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Estilo literário: como fazer para ir além das palavras

domingo, 16 de agosto de 2020

 


Por: Edgar Varenberg

Se você está no mundo da literatura há um tempo, seja lendo ou escrevendo, com certeza já ouviu falar da palavra estilística. Caso não, já viu alguém dizer ou perceber em um livro que ele tem um estilo próprio, um jeito individual de se expressar. Entretanto, como funciona esse processo? Estilo é só o autor fazer qualquer coisa e declarar que é o jeito dele? Bom, não é assim que funciona, então vem comigo entender o que torna algo, de fato, estiloso literariamente e saiba como deixar a sua marca registrada na sua escrita!

 

Intencionalidade: o estilo parte de um objetivo

            Antes de qualquer coisa, precisamos compreender que o estilo parte de um pressuposto intencional. O que significa isso? É um recurso em que modificamos a ordem natural da escrita para expressar um objetivo planejado, podendo até mesmo quebrar barreiras gramaticais. Um exemplo de recurso que temos para exemplificar isso é a figura de linguagem chamada neologismo. Neste recurso, criamos novas palavras, geralmente unindo palavras já existentes, para expressar informações de uma forma que a nossa gramática existente não consegue suprir (em negrito e sublinhado porque essa é toda a base da intencionalidade, portanto, guardem no coração de vocês!). Vejamos alguns exemplos:

       O verbo “deletar” e todas as suas conjugações → Embora seja um tipo de termo já bem inserido na nossa fala, essa construção verbal não vem da nossa língua. E o processo de construção veio a partir da união do “delete”, em inglês, com a nossa morfologia verbal padrão “-ar”. E qual foi a intencionalidade disso se a nossa gramática já tem os verbos “apagar” e “excluir”, por exemplo? Criar uma escolha vocabular (confira o post “5 hábitos que vão te ajudar a ser um escritor melhor” para saber mais sobre isso) específica para o contexto de eliminar coisas virtualmente, além de ter sido uma melhor integração de um termo num ambiente que, inicialmente, só era distribuído na língua inglesa.

       Brasagélido → Uma palavra que eu inventei para uma das minhas histórias, que vem da união das palavras “brasa” (fogo) e “gélido” (gelo). E qual foi a intencionalidade? Descrever a sensação de algo que é quente e frio ao mesmo tempo, uma vez que não temos uma palavra assim na nossa gramática.

            Agora que vimos um exemplo de como a intencionalidade funciona, podemos observar o processo reverso. Um evento que acontece de forma recorrente na escrita de fanfics, por exemplo, é utilizar características dos personagens em função de pronome. Você já deve ter visto construções assim:

       “E então o loiro pegou seu guarda-chuva e saiu de casa.”

       “Estavam muito amorosos naquele dia, principalmente quando o mais alto resolveu abraçar o mais baixo com força, na frente de todo mundo.”

            E qual é o problema de fazer assim? Vamos lembrar o princípio da intencionalidade: “expressar informações de uma forma que a nossa gramática existente não consegue suprir”, só que, no caso, a nossa gramática supre isso muito bem com o uso de pronomes, então não existe um uso intencionado e direcionado. Além disso — e fica como uma dica extra —, ao menos que a característica física seja algo crucial e importantíssima para o enredo, não é muito adequado referir-se aos personagens através dela, uma vez que isso pode comprometer o fluxo de leitura, já que vários personagens podem ser loiros, altos, gordos etc, e dar essa carga para o leitor de ter que lembrá-las imediatamente pode causar problemas de fluidez.

            Para quebrar as regras é preciso conhecê-las e entender por que você está quebrando, ou seja, não é um evento aleatório. Criar novas palavras, revirar as formas de usar pontuações, dar novos valores gramaticais a palavras já existentes, tudo isso precisa ser bem medido até que se concretize como estilo. No entanto, nada nos impede de experimentar e ver se funciona ou não, uma vez que parte do processo criativo também vem da experimentação.

 

O componente visual da estilística

            Nem sempre o estilo precisa estar atribuído somente a palavras, o aparato visual também contribui para uma representação própria do texto. Em se tratando de prosa, essas questões são mais sutis, limitando-se a situações como tamanho de parágrafo, frequência de diálogos. Um texto com parágrafos muito longos fica notoriamente diferente de um texto com parágrafos mais curtos quando você está enxergando o produto final no geral.

            Em se tratando de textos em versos, essa questão é muito mais presente, pois o jeito que você distribui suas estrofes, ou onde os versos longos ficarão dão toda uma identidade visual para o seu texto; por exemplo, é comum autores fazerem sequências de versos curtos quando querem expressar um ritmo mais rápido, apressado. E assim como já vimos ao longo deste artigo, esses tipos de recursos também são motivados, isto é, há uma intenção, afinal, você não vai parar a sua poesia para indicar ao leitor que ele precisa ler aquilo mais rápido; é para isso que servem os recursos de estilo.

            Voltando lá para a prosa, desta vez com a questão da intencionalidade em mente, é muito importante pensar em como o formato do seu texto expressa a situação da sua história. Está acontecendo um monólogo ou as descrições são tão arrastadas que seu leitor precisa ler mais lentamente? Parágrafos longos são preferíveis. Sua situação é mais corriqueira e apresenta apenas uma passagem de fatos? Parágrafos curtos são mais recomendados. Você quer quebrar o ritmo de repente ou simplesmente cortar uma situação instantaneamente? Experimente um parágrafo de linha única. Existem muitas possibilidades que, também com experimentação, nos tornam mais sensíveis a entender melhor tais usos.

 

É importante otimizar

        Depois de entendermos como esses fenômenos funcionam através da relação de intencionalidade, podemos falar sobre a frequência de uso. É muito comum, principalmente em escritores iniciantes, procurar coisas assim para inserir na história, como uma espécie de demonstração de conhecimento técnico, mas a verdade é que o uso estilístico é bem mais efetivo quando o processo é reverso a isso. Como assim?

É mais fácil — e mais seguro — quando é algo que a história demanda do que quando é algo que decidimos inserir apenas para estar lá. A literatura é uma arte baseada em justificativa, tudo que você escreve ou deixa de escrever aguarda uma justificativa (mesmo que muitas vezes apliquemos tais recursos de forma natural, devido a estarmos acostumados com esse meio criativo). Quando o autor joga recursos assim para o aleatório, é comum que acabe se encontrando em uma situação de ter um certo termo ou expressão lá, mas vazio, sem um significado rico, justamente porque não há justificativa que sustente a presença daquilo naquela narrativa.

Na maioria das vezes, menos é mais. Seu texto não precisa ter um neologismo só para você mostrar que sabe usar um; no entanto, se você pensa que a história está demandando isso e enxerga várias justificativas para isso estar inserido, então já é um bom sinal de que pode ser uma opção boa.

Por fim, vale lembrar também que é preciso ter muito cuidado para não confundir erro ou mau uso de recursos com estilo! Já aprendemos aqui tudo que direciona um bom uso de estilo: intenção, relação gramatical e justificativa. Ou seja, como já foi dito, não é um processo aleatório, não é algo que você pode pegar qualquer coisa e falar que é estilo e, com toda essa discussão, o objetivo é justamente facilitar a identificação desses momentos.

            E você? Como enxerga esse mundo do estilo? Gosta de arriscar e experimentar de tudo ou é mais na sua e prefere fazer do modo tradicional?

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5 hábitos que vão te ajudar a ser um escritor melhor

domingo, 12 de julho de 2020

            


Por: Edgar Varenberg

    O mundo da escrita, embora encantador, possui um sistema de aprendizado infinito. Isso significa que não importa se você começou ontem ou se você está no ramo há mais de uma década, sempre há algo novo a aprender, sempre descobrimos maneiras novas de expressar situações, de analisar uso de determinados recursos e de se construir literatura como um todo; além disso, a literatura é bastante social e sofre metamorfoses conforme as transformações da própria sociedade. Com isso em mente, o post de hoje traz uma análise de cinco padrões reproduzidos pelos escritores ultimamente, a fim de refletir sobre como esses comportamentos podem atrapalhar o processo de evolução na escrita.

 

1 - Entender como funciona o fenômeno da sinonímia

            É muito comum lermos em dicas para escritores o famoso “evite repetições, use sinônimos”. Mas o que exatamente são os sinônimos? Isso tudo vem do evento gramatical que chamamos de “sinonímia”, que consiste na relação que algumas palavras têm em relação ao mesmo significado. E qual é exatamente a questão em cima disso? É que a relação de sinonímia não é perfeita, as palavras não são capazes de substituir completamente as outras, pois cada palavra é única, ainda que possam carregar valor semântico muito próximo. Vamos analisar isso na prática?

            Vamos trabalhar com o adjetivo inteligente. E vamos pegar outros três adjetivos que possuem valor semântico semelhante: astuto, sábio e esperto. Todas essas palavras remetem a alguém que sabe usar a cabeça, que pensa rápido, que possui conhecimento. Agora vamos destrinchar essas palavras para vermos quais são os contextos que elas aparecem e as sensações causadas ao leitor:

       Inteligente — Geralmente usado em ambientes acadêmicos, facilmente associado a alguém que tem muito conhecimento sobre alto teórico ou alguém que sabe de muitas coisas (seja da mesma área ou de áreas distintas). É usado como elogio em situações nas quais a pessoa que elogiou se sentiu surpreendida.

       Astuto — Geralmente usado em situações mais espirituais ou de façanhas bem mais subjetivas que conhecimento acadêmico, por exemplo. É usado para se referir a pessoas que são discretamente conhecedoras de algo.

       Sábio — Esse termo carrega uma convenção social daquele que tem muita experiência, portanto, geralmente associado a pessoas mais velhas. Refere-se a uma relação proporcional entre conhecimento e tempo.

       Esperto — É basicamente uma relação mais marginalizada do conhecimento. Refere-se àquela pessoa que utiliza sua experiência para se dar bem nas situações, mesmo que isso implique em enganar outra pessoa ou omitir partes da situação geral.

            Ficou perceptível que palavras de significado aparentemente aproximado possuem muitas diretrizes de interpretação e contextualização. Na poesia, por exemplo, existe uma guerra para se encontrar a palavra perfeita, aquela que cabe tanto na estrutura quanto na expressão. É claro que na prosa não precisamos ser tão rígidos com a escolha das palavras, porém entender a sinonímia é fundamental para não fazermos com que certos atributos descaracterizem um personagem ou um ritmo de narração.

            É difícil praticar a percepção de sinonímia? Felizmente não é. Escritores que já estão há certo tempo no ramo com certeza estarão lendo isso com mais facilidade do que aqueles que começaram recentemente, pois a leitura constante faz com que percebamos certos padrões no uso das palavras. Para praticar, é necessário bastante leitura e análise: ver como cada palavra é usada, em que contexto, onde mais aparece. E a melhor parte, é que vale para a linguagem oral também! Perceba a forma como as pessoas falam certas coisas, a entonação, por que ela usa uma palavra em vez de outra, com que intenção. Com a prática, a sinonímia vai ser completamente natural para você.

            O que um mau uso de sinonímia pode refletir na escrita? Isso pode levar a dois caminhos bem complicados. O primeiro deles é uma quebra de refino de caracterização, ou seja, um personagem ou tipo de narração não serem bem representados mediante à escolha vocabular (vimos lá em cima os diferentes contextos de inteligência e o quão importante é escolhermos o mais adequado de acordo com a vivência do nosso texto). Já o segundo caminho é beirar para uma escrita pomposa demais; sei que é incrível a gente pegar um dicionário de sinônimos e ver o quanto nossa língua é rica e tem várias maneiras de dizer as coisas, mas um texto que usa sinônimos demais (uns até formais demais para o registro do texto) tende a ficar pomposo e desconexo: por isso, não se acanhe em repetir uma palavra ou outra, existe uma quantidade tolerável para isso.

 

2 - Confiar na capacidade interpretativa do leitor

Às vezes algum texto nosso pode envolver coisas que vão além do que é popularmente comum, e podemos pensar que o público não vai entender e que precisamos explicar o que está acontecendo. Mas será mesmo? Um dos conceitos que a teoria da literatura coloca para gente como iniciadores de uma leitura é chamado de estranhamento. O que isso significa? É o fenômeno presente na leitura que cria um efeito de uma percepção diferente da arte, através daquilo que lhe causa estranheza, ou seja, mediante tais dificuldades, o leitor vai achar uma nova perspectiva para entender aquele conceito.

            Isso significa que se o texto estiver bem coeso e formulado, o autor não precisa criar notas de rodapé para explicar as coisas, o leitor fará isso por conta própria e cabe ao escritor acreditar nisso. Inserir notas e explicações é uma forma de subestimar a capacidade interpretativa do leitor e isso é completamente contraproducente e antiprofissional, pois faz parecer que nem aquele quem escreveu confia na coerência do próprio material. Portanto, o foco na coesão é o mais importante: leve o seu texto a um amigo ou a alguém que te acompanha como revisor, pergunte se a impressão desejada está sendo transmitida corretamente, assim você terá segurança em publicar sem explicações.

 

3 - Conhecer o trabalho de outros escritores

            Vivemos uma época em que a literatura contemporânea existe e cresce a todo fervor; os best-sellers nos rodeiam, as fanfics iniciam as pessoas no mundo da escrita, e a produção contemporânea existe em revistas e coletâneas mundo afora. Se você está vivo e produzindo literatura neste exato momento, significa que você também faz parte da época contemporânea, portanto, tem as noções sociais de como esse tipo de literatura se constrói. Entretanto, há um enorme problema quando você é escritor, porém não é leitor.

            É de extrema importância que conheçamos o que nossos colegas de época estão produzindo, pois:

      Pessoas diferentes possuem diferentes vivências, logo, o mesmo tema pode ter perspectivas bem opostas, tornando-se crucial para a criação de uma diversidade ao longo de um mesmo assunto;

    Lembra ali que falamos sobre sinonímia e como perceber padrões de leitura? Só conseguimos nos sentir afetados pela literatura enquanto leitores, nossa leitura sob nosso próprio material é comprometida porque somos o processo criativo daquilo. Sendo assim, somente lendo outros autores que podemos perceber que tipos de recursos afetam o texto;

    A literatura é renovável, ela precisa manter um ciclo sustentável, isto é, se estiver mais gente escrevendo do que lendo, ela não vai para frente;

    Ler por si só já é uma atividade extremamente saudável, melhora o discurso, o vocabulário, a sensibilidade artística, entre outras coisas.

            Um escritor, acima de tudo, precisa ser um leitor. Inclusive, ele precisa ler muito mais do que escreve, porque a literatura é uma atividade muito prática e social; não tem como entendermos a sociedade — e querer aplicá-la literariamente — sem entendermos como outros escritores estão enxergando essa sociedade. Torne a leitura um hábito mais frequente e sinta sua percepção de escrita evoluir, pois o conhecimento da diversidade é uma ferramenta poderosa.

 

4 - Visualizar a literatura como um processo criativo complexo

            Este tópico em específico é muito delicado, uma vez que carrega uma subjetividade incômoda. No entanto, ocorre muito em escritores, principalmente iniciantes e intermediários, de tratar a literatura como um processo mais aleatório e menos concreto. Como assim? O processo criativo da escrita tem muita teoria e metodologia, ainda que nem percebamos isso diretamente, existem jeitos de se pensar o fazer literário. Há tempo para tudo: se você planeja escrever um romance, existe o tempo do planejamento, da escrita, do refino, da revisão, da reescrita, da experimentação, etc. Escrever é um processo complexo, demorado e difícil.

            Se você tem em mente escrever um livro inteiro, não pense que isso é feito em dois ou três meses, mesmo que você consiga escrever todo o conteúdo em um mês apenas. A literatura não é escrever só por escrever, mas exige usar a comunicação ao seu favor; não é só contar uma história, é dar vida a uma história, e é por isso que existem recursos e técnicas de escrita que exploram essa necessidade. E, mesmo assim, nem tudo é composto por técnicas e recursos, às vezes o fazer literário reside na identidade do autor, o quanto ele expressa sua vivência naquele enredo, o quanto ele expõe a mensagem necessária. O livro, a história, é uma ligação de fatos, é você juntar acontecimentos para levar uma mensagem, trazer uma sensação. E, para isso, há o refino da escrita, que é trabalhoso.

            O fazer literário é como se envolver num relacionamento sério. É uma coisa que você começa e precisa ir nutrindo, cuidando, polindo, assim como também precisa vivê-lo, passar os dias, ter uma opinião num dia e ter outra semanas depois (e ver como isso interfere na sua obra), é a transformação do próprio fazer humano. Futuramente farei um post para vocês inteiramente sobre essa questão do refino!


5 - Ser mais tolerável a críticas

            Este tópico em específico é o mais trabalhoso de se lidar e, não à toa, deixei por último. Todo o processo de escrita é muito envolvente e acolhedor, nos sentimos produtivos, criamos universos novos, mensagens inspiradoras e toda a nossa obra parece ser um pedaço da gente, certo? Sim e não. Embora seja maravilhoso experimentar essas sensações, o apego ao próprio material mais traz obstáculos do que vantagens para o escritor. Se tornar resistente a opiniões contrárias, por exemplos, não querer que o texto passe por reformulações (que visam a melhora do próprio texto), são coisas que podem colocar todo o seu processo criativo em risco. Escritores precisam ser abertos às críticas, não tem outro jeito, principalmente se ele leva o seu trabalho a um revisor. O revisor está ali e ele sabe o que está fazendo, um bom revisor nunca vai querer remover sua essência ou conspirar contra a sua história.

            Parece às vezes que as críticas são mal-intencionadas ou que foram feitas para ferir nossos lados pessoais, mas é importante entender como se compõe a essência da crítica. Esse tipo de trabalho requer uma sensibilidade enorme, uma grande capacidade de questionamento e argumentação; você verá que um bom revisor/crítico sempre vai saber argumentar o motivo pelo qual ele apontou alguma coisa. E você tem todo o direito de achar o apontamento inválido! Jamais levar para o lado pessoal, ou pior, sentir desmotivação por ver que muitas coisas foram apontadas. Pelo contrário, a oportunidade de ter alguém te acompanhando com todo esse cuidado deve ser muito bem aproveitada (não se acanhe e faça muitas perguntas)!

            Como já dito, a aprendizagem no ambiente literário é infinita, mas a meta é diminuir o máximo possível a dúvida e tornar os acertos cada vez mais naturais. Se identificou com algum dos itens? Tem algo para refletir? Comenta aí pra gente!


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7 Verdades Difíceis de Engolir Sobre a Escrita

segunda-feira, 9 de julho de 2018
Por: Edgar Varenberg


Todo escritor tem suas próprias motivações e aptidões, escrevendo aquilo que mais o agrada, seja porque admira algum fandom ou porque sonha em trabalhar suas histórias originais. De área ampla, a literatura traz conosco muitas aventuras e dificuldades; há quem diga que escrever é fácil, embora não seja. Entretanto, há algumas características da literatura que muitas vezes não percebemos, ou não enxergamos em seu total funcionamento; por isso, este post falará sete verdades difíceis de engolir sobre escrever.
Obs: o post é de cunho reflexivo e te convida a enxergar outros pontos de vista além do seu, portanto, não tratem como verdade absoluta.

1 – A literatura é uma ciência como qualquer outra e precisa ser estudada.
Como assim, Tio Edgar? Simples. Quando uma pessoa quer desenhar, ela vai lá, pratica bastante, estuda métodos, traços, um monte de coisa até se aperfeiçoar; quando uma pessoa quer fazer música, ela estuda os acordes, a teoria, até conseguir compor o que deseja e, assim, executar. A literatura não é diferente. Ser escritor não é só saber escrever, a literatura é composta, também, de material que pode ser estudado, desde recursos até como usar a gramática a seu favor.
Então isso significa que eu tenho que estudar Letras para escrever? Claro que não. Qualquer um pode estudar o básico da literatura no conforto do seu lar, entender suas teorias principais, entender por que a literatura é o que é hoje. E para que serve isso? Quando temos mais consciência das coisas que fazemos, acabamos por executá-las com maior qualidade.
E onde eu posso estudar sobre isso? Estamos aí para isso, né non? O próprio blog da Liga dos Betas é repleto de artigos sobre o assunto. Olhe também nos nossos sites parceiros!

2 – Bem-aventurados são aqueles que mais leem do que escrevem.
A prática ajuda a melhorar o desempenho? Ajuda, com certeza. Contudo, nada ajuda mais do que uma boa dose de leitura. Mas por quê? Bom, imagine um cenário em que o escritor vive 100% da prática. Ele escreve todo dia, planeja suas histórias diariamente, está sempre publicando algo novo, mas não busca ler. O problema disso é que ele só vai evoluir dentro da própria perspectiva dele, dentro do mundo dos enredos dele, dentro da própria capacidade, e o conhecimento não funciona assim. É muito importante que estejamos sempre em atividade de leitura, conhecendo outros estilos narrativos, novos jeitos de dizer alguma coisa, formas inéditas de se explorar tudo aquilo que já existe.
Mas se ler e escrever são importantes, então o adequado não seria equilibrar e investir em 50% de cada? Depende. Como eu disse acima, a prática da escrita abrange um universo muito pequeno, limitado a apenas a sua produção; a literatura é um ambiente gigantesco, tão grande quanto a própria existência. A partir do momento em que você está praticando a escrita, está deixando de praticar a leitura, então será que a balança pesa realmente igual?
Algo em torno de 30% de prática escrita e 70% de prática de leitura parece muito mais produtivo. Primeiro a gente visita os lugares e depois a gente fala sobre eles, certo? Se você lê pouco, experimente colocar mais peso nesse lado da balança e veja se sente alguma diferença.

3 – Existe liberdade na escrita.
Quem nunca presenciou aquela treta clássica: escrever para o público ou fazer algo mais profundo e intelectual rico culturalmente reencarnação de Machado de Assis? Isso com certeza rende muito assunto, não é? A literatura, como arte, sempre abrange mais e mais patamares com o passar da sua própria existência; ela não evolui (muito menos involui), apenas toma formas diferentes sem apagar o histórico daquilo que já formou em tempos passados.
Basicamente, hoje as coisas estão tão bem difundidas que já é possível enxergar diferentes objetivos para diferentes tipos de texto. Por um lado, aqueles baseados em best-sellers, histórias com roteirização comum, que atingem um grande público, tratam temas populares; elas são vistas como literatura de mercado, ou seja, é para vender e popularizar mesmo, não é para analisar e estudar a nível acadêmico.
Enquanto isso, aqueles tipos de textos mais elaborados estruturalmente, muitas vezes com leituras difíceis e significados obscuros, aqueles que se aproximam do que conhecemos como literatura clássica; eles têm outros objetivos, eles buscam experimentação, o uso aprofundado de recursos literários e a sua prática, ou seja, é para análise, para interpretação, muitas vezes são estudadas no meio acadêmico, desmembradas e contribuem para o material de estudo da área. Portanto, não costuma ser popular.
O que eu quero dizer com isso tudo? São coisas diferentes, com objetivos diferentes, e compará-las é perder tempo.

4 – A originalidade não existe.
Antes que me taquem as pedras, deem uma chance! Mas Tio Edgar, minhas histórias são super originais, eu dei um trabalho imenso para desenvolvê-las... Calma! Afinal, o que seria a originalidade não existir? A literatura é antiga e gasta. Pelo menos no campo das ideias, tudo que já teve que ser explorado já foi explorado, e tudo que existe já existe. YUKE? Quando dizemos que a originalidade não existe, estamos incorporando o ideal de que não existem donos de um determinado objeto.
A sua história pode parecer a coisa mais revolucionária do mundo, mas ela carrega pedaços de outras coisas. Isso porque o nosso cérebro coleta informações o tempo inteiro, até mesmo quando achamos que não. Seja um filme que você viu há anos, uma conversa que ocorreu no seu lado e você “não prestou atenção”, essas informações sempre são associadas pela nossa mente e, graças a isso, somos capazes de passar pelo processo criativo (a propósito, há um tempo, escrevi um artigo aqui sobre como funciona o processo criativo, passa lá para entender melhor).
Ou seja, não fique triste porque sua ideia não é original (e nunca será), mas fique feliz por você ter a oportunidade de contá-la do seu jeito!

5 – Não sabemos sintetizar as coisas.
Temos uma tendência perigosa a sermos prolixos! A gente quer falar e falar, pega o embalo e, apesar de acharmos que produzimos muito conteúdo sobre alguma coisa, nós simplesmente escrevemos uma frase imensa sobre algo que poderia simplesmente ter sido encurtada e, assim, originado uma sentença muito mais simples e até mais clara. Percebeu como a frase anterior é desnecessariamente longa?
Às vezes temos uma meta de palavras a cumprir e essa pode ser a sua maior inimiga. É muito comum encontrar textos, por exemplo, em que frases inteiras podem ser descartadas, até mesmo parágrafos. Mas por que isso acontece? Bom, estamos contando uma história e, naturalmente, acabamos arrastando nossos elementos discursivos para a escrita. É claro que numa conversa pessoal é muito mais legal se estender, tentar entonações diferentes, até enrolar o amigo para fazer aquele suspense bacana, mas a escrita não funciona assim.
É importante se desvencilhar da quantidade de palavras e focar na fluidez dela. E menos é mais, menos é sempre mais. Vou propor um desafio: peguem a história mais antiga de vocês e releiam, experimentem cortar aquilo que vocês acham desnecessário, ou seja, que não alteraria em nada na história. Feito isso, comparem com a história atual de vocês. Essa tendência é bem difícil de corrigir, muito mesmo, TODOS cometemos isso. Por isso é muito importante estarmos sempre compartilhando nossos textos com os outros, ou mesmo ter um beta-reader.

6 – Pare de inventar desculpas.
Se você discordou de algum item até então, você provavelmente está inventando desculpas. Mas Tio Edgar, você mesmo disse para não levarmos como verdade absoluta, você está sendo incoerente. Calma, não é disso que eu estou falando. O que eu quero dizer é que muitas vezes não nos permitimos pensar em questões como essas que estão sendo apresentadas no post, partindo de um pressuposto de que essas coisas não afetam a escrita.
Quando nos fechamos a algo inédito ou adverso, tendemos a inventar desculpas para não interagir com aquele tipo de informação. Basicamente, é permitido discordar, mas é muito importante que primeiro se experencie para depois discordar. Muitas vezes, por exemplo, falei sobre o item 1 para algumas pessoas e fui respondido com coisas do tipo “mas eu só escrevo por hobbie”, “estudar é para quem faz letras, eu não preciso dessa complicação toda”, entre outros. Ou quando falo do item 4 e as pessoas insistem em dizer que elas possuem, sim, uma ideia totalmente original que só existe na cabeça delas e o mundo inteiro nunca presenciou. É muito perigoso não só para a escrita, mas para a convivência em sociedade, a falta de interação com certas camadas do conhecimento.
Permita-se!

7 – A busca pelo bom texto leva a lugar nenhum.
Pergunte a qualquer formado em literatura o que é um “bom texto” e veja eles se perderem numa crise existencial profunda. O bom texto existe? Existe. Ele é tateável? Não. Não adianta, é muito difícil estabelecer parâmetros exatos para a constituição de um bom texto ou o que é preciso fazer para alcançar qualidade de escrita. Não dá, dedicar-se inteiramente a isso vai te levar a lugar nenhum.
Textos são dinâmicos e são a essência das ciências humanas. Temos jeitos diferentes de ler, um mesmo texto pode ser lido de formas diferentes pela mesma pessoa, inclusive. Não tem fórmula mágica. E como saber se estamos indo bem? Interagindo, lendo e escrevendo; basicamente, sendo uma sociedade. A literatura é como um comportamento, é algo que vive sofrendo influências externas, mas nunca deixa de ser aquilo que a compõe internamente.
Pense menos na perfeição e mais na experimentação. Experimente e tire suas conclusões de suas experiências. E compartilhe!

Novamente, não são verdades universais, talvez sequer sejam verdades, mas é muito importante abrirmos nossa cabeça para as mais diversas discussões. Reflita, critique; a literatura está aí para tornar o ser humano um carrasco da palavra.
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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana