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Como Escrever Romance Slow Burn [02/02]

segunda-feira, 14 de novembro de 2016


Por: Little Girl

Olá, pessoal! Conforme o prometido, aqui estou eu novamente para dar continuidade ao assunto que começamos alguns dias atrás, sobre como escrever um romance slow burn.

Na publicação passada vimos o que é esse tipo de romance, as formas mais comuns nas quais o encontramos, e vimos, também, uma maneira bem simples de organizar a evolução do casal dentro da história. Portanto, se você ainda não viu o texto passado, corra ver para que possamos continuar o nosso papo.

Hoje eu vou falar sobre a construção do Romance Slow Burn dentro da estrutura de enredo mais conhecida e adotada pelos escritores, que é o enredo construído em três atos (assunto, que por sinal, já foi abordado aqui no blog outras vezes). É importante dizer logo neste início, que existem vários tipos de arcos de enredo, e o que vamos abordar para a construção do slow burn será o arco de mudança positiva, pois os nossos protagonistas sempre iniciarão a nossa história incompletos de certa forma, e através do desenrolar dos fatos eles aprenderão determinadas lições que os farão pessoas melhores no final. Algumas pessoas também têm dúvidas se a estrutura do arco do personagem é algo diferente da estrutura do tema da história, e a resposta para isso é: uma coisa certamente depende da outra. A escritora K. M. Weiland, em quem este texto irá grandemente se basear, diz que “o personagem dirige o enredo, e o enredo molda o arco do personagem. Eles não podem trabalhar independentes um do outro”. Logo, o que vamos fazer aqui é aprender como preparamos o arco dos nossos personagens dentro de uma temática qualquer que está inserida numa história com romance slow burn.

A primeira coisa que você terá que ter em mente é que o slow burn é um romance estruturado de maneira diferente de uma história de amor comum. Como a Elyon Somniare aponta num dos textos aqui do blog, a estrutura mais comumente usada nas histórias de amor dá-se da seguinte forma:

Ato 1: Os protagonistas são apresentados ao leitor (e por vezes um ao outro), começando e estabelecendo a sua relação. No final desta fase estão apaixonados [...], mas algo acontece que os separa.

Ato 2: Os amantes separam-se. Pelo menos um deles tenta reaproximar-se do outro, o qual ou espera pacientemente, ou rejeita as tentativas de aproximação. Pode haver uma luta com um antagonista.

Ato 3: Os amantes reúnem-se, devido ao amante ativo, que encontra um modo de ultrapassar todos os obstáculos. E não podem ser os dois ativos e fazer isso? Podem. O que interessa é que o amor foi testado e é agora maior e melhor.


Note que nesse tipo de enredo os protagonistas já começam a estabelecer uma relação amorosa logo no Primeiro Ato, e já no fim dele se separam para serem reunidos novamente apenas no final do Terceiro Ato. Na estrutura do Romance Slow Burn você não pode, de maneira nenhuma, esquecer que o negócio, sim, é muito lento e levado em “banho-maria”, e, portanto, não, nosso casal não fica junto já no Primeiro Ato. Algo concreto irá acontecer só depois da metade do Segundo Ato, sendo seguidamente atrapalhado por algum empecilho que o fará ficar junto apenas no Terceiro e último Ato. Mas, tia, o negócio é tão lento e entediante assim mesmo? Sim, o negócio é lento, cara criança, mas de modo algum entediante. Desde que você siga os passos para prender a atenção do leitor desde o tenro início de sua história, as coisas estarão bem longe do tédio.

Tá, tia Helen, então, como eu faço para estruturar esse romance nos três atos que a senhora falou?

Simples: da mesma forma como você faria com qualquer outra história com arco de mudança positiva (haha!). Por isso, o que vamos fazer aqui é relembrar como essa estrutura é organizada e, no final, veremos um exemplo prático de construção de enredo e personagens os quais, por maldade minha, se enquadrarão naquele primeiro caso mencionado no post anterior, do típico casal que se odeia à primeira vista, depois se torna amigo e, finalmente, ufa, apaixona-se.

Os cinco elementos que irão compor a história do seu personagem

Para colocarmos a história do nosso lindo casal dentro do arco histórico, precisamos antes definir os elementos que darão vida ao nosso enredo. Eu falarei sobre eles no singular, como se referindo-me apenas a um personagem, mas, claro, se a sua história for escrita tanto sob o ponto de vista do personagem A como pelo ponto de vista de B, lembre-se que esses elementos devem ser planejados para ambos.


1. A Mentira em que seu personagem acredita

A Mentira é uma crença específica que o seu protagonista tem, uma visão mal concebida a respeito de si mesmo, do mundo ou de ambos. O Arco do nosso personagem será todo sobre esta Mentira em que ele acredita, pois ela o faz incompleto, e o faz enxergar as coisas sob uma perspectiva errada. Essa visão mal concebida será o calcanhar de Aquiles do nosso personagem, como M. K. Weiland mesmo menciona, e será o que o impedirá de conseguir o alvo que ele tem traçado no enredo da história, assim como o impedirá de desenvolver também um relacionamento amoroso livre de problemas com a outra pessoa. A Mentira é o que o torna “quebrado”, e a jornada é sobre torná-lo “inteiro” novamente.

A Mentira pode causar em seu personagem alguns sintomas, como o medo, a mágoa e diversos outros.

No Romance Slow Burn: A Mentira é visão de mundo ou de si mesmo que faz com que o personagem tenha dificuldades de amar ou aceitar o amor de outra pessoa.


2. A coisa que seu personagem quer versus a coisa que seu personagem precisa

A Mentira se apresenta na história através do conflito entre a coisa que seu personagem quer (algo que o faz sentir-se aliviado dos sintomas da Mentira) e a coisa que ele realmente precisa (a Verdade que ele precisa descobrir, a cura para a sua Mentira). Por exemplo, na história o seu personagem tem um alvo bem definido (a coisa que ele quer). Mas ele, provavelmente, quer essa coisa por uma razão profunda, que talvez nem mesmo entenda direito, e que pode não ser revelada abertamente ao leitor nos primeiros capítulos da história. Você saberá do que se trata, afinal, é a Mentira na qual ele crê que o faz perseguir o alvo que ele quer para a vida dele naquele momento.

Duas coisas a serem ressaltadas:
  • A coisa que seu personagem quer será, geralmente, algo externo, físico, pois ele está tentando sanar o seu vazio interno correndo atrás de coisas externas;
  • A coisa que seu personagem precisa (a Verdade) é algo que transformará a perspectiva que ele tem sobre si mesmo e o mundo, vindo, portanto, na forma de uma simples (nem um pouco simples) realização.

3. O Fantasma de seu personagem

Bom, a gente sabe que todo mundo possui um passado, certo? Com o nosso protagonista não será diferente. O Fantasma de seu personagem será um evento, algo traumático que o levou a acreditar na Mentira. Esse Fantasma pode prover um bom mistério para a sua história se revelado pouco a pouco. Pode também nunca ser revelado em pormenores, caso você ache que não há necessidade disso, e pode também, algumas vezes, ser dramatizado dentro do Primeiro Ato, como uma espécie de prólogo. Quanto maior o Fantasma, logicamente, maiores os traumas e os efeitos da Mentira na vida de seu personagem.

No Romance Slow Burn: O Fantasma de seu personagem é alguma experiência de vida que o fez ter dificuldades de relacionamento, que o fez ter medo de amar e aceitar o amor proveniente de outra pessoa, e pode estar geralmente atrelado a uma experiência romântica ruim do passado ou mesmo traumas familiares, como rejeição, abandono ou violência.


4. O Momento Característico

É aquele momento no qual você tem a chance de cativar os seus leitores, logo no início do Primeiro Ato. É a forma com a qual você irá apresentar as características importantes de seu personagem, o papel dele na história, revelar qual é o seu alvo dentro do enredo e demonstrar de alguma forma qual é a Mentira em que ele acredita. Pode ser feito numa grande cena ou numa sequência de cenas. O importante aqui é ganhar o coração do leitor.

No Romance Slow Burn: Além de ser as cenas nas quais você apresenta os seus personagens e suas características, pode também ser aquele momento relacionado ao que chamamos de Evento Instigante: É aquele momento em que você apresenta o potencial de conflito entre os nossos personagens, que no final acabarão se apaixonando.


