herói e da vítima, bem como a sua relação.
Acto 2: O resgate em si: os obstáculos e o ultrapassar dos ditos. É um acto definido primariamente pelas acções do antagonista.
Acto 3: O confronto entre o antagonista e o protagonista, ou seja, no caso, o vilão e o herói. E, espera-se, a libertação da vítima.

5) Fuga
Refere-se a uma fuga física e não mental. Em que difere do Resgate? Um único e fulcral detalhe: a vítima liberta-se a ela mesma.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O protagonista é preso, seja por um crime real ou imaginário (por ex.: alguém armou para o protagonista).
Acto 2: Foca na prisão e nos planos de fuga. Naturalmente, as falhas nos planos de fuga são aqui exploradas, dando-se os plot twists que conferem interesse à história.
Acto 3: Dá-se a fuga em si. Podem surgir complicações, mas é neste momento que o protagonista finalmente tem vantagem sobre o antagonista, seja a instituição que o prende, seja quem tramou para o prender (caso seja essa a situação).

6) Vingança
Em enredos de Vingança o foco encontra-se na retaliação do protagonista ao antagonista por uma ofensa real ou imaginária. Um bom exemplo deste tipo de enredo é a peça Hamlet, de Shakespeare.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: É quando se dá o crime, sendo que o herói nada pôde fazer. Algumas histórias começam já depois do crime, no entanto, optar por descrevê-lo é um modo de criar empatia entre leitor e protagonista.
Acto 2: A vingança (mwahahaha). O herói faz os seus planos de vingança/acção. Usualmente há uma terceira parte que tenta impedir estes planos, podendo ou não acabar por ajudar o herói.
Acto 3: O confronto. Se a vingança for referente a uma só pessoa, é neste momento que ela se desenrola. Se a vingança for dirigida a um grupo de indivíduos, então tem-se vindo a desenrolar desde o acto 2, sendo que aqui encontra o “big boss”. Atenção que o facto de ser uma vingança não implica que seja violenta.
Quais as dicas a ter em conta neste tipo de enredo?
⚈ Estabelecer primeiro a vida normal do protagonista, aquela que ele levava antes de se dar a ofensa que desencadeia os acontecimentos do enredo;
⚈ É aconselhável que o protagonista tente primeiro resolver a ofensa com os meios tradicionais (ex: indo à Polícia). Naturalmente, na generalidade dos casos isso falha;
⚈ Deverá haver um equilíbrio entre a ofensa e a vingança. De outro modo, o protagonista corre o risco de “perder a razão” aos olhos do leitor e, por consequência, a empatia, podendo vir a ser encarado como o vilão e não como herói;
⚈ A vingança tem um forte poder emocional, podendo ser encarada como o grande preço a pagar (visão geralmente encontrada nas peças gregas) ou como trazendo alívio e justiça às personagens.

7) Mistério
É o tipo de enredo que usualmente se encontra nos livros policiais e, tcharãn, de mistério. (Alguém falou em Agatha Christie?). Usualmente vai dando pistas ao leitor sobre o que ele precisa de saber, mas não serão óbvias.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O crime, a vítima e quem vai resolver o crime são apresentados. O panorama geral também é estabelecido e as questões são colocadas. (“Sempre eu, caramba, por que não o Carlos da Contabilidade?” como questão a ser colocada pela vítima seria hilariante, mas como usualmente ela já está morta, não aconselho.)
Acto 2: O leitor acompanha a resolução do mistério. É o momento ideal para dar pistas, mas disfarçando-as na narração e no ambiente. O equilíbrio ideal é entre algo que o leitor se lembre depois, mas que no momento em que a leia não pense “Ahá! Uma pista!”, ou seja: a aplicação prática do conceito de foreshadowing. Agatha Christie, uma das mestras deste género de enredo, também costuma colocar personagens com segredos secundários, nem sempre relacionados com o crime, de forma a despistar.
Acto 3: O mistério é resolvido. As razões do antagonista são explicas, e o leitor é colocado a par da verdadeira sequência de eventos.
Pode, no entanto, não haver uma resposta clara ao mistério: tudo depende do tipo de audiência que se visa, e do que se pretende transmitir. Kafka, por exemplo, termina muitas das suas obras sem clareza, visto que pretende transmitir a ideia de que a vida não tem respostas certas e óbvias. (Pessoalmente, considero estes finais muito frustrantes, ahah.)

8) Rivalidade
Rival não é necessariamente alguém que deseja mal ao outro, mas sim alguém que compete pelo mesmo objecto ou objectivo que o outro. Cada um tem a sua motivação e tipos diferentes de falhas. A força, no entanto, será similar, ainda que não igual: o ponto essencial é que as respectivas forças os colocam com as mesmas possibilidades. Um exemplo muito explorado disto é o afamado triângulo amoroso.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O “terreno comum” é estabelecido e dá-se início ao conflito. Um ganha terreno sobre o outro e a competição começa. Usualmente, o protagonista sofre um acto do antagonista e começa em desvantagem.
Acto 2: É o momento de pôr a funcionar os eventos que invertem a má sorte/posição do protagonista, colocando-o novamente ao nível do antagonista. É lançado um desafio ao antagonista, invertendo-se a situação do Acto 1. Frequentemente o antagonista está consciente disto, o que aumenta a tensão.
Acto 3: Que outra coisa se não o confronto? O resultado (quem vence) depende da escolha do autor, no entanto, como bem sabemos, a preferência costuma ir para o protagonista.

9) Underdog/Oprimido
De certa forma pode ser considerado como um ramo da Rivalidade. A diferença é que o protagonista tem capacidades, ou encontra-se numa situação, abaixo do antagonista. Deste modo, existe uma maior identificação com o leitor, pois ele é “um de nós”: todos sentimos opressão em relação a algo que achamos que não conseguimos vencer. O underdog partilha isso connosco, com a diferença de que consegue vencer (ora a ver se isso não dá ao leitor um boost de esperança e optimismo! Por isso toda a gente gosta de underdogs). A estrutura é similar à da Rivalidade, mas a ênfase encontra-se no desejo realmente forte do underdog em ter sucesso: como consequência, é aconselhável que o autor desenvolva bem os seus motivos.
No entanto, é preciso ressalvar que não convém colocar obstáculos totalmente irrealistas. O sucesso tem de ser algo que já era possível, ainda que minimamente. A palavra-chave será verosimilhança. 

10) Tentação.
Saquem das vossas maçãs, serpentes, chegou o enredo que foca na fragilidade na natureza humana! Como tal, centra-se mais na personagem que na acção, analisando motivos, necessidades e impulsos. O conflito dá-se no interior da personagem, sendo que se reflecte no exterior. Dica: não esquecer que cada tentação tem um preço.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: É estabelecida a natureza do protagonista e, se houver, a do antagonista. É também determinada a natureza da tentação, o seu efeito sobre o protagonista, e como ele lhe reage. O protagonista pode lutar contra a tentação, mas eventualmente acaba por lhe ceder. Segue-se frequentemente um período de negação, em que o protagonista tenta racionalizar uma desculpa ou justificação.
Acto 2: Reflecte os efeitos de ceder à tentação. O protagonista pode ter tido benefícios a curto prazo, mas o preço começa a surgir, e o lado negativo emerge. Este é o momento em que os efeitos negativos dominam e se intensificam.
Acto 3: Depois da tempestade… Vem a bonança! O conflito interior do protagonista resolve-se, e temos a expiação, a reconciliação e o perdão. 

E aqui, juventude, fazemos uma pausa, porque este artigo já vai longo, vocês já devem estar a rilhar os dentes, e já chegamos a metade das estruturas que serão abordadas. E toda a gente sabe que se é para dividir alguma coisa, que seja pela metade (vide, Rei Salomão).
Vejo-vos na terceira (e última parte)!



REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master Plots and How to Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999

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Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [01/03]

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por: Elyon Somniare

Saudações, jovens canários pipilantes!

Há muito, muito tempo, numa galáxia distan… Bom, está bem, nesta nossa galáxia, estreei-me no blog da Liga com um artigo sobre uma das estruturas mais famosas de todo o sempre: A Jornada do Herói. No entanto, essa está longe (muuuuuito longe) de ser a única estrutura passível em histórias. E desde então eu tenho tido a ideia de abordar algumas das outras, não de forma tão detalhada, mas com certeza dando informação suficiente para se tornarem úteis a alguém, e tentando, ao mesmo tempo, abranger um bom número. E assim, juventude, nasceu esta série de artigos, que, se cumprir com os seus planos direitinhos como eu sei que irá cumprir (otherwise eu sou uma pessoa que não atinge os seus objectivos), irá debruçar-se sobre os vinte tipos de estruturas mais comummente usados e abusados nas nossas artes.
Mas antes demais… Ainda se lembram da diferença entre estrutura e enredo? Fear not! Isto não é um exame, o vestibular ou um quizz! Eu relembro: a estrutura é a ordem pela qual um autor coloca os seus eventos, enquanto o enredo serão os eventos em si, bem como a relação causa-efeito dos acontecimentos (porque X aconteceu, Y seguiu-se, ou seja, porque o Manel traiu a Maria, a Maria mandou o Manel pastar).
Há vários modos de dividir os “momentos” de um enredo, e, tanto quanto sei, todos são válidos, não havendo propriamente um “este é melhor que aquele”, mas mais um “dou-me melhor com este do que com aquele”. Como estes artigos se irão basear no livro “Twenty Master Plots and How to Build Them”, de Ronald B. Tobias, e se destinam a passar por vários enredos com relativa simplicidade, irão seguir as divisões nele apresentadas: a estrutura tripartida do Começo, Meio e Fim. E podemos começar, já por aqui, abordando o que todas as vinte estruturas que iremos ver têm em comum:

🐁 Começo: O ponto de partida de qualquer história. É onde se define as personagens, bem como os desejos do protagonista. Aristóteles (que ao fim de anos e anos continua a ter a sua Poética muito considerada no meio literário e académico, o safado) escreveu que uma personagem ou quer alegria ou quer miséria - oh, por favor, não me vão dizer que por mais estranho que pareça, não se conseguem lembrar duma só pessoinha que pelas coisas que faz ou diz parece mesmo, mas mesmo, que o seu maior desejo é ser uma miserável. Mas adiante, este é o momento em que nos devemos questionar “O que é que a minha personagem quer?”

🐁 Meio: Aristóteles, mais uma vez a meter aqui o nariz, descreve o Meio como “o nascer da acção”. O desejo que foi definido no Começo leva à acção: a personagem persegue o seu objectivo, demonstrando, então a sequência causa e efeito. Por exemplo: Pinóquio deseja ser um “menino de verdade”. Todos os eventos que se seguem ao longo da história são consequência/efeito desse desejo/causa.
É também aqui que a personagem encontra problemas e obstáculos, tendo de os ultrapassar. Por conta disso, verificamos alterações nas personagens e entre as suas relações: há uma mudança emocional, frequentemente expressa com um crescimento das personagens. Já lá diz o provérbio que “O que não mata engorda”. Metaforicamente falando.

🐁 Fim: É o resultado lógico dos eventos anteriores. Aqui temos o clímax onde tudo é exposto, clarificado e explicado. Convém que faça sentido, lembrem-se que até Alice no País das Maravilhas tem um fim que o leitor compreende, e essa é uma das obras mais emblemáticas a nível do nonsense.
O que também seria bom ser aqui evitado: Deus ex Machina. Ou seja, evitar soluções caídas do céu, exteriores às personagens, que claramente só ali surgiram para salvar o dia, e depois de o fazerem desaparecem tão repentinamente quanto surgiram. Remember: o final é o resultado lógico dos eventos anteriores, não algo despegado e independente de tudo o que tem para trás.

Agora que temos o geral tratado está tudo pronto para avançar para os enredos específicos? Errr… não. O senhor Tobias alongou ainda a introdução do seu livro com oito regras a serem tidas em conta durante a narrativa. Tal como qualquer regra de escrita, convém que tenham delas conhecimento: e tal como qualquer regra de escrita, depois de aprendidas é para serem quebradas conforme a história o exija. Muito melhor do que as leis judiciais, que quando violadas dão julgamento, não é? Mas adiante:

1) Faz da tensão o combustível do teu enredo. Sem tensão a história torna-se aborrecida, parecendo não ter propósito. Peguemos no exemplo das histórias “boy meets girl”. Sem tensão, este tipo de histórias resumir-se-ia em: ele pede-a em casamento, ela diz que sim. Fim. É preciso haver obstáculos pelo meio, sendo esses mesmos obstáculos a origem da tensão.

2) Cria tensão através de oposição. Cada protagonista precisa de um antagonista, algo ou alguém que se lhe opõe, colocando-se entre o protagonista e aquilo que o protagonista deseja. O antagonista pode ser externo (um vilão, um rival, mera competição) ou interno (a tentativa de ultrapassar um trauma, um medo, uma dúvida ou um defeito). Ou seja, o antagonista não é necessariamente uma pessoa, podendo também ser uma coisa, um espaço, um sentimento. Ademais, a sua oposição ao protagonista pode, também, não ser intencional. Dúvidas? Temos artigos no blog especificamente voltados para esta figura!

3) A tensão aumenta à medida que a oposição cresce. Na tentativa de alcançar o seu objectivo, o protagonista enfrenta um crescente número de dificuldades que, por sua vez, aumentam a tensão até chegar ao clímax. Só um conflito inicial não chega, outros se colocam e, através deles, as personagens são exploradas. Voltando ao exemplo de “boy meets girl”. O Hermínio apaixona-se pela Gertrudes e quer namorar com ela. Mas o Hermínio namora já com a Petúnia: conflito. Após várias peripécias que, por exemplo, as novelas sabem explorar como ninguém, e que constituem a tensão, o Hermínio acaba o namoro com a Petúnia: temos a resolução, e o Hermínio é um jovem livre para namorar com a Gertrudes. Fim.

4) Faz com que a mudança seja a razão da tua história. Que quer isto dizer? Apenas para que tenham em atenção que os eventos alteram a personagem. Tal como aquilo que nos acontece na vida contribui para a formação do nosso carácter, também o mesmo deverá acontecer com as nossas personagens. De outro modo, as personagens serão coisitas estáticas que por ali andam, em nada credíveis.

5) Quando alguma coisa acontece, faz com que seja importante. Não sei quantos de vocês saberão disto, mas eu lembro-me de ter ficado zangadíssima com um tipo que, no que agora vejo ser uma tentativa triste e desesperada de querer chamar a atenção, escreveu um artigo defendendo a imundice de Harry Potter porque, fiquem comigo nesta, os livros praticamente não tinham descrições das idas do protagonista à banheira. Yep. Isso mesmo. Porque descrever os banhos do rapaz é uma coisa tãaaaaao importante e influente para o enredo, não é? *sarcasm over* Claro que isto é um exemplo extremo, mas expressa bem o que esta regra pretende passar: o acontecimento é importante para o enredo, caracterização, personagens, etc? Óptimo! Não é? Então talvez seja altura para se fazer alguns cortes e ajustes.

6) Faz com que o causal pareça casual. Não esquecer que estas relações causa-consequência fazem parte da estrutura da história. A estrutura pode ser comparada com o esqueleto: nós não andamos com o nosso esqueleto à mostra, andamos? (Se sim, por favor dirijam-se ao centro hospitalar mais próximo.) Também as histórias precisam de ter o seu esqueleto coberto pelos músculos, carninha, pele…

7) Deixa a sorte e a coincidência para a lotaria. Ok, um e outro existem na vida real, é certo, mas numa história? O leitor usualmente não gosta e a verdade é que na grande maioria das vezes o autor só o faz por preguiça de planear ali qualquer coisa.

8) Faz com que a tua personagem principal actue na acção principal do clímax. Para quê ter um protagonista se as coisas lhe vão passar ao lado? Para quê ter um protagonista se as coisas acontecem sem ele mexer um dedo? Uma história quer um protagonista, não um peso-morto que tanto faz como se lhe deu estar ali ou não. E, como é protagonista, claro que tem de ser na acção principal.


E por enquanto é tudo, pessoal. Foi uma hell of an introdução, em que nem chegamos a falar das tais vinte estruturas mais utilizadas, mas worry not! Elas seguir-se-ão em breve com os próximos artigos. Até breve!


REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master Plots and How to Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999
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National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin

segunda-feira, 21 de setembro de 2015
National Book Awards: O Discurso da Autora Ursula K. Le Guin
Tradução por: Elyon Somniare

Saudações, juventude!
Hoje vamos deixar-vos com uma pequena tradução: o discurso da autora Ursula K. Le Guin, aquando o recebimento do prémio National Book Awards. Como as palavras delas têm mais conteúdo que as minhas, vamos lá!

“Obrigada, Neil [Neil Gaiman, quem anunciou o prémio], e os meus agradecimentos do fundo do coração aos atribuidores deste lindo prémio. A minha família, o meu agente e os meus editores sabem que o facto de eu estar aqui é tanto devido a eles como a mim, e que este lindo prémio é tanto deles como meu. E regozijo-me ao aceitá-lo por, e a partilhá-lo com, todos os autores que foram excluídos da literatura por tanto tempo, os meus companheiros, os autores de Fantasia e Ficção-Científica — escritores da imaginação, que durante os últimos cinquenta anos viram os lindos prémios serem atribuídos aos tão-chamados realistas.
Penso que tempos difíceis se aproximam, tempos em que quereremos as vozes de escritores que podem ver alternativas ao modo como vivemos agora e que conseguem ver através da nossa sociedade, acometida pelo medo e pelas suas tecnologias obsessivas, até outros modos de ser, e até mesmo imaginar alguns terrenos reais de esperança. Vamos precisar de escritores que se possam lembrar de liberdade. Poetas, visionários – os realistas de uma realidade maior.
Neste momento, julgo que precisamos de escritores que saibam a diferença entre a produção de mercado e a prática de uma arte. Desenvolver material escrito para se adequar a estratégias de vendas, em ordem a maximizar o lucro corporativo e o rendimento publicitário, não é exactamente a mesma coisa que publicação e autoria responsáveis.
No entanto, vejo departamentos de vendas a terem controlo sobre o factor editorial; vejo os meus próprios editores num pânico tonto de ignorância e cobiça, cobrando a bibliotecas públicas seis ou sete vezes mais por um ebook do que aquilo que cobram a um cliente. Vimos há pouco tempo um aproveitador tentar castigar um editor por desobediência, e escritores ameaçados por leis corporativas, e vejo muitos de nós, produtores que escrevemos e fazemos os livros, a aceitar isto. Deixamos que os exploradores de mercadoria nos vendam como desodorizante, nos digam o que publicar e o que escrever.
Os livros, sabem, não são apenas mercadoria. O objectivo do lucro está frequentemente em conflito com a aspiração à arte. Vivemos no capitalismo. Parece ser impossível escapar ao seu poder. Assim também parecia o poder divino dos reis. Todo o poder humano pode ser resistido e desafiado por seres humanos. Resistência e mudança começam frequentemente na arte, e frequentemente na nossa arte – a arte da palavra.
Tenho tido uma carreira longa e boa. Em boa companhia. Agora, no final dela, não desejo ver a literatura americana a ser traída. Nós que vivemos da escrita e da publicação queremos – e devemos exigir – a nossa justa parte dos proventos. Mas o nome do nosso lindo prémio não é lucro. É liberdade.
Obrigada.”

Le Guin abordou dois dos temas que mais são discutidos entre as comunidades de escritores e leitores, não apenas americanas, mas em geral: a resistência em encarar os géneros da Fantasia e da Ficção Científica como “literatura séria”, e o dilema da “arte vs lucro” que nos é trazido aquando a chegada — ou tentativa de — dos livros ao mercado. Julgo que a opinião da afamada escritora em um e outro assunto ficou bem clara nas suas (poucas) palavras. Qual é a vossa?

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Tipos de Autor

terça-feira, 9 de junho de 2015

Por: Elyon Somniare


Saudações, jovens bolinhos de caramelo!

Recordam-se do artigo cómico-mas-sabem-que-são-um-deles do tipo de leitores? Pois é, esta moeda tem duas faces e como podem os leitores existir sem autores? Também os autores são criaturas fascinantes capazes de serem categorizados em um ou mais (ou repartidos por!) tipos. Primeira distinção a fazer: os Tipos de Autores Atendendo às Histórias e os Tipos de Autores Atendendo ao Seu Comportamento.

Deixemo-nos então de paleio e passemos aos Tipos de Autores Atendendo às Histórias:


1) Autor Sean Bean: Morre tudo. Mete o Romantismo Português num sapato e George R. R. Martin é um amador ao seu lado. A sua lista de histórias está mais para um cemitério que para uma página de internet.

2) Autor Chorar as Pedras da Calçada: Quer as personagens morram quer não, este autor arranca a pele da nossa alma e deixa a carne viva dos nossos sentimentos em sofrimento profundo. Assim como o MACHO-QUE-É-MACHO nomeia os seus punhos, também este autor nomeia as suas mãos: a Angst e a Drama.

3) Autor Gato Pardo em Noite Escura: Pode ser fandom ou ship, mas qualquer uma destas opções tem algo que é garantido: é obscuro. Uma pessoa clica na categoria e tem duas fics. Do mesmo autor. Por vezes três, mas aí notamos que uma delas foi mal categorizada. É, este autor anda pelos becos escuros do fic world.

4) Autor .rar: Não importa quanta trama, quanto enredo, quantas personagens. O capítulo não vai passar das quinhentas palavras, e só não fica abaixo das cem porque o Nyah estabeleceu limite mínimo (rumores correm que o fez por conta deste Autor).

5) Autor TCC: Rumores correm que por conta deste Autor o Nyah estabelecerá um limite máximo (rumores são frequentemente falsos). Não importa quanta vagueza, quanta falta de enredo, se a personagem é só uma ou mesmo nenhuma. Cada capítulo é uma tese e o autor olha o mundo como olha um NaNoWriMo eterno.

6) Autor Kinder Ovo: No ovo que é a sua história, cada final é uma surpresa. Pode ser algo bom e extraordinário que nos faz ainda querer estes ovos vinte anos depois de termos deixado a infância.
Ou pode ser um puzzle.

7) Autor Nora Roberts: A história é Policial eeee… Olha, Romance. A história é Mistério eeee… Olha, Romance. A história é Fantasia eeee… Olha, Romance. Não importa a categoria da história. Não importa que a sinopse diga ser sobre as atribulações da primeira colónia da Terra em Marte. Não importa que o Prólogo apresente o relato pormenorizado de um assassinato com requintes de crueldade. Não-im-por-ta. O Romance vai dominar e prontamente colocará quaisquer outros elementos do enredo em segundo plano.

8) Autor Barroco: Se as suas histórias se materializassem, seriam um altar em talha dourada com tanto anjo, tanta parra, tanta uva e tanto detalhe que uma pessoa nem se sente tentada a rapinar aquilo só por conta do trabalho que seria desmontar tudo para venda no mercado negro. Este Autor quer tanto, mas tanto escrever de forma bonita e poética que se esquece de dar sentido ao conteúdo. Embelezar a escrita, ok. Arrancar-lhe o sentido, menos ok.

9) Autor Déjà-vu: Também conhecido por Autor Dan Brown. Lemos uma história, está fixe. Lemos outra história, sentimos uma ligeira comichão, algo como um eco… Lemos outra história “Espera aí… Eu já li isto!” Pois é, pois é. Este Autor é aquele que, descobrindo uma fórmula, não consegue usar outra coisa, acabando por dar a sensação ao leitor de estar a mascar uma chiclete que há muito já perdeu o sabor.

10) Autor Kamasutra: É Orange, é Lemon, é Hentai. A salada pode ser de uma só fruta ou de várias, a certeza é esta: cada história, cada capítulo, terá sexo. Bem ou mal descrito, bem ou mal inserido, com ou sem enredo, o sexo está lá. E se reclamar tem especial de suruba.

11) Autor Eu Devia Estar a Pagar Para Ler Isto: Ah. Este Autor. Este Autor é aquele autor perfeição que uma pessoa se questiona se não será também missionário para colocar assim aquela maravilha de história na net, de graça, para toda a gente ler. Este, meus queridos, é o Autor que deveria ter publicado a sua história em livro, livro esse que iria direitinho para a nossa biblioteca privada, e irá mesmo caso o Autor se decida ainda em publicar.

Há mais? Pois claro que há mais, mas o artigo prolonga-se e ainda temos uma outra categoria a listar. Levantados assim os principais Tipos de Autores Atendendo às Histórias, fiquemos então com o mais comuns Tipos de Autores Atendendo ao Seu Comportamento:
1) Autor Nova Temporada de Sherlock, Moffat: Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém ouviu. Este Autor escreve divinamente, eleva os nossos parâmetros de leitura de fics, deixa-nos a salivar pelo capítulo seguinte… E desaparece. Para voltar com novo capítulo, de umas dez mil palavras, um ano depois. Por vezes traz também umas desculpas consigo, a promessa de não voltar a desvanecer-se por tanto tempo. Outras nem se dá ao trabalho. Já sabe que voltará a fazer o mesmo – e nós também.

2) Autor Atlântida: Dizem que a sua história existiu. Por vezes aparece alguém a contar sobre um amigo de um amigo que ainda leu uns capítulos. Ou com vestígios que dizem ser tudo o que resta dessa história. Não sabemos. Dizem que existiu, mas que o autor, do nada, lançou o apocalipse sobre a história e apagou-a da eternidade. Pior ainda é quando isto parece acontecer com várias das suas histórias ou *arquejo de horror* com o próprio perfil do Autor.

3) Autor Pontualidade Britânica: Àquele dia, àquela hora, àquele minuto, o capítulo está postado para leitura. Não há preguiça, não há bloqueio, não há compromisso social que impeça este Autor de cumprir escrupulosamente a meta que ele próprio determinou. A pontualidade britânica pode já ser mais fama que realidade, mas a deste Autor never!

4) Autor Olha a Chantagem: Não tem 7578392276 comentários na fic? Não tem 752816562 recomendações? Pois que se lixe quem está a acompanhar a história com reviews no momento em que o novo capítulo sai, ou que opta por usar o pouco tempo livre que lhe aparece para se dedicar àquela fic. Isto a partir de agora é uma vending machine: sem enfiar a moedinha e chegar ao numerário X, não há actualização.

5) Autor Alagoinha: Este Autor nunca sabe muito bem onde está. Acordou despassarado ao pé de uma mini-lagoa e não sabe ainda o que fazer. Também anda meio atarantado. “Epah, esta minha história de Naruto não é Original? Mas se a história é minha…” “Como assim, sexo tem de ser +18? Mas se eu é que escrevi e tenho treze…” “Quer ler minha história? Como assim, vai denunciar por enviar propaganda por MP?”
Usualmente este Autor é o casulo da maioria dos Autores, deixando a Alagoinha enquanto borboleta quando decide ler as regras de uma vez por todas, ou ganha idade e experiência, ou ganha Noção.

6) Autor Saco de Doçura: Ele faz notas iniciais. Ele deixa notas finais. Ele responde às reviews. Ele responde às MPs. Ele envia MPs a agradecer favoritos e recomendações. Ele é hoje e sempre um amor de pessoa em tudo o que escreve (excepto em relação às próprias histórias, que são descrições detalhadas de desmembramentos humanos, numa narração em primeira pessoa do sádico psicopata). A impressão que temos deste Autor é que um dia que nos encontremos, surgirá a voar numa nuvem de algodão-doce com um saco de guloseimas para nos entregar.

7) Autor Monólogo de Camões: Se tivessem prestado atenção aos Lusíadas, saberiam dizer de imediato qual a principal característica deste Autor. Mas não prestaram, pois não, seus malandrecos? Então cá vai: também Camões acusou os seus contemporâneos de não saberem valorizar a Literatura-da-Boa (vulgo, ele próprio). Mais do que isso, conseguiu tornar esse “mimimimi” em versos que fazem agora parte do “grande livro da Língua Portuguesa”. Este Autor pode ou não ter as capacidades de Camões, pode ou não vir a ter a sua fama (pista: a maioria não terá nem uma coisa nem outra) e pode ou não ter a mesma capacidade de vir a ser odiado em massa por estudantes que desejavam muito, mas mesmo muito, que o predicado estive seguidinho ao sujeito. Mas só uma coisa é certa: também este Autor sabe reclamar quão subvalorizado é. E fá-lo. Longa e repetidamente. Para nosso bem, não em verso.


Mais uma vez: há mais? Claro que há mais. Mas é tarde e tenho de me fazer à vida, pelo nos ficaremos por aqui. Lembraram-se de mais algum? Deixem nos comentários. Identificaram-se com um? Com vários? Com mais do que gostariam? É, pois, acontece. Haja alegria (e muita escrita).

REFERÊNCIAS
Experiência pessoal.
Experiência de outros betas e autores (especial agradecimento à Ana Luísa Coelho, à Last Rose of Summer, ao Jean Claude, à Lady Salieri e à Anne L).

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Resenha: A Sorte do Perdedor

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Resenha por: Elyon Somniare


BARCELLOS, Renan – A Sorte do Perdedor, Minas Gerais, Buriti, 2014

Sinopse: Dick Randy, um exímio piloto e cara de pau, prometeu a se mesmo nunca retornar ao planeta de Valhalla. No entanto, o que ele descobre na carcaça de uma nave, acaba mudando tudo. Os rebeldes pretendem causar uma guerra entre as três raças que habitam aquele sistema e só Dick Randy pode impedir que isso aconteça. E, claro, arrancar alguma recompensa do exército. Porque, afinal de contas, um cowboy à moda antiga sempre pode usar uma grana extra.

Resenha: Noveleta SciFi, a narração começa com o background do protagonista, Dick Randy, e, por conseguinte, com a construção da personagem. Apesar de este início pender mais para o tell que para o show, o facto de não ser expositivo e de utilizar a construção frásica e os vocábulos a favor de uma construção vívida dos pontos importantes do passado de Dick faz com que não se torne aborrecido, ao mesmo tempo que cria um interesse imediato, seguido por empatia para com a personagem.
Após estabelecer o background e a construção do protagonista, o autor avança demonstrando ao leitor qual a situação actual. Informações sobre as raças alienígenas e as suas relações entre si, necessária à contextualização do enredo e do worldbuilding, são expostas através de conversa e interacção de bar, dando-lhe um travo das narrativas do Velho Oeste. Para aqueles leitores mais atentos e de melhor memória será fácil aperceberem-se, já no final do conto, terem tido os primeiros indícios de foreshadowing a bailar neste episódio narrativo.
O enredo encontra-se bem planeado e estruturado, com uma sequência de acontecimentos onde até o mais banal demonstra importância para o encadeamento da linha da história. Não são raras as vezes em que o protagonista, um anti-herói com esperteza de sobra e falta de filtro na língua, se vê em posições difíceis – criadas ou pioradas por si próprio. Procurar saber como escapa delas torna-se numa sensação de antecipação durante a leitura. Alerto, no entanto, que atendendo ao cardápio que vemos da sorte do Perdedor, o twist final pode tornar-se previsível para alguns dos leitores.
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