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Como Abordar G!P E Transexualidade Em Histórias

terça-feira, 20 de dezembro de 2016


Por: Cris Reese

E aí galera! Belezinha?

Sejam bem vindos à minha estreia no blog! - olha ela se achando -.

Sou Cris Reese e venho aqui para trazer um tema, de certa forma, polêmico. Um tema muito usado nas fic's da categoria séries: intersexualidade e transexualidade.

As assanhadas de plantão adoram, né?

Entraremos nesta jornada para entender qual a diferença e como abordar esse tema delicado, o que será um auxílio para sua próxima ou atual fic.

Lembrando que é necessário ter uma mente aberta para esse assunto, que muitas vezes é vulgarizado ou deturpado em algumas histórias. O foco aqui será na abordagem de fic’s, mais detalhes sobre o tema deixarei nas referências.        


Primeiro, as diferenças:
  • Inter e G!P:
    G!P é um termo muito usado nas fic's americanas, Girl with penis (garota com pênis). No entanto, intersexualidade não se restringe apenas às mulheres.
    Intersexo é quando o seu sexo biológico não se encaixa na binária masculina/feminina.
    Ex: Uma mulher nasce com um pênis, desenvolvido ou não. Ou ao contrário, quando o homem nasce com uma vagina. Nesses casos há a possibilidade do individuo ser fértil. Há também o caso de apenas o órgão sexual reprodutor interno ser diferente (útero, escroto, etc).
    Nas aulas de biologia é dado o exemplo do menino que aos 13 anos sentiu muito dor e, ao ir no médico descobriu que era cólica... E que era uma mulher. Alguém lembra dessa aula? Alguns inters não sabem de sua condição até a puberdade.

    Famosos Inter BR
    :
    Roberta close
    (Há mais, porém é apenas especulação)

  • Trans:
    “Transexual é o indivíduo que nasce biologicamente pertencente a um determinado sexo, mas sente-se, percebe-se e tem a vivência psíquica de pertencer ao outro sexo. Dizemos que a identidade de gênero (saber-se homem ou mulher) não é congruente com o sexo anatômico, biológico.” explica Alexandre Saadeh, psiquiatra coordenador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Universidade de São Paulo.
    Em outras palavras, nasceu homem(mulher), mas jamais sentiu ser um(a).

    Famosos trans BR:
    Thammy Gretchen, Lea T, Tereza Brant, etc.



Pesquisar é imprescindível:
Empatia ainda mais. Então, antes de começar sua história, seja o tema primário ou secundário, se coloque na pele de uma pessoa que tem essa condição.

Se fosse você lendo, gostaria da forma como você está sendo retratado? Se sentiria ofendido?

É importante avaliar isso, porque é um grupo discriminado, subjugado e incompreendido de pessoas que você estará falando a respeito.


Identidade sexual:
Ser inter ou trans não é garantia de homossexualidade.

Um nascido homem, transexualizado para mulher, pode continuar gostando de mulher. (Seu cérebro deve ter bugado aqui, mas deu para entender, né? Só esqueça os rótulos que ficará mais fácil).


Caracterização nas fic´s:
É muito comum nas fic's esses personagens serem uma Shane (personagem "fodástico" no quesito “pegação” da série The L word ). Porém, não é por aí que a banda toca. Há sim muita curiosidade acerca do assunto, no entanto, há muito preconceito também. É quase ofensivo dizer que um trans ou inter entra em algum lugar e é aclamado por ser diferente. Há uma distância muito grande da realidade ao escrever isso (com exceção quando as pessoas desconhecem a condição inter ou trans).

Leve isso em conta e observe as opiniões alheias, pesquisar é importante não apenas para deixar a fic realista, mas para seu conhecimento e embasamento sobre vários assuntos também.
No caso dos inter, eles são “invisíveis”, devido ao fato de sua única diferença ser a genitália, muitos se escondem por vergonha.


Escolhendo como tema principal (sugestões):

  • Trans: Uma sugestão é imaginar que a personagem não se sente bem do jeito que nasceu. Sente-se desconfortável dentro do seu corpo. Às vezes beira o desespero por sentir que tem algo errado, aquilo não é quem deveria ser; as roupas incomodam, parecem erradas; o que o espelho reflete não é o que ela sente ser e apenas ela enxerga isso.
    Se optar por colocar a família na história, é interessante demonstrar a posição deles - família - diante disso. Transexualidade não é normalmente aceita pela família, mas isso não é regra.
    Colocar quando e por que o personagem decidiu lutar para mudar, também fica interessante. Os motivos são o que mais definem o caráter e personalidade do personagem nesse caso.

  • Inter: Há duas ideias interessantes que podem ser exploradas. Uma é o personagem não saber de sua condição e descobrir em sua adolescência; e outra é sempre saber, aceitando ou não.
    No primeiro caso, imagine a personagem pertencendo a um gênero e... de repente tudo mudar! Fica a dúvida sobre quem realmente se é, e milhares outras. O que mudaria na vida dela? O que fazer com uma nova identidade? Será que amou seus amigos como amigos ou era algo há mais?
    No segundo caso, a personagem se sente bem com sua condição? A esconde? Sente vergonha? Não está nem aí? Sente orgulho? Esse caso é mais usado com o personagem adulto.      


“Ei, por que fulano não opera?”  

Essa é uma pergunta que muitos leitores fazem. A ideia de optar pelo mais prático é sempre o mais aceito. E esse é um dos motivos da pergunta: “Não seria muito mais fácil operar para não ter que sofrer preconceito?” Esteja preparado para essa pergunta.
E sobre cirurgia de adequação de sexo, a dificuldade da mudança que o transexual deve suportar nunca é o resultado de um capricho, curiosidade ou tédio. A escolha deste caminho ocorre, porque nenhuma outra forma de vida para ele é suportável.

Dica importante:
Não use a palavra “hermafrodita”, por favor, é um xingamento doloroso. É uma palavra estigmatizada que as pessoas associam com ter os dois tipos de genitália funcionando ao mesmo tempo, o que não é possível para o ser humano.

Como tema secundário ou persona coadjuvante:
Em segundo plano é mais fácil, tudo dependerá da abertura e intensidade que decidir dar a personagem. Não deixe de levar em conta a curiosidade do seu leitor, esse assunto costuma gerar muita curiosidade. O que comem? O que fazem? Vejam hoje no glob... Não espera! Canal errado. Voltando...    


Avisos:
Não esqueça de avisar ao seu leitor que há transexualidade na história, algumas pessoas não gostam de ler. Nas opções de avisos há "transexualidade", não deixe de marcar. Marque a mesma no caso de inter.
Mas não pense que esse assunto é apenas against, é possível sair muita comédia daqui. Já li muitas fic's divertidas com esse tema.

Deixo aqui algumas dicas de filmes, na referência há mais.
Qualquer dúvida, deixe nos comentários.


Dicas de filme:         
Tomboy (2011)
Má educação (2004)
Madame butterfly (1993)
Meninos não choram (1999)
House (5 temp, ep 12) série
XXY (2007)
A garota dinamarquesa (2015)


Referência:
Corpo Em Obra - "contribuições Para a Clinica Psicanalitica do Transexualismo" (Cód. 3658614)
Kalaf Cossi, 2014
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Transtornos Psicológicos

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Por: SayakaHarume


Hallo, filhotes~
Bem, pra quem não me conhece, eu sou uma sofredora acadêmica de psicologia, e durante meu percurso no mundo das fanfics, encontrei muitas com personagens que possuíam algum tipo de distúrbio mental e precisavam ir ao psiquiatra/psicólogo.
O que pode enriquecer muito um texto, também pode deixá-lo fraco, se não tratado devidamente. Já vi vários distúrbios explicados e mostrados de forma incorreta, pendendo para um estereotipo que eu não acho legal incentivar, por que existem pessoas de verdade com esses problemas, e não sabemos quantas estão do outro lado da tela, lendo nossos textos.
Porém, nada está perdido! Estou trazendo aqui alguns dos distúrbios que eu mais vi aparecerem nas fanfics que li por aí. Vou tentar deixar o mais explicado e simples possível :P







Não posso falar muito sobre a psiquiatria, além de que, como acredito que todo mundo saiba, ela é uma especialização da medicina e exclusiva da medicina. Já cruzei com pessoas que achavam que quem se forma em psicologia pode fazer psiquiatria, mas não.
Já sobre a psicologia... Só tenho amor por isso. Porém, não se prendam ao velho conceito de deitar no divã. O divã é exclusivo da psicanálise, que é apenas uma parcela de um todo. Na psicanálise, o terapeuta não faz contato visual com o indivíduo para não chamar a atenção para si e deixar o indivíduo fazer a associação de ideias que quiser, falar o que quiser. Nas outras correntes da psicologia, já não temos muito disso. É valorizada a transferência, o olho no olho. Não que as outras correntes sejam melhores, são apenas diferentes, abordagens diferentes. Só quero mostrar aqui que nem só de divãs se fazem as terapias.
Sobre o termo de confidencialidade acredito que todos já sabem: o que é falado no consultório, fica no consultório, exceto em poucos casos:
  1. O indivíduo é menor de idade (porém, nesses casos, o psicólogo só fala o quadro geral do cliente e como a família pode ajudar, o que é dito por ele fica em segredo);
  2. Quando há risco de vida para o cliente (indivíduos que mostram ideação suicida);
  3. Quando há risco para terceiros;
  4. Quando alguém confessa algum crime no consultório (o psicólogo tem que reportar ao Conselho Regional de Psicologia).
Porém, nos dois primeiros casos, o indivíduo é informado que o psicólogo vai conversar com a família, e o psicólogo tem que tranquilizar o cliente quanto a isso, valorizando o laço de confiança criado entre eles. No terceiro caso, dependendo do tipo de risco que o indivíduo representa, o psicólogo tem que tomar cuidado para que não se torne um alvo. No quarto caso, o psicólogo agirá segundo as orientações do CRP.

No SBLAN, grupo de interação entre a Liga dos Betas e a comunidade do Nyah!, alguns meses atrás eu fiz uma pesquisa a respeito dos distúrbios sobre os quais mais tinham dúvidas na hora de escrever e fiz uma lista para explicá-los em uma série de três artigos. Neste, vou falar sobre a Bipolaridade e o TOC. Apenas dois para o artigo não ficar muito extenso e cansativo, mas estão previstos para os próximos artigos sete distúrbios!

Antes, algumas explicações: na corrente psicológica que eu sigo, o Humanismo, não chamamos o indivíduo de paciente, já que a pessoa não é passiva em seu tratamento, nós chamamos de cliente, e vai ser assim que vou chamar no decorrer do artigo.
Deixando claro que tentarei usar o mínimo possível de termos clínicos, mas algumas vezes, terei que recorrer a eles. Por isso, peço que deixem seus pré-conceitos sobre a psicologia e tudo que a envolve bem aqui, porque os significados desses termos, muitas vezes são bem diferentes do significado “popular”. Nesse artigo, três desses termos clínicos foram, para mim, impossíveis de traduzir no texto corrido, então, trago a “tradução” aqui:
Episódio Maníaco – Também chamado em alguns textos de Mania, é um distúrbio mental definido como um período distinto, durante o qual existe um humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável. É característico, embora não exclusivo, do transtorno bipolar no qual os episódios maníacos alternam com episódios depressivos.
Episódio Hipomaníaco – Também chamado de Hipomania, é uma alteração de humor semelhante à mania, porém com menor intensidade. A pessoa se sente muito bem, com bastante energia. Normalmente a necessidade de sono diminui e a libido aumenta.
Episódio Depressivo Maior – Não é a Depressão Nervosa em si. Diferencia-se do humor "triste", que afeta a maioria das pessoas regularmente, por se tratar de uma condição duradoura (a maior parte do dia, quase todos os dias, pelo menos 2 semanas), de maior intensidade ou mesmo por uma tristeza de qualidade diferente da tristeza habitual, acompanhada de vários sintomas específicos e que trazem prejuízo à vida da pessoa.
Por favor, não se autodiagnostiquem caso se identifiquem com alguns sintomas.
TRANSTORNO BIPOLAR
Transtorno Bipolar é um distúrbio complexo. Sua característica mais marcante é a alternância, às vezes súbita, de episódios de depressão com os de euforia (maníaco e hipomaníaco) e de períodos assintomáticos (sem sintomas) entre eles. As crises podem variar de intensidade (leve, moderada e grave), frequência e duração. As flutuações de humor têm reflexos negativos sobre o comportamento e atitudes dos indivíduos, e a reação que provocam é sempre desproporcional aos fatos que serviram de gatilho ou, até mesmo, independem deles.
Em geral, essa perturbação do humor se manifesta tanto nos homens quanto nas mulheres, entre os 15 e os 25 anos, mas pode afetar também as crianças e pessoas mais velhas.
Clinicamente, existe mais de um tipo de Transtorno Bipolar que podem vir a serem diagnosticados no cliente: transtorno bipolar tipo I, transtorno bipolar tipo II, transtorno ciclotímic e outros mais raros que não tratarei nesse artigo.
Transtorno Bipolar tipo I: É o que antigamente, nos primórdios das descobertas dos distúrbios mentais, se chamava psicose afetiva. De lá pra cá, foi descoberto que não há exigência de psicose ou de experiência na vida de um episódio depressivo maior, ainda que, a maioria dos indivíduos que são diagnosticados, tenham tido episódios depressivos maiores durante sua vida.
Para o diagnóstico dessa modalidade do transtorno, é necessário o preenchimento de alguns critérios para um episódio maníaco e pode ser antecedido ou seguido por episódios hipomaníacos ou depressivos maiores, ainda que não seja regra.
Episódio maníaco: Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, e aumento anormal e persistente da atividade dirigida a objetivos ou da energia, com duração mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, ou quase todos os dias. Traduzindo: Por uma semana ou mais, o indivíduo fica com o humor facilmente irritável e expansivo, com a bateria ligada no máximo, durante a maior parte do dia, na maior parte dos dias da duração desse episódio.
Durante esse período, três (ou mais) dos seguintes sintomas estão presentes em grau significativo e representam uma mudança notável do comportamento habitual:
  1. Autoestima elevada ou grandiosidade;
  2. Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com 3horas de sono);
  3. Mais falante que o habitual ou pressão para continuar falando;
  4. Fuga de ideias ou sensação que os pensamentos estão mais acelerados;
  5. Distrabilidade (a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos insignificantes);
  6. Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou escola, ou mesmo sexualmente) ou agitação psicomotora (atividade sem propósito não dirigida a objetivos);
  7. Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para consequências dolorosas, como: surtos desenfreados de compras (e não se trata de consumismo. É sair comprando coisas sem motivo algum. Já vi um estudo de caso de uma mulher que saiu de casa para comprar uma cortina e comprou um carro), indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos, e por aí vai.
Essa perturbação no humor é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo no funcionamento social ou profissional do indivíduo, ou a ponto de necessitar de hospitalização para evitar dano ao cliente ou a terceiros.
O episódio não é atribuível aos efeitos de substâncias (p. ex., abuso de drogas ou medicamentos, etc.)
Episódio Hipomaníaco: Em comparação ao Episódio maníaco, as diferenças se dão em relação à duração (neste tipo de episódio são no mínimo quatro dias), está associado a uma mudança clara no comportamento do indivíduo, tanto que elas são observadas mais claramente por terceiros, mas o episódio não é tão grave a ponto de causar prejuízos ao indivíduo.
Episódio Depressivo Maior: Quando cinco (ou mais) dos seguintes sintomas persistem durante duas semanas e representam mudança de comportamento; pelo menos um dos sintomas é humor deprimido ou perda de interesse ou prazer (tem que ter pelo menos um desses dois!):
  1. Humor deprimido (em crianças e adolescentes pode ser humor irritável);
  2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas, ou quase todas, atividades na maior parte do dia, quase todos os dias;
  3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta;
  4. Insônia ou hipersonia (sonolência excessiva) quase diária;
  5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observável por outras pessoas; não apenas sensações de inquietação ou de estar mais lento);
  6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;
  7. Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que pode ser delirantes – sem motivo) quase todos os dias (não apenas autorrecriminação ou culpa por estar doente);
  8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias;
  9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio (dependendo da intensidade do episódio).
A principal diferença entre os Transtornos Bipolares I e II é que, no primeiro, há o Episódio Maníaco, enquanto no tipo II, há os episódios hipomaníaco e depressivo maior. Também, o tipo II caracteriza-se por episódios de humor recorrentes, mudando de um ou mais episódios depressivos maiores e pelo menos um hipomaníaco. No tipo I, a existência desses outros dois tipos de episódios não são obrigatórias.
Entre esses dois, não há um considerado mais leve ou mais grave, já que são casos diferentes. A euforia e irritação do tipo I é mais forte, enquanto no tipo II, prevalece a depressão e euforia em formas mais brandas.
Transtorno Ciclotímico: É o quadro mais leve do transtorno bipolar, marcado por oscilações crônicas do humor, que podem ocorrer até no mesmo dia. O paciente alterna sintomas hipomaníacos e de depressão leve que, muitas vezes, são entendidos como próprios de um temperamento instável ou irresponsável. Outras características:
  1. Por pelo menos dois anos (um ano em crianças e adolescentes), presença de vários períodos de sintomas hipomaníacos que não satisfazem os critérios de episódio hipomaníaco (são menos de três sintomas) e vários períodos com sintomas depressivos que não satisfazem os critérios de episódio depressivo maior (são menos de cinco sintomas);
  2. Durante o período citado em A, os períodos com sintomas hipomaníacos e depressivos estiveram presentes por pelo menos metade do tempo, e o indivíduo não permaneceu sem os sintomas por mais que dois meses consecutivos;
  3. Os critérios para episódios maníacos, hipomaníacos ou depressivos maiores nunca foram satisfeitos;
  4. Outros distúrbios como esquizofrenia e outros transtornos psicóticos foram descartados;
  5. Os sintomas não são atribuíveis a efeitos de substância;
  6. Os sintomas causam sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Ufa! Terminei de explicar os três principais tipos. Bipolaridade é algo bem complexo, não é só estar feliz em um momento e daqui a pouco, estar triste. É algo que causa muito sofrimento a quem possui o distúrbio e deve ser conduzido com cuidado.
Causas: Ainda não tem uma causa determinada, porém, já se sabe que vem de fatores genéticos hereditários.
Diagnóstico: O diagnóstico do transtorno bipolar é clínico, baseado no levantamento da história e no relato dos sintomas pelo próprio paciente ou por um amigo ou familiar. Em geral, ele leva mais de dez anos para ser concluído, porque os sinais podem ser confundidos com os de doenças como esquizofrenia, depressão maior, síndrome do pânico ou distúrbios da ansiedade. Daí a importância de estabelecer o diagnóstico diferencial antes de propor qualquer medida terapêutica.
Tratamento: Transtorno bipolar não tem cura, mas pode ser controlado. O tratamento inclui o uso de medicamentos, psicoterapia e mudanças no estilo de vida, tais como o fim do consumo de substâncias psicoativas, (cafeína, anfetaminas, álcool e cocaína, por exemplo), o desenvolvimento de hábitos saudáveis de alimentação e sono e redução dos níveis de estresse. A associação de lítio com antidepressivos e anticonvulsivantes tem demonstrado maior eficácia para prevenir recaídas. No entanto, os antidepressivos devem ser utilizados com cuidado, porque podem provocar uma guinada rápida da depressão para a euforia, ou acelerar a incidência das crises.
A porcentagem de pessoas com bipolaridade de qualquer tipo que tentam o suicídio está entre 30 e 50%.
Exemplos:
Tipo I:
“Patrícia passou horas no shopping, fazendo compras. Quando chegou em casa, a mãe a advertiu que tudo aquilo – um conjunto de abajures, um kit de jardinagem e dois vestidos de festa – não era necessário no momento, e lhe disse para ter cuidado com o cartão de crédito. Patrícia irritou-se, apesar do tom da mãe não ser de reprimenda, e iniciou uma discussão. Após meia hora não aguentou e saiu de casa, indo conversar na praça com quem estivesse passando. Tornou a discutir com a mãe no final do dia, por alguns objetos fora do lugar, e sua mãe aproveitou para externar sua preocupação por ela estar dormindo pouco e estar extremamente distraída, mas Patrícia menospreza essa preocupação, dizendo que a mãe não vê que ela está sempre ocupada com coisas mais importantes.” – Um exemplo de um dia de um Episódio Maníaco.
Tipo II:
“João levantou-se da cama com esforço. Não estava em nada interessado nas atividades do dia: a preparação para a comemoração do final do ano. Sentia-se cansado, já que havia alguns dias que não conseguia dormir, e também vinha perdendo peso com facilidade, embora não estivesse sequer saindo de casa, quanto mais se exercitando. Encontrou suas irmãs na cozinha, lavando já a louça do almoço e se tomou por um sentimento de culpa, já que uma vez que elas já haviam preparado o almoço, devia ao menos ajudar a limpar a cozinha, mas sempre achava que era melhor não atrapalhar do que acabar estragando alguma coisa. Ana, sua irmã mais nova, percebeu sua chegada e lhe sorriu, o que o fez pensar que ela estava ansiosa pelos dias bons que ela sabia que viriam.” – Exemplo de Episódio Depressivo Maior, comum no Transtorno Bipolar tipo II.
Transtorno Cíclico:
“Samantha se dirigiu ao consultório do seu terapeuta logo depois de deixar os filhos na escola. Havia brigado com o namorado no dia anterior, quando ele a acusava de ter se esquecido de pegar as crianças na escola por preguiça, o que não era verdade. Ela só não havia percebido o tempo passar enquanto ficava na cama, ocupada com vários pensamentos depressivos. Em um geral, ela se sentia mais fraca e desanimada, como se houvesse uma corrente a arrastando para mar aberto, e se sentia ainda pior, já que tinha a esperança de que seus dias bons fossem durar um pouco mais. Estava há um mês sem escorregar para a depressão, ainda que seus dias eufóricos fossem igualmente ruins e prejudiciais. Na última vez, perdera tempo demais no trabalho organizando a papelada antiga e esqueceu de terminar o balancete do mês, e quase foi demitida.” – Exemplo de alternância de Episódio Hipomaníaco e Episódio Depressivo Maior, que ocorrem tanto no Tipo II, quando no Transtorno Cíclico.

TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO – TOC
A principal característica do TOC é a presença de crises recorrentes de obsessões e compulsões.
Entende-se por obsessão pensamentos, ideias e imagens que invadem a pessoa insistentemente, sem que ela queira. Esses pensamentos ficam rodando dentro da cabeça e o único jeito para livrar-se deles por algum tempo é realizar o ritual próprio da compulsão, seguindo regras e etapas rígidas e pré-estabelecidas, que ajudam a aliviar a ansiedade. Alguns portadores dessa desordem acham que, se não agirem assim, algo terrível pode acontecer-lhes. No entanto, a ocorrência dos pensamentos obsessivos tende a agravar-se à medida que são realizados os rituais e pode transformar-se num obstáculo não só para a rotina diária da pessoa, como para a vida da família inteira.
Em geral, os rituais se desenvolvem nas áreas da limpeza, checagem ou conferência, contagem, organização, simetria, colecionismo, e podem variar ao longo da evolução da doença.
Já me deparei com estudos de caso em que o cliente achava que um acidente de carro terrível aconteceria se antes de ele entrar no carro, ele não abrisse e fechasse cada porta e o porta-malas duas vezes. Também outro que, tinha rituais diferentes para cada dia da semana.
O indivíduo também não consegue apenas não fazer o ritual. Ignorar o ritual pode deixá-lo incrivelmente ansioso e inquieto, gerando um mal-estar que pode se mostrar físico.
Por favor, não confundir TOC com mania de limpeza e/ou organização. Uma pessoa com essas manias pode se sentir irritada se algo estiver fora do lugar. Alguém com TOC vai se sentir angustiado se seu ritual não for feito.
Causas: Estudos sugerem a existência de alterações na comunicação entre determinadas zonas cerebrais que utilizam a serotonina. Fatores psicológicos e históricos familiares também estão entre as possíveis causas desse distúrbio de ansiedade.
Diagnóstico: Em geral, apenas nove anos depois que manifestou os primeiros sintomas, o portador do distúrbio recebe o diagnóstico de certeza e inicia o tratamento. Por isso, a maior parte dos casos é diagnosticada em adultos, embora o transtorno obsessivo-compulsivo possa acometer crianças a partir dos três, quatro anos de idade. Na infância, o distúrbio é mais frequente nos meninos. No final da adolescência, porém, pode-se dizer que o número de casos é igual nos dois sexos.
Tratamento: Nos casos mais graves pode ser necessária a utilização de antidepressivos inibidores da reabsorção da serotonina, mas sempre aliado à terapia cognitivo-comportamental, que é usada tanto nos casos mais leves aos mais graves (nesses, aliado a medicação).
Seu princípio básico é expor a pessoa à situação que gera ansiedade, começando pelos sintomas mais brandos. Por exemplo: mostrar ao indivíduo que nada de ruim acontecerá se ele não acender e desligar a luz duas vezes antes de sair de casa. O terapeuta parte dos mais simples para os mais complexos, respeitando o tempo do cliente.
Exemplos:
“Maria roía as unhas sem parar, sentindo as mãos suando e ouvindo o pé bater no chão. Seu estômago estava se revirando, e havia um gosto ruim em sua boca. Tinha quase certeza absoluta que não abrira e fechara as janelas de sua casa antes de sair, para verificar se estavam bem trancadas. Com certeza, quando chegasse depois do trabalho, encontraria tudo revirado e seus pertences valiosos roubados. Não parava de se perguntar se nas duas horas que teria de almoço seriam suficientes para ir até em casa verificar as janelas. Sem falar que já ficara sabendo que no refeitório era dia de bolo de carne, e ela absolutamente não poderia comer aquilo. Era terça-feira, ela só podia comer salada nas terças-feiras!” – Exemplo de uma crise de ansiedade de uma pessoa com TOC.
“André respirou fundo enquanto seu terapeuta lhe incentivava mudamente. Tudo que ele queria era voltar e organizar toda aquela prateleira de livros, organizando todos por tamanhos e cores, mas entendia o quanto aquilo já lhe prejudicara durante toda a sua vida. Já perdera as contas de quantas brigas arranjou, quantas vezes se atrasou, porque precisava que tudo estivesse em simetria. Respirou fundo mais uma vez e começou a andar mais rapidamente para longe daquele brechó de livros. Olhou para o lado e o terapeuta lhe parabenizou, o que não o impediu de perguntar timidamente:
― Não podemos voltar e dizer a um dos vendedores que aquilo tudo está uma desordem total?” – Exemplo de tratamento de pessoa com TOC.

Bem, escolhi esses dois distúrbios para irem primeiro por ver que eles são bastante utilizados por aí, mas também são os que mais contêm equívocos na forma como são mostrados, perdendo apenas para a Depressão, mas essa última vai ficar para outro momento, para que eu possa falar dela como se deve. Não quis me estender muito, uma vez que são temas complexos e eu não quero sobrecarregar ninguém com muita informação.
Os próximos distúrbios a serem discutidos nos dois artigos que faltam: Depressão, Transtorno Dissociativo de Personalidade (Dupla Personalidade, mas não a minissérie –q), Transtorno Boderline, Psicopatia x Sociopatia Funcional, Autismo x Aspenger, Fobia Social e Esquizofrenia Paranóide.
Até a próxima o/

DSM – V: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais

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Sexualidade e Verossimilhança (3/3)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Por: Roberto Lasneau

Nos dois posts anteriores, vimos as principais informações sobre a homo, bi e assexualidade, a fim de mostrar, da maneira mais clara possível, como funciona esse universo que muitos desconhecem, visto que nossa sociedade é heteronormativa.
Este post tratará sobre os principais tópicos da Transsexualidade e da tão conhecida Heterossexualidade. O post também terá um grande foco numa situação que é facilmente confundível: a diferença entre sexualidade e identidade de gênero.
Parte 3.1 – Transsexualidade
O mais importante de tudo:
Sexualidade x Identidade de gênero
A primeira coisa que precisa ser desmistificada é que a transsexualidade tem a ver com homossexualidade. Seja na hora de construir suas personagens ou tratando-se de pessoas reais, esses dois termos (sexualidade e identidade de gênero) são totalmente independentes. Nenhum tem relação com o outro.
Para entender melhor, podemos fazer uma simples relação da sua personagem e, você, escritor, verá que não é nada tão complicado. Vamos pegar um exemplo aleatório:
Mulher¹ cisgênera² homossexual³
¹É a sua identidade de gênero. Ela se identifica como mulher. Gosta de ser mulher e de tudo que o gênero lhe proporciona. Gosta que a tratem por meio de pronomes femininos.
²O termo “cisgênera” indica a “concordância” entre a identidade de gênero e o sexo biológico (que se difere do sexo psicológico). Falando de forma mais simples, ela se identifica com o gênero que lhe foi determinada no nascimento (biologicamente falando).
³É a sexualidade dela. Perceberam como isso não interfere na identidade de gênero? Como eu disse mais acima, ela se identifica como mulher; logo, não tem interesse por coisas de identidade masculina, não se sente como um homem. Ser homossexual, no caso, não significa que ela queira ser homem.
Vamos criar outra personagem aleatória para visar melhor:
Homem¹ transgênero¹ bissexual¹
¹É a identidade de gênero do personagem. Ele se identifica como homem, gosta disso e gosta de que o tratem como homem.
²O termo “transgênero” indica a “não-concordância” entre a identidade de gênero e o sexo biológico, isto é, ele não se identificou com o gênero que lhe foi determinado no nascimento.
³Independente da identidade de gênero, sua orientação sexual é definida pela bissexualidade, ou seja, ele sente atração por mulheres e homens, o que mostra mais ainda que esses três itens não influenciam uns aos outros.
Não-binários
Ainda há outro grupo de pessoas que são classificadas como não-binárias, que, como o próprio nome já diz, são aqueles que não se prendem aos dois gêneros: masculino e feminino. Nesse caso, sendo tanto uma pessoa bigênera (que se identifica com os dois sexos) quanto uma agênera (que não se identifica com nenhum). Além disso, existem casos de gêneros fluídos e até mesmo algumas culturas que nomeiam terceiros sexos.
Sexo: a necessidade e o ato
Não vou me estender muito nesse tópico porque o assunto já foi abordado. Identidade de gênero não tem a ver com sexualidade, portanto, uma pessoa transgênera terá as mesmas necessidades da sua orientação sexual, sendo iguais a todos os outros da mesma sexualidade.
F.A.Q. sobre a Transsexualidade
1 – Eu tentei pesquisar sobre o assunto, mas são tantos termos que eu me confundi. Queria criar uma personagem trans, mas vi tantos nomes que não sei como farei a devida referência. Como proceder?
Bom, as principais nomenclaturas conhecidas são “Transexual”, “Transgênero”, “Travesti” e “Não-binários”. O transexual é aquele que, por desconforto, acaba por optar a fazer a operação da genitália, “mudando” para o sexo com o qual se identifica. O transgênero é aquele que simplesmente não criou uma “concordância” com o sexo que lhe foi designado (o que inclui os travestis e os transexuais). O travesti é aquele que tem o desconforto com o gênero, mas não necessariamente com a genitália, isto é, com a necessidade de fazer uma operação. Já os não-binários são aqueles que não se prendem aos dois gêneros, como foi explicado mais acima.
2 – Um transgênero pode ser homossexual? E assexual?
Pode, em ambos os casos. Lembrando que, no caso da homossexualidade, leva-se em conta o gênero com que a pessoa se identifica, portanto, se for uma pessoa transgênera que se identifique como mulher, a homossexualidade será definida pelo fato de ela sentir atração por outras mulheres. O sexo biológico não tem relevância nisso.
3 – Como eu posso fazer a insatisfação de gênero da minha personagem sem parecer algo forçado?
Creio eu que não há como fazer isso forçadamente, afinal, insatisfação é algo fácil de explorar num personagem, algo bem abrangente também. No entanto, acho que cair em contradição possa tornar o texto forçado, isto é, escrever, por exemplo, dois desejos totalmente opostos que, juntos, gerariam algum conflito.
4 – Supondo que minha personagem nasceu homem, mas sempre se sentiu incomodada com isso. Minha fic falará sobre esse processo de “transformação” dele e eu pretendo que na primeira metade da fic ele ainda esteja como homem e, na segunda metade, já como mulher. Como devo me referir à personagem na primeira metade da fic?
Se sua narração for em primeira pessoa, use pronomes femininos (caso contrário, seria uma contradição). Se a narração for em terceira pessoa, fica a seu critério, já que este tipo de narração é impessoal. Já sobre as personagens restantes, sempre terão aqueles que respeitarão e os que não respeitarão a identidade de gênero da sua personagem, mude conforme as ocorrências.
5 – O que é drag queen? Tem algo a ver com o tema?
Não tem muito a ver com o tema, mesmo se tratando de um ser travestido. As drag queens (ou drag kings, para mulheres que se travestem de homem) são apenas manifestações artísticas, ou seja, trata-se de arte ou até mesmo de profissão. Existem homens héteros que trabalham como drags, então não há nenhuma relação.


Parte 3.2 – Heterossexualidade
Por último, e não menos (ou mais) importante, temos a orientação sexual mais comum na nossa sociedade, indicada por cerca de 90% da população mundial, a heterossexualidade. Apesar de ser muito conhecida, ainda existem alguns (poucos) erros que muitos enfrentam, principalmente quando se trata da relação entre um hétero com outra pessoa de outra sexualidade.
Heterossexualidade x Curiosidade
É normal que o ser humano, principalmente na adolescência, queira experimentar coisas novas e diferentes do habitual. No entanto, com a heteronormatividade presente na nossa sociedade, nem sempre esses “experimentos” são muito bem vistos. Há dois tipos de heterossexuais: os convictos e os curiosos.
O heterossexual convicto é aquele que não está aberto a experimentar. Então, no caso de um homem heterossexual convicto, ele somente ficará com pessoas do sexo oposto, exclusivamente. Já o heterossexual curioso é aquele que aceita experimentar uma pessoa do mesmo sexo (seja pra ver como é ou simplesmente por experimentar mesmo) e isso não o faz de indeciso ou de menos hétero; ele continua hétero, ele apenas experimentou.
Concluindo, curiosidade não torna ninguém mais/menos homem ou mulher heterossexual. É uma coisa comum do ser humano, apesar de existirem seres convictos.
Heterossexualidade x Comportamento
Não é todo rapaz hétero que se comporta de forma 100% masculina. Assim como não é toda moça hétero que se comporta de forma 100% feminina. O mesmo vale para pessoas de outras sexualidades. Isso acontece porque os seres humanos são diversificados, cada um é diferente do outro e a sexualidade não influencia no comportamento. Sexualidade não tem relação direta com comportamento!
Existem, sim, rapazes héteros com trejeitos, assim como existem rapazes homossexuais totalmente discretos, e o mundo é repleto dessas diferenças. E ninguém é mais homem (no caso do exemplo) que ninguém, porque ser homem é questão de identidade de gênero e não de quem é mais “macho” que o outro. Pensar dessa maneira já é considerado uma ideologia machista (por machismo temos aqueles que pensam que ter mais masculinidade que alguém é sinônimo de superioridade).
Sexo: a necessidade e o ato
Diferente das outras sexualidades, creio eu que não preciso explicar muita coisa aqui, visto que é bem conhecido (o clássico homem e mulher). No entanto, existem alguns pontos pequenos que merecem ser ressaltados. Um deles é o polêmico fio-terra (para os que não sabem, consiste no ato da mulher introduzir o dedo no ânus do homem, pois, em alguns casos, ele vem a sentir prazer). Muitos dizem que prazer anal é sinônimo de homossexualidade (para homens) e isso é um absurdo total. Não existe isso, gente. Homens héteros podem, sim, sentir prazer anal e isso não faz com que eles sejam menos homens e mereçam desprezo. É preciso respeitar o prazer de cada um. E comparar com homossexualidade não faz sentido, pois existem homossexuais que não possuem prazer anal, por exemplo.
Outro ponto que ocorre muito é a questão da lubrificação feminina e a penetração na mulher. Tudo bem que a vagina é uma área maior, mais lubrificada e mais preparada para a ação de uma penetração, mas isso não é sinônimo de penetração extremamente mais fácil. O erro que ocorre muito são os caras que conseguem penetrar com uma facilidade assustadora (às vezes as meninas são até virgens ainda). Gente, não funciona assim. Além disso, a lubrificação feminina não é um líquido milagroso e inesgotável do puro prazer, isto é, ela não soltará litros e litros com facilidade, e a penetração tem que ser cuidadosa, tanto para o homem (que pode ter o membro lesionado/entortado caso exagere nos movimentos) quanto para a mulher (que pode ter umas lesões internas dependendo de como forem feitos os movimentos). Resumindo, não é pelo fato de, naturalmente, a penetração heterossexual ser mais facilitada que significa que é totalmente mais fácil e sem preocupações.
F.A.Q. sobre a heterossexualidade
1 – Você disse que existem héteros curiosos que só experimentam, mas são héteros. Por que então, no caso, eles não são bissexuais? E nos casos em que o hétero experimentou e viu que só gosta do mesmo sexo?
Para a primeira pergunta, eles não são chamados de bissexuais pelo simples motivo de não serem bissexuais. Lembrando que bissexuais são aqueles que sentem atração por pessoas de ambos os sexos e que, experimentar não tem nada a ver com isso. Você pode escolher ficar com alguém de qualquer sexo, mas não pode escolher sentir (ou não) atração.
Já para a segunda pergunta, se ele percebeu que só gosta de pessoas do mesmo sexo, convenhamos que ele não é um hétero curioso, mas, sim, um homossexual que acabou por se descobrir. Por vivermos numa sociedade heteronormativa, é comum que todos “comecem” como héteros até que se percebam.
2 – Os héteros são contra a população LGBT?
Não todos. Sexualidade não define personalidade. Existem LGBTs que são contra a própria população.
3 – Afinal, o que é essa tal de heteronormatividade? Posso usar isso numa fanfic?
A heteronormatividade é a ideologia que define a heterossexualidade como a sexualidade mais comum, isto é, a qual a sociedade está, culturalmente, acostumada. Com isso, temos muitas coisas sempre se referindo a héteros, inclusive no nascimento (pois, antes de uma pessoa se descobrir de outra sexualidade, ela mesma se considerava hétero). Alguns costumam associar esse termo também ao comportamento (masculino e feminino), mas eu, particularmente, não concordo, pois, como eu disse, existem homens héteros afeminados e homens homossexuais discretos. No caso dessa associação ao comportamento já entra o conceito de “sexismo” (que consiste em rotular os comportamentos e responsabilidades do homem e da mulher). A heteronormatividade é uma questão cultural, flui naturalmente na nossa sociedade, creio que, numa fanfic, ela já apareça por conta própria, não tem como evitar, pelo menos não nos dias atuais.
Conclusão

Respeite sua personagem. Não importa sua sexualidade ou identidade de gênero, não importa se você quer tratá-la como uma pessoa de boa ou má índole. Não se esqueça do principal: sexualidade, identidade de gênero e personalidade não se misturam. Esses três termos são independentes. Não rotule seus personagens. Entenda que seres humanos são diversificados por natureza. E, principalmente, que ninguém quer passar por cima de ninguém, que cada um tem seus interesses e gostos, que, mesmo não sendo aprovados, podem ser respeitados.
Como sempre, meu material foi muito grande, portanto, estou resumindo em poucos links:




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Sexualidade e Verossimilhança (2/3)

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Por Roberto Lasneau

No post anterior, vimos as dificuldades mais comuns em se representar a homossexualidade nas fanfics. Falou-se sobre a sociedade heteronormativa (que está acostumada com a heterossexualidade) e os fundamentos do pré-conceito.
Seguindo a mesma linha do post anterior, este post tratará dos mesmos tópicos, porém, dessa vez, tratando-se de Bissexualidade e Assexualidade.
Parte 2.1 – Bissexualidade
Desmistificando os conceitos da bissexualidade
Bissexualidade é uma transição para a homossexualidade – Muitos pensam que, ao a pessoa se descobrir homossexual, ela primeiro passa por uma transição bissexual (como se fosse mudar aos poucos). Não, não é assim. Apesar de existirem homossexuais que usaram a bissexualidade como uma fase de transição (e isso, inclusive, é muito retratado em algumas fics e não há problema algum), os bissexuais em si não possuem esse pensamento. Eles simplesmente sentem atração pelos dois gêneros.
Bissexuais são um bando de indecisos! – Não! Eles não são indecisos. Muito pelo contrário, eles se decidem muito bem pelo fato de reconhecerem que são adeptos aos dois sexos. Alguns bissexuais podem ter mais atração homossexual do que heterossexual, mas isso não os torna indecisos, claro que não.
Bissexuais são mais promíscuos, afinal, eles pegam de tudo – Também não funciona assim. A sexualidade não define as pessoas, portanto, ser promíscuo (ou não ser) não é algo que é ditado por bi, homo ou heterossexualidade, não é algo que pode se relacionar assim; não funciona com essas proporções. Sua personagem bissexual pode muito bem conseguir, naturalmente, estabelecer relações monogâmicas e duradouras como qualquer outra.
Sexo: a necessidade e o ato
O que mais se discute, na bissexualidade, em relação ao sexo é o grande questionamento: “Um bissexual, quando, por exemplo, está se relacionando com uma mulher, sente falta das relações com os homens?”.
Não. Não funciona assim. Usando o caso como exemplo, se sua personagem for bissexual e estiver num relacionamento com uma mulher e quer levá-lo mais adiante (popularmente conhecido como o relacionamento sério), ela não sentirá falta das relações com os parceiros masculinos.
Por que não?”
Sentir atração pelos dois sexos não significa, necessariamente, que essa atração é simultânea e contínua. Didaticamente falando, supondo que você goste de maçã e chocolate, isso não significa que, necessariamente, você goste de comer os dois juntos (o gosto, para você, pode não ser algo agradável). É exatamente assim que funciona. Não se esqueça de que sua personagem é humana e seres humanos não seguem regras exatas e constantes.
Mini F.A.Q. sobre bissexualidade
Perguntas para ajudar na aplicação do tema em fics
01 – Muitos adolescentes costumam experimentar os dois lados apenas por experiência mesmo. Numa festa, por exemplo, eu quero retratar todo esse envolvimento, então devo colocar, nos avisos, que tem Bissexualidade?
No caso do Nyah, creio eu que colocar nos avisos o termo “Bissexualidade” é avisar que uma mesma pessoa tem relações com pessoas dos dois sexos. No entanto, não vamos confundir “curiosidade” com “bissexualidade”. Na adolescência, é muito comum que as pessoas experimentem mesmo, às vezes por vontade própria, às vezes para agradar a expectativa de um grupo, mas isso não tem muito a ver com a Bissexualidade. Pelo contrário, é um jeito de assimilá-la, erroneamente, com promiscuidade.
02 – Se a minha personagem é um homem bi, mas, na fic, ele só se envolverá com homens, eu posso denominá-lo, na história, como gay?
Não. Não significa que, por um homem bi estar se relacionando com outro homem, que ele seja gay: ele continuará bi. Apesar de, no caso, ele não sentir falta de um relacionamento com uma mulher, isso não significa que ele vai deixar de achá-las atraentes.
03 – Eu li em algum lugar sobre pansexualidade, uns dizem que é um ramo da bissexualidade, outros dizem que não é. O que é, como funciona, seria interessante eu trazer isso para uma fic?
Muito se fala sobre a tal da pansexualidade, eu não diria que é um ramo da bissexualidade, pois ela tem características próprias. A pansexualidade seria a atração por tudo e por todos, sem muitas restrições. Uns relatam que essa atração envolve desde pessoas até mesmo objetos, outros já dizem que é só uma forma de sentir atração por qualquer tipo de humano (saindo do conceito de gênero). Para uma fic, minha recomendação é simplesmente atuar como alguma cena em específico, uma característica mais relevante, mas não aconselho a fazer disso o foco principal da sua fic.
Parte 2.2 – Assexualidade
Primeiramente, o que seria a assexualidade? Uns já notam logo o prefixo “a” e dizem: a não atração por pessoas. Não é bem assim, não tão geral assim. Não se atrair sexualmente com alguém não significa uma não atração em geral. E isso será visto aqui:
Assexuais x Arromânticos
Arromânticos são as pessoas que não sentem atração afetuosa (amorosa) por outras. No entanto, assexuais já são aqueles que não sentem atração sexual por outras, mas que podem, naturalmente, desenvolver a atração afetuosa.
Assexuais românticos podem ser classificados como “heterorromânticos”, “homorromânticos” e “birromânticos”. Com a nomenclatura clara, indica com quem eles sentirão essa atração afetuosa.
Assexuais arromânticos não são necessariamente infelizes. A maioria prefere manter relações amistosas e ficam muito bem com isso. Amor/sexo não é de grande valor e isso pode parecer estranho diante da nossa sociedade.
Sexo: a necessidade e o ato
O assexual não sente a necessidade em praticar o sexo. Eles podem, sim, casar-se, manter uma união estável sem depender do sexo. No entanto, nem sempre assexuais se casam com outros assexuais e alguns fazem um certo sacrifício para agradar o parceiro de vez em quando.
É importante ressaltar que a falta de atração pelo sexo não significa infelicidade, insatisfação, etc. É simplesmente a forma como essas pessoas querem que seja, a forma que elas se sentem bem.
Além disso, tem-se uma curiosidade: “Assexuais praticam a masturbação?”. Bom, uns sim, outros não. Os que fazem costumam dizer que está mais associado a uma necessidade fisiológica, que o fazem sem pensar em muita coisa.
F.A.Q. sobre Assexualidade
01 – Supondo que minha personagem encontrou uma pessoa legal e eles decidiram que não praticariam sexo antes do casamento. Durante esse tempo, eles seriam assexuais?
Não. Ser assexual não é a mesma coisa que não ser praticante de sexo. A assexualidade está envolvida na falta de atração pelo ato. Uma pessoa que não tem a vida sexual ativa não tem relação alguma com assexualidade, ainda mais se tratando desse tipo de promessa (já que, depois do casamento, eles praticariam o sexo).
02 – Quero fazer uma personagem assexual arromântica, como fazê-la dentro de um grupo de não-assexuais?
Faça um personagem normal, nada muda. A pessoa arromântica não fica incomodada ao ver os românticos tendo suas relações, afinal, não é aquilo que a agrada.
03 – Se minha personagem sofreu abuso sexual e ficou com trauma de sexo, isto a torna assexual?
Nesse caso, já parte para uma questão mais psicológica. O trauma até pode fazer a pessoa perder o gosto pelo ato sexual e se sentir satisfeita com isso, mas depende muito do psicológico da personagem. Numa fic, é necessário deixar essas informações bem claras (da satisfação da personagem, etc).
04 – Vi que alguns dizem “Assexuado” e outros dizem “Assexuais”. Tem termo correto?
Bom, “assexuado” dá a ideia de pessoa sem genitália, enquanto “assexual” dá a ideia que estamos costumados a conhecer, portanto, é recomendável que se use o segundo termo.
05 – Eu tive uma ideia para um enredo interessante: um assexual arromântico que, por não se preocupar com sexo e amor, acabou desenvolvendo maior capacidade mental. Isso tem chance de dar certo?
Não. Sexualidade não define ninguém. Fazer ou não fazer sexo, amar ou não amar não deixa ninguém mais burro ou mais inteligente. Trata-se de um enredo preconceituoso.
Conclusão
Independente se a pessoa gosta de ambos os sexos ou de nenhum, é preciso representar da melhor maneira possível nas fanfics. Respeite suas personagens, tente entendê-las, pensar como elas e até quebrar um pouco os seus próprios conceitos, é uma ótima dica para tentar compreender o lado diferente da sua personagem.
Novamente com pesquisas grandes, então vou resumir dois sites ótimos:
http://assexualidade.org/faq - O que é a assexualidade?
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Sexualidade e Verossimilhança (1/3)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Por Roberto Lasneau

No mundo das fanfics, é muito comum encontrar histórias que envolvam o relacionamento amoroso entre pessoas. Para isso, é preciso abordar um tema bastante complexo, mas que, para muitos, não parece tão complexo assim: a orientação sexual. A sociedade atual é heteronormativa, isto é, uma classificação que diz que a heterossexualidade é a única orientação normal (e por “normal” temos como “aquilo que a sociedade está acostumada”, e não como “errado”, como alguns costumam pregar) e, por isso, ao tratar de outras sexualidades, pertencentes à comunidade LGBTA (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Assexuais), tem-se uma dificuldade em manter a realidade; literariamente falando, a verossimilhança, muitas vezes simplesmente pelo autor não conhecer muita coisa do universo.
Tendo isso em mente, o post servirá para tratar dos fatos mais simples sobre as orientações sexuais, mas sobre os quais muitos não têm esse conhecimento e acabam criando situações inadequadas em suas histórias; acabam por representar, de forma errada, essa parte da orientação, podendo até mesmo ser classificado como um erro literário (por causa da ausência de verossimilhança). O post, ao todo, será divido em três partes: nessa primeira parte será focada a homossexualidade (tanto masculina quanto feminina). Na parte 2, o foco será em “Bissexualidade e Assexualidade” e, por último, na parte 3, o assunto será focado em “Transsexualidade e Heterossexualidade”.

Parte 1 – Homossexualidade (feminina e masculina)

Desmistificando o lado homossexual

Lésbicas/Gays continuam sendo Mulheres/Homens. – Parece um tanto óbvio, não é mesmo? Mas, às vezes, em algumas histórias, nem sempre a realidade é tratada dessa forma. Apesar de todos terem personalidades diferentes, ou seja, uns seres mais masculinos/femininos do que outros, isso não altera a identidade de gênero; logo, um homem, por mais gay e feminino que ele seja, talvez não se interesse por usar vestidos, pois não faz parte da identidade de gênero dele. Existem uns casos específicos, mas esse tema será melhor abordado no tópico sobre transsexualidade.

O rótulo de ativo(a)/passivo(a). – Isso provavelmente é uma das maiores dificuldades de retratação no mundo das fics. Muitos autores fundamentam a personalidade dos seus personagens através do seu papel sexual, popularmente conhecidos como “ativo(a)” e “passivo(a)”. No entanto, o que muitos não sabem é que isso acaba por ser uma atitude preconceituosa (lembrando que “preconceito” vem de “pré-conceito”, isto é, querer conceituar algo que não conhece) e que pode ser desconfortável para alguns.
Rotular suas personagens (utilizando o papel sexual) é ruim. Uma pessoa que é ativa na relação sexual não será mais masculina que a pessoa que proporcionar o papel passivo (isso vale tanto para a homossexualidade masculina quanto para a feminina). É comum se pensar assim, pois, como foi dito no início do post, a sociedade é acostumada com a heterossexualidade, isto é, com um papel feminino e um papel masculino, mas, na homossexualidade, isso não acontece. Ser ativo(a) não designa ninguém mais homem e ser passivo(a) não designa ninguém mais mulher. O papel sexual só interfere nas relações sexuais e só. O(a) ativo(a) não é necessariamente a pessoa insensível, bruta, séria, o “macho” da relação, assim como o(a) passivo(a) não é necessariamente a pessoa delicada, emocional e sensível, a “fêmea” da relação. Isso é um ato muito impensado.
Além disso, apesar de existirem, nem sempre as pessoas são 100% ativas/passivas, existem as pessoas versáteis (principalmente na homossexualidade feminina, já que o prazer precisa ser mútuo, mas também não é regra). A principal coisa que se precisa saber aqui é diferenciar as coisas: papel sexual não tem nada a ver com personalidade e o papel social. Num casal homossexual masculino, por exemplo, o que é o ativo pode muito bem ser o cozinheiro da casa, assim como o passivo pode ser aquele que faz o trabalho pesado (assim como isso pode acontecer num casal de héteros, em que o homem cuide da casa e a mulher trabalhe). O essencial de tudo: não faz sentido rotular as coisas. Sexualidade não define pessoas. Sexualidade é apenas sexualidade. Papel sexual é apenas papel sexual.

Cuidado com os estereótipos! – “Toda lésbica é desleixada”, “Todo gay tem um senso de moda apurado”. Não, gente, não é bem assim. Como eu disse no final do assunto anterior, sexualidade não define pessoas. Sua personagem lésbica pode ser desleixada, mas isso não é regra. Sua personagem gay pode ter um senso de moda apurado, mas isso também não é regra. Aliás, nada é regra no mundo, isso de “Todo alguma coisa é isso” nunca funciona, não é? Além disso, existe o vasto mundo das gírias homossexuais e, acreditem, não é todo homossexual que as usa/conhece! Então, não quer dizer que seu personagem gay seja bem afeminado, que ele use o termo “Aloka”, ele pode nem conhecer (é possível, sim, não conhecer os termos).

Homossexuais sempre se dão bem entre si. – Lá vou eu de novo: não, gente, não é bem assim. Sexualidade não define pessoas. Esse assunto serve para abordar diversos tipos de relacionamentos:
- Amorosos: Basicamente acontece aquilo de um casal homossexual se formar simplesmente por serem homossexuais. Tudo bem, a mesma sexualidade é um motivo, sim, para a união, mas não é o único. As pessoas se amam pela atração, pelo envolvimento, tem que ter uma série de fatos para isso.
- Amistosos: Gays, lésbicas (assim como trans, bissexuais, etc.) podem muito bem não criar amizade com outros da mesma sexualidade, até porque amizade nem tem base sexual, então não há motivos para isso ser um requisito. Essa dica vale para um estereótipo que ocorre muito, que é quando cismam que a melhor amiga de um gay é lésbica ou vice-versa. Pode acontecer? Claro. No entanto, não é uma regra. Não é algo do tipo “Gay só se dá bem com lésbica”. Não.
- Profissionais: “Eu trabalho melhor com fulana porque ela é lésbica como eu”, isso não faz sentido algum. Assim como o ambiente amistoso, o âmbito profissional não tem base sexual, então não há por que isso ser requisito. Pessoas continuam sendo pessoas, independente da sexualidade, e o que deve atrair alguém profissionalmente é a vocação, o método de trabalho, etc. Outro caso também é falar que existem “trabalhos homossexuais”, tipo associar “estilista” com “gay” no mesmo segundo. Não é assim, gente. Pode até ser que uma determinada profissão tenha uma maior concentração de homossexuais, mas isso não é desculpar para definir as pessoas assim.

Sexo: a necessidade e o ato

Por motivos de diferença maior entre os dois, falarei sobre a homossexualidade feminina e masculina separadamente, mas, antes disso, é preciso deixar uma coisa clara: um casal hétero faz sexo com a mesma necessidade de um casal homo, isso não muda. Tem uns que gostam, outros não gostam e o fato de retribuir o amor (quando é o caso de ambos concordarem com o ato) é válido para qualquer casal.

- Homossexualidade feminina – Quando se fala desse tipo de relação sexual (na linguagem das fanfics, “Orange”), você precisa ter uma boa visão das suas personagens. Como elas são? O que elas gostam? Como elas preferem? O “Orange” pode ser feito e explorado de inúmeras formas, inúmeras possibilidades, até porque mulheres são complexas por natureza, essa é a qualidade da mulher.
No entanto, acima de tudo, o texto precisa de realidade. Ser realista ajuda a deixar tudo mais natural, ainda mais no meio homossexual, que poucos conhecem.

“Como elas fazem sexo, se não tem penetração?”
É uma coisa muito perguntada. Tudo tem um jeito. Carícias e as tão conhecidas preliminares são essenciais numa relação boa, e isso deve, sim, ser representado, de forma natural, nas fics. Nada de ir direto ao ponto, suas personagens têm muito que aproveitar ainda.
É importante você conhecer mais suas personagens justamente para você, escritor(a) de Yuri, ver como elas vão se satisfazer no momento do sexo. Lembrando que não há regra para as coisas (o sexo não precisa ser aquela coisa rotulada e com regras rígidas, é nisso que muitas fics pecam), uma pode se completar da maneira que gostar.

“Mesmo assim não sei como fazer. Como posso inovar sem pecar na realidade? Como fazer minhas personagens tão decididas com o que elas querem?”
Se o seu problema é não conseguir fazer essa decisão nelas, você pode tentar descrever suas personagens descobrindo seus gostos na hora H. Agora, se você for uma pessoa mais sistemática, a dica que eu dou é montar uma tabela com as preferências de cada uma: Fulana curte x, y e z. Cicrana só curte y. E tentar experimentar as possibilidades, pois, como eu disse, o grande mistério do sexo lésbico é a complexidade da mulher. Muitas vezes nem é necessária a penetração, o legal é ter a criatividade.

“Ok, ok, mas o que isso tudo tem a ver com verossimilhança?”
Tudo! A melhor maneira de fazer um Orange realista é não utilizar do “heteronormatismo”. Sexo homossexual é uma coisa; sexo heterossexual é outra. No contexto do Orange, a principal coisa a se pensar é que não existe “homem” da relação, que mulheres não são “escravas” da penetração e que elas precisam de brinquedos simuladores de pênis para se satisfazerem (apesar de ter umas que gostem, isso é de gosto pessoal e não uma regra). Nada disso! Além disso, vale lembrar que orgasmos femininos possuem um tempo de recuperação baixo (não confundir “baixo” com “nulo”) de um a outro (bem diferente do orgasmo masculino), então ter um orgasmo não significa que a relação vai parar. Respeite a atração sexual da sua personagem, sem precisar fazê-la depender de características masculinas.

- Homossexualidade masculina – Aqui a visão das personagens já é um pouco separada. Primeiramente, a relação que você vai descrever terá penetração?

“Ué, mas é claro, são dois homens, tem que ter penetração!”
Ué, só por que são dois homens, a penetração é obrigatória? É isso que é necessário desmistificar quando falamos de sexualidade e verossimilhança. Lembrando que sexo sem penetração não é exclusividade homossexual, só que não se fala muito disso.
A relação homossexual masculina sem penetração é chamada de Gouinage. Trata-se apenas de carícias, movimentos e sexo oral, simples. Se você, escritor(a) de Yaoi, deseja inovar nos seus textos, por que não tentar?

Na linguagem das fics, temos o sexo gay denominado por Lemon. E o irônico de tudo é que a dica que eu vou dar aqui é feita de maneira muito errônea nas fanfics, que é: estabeleça as vontades da personagem ativo e passivo.
“Ué, mas você não disse pra não rotular? Por que está falando de ativo/passivo agora?”
Porque estamos falando de sexo, de papel sexual, que é a única ocasião em que devemos definir as personagens como ativos/passivos (em vez de descrevê-los assim o tempo todo, como o papel social, que é o que muitos escritores erram, e que até mesmo gera preconceito). Lembrando que em relações sem penetração, esses papéis não existem. Lembrando também que existem os versáteis e a troca pode ser feita na mesma transa.

Tendo em vista a sua personagem passivo, popularmente conhecido como uke, é preciso ter coisas em mente: ele está preparado para aquilo? Ele deseja a penetração? Ele já fez isso alguma vez? Vocês já devem estar carecas de saber, mas o ânus não é uma área tão lubrificada naturalmente quanto a vagina, é preciso ter cuidados e todas essas coisas. A dor é imensa, então o grande erro de representar isso num Lemon é falar, por exemplo, que o personagem se acostumou rapidamente (às vezes isso acontece muito rápido e não faz sentido) ou que o membro do ativo entrou facilmente de primeira. Não, não é bem assim.
“Mas não tem a próstata? Ela já não é o suficiente para ignorar todas as dores?”
A próstata! O órgão favorito dos escritores na hora de descrever o prazer, e é alvo de muitos erros na escrita também! Gente, a próstata não é um órgão milagroso, ela não fará sua personagem gozar trinta vezes seguidas ou sentir a sensação de estar em quinhentos céus ao mesmo tempo, muito menos aliviar a dor da penetração. A única função da próstata, no sexo, é tornar a ejaculação mais livre, mais natural (dando um pouco a mais de prazer). Apenas isso. Nada de órgão milagreiro que traz sensações milagreiras.

Tendo em vista a sua personagem ativo, popularmente conhecido como seme, é preciso ver também se ele está preparado para isso (a parte psicológica não se restringe apenas ao passivo, gente), se ele já fez isso alguma vez também. E, claro, o cuidado com algumas situações irreais, como, por exemplo, o ativo ter fôlego infinito, recuperar-se de uma ejaculação em segundos (diferente das mulheres, os homens precisam de mais tempo para se recuperar) ou ele não sentir o mínimo de dor no ato. 
“O ativo sente dor???”
Uns podem sentir mais que outros, mas sentem, sim. Não é, óbvio, uma dor comparada com a do passivo, mas pode haver um incômodo na tentativa da penetração; tente enfiar seu dedo num buraco que seja menor que ele e force, você saberá do que eu estou falando. Também tem que ter muito cuidado. Não vá fazer, também, sua personagem fazer a penetração com uma força monstruosa, a não ser que você queira que ele vá parar no hospital com o membro torto.

Mini F.A.Q. sobre homossexualidade
Perguntas para ajudar na aplicação do tema em fanfics.

01 – Como eu posso retratar a descoberta do meu personagem? Ele pode escolher isso?
Do nada. Exatamente isso. É assim que acontece na vida real e representar isso em fics não seria problema. No entanto, atente-se a não errar no quão instantâneo isso pode ser, também não vai fazer a personagem ver alguém do mesmo sexo e BOOM, “virou” homossexual e aceita isso numa boa. Aceitar-se não é tão fácil assim. Além disso, você não precisa, necessariamente, usar outra pessoa para que sua personagem descubra a sexualidade; nem sempre isso é descoberto por ver pessoas. Além disso, não se prenda a idades, a descoberta pode acontecer em qualquer momento da vida de uma pessoa, mesmo que ela já esteja num casamento heterossexual, por exemplo.
Não, isso não é escolha. Nenhuma sexualidade, nem mesmo a heterossexualidade, é uma escolha. Pessoas podem escolher experimentar, mas não podem escolher ter (ou não) atração sexual. É por isso que não se trata de “opção sexual”, mas, sim, de “orientação sexual”.

02 – Como fazer uma personagem homossexual? (Esta pergunta vale também para todas as outras sexualidades)
Faça como uma personagem normal, com qualidades e defeitos, características físicas. Um nome! A sexualidade é só mais uma característica.

03 – Eu tive uma ideia muito legal para a minha fic: seria um rapaz que sofreu abuso quando era criança e, por isso, virou gay. Como posso fazer isso dar certo na fic?
Sem chances de dar certo. Abusos sexuais, maus relacionamentos com o sexo oposto e etc não justificam homossexualidade. Nesse caso, o enredo será preconceituoso e poderá afastar muitos leitores.

04 – Ouvi dizer que todas as lésbicas são amazonas feministas devoradoras de homens, achei isso muito legal. Posso criar uma personagem assim?
Criar uma personagem assim você até pode, mas não vá justificar sua ação pela sexualidade. Além disso, esse termo longo é outra atitude preconceituosa, já que feministas não odeiam homens, só lutam pelos mesmos direitos. Não faz sentido associar isso com a sexualidade nem usar esses termos como “amazonas” e “devoradoras”. Assim como na pergunta anterior, tratar-se-á de algo preconceituoso e que poderá afastará muitos leitores.

05 – Eu até tento tirar o pensamento de “seme machão” e “uke fêmea”, mas eu simplesmente não consigo imaginar o “uke” sendo o ativo. Como eu posso reverter a situação?
Tem coisas que as pessoas não precisam imaginar. Altura, comportamento e gostos não definem papel sexual. Além disso, papel sexual é apenas papel sexual (e às vezes eles revezam), não existe essa de “macho” e “fêmea” numa relação desse tipo. O motivo de tanto choque é por a sociedade estar acostumada com isso de homem e mulher, mas não tem nada de errado em o mais baixo ser ativo ou o mais “machinho” ser o passivo. Sexualidade não define pessoas e papel sexual não define nada. Como reverter? Simplesmente revertendo. Pode ficar feio aos olhos de alguns, mas estará respeitando a realidade mais do que nunca!

06 – Tem diferença entre “preconceito” e “homofobia”? Como encaixar ambos numa fic?
Sim, existe uma diferença. Digamos que toda homofobia é preconceito, mas nem todo preconceito é homofobia. Preconceito vem de “pré-conceito” e consiste em apontar, julgar sobre determinado assunto sem conhecê-lo e acabar falando algo errado. Já a homofobia é mais crítica, já envolve ódio sem sentido, que pode envolver exclusões e atos violentos, coisas do tipo “Eu te odeio só porque você é homossexual.”. Podemos ver essa diferença quando criamos estereótipos; eles fazem parte do preconceito (mas, no caso, criado pela ignorância no assunto mesmo), mas não é homofobia, pois não gera ódio.
Sobre encaixar isso numa fic, o preconceito vem no cotidiano, o melhor a se fazer é explorar os estereótipos mesmo, os velhos discursos e o fato da sociedade não estar acostumada com isso. Já a homofobia, se quiser colocar algo assim na sua história, vem da exclusão social ou até mesmo da violência ou assassinato.

07 – Li em algum lugar sobre “estupro corretivo”. O que isso significa? No que difere do “estupro comum”?
O tal do “estupro corretivo” são ações homofóbicas que consistem em estuprar homossexuais, a fim de tentar convertê-los para a heterossexualidade. É uma atitude primitiva e bastante humilhante. O “estupro comum” não possui esse ideal.

08 – Quando eu vejo coisas sobre esse assunto, eu vejo que uns falam “homossexualismo” e outros falam “homossexualidade”. Qual é o certo?
Sobre isso, uns dizem que “homossexualismo” está errado por se tratar de um sufixo que indica patologia. Até vale como uma interpretação, mas eu prefiro explicar da seguinte maneira: “-ismo” vem de “dogma, prática, característica”. Até aí vemos que não tem problema nenhum. No entanto, o “-idade” representa o quesito de “identidade”. Isso pode gerar uma confusão, mas é recomendável que se use o termo “heterossexualidade”, por se tratar de “sexualidade” (que envolve a atração, o afeto) e não “sexualismo” (que envolve apenas o sexo em si).

09 – O que os homossexuais têm de diferente dos heterossexuais fora a atração sexual?
Nada.

10 – Um heterossexual pode ter trejeitos?
Apesar de não ser comum, pode, sim. Um menino ser afeminado não é sinônimo de homossexualidade; existem meninos héteros afeminados. O mesmo vale para meninas mais masculinas. O único fator que indica homossexualidade é a atração mesmo, não há outras características que comprovem isso. Além disso, também há a possibilidade de homossexuais não terem trejeitos. Varia muito de pessoa para pessoa.

Conclusão

Frisando as coisas finais: sexualidade não define pessoas. Todos são comuns e possuem suas qualidades e defeitos normalmente, o que muda é só por quem elas sentem atração, certo? E o mais importante de tudo: não é só atração sexual, é amor também. Homossexuais amam e desejam relações duradouras como quaisquer tipos de pessoas que desejam algo romântico.

Bibliografia:
A minha pesquisa foi bem ampla, então colocar todos os sites que visitei ocuparia muito espaço (fora que grande parte veio da própria experiência e de outras pessoas que perguntei), então, para os interessados no assunto, recomendarei um site que aborda todo o tema de forma bem mais aberta:
Para quem quer algo mais específico e direto, este F.A.Q. é bem interessante:
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