5. O Mundo Normal

O Mundo Normal é um cenário, uma montagem. É onde a sua história começa, é o lugar no qual o seu personagem está inserido. Ele pode estar contente vivendo dentro dele, pode estar infeliz ou mesmo apático. Mas é neste Mundo Normal que as coisas se transformarão. Ele acaba sendo uma representação externa do mundo interior de seu personagem. No final da história, ou ele conseguirá sair daquele Mundo que para ele é destrutivo ou, se o seu Mundo Normal é um lugar saudável e apenas a visão do seu protagonista é que é distorcida, ele terá de mudar o suficiente para conseguir enxergar as coisas de um outro ângulo.

No Romance Slow Burn: O Mundo Normal de seu personagem pode ser, além do lugar físico, um cenário que o mostre em relacionamentos de apenas uma noite com muita frequência, um lugar que o torna propício a tratar o sentimento dos outros com desprezo, um cenário que o mostre miserável, querendo se manter isolado das pessoas, pelo trauma que lhe causaram no passado. Seja o que for, mostre aos leitores que o Mundo Normal é um mundo no qual ele ainda não encontrou o amor de verdade.

Vamos, agora, colocar esses elementos dentro dos três Atos de nossa história:

O Primeiro Ato
  • Cobre, aproximadamente, 25% do total de sua história;
  • Introduz os personagens importantes, os cenários, as questões e as Mentiras nas quais nosso personagem acredita;
  • Introduz o conflito de sua história com o Evento Instigante — o evento que começa a mudar a sua vida (é aqui que a primeira problemática surge entre o nosso futuro casal: ou eles se odeiam logo de cara, ou se conhecem pela primeira vez, ou descobrem que terão de fingir um falso relacionamento... Enfim, algo acontece e prepara/muda a relação dos dois);
  • É no Primeiro Ato que também encontramos o primeiro ponto da virada, que é aquele grande acontecimento que mudará, definitivamente, a vida de seu personagem, e o fará sair de seu “Mundo Normal”. É aí que começará, de fato, sua grande jornada e, no nosso caso, a sua longa caminhada até o amor. O primeiro ponto da virada acontece no final do primeiro ato e está diretamente ligado com o Evento Instigante. Por exemplo, se na sua história o Evento Instigante é uma trombada do personagem A em Personagem B na entrada da escola (o que irrita B profundamente), o primeiro ponto da virada pode ser o fato de eles descobrirem que, além de colegas de classe, terão de trabalhar juntos num projeto que durará o semestre inteiro.
O Segundo Ato
  • Cobre 50% do total de sua história;
  • Na primeira metade, mostra o personagem se imergindo, de fato, na sua nova jornada tentando reganhar o seu equilíbrio e descobrir como sobreviver no “Mundo Novo” no qual ele foi parar (aqui na nossa temática, tem a ver com aprender a se relacionar de alguma nova maneira com o outro protagonista. É aqui que eles se tornarão amigos, se já não eram antes, e perceberão gradativamente que possuem sentimentos um pelo outro. E sim, aqui poderá ser inserido diversos conflitos entre nosso casal). É na primeira metade também que conhecemos mais sobre o Antagonista do nosso personagem, com que forças “do mal” ele está lidando (note bem, esse Antagonista não precisa, necessariamente, ser uma pessoa. O Antagonista tem a ver com tudo aquilo que tem potencial para fazer com que o nosso casal não fique junto, o que inclui os seus traumas do passado e a forma como ele age e enxerga o mundo no momento presente);
  • Na metade dele podemos encontrar o Ponto Central, que é o outro ponto da virada na vida de nosso personagem; aqui há uma nova mudança de perspectiva, um momento chave de revelação na vida dele. Ele para de apenas reagir e começa a agir em favor de si mesmo. Ele ainda aceita a Mentira, mas, inconscientemente, começa a agir em harmonia com a Verdade (em outas palavras, aqui pode ser o momento no qual ele percebe que, de fato, possui sentimentos pela outra pessoa, ou percebe que sim, ele pode se abrir novamente para o amor, ou que as pessoas são capazes de amar sem enganar, de serem sinceras, de se importarem verdadeiramente, enfim, há uma gama de possibilidades, e todas essas realizações influenciarão de forma muito positiva na relação de ambos);
  • Na segunda metade do Segundo Ato, há uma forte ação do protagonista, baseada na Revelação do Ponto Central (ou seja, é aqui que comportamentos destrutivos que são regidos por conta da Mentira vão sendo deixados para trás, e nossos protagonistas vão deixar de fugir do que sentem. Eles irão, conscientemente, se aproximar mais e mais até não mais resistirem um ao outro). Há também a mostra da habilidade que o antagonista possui para derrotar os protagonistas e é onde faz-se necessário que todas as peças do quebra cabeça de nosso enredo estejam apresentadas, para que sejam colocadas no devido lugar no Terceiro Ato.
  • No fim do Segundo Ato haverá também o que chamamos de “falsa vitória” (No Romance Slow Burn, é aqui que, provavelmente, nossos pombinhos irão entregar-se ao sentimento que sentem um pelo outro pela primeira vez de maneira concreta).
O Terceiro Ato
  • Preenche os últimos 25% do total de sua história;
  • Ata as pontas soltas dos enredos menores;
  • Inicia-se com o terceiro ponto da virada (este será o momento mais baixo de seu personagem, a derrota vinda após o seu falso momento de vitória, proveniente por uma “carta na manga”, uma crise inesperada que o acomete. Claro, como você já deve estar imaginando, essa “crise inesperada” vai totalmente separar o nosso querido casal, mesmo que ele mal tenha tido tempo de ficar junto pela primeira vez. É aqui também que o “velho eu” morre, e o personagem será totalmente honesto consigo mesmo, escolhendo, de uma vez por todas, entre aquilo que ele quer e aquilo que ele precisa);
  • Possui o clímax, o ponto mais alto do conflito de sua história (uma cena, ou sequência delas, que deve mostrar a força do protagonista de encarar o conflito principal que rege a sua história num confronto decisivo — os nossos protagonistas lutarão contra todos os problemas internos e externos que os impedem de ficar juntos. No final do clímax, finalmente, o nosso casal resolve todas essas questões e consegue ficar junto, yay!);
  • Termina com a Resolução, mostrando aos leitores o novo Mundo Normal de seu personagem (sim, o momento de relaxamento, para acalmar o leitor dos eventos anteriores. Mostre o nosso casal feliz e apaixonado, bem como as conquistas que tiveram superando seus traumas pessoais e fazendo o outro uma pessoa melhor no decorrer da caminhada).

E assim, chegamos ao final do nosso esboço. Para aqueles que desejarem, aqui embaixo vocês encontrarão dois links com uma planilha contendo todos os tópicos aqui abordados, expostos de maneira mais detalhada e com fichas de perguntas para que você possa criar a sua história de Romance Slow Burn (ou qualquer outra, na verdade). No primeiro link está a planilha com um exemplo de enredo com o slow burn, criado com a ajuda e a criatividade do Beta Seikou Aori (thank you!), e na outra, a mesma planilha em branco, para que você possa fazer o download e utilizá-la para seu planejamento histórico.

Gostaria de ressaltar que os detalhes apontados dessa estrutura, bem como as fichas de perguntas contidas nas planilhas são informações retiradas do blog da escritora já mencionada anteriormente, K. M. Weiland. Eu apenas organizei tais informações dentro de uma planilha de trabalho. No site dela você encontra o assunto aqui abordado de forma muito mais minuciosa e detalhada, como também outros assuntos relacionados a este. Se você entende inglês, dê uma passadinha por lá, vale totalmente a pena. Quanto a mim, deixo aqui o meu tchauzinho e até a próxima!

Link 1 (planilha com exemplo): 
Link 2 (planilha em branco): 


Referências:

Blog da escritora K. M. Weiland:

Demais referências: 

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Como Escrever Romance Slow Burn [01/02]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Por: Little Girl

Você provavelmente já deve ter lido uma história na qual os protagonistas desenvolveram um relacionamento do tipo slow burn, e que levou capítulos e mais capítulos para que, finalmente, aceitassem e assumissem o sentimento que tinham um para com o outro. É por esse mesmo motivo — a lenta construção do relacionamento — que existem os que amam e também os que odeiam esse tipo de romance. Para mim, histórias com slow burn são, definitivamente, muito especiais, e é por isso que estou aqui para conversar com vocês um pouquinho a respeito desse tema.

Antes, porém, de falar sobre como escrever tal gênero, vamos primeiro delinear algumas ideias, para o caso de alguém ainda estar perdido no meio da conversa.

Slow Burn é um termo inglês que ao pé da letra significa algo como “queima lenta”, o popular “fogo brando” no nosso bom e velho português. Esse termo serve para designar algo que acontece de forma devagar, lenta, como quando a gente decide fazer um pudim, sabe? O Urban Dictionary define esse termo como sendo uma atração por alguém, que não é instantânea, mas cresce com o passar do tempo; o processo de se tornar atraído por alguém num período de tempo. Trocando em miúdos, o romance slow burn é aquela história na qual personagem A mais personagem B demoram a se apaixonar, ou ao menos reconhecer que estão apaixonados, e demoram mais ainda a ficarem, de fato, juntos. A aproximação entre eles acontece de forma lenta, com bastante espaço para o foco nas questões intrínsecas de cada personagem.

Se você analisar as histórias que já leu pertencentes a este estilo, são grandes as chances de que elas se encaixem numa desses três casos:

  • Caso A: O caso que evolui de “se odeiam” para “amigos” e, finamente, para “se amam”;
  • Caso B: Os amigos que, por conta de uma “problemática inesperada”, acabam desenvolvendo sentimentos românticos um pelo outro (ou tendo coragem de assumir eventuais sentimentos que nunca foram levados adiante);
  • Caso C: Nem amigos nem inimigos, mas com os polêmicos clichês: namoro de mentira e o caso das “amizades” com benefícios.

Dá para perceber que todos os personagens possuem, paralelamente ao desenvolvimento do relacionamento entre ambos, conflitos emocionais e pessoais. Tais conflitos influenciam, na maioria das vezes, de maneira muito grande e prejudicial no desenvolvimento de um possível relacionamento amoroso. É também por estes motivos que eles demoram a aceitar a atração e o sentimento que os assolam. 

Outra coisa importante de ressaltar e que deve estar presente praticamente durante toda a história é a chamada “tensão sexual” entre os personagens (toques, olhares disfarçados, provocações, flertes), pois ela é o que, junto com o enredo, fará com que o leitor continue interessado capítulo após capítulo em saber o que acontecerá com o relacionamento dos protagonistas — quando eles, por fim, irão resolver as suas pendências e aceitarem o amor que sentem.

Agora que já foram citados os principais elementos que devem estar contidos num romance slow burn, o que falta é estabelecermos uma sequência lógica para a construção da história. Embora mil e um tipos de enredos diferentes possam ser construídos com base neste gênero e nos casos acima citados, quase todos eles poderão seguir o mesmo passo-a-passo para atingirem o produto final.

O que abordaremos no post de hoje é um modo mais simples e intuitivo de organizarmos a sequência de acontecimentos desse tipo de romance, algo prático que pode ser usado para o caso de você ser uma daquelas pessoas que não gosta de algo extremamente metódico. Entretanto, para todos aqueles que querem se aprofundar um pouco mais no assunto, daqui a algumas semanas daremos continuação a esta postagem. Falaremos sobre como escrever o slow burn inserindo-o no arco histórico de um personagem.

Por hora, vamos ao que interessa!

Assim como a pessoa que passa pela perda de um ente querido tem de lidar com as fases do luto, a pessoa que passa pelo término de um relacionamento também acaba passando por um processo semelhante, e, por mais estranho que pareça, são nessas fases que iremos nos basear para seguir uma sequência lógica dentro da construção histórica. A razão pela qual podemos nos basear em tais estágios é bem simples: grandes realizações ou descobertas são difíceis de serem aceitas por nós, seres humanos. E até chegarmos no estágio pleno onde nos permitimos demonstrar aquilo que sentimos, o nosso corpo e nossa mente irão desenvolver uma forma natural de lidar com tamanho estresse, até que tenhamos assimilado e aceitado toda a situação, para podermos seguir em frente.

Bem, para que o drama todo do slow burn entre em cena, é preciso que você já tenha estabelecido os elementos básicos e iniciais da sua história — personagens, seus passados, enredo, a forma como se aproximarão ou a problemática que mudará o tipo de relacionamento que já possuem — e a tenha conduzido até o ponto onde nos deparamos com o primeiro dos sete estágios que os personagens deverão enfrentar.


Estágio 1 — Choque

O choque é uma reação natural que o nosso corpo experimenta quando enfrentamos um trauma físico ou emocional muito grande. É o momento em que você se sente atônito e até mesmo fora da realidade. Há muita confusão nesse primeiro estágio, perda de sono, e tudo acaba sendo um aviso do corpo e da mente, dizendo que não quer lidar com a situação naquele exato momento. Na nossa história, o choque é o exato momento no qual os personagens percebem que, sim, eles possuem sentimentos/gostam/estão apaixonados/amam a outra pessoa. Chame do que quiser. Mas tenha em mente que este é o momento em que o circo realmente começa a pegar fogo, e eles percebem que sim, o sentimento existe, e é muito real. 


Estágio 2 — Negação

A negação é a rejeição da realidade. Nesse estágio nossos personagens terão o lema de que, se eles não aceitarem o sentimento, logo aquilo que estão sentindo não é real. Aqui é o momento no qual eles vão tentar seguir a vida normalmente, como se nada de mais tivesse acontecido, como se eles não tivessem chegado à realização que lhes tirou o sono e os fez perder a respiração por alguns instantes.

Como aprendemos cedo na vida, a negação não funciona para sempre.


Os próximos três estágios serão listados na sequência em que se apresentam originalmente, contudo, você pode adaptar a ordem deles de acordo com as necessidades do seu enredo.


Estágio 3 — Isolamento

Uma vez que seus personagens tenham caído em si e assumido que aquilo que sentem é real, chega o momento no qual você terá que fazê-los lidar com a nova informação. Este estágio caracteriza-se como isolamento porque aqui os nossos personagens terão de gastar um certo tempo recordando situações, palavras que disseram, tentando entender quando o sentimento começou a surgir, os eventos atrelados ao desenvolvimento do relacionamento. É o momento também de refletir sobre a outra pessoa, suas qualidades e defeitos, e o fato de que, apesar dos pesares, seus personagens estão completamente imersos um no outro. O caso é que, naturalmente, ter de pensar sobre a outra pessoa pode fazer com que seu personagem tenha de se afastar dela por um curto período de tempo. Aqui pode ser que ele evite encontrar a pessoa algumas vezes, ou no mínimo, comece a agir de maneira estranha quando está com ela — distante, apático, até mesmo rude, dependendo da personalidade com a qual você o construiu.


Estágio 4 — Raiva

Neste estágio, seus personagens não serão mostrados tão pensativos, refletindo, absortos na própria mente. Aqui é o momento no qual eles procuração alguma coisa para culpar o fato de estarem da cabeça aos pés apaixonados pela outra pessoa. A raiva de um não precisa, necessariamente, ser mostrada para o outro, embora possa acontecer. Mas esta ira pode acontecer nas conversas em voz alta consigo mesmo. Ou pode ser um bom momento para fazer com que o protagonista revele para um personagem secundário da história (um amigo, irmão, conselheiro, etc.) os sentimentos que estão há um bom tempo guardados. É o momento no qual ele pode extravasar para alguém a raiva pelo fato de que as coisas, talvez, não tenham acontecido da maneira como tenha planejado em sua vida.


Estágio 5 — Barganha

Barganha é o ato de realizar um negócio de maneira lícita, ou mais comumente, ilícita. A barganha é o momento em que você deverá fazer com que os seus personagens ofereçam algo em troca de paz mental, em troca de, talvez, terem um caminho de volta do sentimento que sentem. Uma última tentativa para tentarem não se render ao sentimento e estragar a construída amizade, para não se envolverem e terem o coração partido futuramente, ou até mesmo uma tentativa de auto absolvição do fato de estarem apaixonados por alguém que, por alguma razão, pensam que não deveriam.

A barganha pode ser inserida dentro da história das mais diversas formas, tudo vai depender em qual tipo de enredo você escolheu se aventurar: Se eu procurar outro alguém, talvez eu esqueça aquela pessoa; se eu apresentar alguém para aquela pessoa, serei obrigado a esquecê-la; se eu passar mais tempo me ocupando com coisas mais importantes, pode ser que eu pare de sentir o que estou sentindo. Em alguns casos a barganha pode atingir um estágio tão estúpido que seu personagem poderá até mesmo pensar que, se ele passar mais tempo com a pessoa que lhe ocupa a mente, até que ele se canse, pode ser que esse sentimento passe e as coisas voltem a ser como eram antes. Sim, é estúpido. Mas é você quem manda na história e, se você quiser fazer o seu personagem ter um momento energúmeno... bem, sinta-se livre para isso...

Os dois últimos estágios acabam por culminar no clímax da sua história, e são, portanto, os momentos mais importantes do enredo, e que devem ser tratados com muito cuidado. Durante os estágios anteriores, é preciso que você tenha em mente que, enquanto toda essa “crise existencial” está acontecendo com seus personagens, a relação entre eles continua, paralelamente, prosseguindo e evoluindo. De fato, é a evolução de tal relacionamento que faz com que eles passem de um estágio para o outro. Entretanto, até o início da barganha, nada realmente acontece entre eles, tudo ainda deve estar no meio da linha que separa o romance da amizade. Já no final da fase da barganha e antes do início do sexto estágio, é preciso que toda a tensão construída até este momento tenha, finalmente, a sua recompensa. Personagem A e personagem B finalmente admitem um para o outro o sentimento, mesmo que apenas de maneira prática em vez de verbalizada. A intensidade dessa demonstração é você quem deverá ditar, mas é aqui que, pela primeira vez, a tensão deverá explodir, e a linha que limita a amizade e o romance deverá ser transpassada.

Após este acontecimento, você deverá escolher se dá algum momento de paz para os nossos “sobreviventes” (alguns capítulos, ou umas mil e poucas palavras), ou se parte sem dó e sem piedade diretamente para o nosso penúltimo estágio antes da resolução final.


Estágio 6 — Depressão

Você deve estar se perguntando, “Mas por que raios eu tenho que fazer os meus personagens passarem pelo estágio da depressão? Já não foi sofrimento suficiente eles terem de passar por todos os estágios anteriores até conseguirem estar juntos?” A verdade é que, sim, eu concordo com você, já foi uma novela mexicana inteira para que algo concreto realmente acontecesse. Não obstante, é preciso lembrar que haverá elementos da história pessoal de cada um dos protagonistas que não estará, de todo, resolvida. É aqui que você deverá colocar em cena os conflitos que ainda faltam ser resolvidos, para que, só então, seus personagens superem seus traumas, seus medos, seu passado, enfim, aquilo que no princípio foi o motivo que os fizeram não querer se apaixonar pela outra pessoa. Esse conflito pode ser uma verdade que deveria ter sido contada antes, pode ser um parente que não aceita o relacionamento em questão, pode ser simplesmente o fato de eles acharem que o pior erro que fizeram foi avançar a linha da amizade. Você tem que fazê-los voltar à estaca zero, fazê-los achar que não, eles não serão uma equação com resultado positivo, e que são melhores sozinhos, ou simplesmente como amigos.

Como está bem claro com todo este conflito em questão, a depressão é definida, então, como o momento no qual eles sofrerão por terem acreditado numa ilusão, em algo que estava fadado ao fracasso. Surge a frustração por saberem que era algo que deveriam evitar para não sofrerem, mas que no fim, acabaram sofrendo, de qualquer forma. Um afastamento aqui é inevitável, seja este decidido por ambos os lados ou apenas por um. O importante é ter em mente que uma das partes deverá ser aquela que realizará que o amor, no final das contas, vale à pena a tentativa, e dará o primeiro passo para a reconciliação.


Estágio 7 — Aceitação

A aceitação é o último estágio. O estágio que faz com que, como dito anteriormente, todos os outros estágios tenham valido à pena. Nesse estágio, os conflitos mal resolvidos, seja por falta de comunicação, seja por um antagonista, seja apenas pela negação do sentimento, são, por fim, resolvidos, e tanto um personagem como o outro se perdoam por quaisquer erros que possam ter ocorrido durante a caminhada, e acima de tudo, aceitam-se como são, apesar das imperfeições que possuem. É nesta última fase que eles podem, finalmente, assumir um relacionamento, e seguir em frente com a vida. Erros passados, amores que não deram certo, tudo é deixado para trás, como uma lembrança longínqua. O sentimento de alívio e alegria deve ser evidente, e o amor que um sente pelo outro pode e deve ser demonstrado de maneira plena. E, claro, um epílogo açucarado é sempre muito bem-vindo pela maioria dos leitores.

Sim, a maior parte da história será sobre conflitos e a resolução destes, conflitos internos e conflitos externos, todos a serem superados. Mas, se pararmos para pensar, conflitos existem em todos os tipos de histórias, o que não significa que, enquanto o nosso querido “OTP” não resolve todas questões que são necessárias para que eles se amem e sejam felizes, não se possa ter todos aqueles ingredientes que nos fazem querer ler mais e mais — isto é, provocações, flertes, sorrisos, brincadeiras, confidências, abraços, amizade.

A gente encerra o método de escrita baseado nos sete estágios do término de um relacionamento por aqui, mas o assunto ainda continua em breve. O próximo post tratará da construção da história não apenas a partir do momento em que os personagens se dão conta de que possuem sentimentos um pelo outro, mas tratará também de todo o seu início, incluindo os elementos que devem ser decididos antes mesmo do primeiro capítulo.  Enquanto isso, por que não tentar planejar uma boa história de romance slow burn?


Referências:
10

Romance vs Erotismo

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Por: NamelessChick

Olá, moranguinhos. Cá estou, de novo, atacando o blog com um artigo, e desta vez vou discutir um pouco mais sobre romance e erotismo, mais precisamente suas diferenças. 

Pois é… O assunto, não necessariamente novo no mundo das fics, passou a chamar a atenção do público depois do sucesso de vendas de livros como “50 Tons de Cinza”. Pondo de lado quaisquer juízos de valor acerca da obra citada (ou semelhantes), é uma discussão bem interessante; o gênero erótico, em geral, traz consigo certas peculiaridades. Mas, por agora, vamos nos ater às suas diferenças em relação ao gênero romântico. 

Antes de mais nada, um pequeno esclarecimento:

Quero que entendam romance não como “narrativa ficcional em prosa, mais longa que o conto ou a novela”, e sim como aquela história em que o enfoque está numa relação romântica entre duas pessoas, seja ela heterossexual ou não. 

Tendo isso em vista, podemos começar o artigo propriamente dito :D 

Precisamos, primeiramente, entender o que seria o erotismo e como ele se insere numa história, para que então seja mais fácil a diferenciação entre o romântico e o erótico, não é mesmo? 

Segundo o dicionário Priberam, erotismo pode ser definido como qualidade do que é erótico, manifestação explícita da sexualidade ou grau de excitação/prazer sexual. 

Certamente a definição é ótima, mas nós temos que tomar muito cuidado para não confundirmos o erótico com o pornográfico, porque apesar de sutil existe uma diferença entre esses dois gêneros, frequentemente confundidos, e quando colocamos o romance na jogada, aí que a confusão se instala. 

Uma fic pornográfica (os famosos PWPs - Porn Without Plot) tem o único intuito de excitar o leitor. Sem quaisquer outras pretensões, essas fics não podem ser confundidas com aquele romance que por acaso tem um quê de sensualidade e erotismo. O erótico NÃO é essencialmente pornográfico e isso tem que ficar claro. Uma fic pode muito bem ter marcas de erotismo, mas ainda permanecer na faixa dos 16, por exemplo. Alguns livros infanto-juvenis utilizam desse artifício, muitas vezes para chamar a atenção de seu público. John Green, com seu “Quem é você, Alaska?”, trabalha com uma personagem que certamente alude à sensualidade, ora de forma sutil, ora de forma explícita, mas sem fugir do seu enfoque narrativo, ou mesmo da faixa etária do seu público alvo.

O romance, em si, é toda e qualquer história que tenha como plano principal um amor romântico. Seja ele entre dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher, ou mesmo entre mais pessoas (sim, quem disse que o amor romântico se restringe à figura do casal?). De qualquer forma, é uma história que trata de amor, independentemente da forma como ele é abordado, descrito, de seus dramas, de sua “melosidade”... Basta ser amor. 

O erotismo não requer, todavia, esse viés amoroso. Pode ser simplesmente uma história com enredo lindinho, com casal, mas sem estar voltada ao amor. Imaginem uma história que simplesmente conta de João e sobre as pessoas com quem ele se relaciona romanticamente. Não precisa ser um hentai/lemon/orange da vida, mas também não precisa detalhar sentimentos, por exemplo. 

É compreensível a confusão entre os dois, porque nada mais natural que exista erotismo em um romance. Casais, afinal, se envolvem sexualmente. Amor e sexo não se excluem, moranguinhos, mas também não estão colados. Podemos, sim, misturá-los ao se tratar de uma relação entre personagens, mas não é obrigatório, entendido? Esse é o grande “tcham” do artigo. 

A diferença básica entre os dois gêneros é que no romance há amor, enquanto no erotismo, mesmo que exista amor, ele não é o foco da narrativa. 

Fontes: 
3

Como escrever um romance histórico

terça-feira, 3 de maio de 2016

Por: Estrela de Rubi

Olá, meus caros! 

Novo artigo que estou postando aqui, e desta vez é destinado a todos os autores que estão de saco cheio de escrever uma simples ficção.

Querem escrever algo diferente, complexo e desafiante? Então, eu sugiro um romance histórico. 

O que é? É um gênero literário em que a narrativa ficcional se relaciona com os fatos históricos. 

E agora vocês me perguntam:

Cara, tenho que estudar História para escrever esse romance? 

É claro que sim! Não se faz omelete sem partir ovos, meus caros. Um bom romance histórico deve ser documentado de maneira metódica, consultando primeiro as fontes, entre elas a História. 

Mas calma, não precisam bater com a cabeça na parede por causa disso. Hoje em dia é muito fácil e divertido estudar História. Temos um manancial de livros à disposição, filmes, artigos, documentários, programas, crônicas, séries, novelas, teatro e até músicas.

Como começar?

Simples, primeiro vocês terão de escolher a época e o país que desejam retratar. Depois é necessário conhecer toda a realidade dessa época, estar profundamente integrado no seu conjunto e nos seus pormenores, criar um retrato verídico dos costumes e das características desse país. É necessário ter um bom conhecimento de aspectos como a cultura, sociedade, economia, filosofia, política, religião, arte, literatura, etc… Aconselho vocês a fazerem uma planificação sobre todos esses aspectos para que não haja erro na ambientação do enredo. 

Segundo, vocês terão de escolher uma figura pública, ou seja, uma figura histórica que realmente existiu nessa época. Vocês terão de encontrar arquivos, documentos, biografias que descrevam essa pessoa (nomeadamente o que ela fez, como se destacou na História) para que consigam estudar a sua personalidade a fundo. 

Com todo esse estudo realizado, passaremos então para o terceiro e último ponto: prencher os espaços em branco deixados pela História com a nossa imaginação. É isso aí! Para mim, esta é a melhor parte, mas também a mais complexa de todas, porque não podemos simplesmente divagar na nossa imaginação, temos de ter uma linha de orientação cingida aos fatos reais com grande disciplina, seguindo o guião traçado pelas mãos da História. Temos de nos adaptar à personagem que não foi criada por nós e através da coordenação das pesquisas, construir um enredo lógico, credível e susceptível de criar dramatismo e suspense. 

Difícil, não é? Mas não é impossível, gente!

Só temos de ser capazes de retroceder no tempo, trazer os mortos para a vida e, de quebra, preencher esses fatos históricos com a nossa imaginação. Tudo isso para criar uma obra que tenha verosimilhança com uma pessoa e uma época que não existem mais. 

E agora vocês me perguntam:

Cara, e todas as outras personagens também têm de ser reais? 

É aqui que vem a boa notícia! Não, as outras personagens poderão ser inventadas por vocês, mas atenção, elas têm de estar em concordância com os padrões da época retratada. Não se esqueçam que a linguagem das personagens é muito importante e varia de época para época. Não diverge apenas do vocabulário ou da sintaxe, mas também do modo como articulam as ideias, raciocínios ou da forma como expressam as emoções. A dificuldade de um romance histórico é a do chamado “anacronismo”, o erro de atribuir algo (uma ideia, um preconceito, um fato) a uma época que não corresponde. Em tempos diferentes, as ideias variam muito a respeito das mesmas ações, por exemplo, as ações dos homens do séc. XVI não devem ser julgadas à luz das nossas ideias do séc. XXI, entenderam?

Ah, e, por favor, não pensem que um romance histórico é aquele velho cliché que contempla apenas castelos rodeados de fossos, pontes-levadiças, uma espécie de natureza clássica ou lordes. Não, este gênero literário vai muito além disso, ele retrata e contextualiza ambientes verídicos com personagens que viveram neste mundo real. Nós só temos que fazê-los renascer, dar-lhes vida com o poder da nossa imaginação. O romace histórico completa e dá colorido às secas linhas das crônicas, e a ficção, ao animar o tema, ajuda o leitor a formar uma ideia mais clara dos costumes, dos usos, dos hábitos e do espírito que constituem a fisionomia da idade em que se desenrola a ação. 

E é isso aí, gente! Concluindo, para se escrever um romance histórico é necessário vocês terem um passo firme para descer às profundezas da História, terem uma voz imperiosa para interrogar os fantasmas e possuirem uma mão que não trema na hora de escrever as palavras que eles ditam. 

Referências:
NASCIMENTO, N.; PINTO, Castro J. – “A dinâmica da escrita: como escrever com êxito” [4ºedição], Plátano, 2005.
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Estereótipos em romance – Parte II

segunda-feira, 7 de março de 2016

Por: Anne L


Encerro o post agora com a segunda parte, que vai trazer os estereótipos em romance yaoi e yuri. Vale lembrar que muitos já mostrados na Parte I também se aplicam aqui, mas não repetirei os itens. 

O machismo também exerce forte influência no que citarei abaixo, em especial com a ideia de “hetenormatividade”. Para quem não sabe o que é “heteronormativo”, a definição: 

he•te•ro•nor•ma•ti•vo 
(hetero- + normativo)


adjetivo


Que estabelece como norma a heterossexualidade e a instituição de categorias distintas, rígidas e complementares de masculino e feminino ou que é relativo a heteronormatividade.

Enquanto pesquisava, notei que muitas pessoas apontavam mais estereótipos de personagens que do romance em si. Já falei de alguns (em yaoi) neste post.

- Estereótipos em romance yaoi e yuri

• Homem e mulher: Heteronormatividade define esse item. No yaoi, o seme (ativo), é sempre grandão — seja em altura e/ou em músculos —, grosseiro e com traços tidos como masculinos, tanto físicos como de personalidade, além de ter um maior foco em sexo. O uke (passivo), por sua vez, é pequeno, frágil, virgem e com necessidade eterna de ser protegido. Foca na parte romântica da relação. 
No yuri, apesar de ser mais incomum trazer divisões como seme e uke — ainda que elas existam: tachi é a “ativa”, e neko, a “passiva” —, elas se aplicam às aparências e à personalidade das personagens. Uma das garotas costuma refletir a ideia clássica de “homem”: cabelos curtos, roupas largas, voz grossa, atitude de moleca, foco em sexo. Também toma as iniciativas e guia a parceira pelo relacionamento. A outra, é claro, reflete a ideia de “mulher”: é delicada, fofa, feminina, gosta de vestidos e afins, foca em romance e não sabe muito sobre relacionamentos. 
Esse tipo de estereótipo perpetua os argumentos de que “gay deveria ser assim, lésbica deveria ser assado”, como se a orientação sexual das pessoas as definisse e não precisasse de mais nada para explicar as atitudes e preferências de um personagem além do papel dele na relação. Há brigas sérias dentro de fandoms e em fics quando um autor tenta fugir do estereótipo.

• Não sou gay/lésbica, é só com você: Ao que parece, muitos protagonistas nunca tiveram qualquer tipo de contato mais íntimo com outros seres humanos até aparecer aquele indivíduo, o que faz o coração bater mais forte e o corpo flutuar sem razão. Isso fica ainda mais estranho quando se trata de relacionamentos homossexuais, porque supostamente era todo mundo hétero antes de aparecer aquele personagem. Não é impossível alguém descobrir a própria orientação sexual depois de conhecer uma pessoa específica, porém, o problema, como de costume, não é isso acontecer, mas acontecer sempre. Uma versão um pouco alterada do seme é vista aqui, o que, em vez de assumido e predador sexual, é o “machão” ainda no armário. O par dele costuma ser um uke assumido e de bem com a vida, que sofre por conta do preconceito de seu parceiro. 
Às vezes, os personagens desse estereótipo chegam ao extremo de dizer “não sou gay/lésbica, é só com você” ou variantes, como o clássico “mas somos homens, não podemos...” logo antes de cederem. Com essa negação, de repente, fica tudo bem. Heterossexualidade salva. 

• Não existe romance em yuri: Pode até ocorrer algo similar em yaoi de vez em quando, mas esse estereótipo eu vejo adoidado em histórias yuri (e animes yuri, e tudo yuri). O romance vira apenas um acessório no meio de capítulos e capítulos de cenas de sexo. É frequente também que o emprego de uma das meninas na história seja garota de programa, dançarina exótica e afins, facilitando ainda mais nesse aspecto, como se ir para a cama fosse a única maneira de duas mulheres iniciarem um relacionamento (e que é baseado em sexo e só). Pode colocar romance em yuri sem medo, gente. 

• Se beber, criarei um plot: Quem nunca viu uma fic em que o primeiro contato íntimo entre os personagens acontece por causa de uma noite de bebedeira? Qualquer um que já teve um relacionamento amoroso ou que observou o dos outros sabe como funciona, como tudo pode começar. Duvido inclusive que vá haver muita gente cujo namoro engatou só depois de o álcool deixar você e seu parceiro mais suscetíveis a aceitar a situação. E tem esse detalhe também, né: por que os personagens não conseguem lidar com os próprios sentimentos sem essa “ajuda”? Mesmo que um deles seja homofóbico ou simplesmente não queira aceitar que gosta do outro, é mais interessante trabalhar nisso que recorrer a esse estereótipo. E isso vale também para enredos com Verdade ou Desafio, ou Sete Minutos no Paraíso. 
Adiciono aqui uma observação sobre histórias em que um dos personagens fica tão bêbado que nem consegue ficar de pé, mas acaba dormindo com o futuro parceiro ou é coagido por outros a tocar nele: isso é abuso sexual, podendo ou não haver estupro (depende da fic). 

• Não é crime, é amor – Parte II: Vou repetir esse porque é uma questão de extrema importância: aquele seme que persegue o uke, mesmo sob protestos, não é romântico; fazer o uke de escravo sexual contra a vontade dele não é romântico; a personagem que toca a outra sem convite não está sendo engraçadinha (em yuri, por exemplo, entre outros tipos de fanservice, é comum haver uma cena em que uma garota aperta os seios da outra, causando constrangimento). Uma versão um pouco alterada do uke é vista aqui, o tsundere, que é violento, se recusa a admitir que sente alguma coisa e sempre diz “não”, levando a cenas duvidosas na história. Óbvio que existem enredos e enredos, e, como falei na Parte I, pode ser que a pessoa consiga usar esses temas de forma diferente e intrigante. Além disso, você continua livre para trabalhar com essas situações na sua história da maneira como normalmente são apresentadas, mas não deixa de ser uma boa pesquisar a respeito antes.

• Meu melhor amigo é o meu amor: Enquanto, em romance hétero, os melhores amigos são o vértice esquecido do triângulo, em yaoi e yuri, eles adquirem dois papéis: o iniciador e o amor verdadeiro. 
O nome “iniciador” já dá a dica, é aquele que introduz ao outro personagem a ideia de que talvez ele tenha estado no armário a vida toda e nunca percebeu. Eles se beijam (ou até chegam ao sexo) numa brincadeira e, pronto, quem foi “iniciado” segue com a vida e, eventualmente, encontra seu parceiro real. 
O “amor verdadeiro” pode ou não ser um iniciador, mas a diferença é que, no final, ele formará um casal com o outro personagem. A história se repete: sempre foram amigos, sempre estiveram lá um para o outro, estava escrito nas estrelas. 

• Se não fosse aquele mal-entendido – Parte II: Esse também mereceu um comentário aqui porque o motivo da briga que separa o casal em yaoi/yuri em muitos casos é uma crise homofóbica. Tem história em que o personagem que sofre a crise sempre se aceitou, nunca teve quaisquer tipos de preconceito em relação à própria orientação sexual, mas de repente bateu aquele terror: “estou mesmo apaixonado por fulano(a)?! Mas fulano(a) é [insira aqui o gênero]!”. Ele vem em conjunto com o Não sou gay, ideia que o personagem repete para si mesmo ou para seu parceiro, de modo a ficar de bem com a vida e justificar o desentendimento. 

• O mundo mágico dos fetiches inexistentes: Sem pesquisa e aprofundamento em qualquer assunto, é meio complicado escrever sobre ele. Considerando que muitos escritores do Nyah! ainda são bem novinhos ou, infelizmente, sofrem algumas consequências do machismo enraizado na sociedade (sim, isso de novo), não é surpreendente que as cenas de sexo (hentai, lemon ou orange) estejam cheias de erros anatômicos ou acontecimentos impossíveis. A Diandra fala sobre isso neste post (que é para maiores de 18 anos, só para lembrar), então comentarei sobre a inexistência de fetiches e afins nessas cenas. 
É certo que, de um jeito ou de outro, “50 Tons de Cinza” mostrou um novo lado a ser explorado entre quatro paredes e, embora os romances hétero estejam fazendo justamente isso (com suas limitações, mas mesmo assim), os yaoi e yuri, frequentemente, deixam a desejar em termos de variedade. Depois da primeira vez, o casal não tem curiosidade de experimentar algo diferente, os personagens não têm fetiches ou vontade de mudar alguma coisa, e por aí vai. Isso peca um pouco no quesito “realidade” e também deixa os personagens mais rasos, já que essa parte também tem a ver com a personalidade de cada um, suas experiências de vida, etc. Além do mais, é um estereótipo que contribui para que todas as cenas de sexo pareçam meio iguais. Alguém já teve essa sensação lendo lemon e orange? Pois é. 

E encerramos o post com menções honrosas de estereótipos citados na Parte I que também ocorrem aqui: Opostos se atraem (o nerd e o badboy, o machão e o gay afeminado, a menina fofa e a moleca); O enredo como desculpa para o romance (concidentemente, o futuro casal precisa morar junto/fazer um trabalho da escola juntos/trabalhar juntos numa empresa); Já dizia “American Pie” (“e a dor se transformou em prazer”); À primeira vista; Quebra de rotina; Eu tinha um objetivo na vida... Até encontrar você (em geral, o uke ou a moça mais feminina passam a viver em função dos parceiros); Destruidora de lares (em alguns poucos casos, o romance yuri tem um garoto no papel).
O meu objetivo não foi problematizar os itens da lista, ainda que seja muito fácil fazer isso com a maioria; para esse fim, precisaria de outro post só focando nesse lado. Só que é inevitável não apontar de onde vêm certos estereótipos — ou talvez todos eles — quando se tenta explicá-los. Mantenho, porém, o que disse na Parte I: não estou fazendo uma crítica a nenhuma história e os autores continuam livres para escreverem o que desejarem. Mesmo assim, é sempre útil entender o que criamos e por que seguimos determinados caminhos, tanto para compreender melhor nossas próprias histórias quanto para nos tornar mais críticos.

Material consultado:
"heteronormativo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/heteronormativo [consultado em 29-01-2016].

Pesquisa de opinião em vários grupos de escrita. 


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Estereótipos em romance – Parte I

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016


Por: Anne L

es·te·re·ó·ti·po 
(estereo- + -tipo)

substantivo masculino
1. [Artes gráficas] Chapa obtida pela fusão de chumbo numa matriz ou numa impressão. = CLICHÉ
2. Trabalho feito com essa chapa.
3. Ideia, conceito ou modelo que se estabelece como padrão.
4. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. = PRECONCEITO
5. Coisa que não é original e se limita a seguir modelos conhecidos. = LUGAR-COMUM
6. [Patologia] Comportamento ou discurso caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, .anônimo ou impessoal, e desprovidas de originalidade e da adaptação à situação presente. = ESTEREOTIPIA

O foco aqui são os itens 3, 4 e 5. Com isso em mente, vamos começar. 

A primeira coisa que eu percebi quando fui fazer uma pesquisa, perguntando sobre o assunto em alguns grupos de escrita, foi que a maioria dos estereótipos existe por um motivo: machismo. Não falarei sobre isso no post, mas achei um tanto curioso o quanto os valores da nossa sociedade se refletem nas artes. 

Para facilitar a leitura, vou separar os estereótipos em “hétero” e “yaoi e yuri”, embora alguns não sejam exclusivos de uma categoria. Nessa primeira parte, falarei sobre os héteros.

- Estereótipos em romance hétero

Como nas outras categorias, o que mais se repete aqui é a escolha de personagens, de arquétipos, ainda que certas situações também sejam recorrentes nas histórias.

Opostos sempre se atraem: quem nunca viu uma história em que o casal principal é formado por alguém rico e alguém pobre; o nerd e o popular; pessoas que se odeiam; o bonito e o feio; ou variantes? Vale apontar também que, em geral, a parte “desfavorecida” é a mulher. O que eu considero verdadeiramente ruim nesse estereótipo é que os personagens costumam ser definidos por essa característica principal. Se a história for sobre um CEO famoso com uma garota pobre, por exemplo, boa parte do enredo vai girar em torno da diferença de poder aquisitivo entre eles. A garota vai descobrir os luxos e as maravilhas que só o dinheiro pode proporcionar, e o garoto, a felicidade e o amor que, segundo essas histórias, só existem quando se vive com pouco (mas, mesmo assim, no final, eles viverão felizes para sempre e muito ricos, obrigada). 

A mulher como um instrumento para a mudança do homem: “Um Amor para Recordar” é o exemplo mais óbvio dessa. Aliás, os romances do Nicholas Sparks são basicamente formados por alguns estereótipos costurados, se vocês forem reparar. 
Esse ocorre quando o único objetivo da mulher na história é alterar a vida do homem de algum modo. Normalmente, o cara é desempregado ou delinquente, e ela bem-sucedida na própria profissão, estudiosa, dedicada... Lembra bastante os Opostos, de que falei no item acima, embora aqui haja uma maior chance de a mulher ser “superior” ao homem de alguma forma — até porque ela serve apenas como um modelo, um catalisador para que aconteça a mudança positiva na vida do personagem. Muitas vezes, tal mudança é ocasionada para que o cara evolua, adquira responsabilidades, realize seus sonhos e se torne a melhor versão possível de si mesmo. Enquanto isso, sua parceira permanece imutável em relação ao começo da história ou até involui para se adequar a esse novo homem.

O enredo como desculpa para o romance: “Grávida por acidente”, “Casamento por contrato”. Esse estereótipo você já identifica pelo título da história. Não existe um romance entre os dois personagens — às vezes, o futuro casal nem se conhece ou já se odeia —, mas aí vem aquela surpresa: serão obrigados a fazer parte do dia a dia um do outro por uns tempos, talvez até morar juntos. É provável que a mocinha precise pagar uma dívida nesse estereótipo (e o corpo serve como moeda), queira salvar uma herança de família, a própria família, ou tenha tido um caso inocente de uma noite que resultou numa gravidez. A causa é o menos importante, uma vez que o foco é como o convívio na rotina alheia vai fazer o amor desabrochar e tornar o infortúnio a melhor coisa que já aconteceu na vida dos personagens. Quem nunca viu uma fic assim no Nyah?

Se não fosse aquele mal-entendido... não haveria conflito no enredo. Enquanto a maioria dos itens dessa lista peca por não formar laços com a realidade, esse apresenta um aspecto comum no dia a dia de qualquer pessoa: brigas e discussões. 
Mas não pense que estou dizendo que é ruim o casal da sua história ter desentendimentos. Nada disso. O que fez esse estereótipo ganhar um lugar no post foi a maneira como muitos autores trabalham com ele, como se os personagens fossem incapazes de deduzir certas coisas ou nunca tivessem o mínimo de interesse em clarear as próprias dúvidas. Falo do rapaz que assiste a uma cena ou escuta uma conversa suspeita da garota e conclui o pior; dos “vilões” da história que inventam algo sobre o protagonista, e a mocinha, decepcionada, termina tudo com ele em vez de averiguar se a informação que recebeu é verdade; do casal que simplesmente não conversa sobre nada e, quando o menor obstáculo se aparece em seu caminho, acaba por se separar. Esse item ainda vem acompanhado por um terceiro personagem, o mediador: aquela pessoa que surge no lugar certo e na hora certa e convence um dos lados de que tudo não passou de um mal-entendido.

Um é pouco, dois é bom, três é um triângulo: Para que deixar o romance se desenvolver numa boa quando se pode colocar mais alguém no meio? Sobre esse estereótipo, tenho uma confissão a fazer: adoro, mas quando bem feito. A ideia de triângulo amoroso não é ruim em si, porém, como a maioria dos clichês/estereótipos, fica ruim se não for explorada direito. 
Um jeito óbvio de fazer isso é deixando evidente o tempo todo quem vai ser “o escolhido”. Para que se dar ao trabalho de arrastar a história nessa quando os leitores já sabem qual casal vai ser feliz para sempre no fim? Outro muito comum é colocar o melhor amigo — normalmente, esse ocorre com dois homens e uma mulher — como um dos pretendentes. Tem aquele cara (com grandes chances de ser um badboy) por quem a protagonista é apaixonada, tudo bem, mas e o melhor amigo, aquele que sempre esteve lá, que faria tudo por ela? Lamento, mas, nesse item, as chances de ele ficar com a mocinha são ínfimas. 

Até que a morte nos separe: Alguém tem câncer. Alguém vai morrer. Só que, antes disso, esse alguém se apaixona e vive um amor épico até que a doença separa o casal. É interessante matar um personagem principal na sua história (ou assim acho eu, porque me divirto), mas, dependendo do enredo, até isso fica batido e previsível. Em muitos casos, esse estereótipo anda de mãos dadas com o da Mulher como instrumento de mudança, pois ela é quem costuma estar doente ou servir para que o homem aceite que vai morrer, cresça e realize seus sonhos antes disso. 

Já dizia “American Pie”... que a primeira vez é inesquecível. Para muitos escritores, isso ocorre porque ela é maravilhosa para todo mundo. Nem sei se é necessário comentar que, em geral, a personagem virgem é a mulher, consequência direta da ideia enraizada na sociedade de que é ela quem deve sempre se controlar, se guardar e esperar pacientemente até que “a pessoa certa” apareça. Aqui o problema parece ser apenas falta de pesquisa, já que muitos autores descrevem o momento como a melhor coisa da face da Terra. Ninguém sente dor, não existe nenhum tipo de desconforto, e ambos sempre chegam ao ápice. Só alegria. Isso quando o virgem não se torna de repente um expert em sexo, discutindo opções mais quentes e posições com seu parceiro. Esse tipo de abordagem acaba deixando as cenas um pouco genéricas, e não me refiro somente ao fato de sempre parecer a mesma coisa (porque, no fundo, meio que é), mas de vários personagens acabarem irreconhecíveis, perdendo todos os seus traços únicos quando ficam entre quatro paredes. 
Caso interesse, no blog já tem um post — em três partes — especificamente sobre erros comuns em cenas de sexo, que explora várias faces desse estereótipo. Aviso que é para maiores de 18 anos.

À primeira vista: Como a ciência ainda discute se isso é possível ou não, naturalmente, o meu foco não é na possibilidade de o amor surgir dessa forma, mas na frequência com que isso acontece em histórias. Costuma ocorrer só com os protagonistas, que batem o olho um no outro e, pronto, já estão apaixonados. O fato de os dois se apaixonarem ao mesmo tempo torna esse item ainda mais estranho. Cada pessoa é diferente, reage a determinadas situações de maneira diferente. Muita gente ainda cita que os astros se alinharam, que o destino fez um esforço para que o momento acontecesse e tudo mais. Nesse contexto, é até plausível, porque parece que só com o auxílio de uma força maior esse amor poderia nascer. 

Quebra de rotina: Essa “quebra” a que me refiro não diz respeito a uma mudança real na vida da pessoa, mas à entrada de um desconhecido nela, aquele desconhecido, que, com o tempo (não precisa levar muito também), se tornará seu grande amor. Muitas histórias já têm como premissa o aluno novo que entra na escola, o empregado novo contratado para a empresa, o parente que é distante tanto geograficamente quanto na árvore genealógica e que surge de repente.Não parece haver explicação para aquela pessoa nova ser especial em meio a tantas outras que o protagonista acabou de conhecer, mas ela é. Simples assim. Até entra um pouquinho no À primeira vista.

“A aposta”: Quem nunca viu uma fic com esse nome? Apostas são comuns em grupos de amigos e são feitas tanto por conta de coisas bobas como de importantes. O que torna isso um estereótipo, então? O enredo todo ser baseado nisso e haver apenas duas possibilidades de desfecho, é claro: 1 – o personagem que precisa cumprir a aposta fica com a pessoa que o ajudou a fazer isso; 2 – o alvo da aposta descobre tudo, fica bravo, mas acaba sendo reconquistado pelo parceiro e fica com ele. Sem surpresas.

Não é crime, é amor: Porque é perfeitamente normal aquele cara perseguir a mocinha pelos cantos, observá-la dormindo e tudo mais. Romantização de estupro entra aqui também, embora eu veja isso mais em yaoi. Recomendo analisar o contexto sempre, pois pode ser (pode ser) que o autor esteja trabalhando com Síndrome de Estocolmo ou algum distúrbio psicológico. Aproveito para lembrar, no entanto, que essa romantização não é apologia de estupro (que é crime), mesmo que seja considerado moralmente repreensível. Você é livre para trabalhar com qualquer tema na sua história, mas é sempre interessante saber do que está falando. Creio que esse item seja o mais complicado de se lidar, já que o machismo que permeia os valores da nossa sociedade às vezes impede as pessoas de discernirem o que é aceitável do que não é. É útil pensar que qualquer coisa que viole seus direitos (sejam eles ter o controle sobre o próprio corpo, ter dignidade, ter o poder de escolha quanto a seus parceiros ou companhias, etc.) não deve ser uma coisa boa.

Ela tinha tudo na vida, menos ele: Esse eu vejo mais em comédias românticas (Katherine Heigl, oi), apesar de aparecer em fics também. A personagem tem tudo que sempre quis, realizou todos os seus sonhos, é bem-sucedida, esclarecida e independente... Mas não tem namorado. Pobrezinha. Eis que surge aquele cara, aquele, que muda tudo. Após o derradeiro encontro, ela começa a perceber que não tinha exatamente tudo que queria, que não era tão bem-sucedida assim e que, na verdade, o trabalho até a privava de certas coisas.
Esse item pode fazer par com o Mulher como instrumento de mudança, porque costuma haver uma involução da personagem, que, no fundo, é infeliz sem um parceiro e precisa de um para enfim se sentir completa. É um retrato falso da mulher moderna, que conquistou conhecimento, independência e sucesso, mas que vê que, sem um homem, isso não serve para nada. O homem que ela conhece, por outro lado, passa por um crescimento pessoal que o leva a ser completo sozinho, ficando à altura dela ou até acima. 

Eu tinha um objetivo na vida... Até encontrar você: Não deve ser confundido com o Ela tinha tudo na vida. 
Frequente em romances de qualquer tipo, é mais um estereótipo que vem da ideia de que pessoas são definidas por seus relacionamentos ou pelo papel que desempenham nele. A protagonista tinha mil metas pessoais para cumprir, o mocinho tinha milhares de sonhos... Mas acabaram se conhecendo, e tudo isso virou pó sob a grandiosidade do amor deles. Não parece muito verossímil. Por mais que as pessoas mudem quando entram em um relacionamento, dificilmente elas negam a própria identidade para viver em função de seu parceiro. Isso não é nada saudável, na verdade. Fica legal mostrar na sua história como o amor afeta alguém, porém, é uma boa tomar cuidado para que o “amor” não torne seu personagem raso. 

Destruidora de lares: Ela é famosa por ser antagonista do casal feliz, querendo separá-los e fazendo o possível para que isso aconteça. Mesmo em yaoi e yuri, normalmente, é uma mulher, que é retratada como uma pessoa ruim e com pouca profundidade além da parte de querer separar o casal. Ex-namoradas/esposas/noivas cumprem esse papel, em geral, mas muitas melhores amigas (da garota ou do garoto) também são usadas para infernizar a vida dos pombinhos. Uma de suas ferramentas de destruição é o Mal-entendido e, de vez em quando, ela pode alcançar a redenção como mediadora. 

Esses foram apenas alguns exemplos dos estereótipos mais comuns em romance hétero — ainda que muitos se encaixem também em yaoi e yuri, como será tratado na segunda parte. Tenham em mente que não é crime nenhum usá-los na sua fic, e uns podem inclusive ter uma abordagem interessante, caso o autor se esforce. Escrita se baseia praticamente em leitura, pesquisa e dedicação, uma vez que todos os temas já foram colocados em alguma história. É uma abordagem diferente, um aprofundamento em algum aspecto que torna o seu texto único.


"estereótipo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/estere%c3%b3tipo [consultado em 29-01-2016].

Pesquisa de opinião em vários grupos de escrita.
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[Pedido] Escrevendo cenas românticas

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Por: Mayy-chan (Liga dos betas)



Olá. Hoje falaremos sobre algo que é motivo de dúvida entre muitos ficwhriters que conheço. Penso ser sobre algo que até alguns renomados autores têm certa dificuldade: falaremos sobre como narrar uma cena de romance.

Quem aí já se cansou de fanfics em que, nas cenas de romance tão esperadas, leem apenas as seguintes palavras: “E ele me beijou”, ou coisas horrivelmente melosas em que a personagem passa um terço da fanfic descrevendo o seu beijo maravilhoso com o seu “príncipe encantado”.

Pois bem, para se escrever uma boa cena de romance, temos que nos lembrar de um fato importantíssimo: beijos são coisas que nos despertam sentimentos. Não importa se foi nojo, por causa de uma situação forçada ou apenas desagradável, ou felicidade, pois a personagem esperou por muito tempo por aquilo ou simplesmente achou agradável.

Outra coisa que é muito importante: o primeiro beijo nunca é algo intenso ou divino. Que atire a primeira pedra quem teve o seu com seu príncipe encantado no meio de uma praia com um lindo pôr-do-sol ao fundo e uma trilha sonora perfeita tocando. Vamos ser um pouco realistas, okay? Sua personagem pode até gostar, porém não pode ser algo profundamente intenso. Contudo, temos que lembrar que, ela querendo ou não, vai ser inesquecível.

O mais importante nessas cenas, é se lembrar de suas próprias experiências ou se inspirar em algumas autoras que realmente são boas nisso, cujos livros sejam mais focados no romance.

Também não podemos nos esquecer de que cenas de romance não são apenas beijos. Abraços, cafuné, andar de mãos juntas e outras coisas assim, também são contados como romance e, além de darem um toque mais real à fanfic, ainda fazem com que seu texto fique mais rico.

Vejo muitas autoras confundirem a forma como narrar o afeto que a personagem sente pelo seu melhor amigo, e o amor que sente por aquele cara que faz seu coração bater mais forte. E isso é algo essencial, por isso vou tentar diferenciar ambos os sentimentos:

Um sentimento de afeto é bem mais calmo, agradável e que faz o coração ficar estabilizado. Já o amor é bem mais conturbado, desesperador e faz sentir como se fosse vomitar todo o coração.

E, claro, não podemos esquecer que para compor uma cena de romance, a personagem não deve apenas chegar ao lugar onde está o garoto de seus sonhos, falar qualquer coisa sem sentido e, de repente, os dois estão se beijando. Antes disso temos que criar um cenário, além da forma como os dois personagens foram parar lá juntos.

Também não é adequado, a meu ver, fazer uma cena de beijo um dia após o casal se conhecer. Seria bom ter uma espécie de “enchimento”, nada que seja do tipo: “Eles se esbarraram na rua, ele olhou nos olhos de Jujuba e beijou-a”. Até porque, se fosse assim, não seria romance.

É extremamente importante, porém, e a maioria das pessoas se esquece, ter em conta que o nosso corpo envia sinais de quando estamos interessados por uma pessoa. Exatamente pelo fato de quase ninguém se lembrar, resolvi citar alguns sinais que me parecem ser importantes:

(1) Demonstrar cuidado com a aparência;
(2) Sorrir com frequência;
(3) Posicionar o corpo na direção da outra pessoa;
(4) Inclinar o corpo e imitar a postura do outro;
(5) Tocar na outra pessoa;
(6) Ficar muito perto durante uma conversa;
(7) Olhar fixamente para a outra pessoa;
(8) Prestar muita atenção na outra pessoa;
(9) Tomar a iniciativa de contato;
(10) Prolongar o encontro;

Mas é claro que não podemos nos esquecer de sempre manter a personalidade dos personagens. Isso é um fato de suma importância.

Agora penso que deu para tirar boa parte de suas indecisões sobre as cenas romance. Espero que tenham gostado e possam fazer bom uso dessas dicas em suas fanfics.


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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana