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Como Desenvolver Personagens

segunda-feira, 4 de junho de 2018
Por: Raven Hraesvelg
Perfil: https://fanfiction.com.br/u/334899/



            Olá, povo! Espero que estejam bem. Hoje trago aqui algumas dicas — talvez — úteis sobre desenvolvimento de personagens. Esse é um ponto que eu toco muito com os escritores que acompanho, mas sempre percebo que é uma coisa que, ou desconhecem ou não sabem como lidar. Primeiro vamos deixar uma coisa bem clara: o desenvolvimento dos personagens e o desenvolvimento da história são coisas independentes. Um se apoia no outro e um faz uso do outro, óbvio, mas são coisas diferentes e com objetivos diferentes.
            Agora, o que seria desenvolver um personagem? Essa é fácil: desenvolver um personagem envolve trabalhar, ao decorrer da história, a personalidade dele e ser capaz de demonstrá-la através da narrativa.
Chamamos de personalidade o conjunto de características cognitivas, afetivas e volitivas que formam a construção pessoal de um indivíduo. Está diretamente ligada à forma como interiorizamos nossos sentimentos, pensamentos, valores e experiências. Também é importante diferenciarmos personalidade de comportamento. Enquanto a primeira está ligada às atitudes, ações e reações (pois relaciona-se à interiorização dos sentimentos), o comportamento na verdade é a exteriorização daquilo que define a nossa personalidade. É importante ter esses conceitos em mente, pois nos ajudam a compreender melhor como nossos personagens funcionam (ou melhor, como deveriam funcionar).
            O primeiro ponto que temos que ter em mente ao desenvolver um personagem é saber que precisamos ter o quê desenvolver. Não dá para fazer um bolo se não tivermos todos os ingredientes, certo? Então o primeiro passo é você ter um personagem tridimensional. Como o nome dá a entender, um personagem tridimensional é aquele que tem mais de uma dimensão. Assim como um cubo desenhado num papel adquire profundidade apenas quando se incluem as três dimensões a ele, para um personagem ser bem desenvolvido ele precisa de três dimensões básicas.

·         Caracterize seu personagem
Esse é o passo que todo mundo faz na hora de criar uma história. A etapa da caracterização (que já é assunto para outro post, pois caracterizar um personagem é diferente de desenvolvê-lo) é mais básica e acontece praticamente no mesmo momento da criação da história em si. Quando você cria uma história, os personagens estão ali para servir a um objetivo, e esse objetivo é o que caracteriza um personagem a princípio. Caracterizar um personagem nada mais é do que pensar no que ele é. Ele é um herói corajoso? Um vilão cruel? Uma guerreira rebelde? Ter esses pontos marcantes da personalidade deles é a primeira dimensão de nosso personagem.

·         Pense na história do seu personagem
Nossa personalidade é moldada também pela nossa vivência, então essa é a primeira coisa que a gente precisa ter em mente na hora de representar um personagem. Mesmo que você não revele o passado do seu personagem aos seus leitores, você ainda deve pensar sobre ele, porque é esse passado que moldou o que ele é hoje e isso te traz um entendimento maior do seu personagem. Ora, se você não conhece seu personagem, seus leitores também não irão. Daí a importância de sempre se perguntar: por que o meu personagem é assim? Utilizando algo bem recente, vamos tomar como exemplo o vilão do último filme lançado da Marvel (sem spoilers grandes aqui, pode ler com tranquilidade). O objetivo do vilão, Thanos, no filme, é destruir metade do universo. Ok, até aí, nada novo sob o sol, apenas mais um vilão vivendo sua vida vilanesca. Porém, há uma pequena cena onde ele conta sua motivação para aquilo, onde ele conta sua história, e então o objetivo dele ganha sentido, deixa de ser uma coisa vazia para ser algo com um significado.

·         Todo mundo tem defeitos
Isso parece muito óbvio, mas muita gente não pensa nos defeitos de seus personagens ao criá-los e acabam criando personagens sem dimensões. Perfeição não existe na vida real, então quando você cria um personagem perfeito está criando alguém superficial e vazio. Quanto mais real um personagem for, mais os leitores conseguem se identificar ou, no mínimo, entender o personagem, e isso é muito importante quando você pensa na história como um todo, pois se as pessoas não se interessam pelo teu personagem, muito menos se interessarão pela história que você tem a contar sobre ele. Além disso, ao adicionar defeitos em teus personagens, você está dando a eles mais singularidade. Vamos pensar naquele típico personagem herói das histórias de fantasia: ele geralmente é bondoso, corajoso e altruísta. Apenas acabei de descrever todos os protagonistas dos livros de fantasia. Mas o que acontece se eu disser que esse mesmo herói é, também, uma pessoa indecisa? Ponha ele para comandar um exército numa batalha e, pronto, todo mundo morre. Ou às vezes, ele pode ser uma pessoa extremamente rancorosa ou vingativa. Ou alguém que não sabe perder. Enfim, independente do caráter que você decidir dar ao seu personagem, você estará dando a ele facetas e é isso o que cria a nossa terceira dimensão da personalidade. É importante notar que, geralmente, os defeitos são o que chamamos de “personalidade oculta”. Nossa tendência é de deixar apenas os nossos melhores traços à mostra em um primeiro momento e, com o tempo, revelamos nossos defeitos.

Certo, agora já temos nosso personagem com uma personalidade e história, mas como escrever e dar continuidade a isso?
1.     Demonstrar: ao invés de dizer que um personagem é simpático, demonstre isso através da narrativa descrevendo como o personagem, por exemplo, dá bom dia para todos em seu local de trabalho.  Leve seus leitores a deduzir os traços da personalidade de seu personagem através da narração do que ele faz, fala, pensa, assim você não precisa contar. Na minha opinião, não tem coisa mais chata do que ler um personagem listando suas qualidades como se fosse uma checklist de mercado. E o engraçado é que metade daquelas qualidades citadas não aparece no texto, ou seja, o escritor ficou só no fala, fala, e não demostra. É aquele ditado: ações falam mais do que palavras, então narre e descreva.

2.     Consistência: se você desenvolveu um personagem de determinada maneira, é de se esperar que ele se comporte de acordo com sua personalidade e motivações. Quando você faz um personagem se comportando de forma que não faz sentido, está criando um personagem inconsistente. Um exemplo disso é quando aquele antagonista que passou a história toda sendo um empecilho para os protagonistas resolve ajudar simplesmente porque sim ou porque do nada brotou um traço de bondade nele. Há uma grande diferença entre isso e entre ele resolver ajudar porque estava de acordo com os interesses dele. Isso acontece muito com quem não tem um personagem solidamente construído.

3.     Mudança: esse é um fator crucial. Nós somos todos mutáveis. Podemos mudar pouco ou muito em períodos curtos ou longos, mas o fato é que nós mudamos. Isso não deve ser diferente com os personagens. Seja pela ação do tempo ou de algum acontecimento, em alguma hora teu personagem vai passar por uma mudança. O importante é que ela seja coesa e coerente com os acontecimentos da história, e mais importante ainda, é que ela aconteça. Se o teu personagem começou a história do mesmo jeito que a terminou, então é um personagem estagnado e sem desenvolvimento.

4.     Relacionamentos: esse também é assunto para outro post (inclusive temos artigos falando sobre desenvolvimento de relacionamentos já, dê uma olhada!), mas é essencial entender que, como seres sociais, as relações que temos também afetam nossa formação. Desenvolver um personagem também envolve desenvolver seus relacionamentos. Como você vai escrever sobre um personagem apaixonado se não se focar na relação que ele tem com o parceiro? Se o personagem é alguém romântico, por exemplo, desenvolver esse traço está intimamente conectado ao relacionamento que ele tem ou terá.

É claro que para escrever não há um passo-a-passo correto para seguir, mas só de ponderar sobre esses pontos que abordei já te dá terreno a mais para trabalhar na tua história e, ao meu ver, quanto mais conteúdo você tem para trabalhar, mais completa tua história será. No mais, se você possui dificuldades com essas questões e gostaria de alguém para te ajudar com isso, não deixe de entrar em contato com um beta! <3

REFERÊNCIAS
JENKINS, J. The Ultimate Guide to Character Development: 10 Steps to Creating Memorable Heroes. Jerry Jenkins, 2017. Disponível em <https://jerryjenkins.com/character-development/>. Acesso em: 25 de abril de 2018.
SAMBUCHINO, C. The 9 Ingredients of Character Development. Writer’s Digest, 2013. Disponível em <http://www.writersdigest.com/editor-blogs/guide-to-literary-agents/the-9-ingredients-of-character-development>. Acesso em: 25 de abril de 2018.
MARKS, C.S. Five Traps and Tips for Character Development. Reader’s Digest. Disponível em <https://www.liferichpublishing.com/AuthorResources/Fiction/Five-Traps-and-Tips-for-Character-Development.aspx> Acesso em: 25 de abril de 2018.
ACT Institute. O que são as teorias da personalidade. ACT Institute. Disponível em <http://actinstitute.org/blog/o-que-sao-as-teorias-da-personalidade/>. Acesso em 09/05/2018.
CAMPOS, J. V. et al. Desenvolvimento de Personagens: a psicologia arquetípica como ferramenta de criação e concepção de personagens para uma série animada. Projetica UEL, v. 5, n. 1, 2014.
GERKE, J. Plot versus Character: A Balanced Approach to Writing Great Fiction. Writer's Digest, 2010.
BELL, J. S. Write Great Fiction: Plot & Structure. Writer’s Digest, 2004.
NANCY, K. Write Great Fiction: Characters, Emotion & Viewpoint. Writer’s Digest, 2005.
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Marina: uma resenha

segunda-feira, 7 de agosto de 2017
 
Por: Raven Hraesvelg
Perfil: https://fanfiction.com.br/u/334899/
Olá! Todos aproveitando as férias de julho? Espero que sim.
Na resenha deste mês, decidi falar sobre a minha mais nova descoberta do ano: Carlos Ruiz Zafón. Escritor espanhol, começou a carreira com contos infanto-juvenis, e é um desses contos que eu trago aqui. Marina foi publicado em 1999 e foi, de acordo com o próprio autor, o último livro desse gênero que ele escreveu (após isso ele deu início à sua série O Cemitério dos Livros Esquecidos, que estou louca para ler). Mas vamos ao que interessa, sim? 

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Título Original: Marina
Tradução: 192 páginas
Editora: Suma de Letras
Sinopse: Na Barcelona dos anos 1980, o menino Óscar Drai, um solitário aluno de internato, conhece Marina, uma jovem misteriosa que vive num casarão com o pai idoso. Em passeios pela cidade, os dois presenciam uma cena estranha num cemitério e se envolvem na resolução de um mistério que remonta aos anos 1940. Numa tentativa inútil de escapar da própria memória, Oscar abandona sua cidade. Acreditava que, colocando-se a uma distância segura, as vozes do passado se calariam. Quinze anos mais tarde, ele regressa à cidade para exorcizar seus fantasmas e enfrentar suas lembranças — a macabra aventura que marcou sua juventude, o terror e a loucura que cercaram a história de amor.

Resenha:
Como eu disse na introdução, o livro é voltado ao público juvenil. Dizem as más línguas que de juvenil só tem a idade dos personagens, mas eu discordo disso, apesar de reconhecer a abordagem mais séria que o livro tem. Eu diria que é um infanto-juvenil bem ao estilo de Coraline, de Neil Gaiman — onde você só consegue se perguntar se o objetivo do autor era traumatizar criancinhas. Certo, não é para tanto.
Eu comecei a ler sem muitas expectativas e, apesar de ter me desapontado um pouco com a história, eu completamente amei a escrita do Zafón. A narrativa é poética e cheia de figuras de linguagem, e ele tem uma simplicidade ao escrever que dá aquele toque de fluidez na coisa toda e você se sente lendo música. É aquele tipo de autor que te faz sentir confortável com as palavras dele. Enredo a parte, eu leria o livro só pela narração.
Fiquei encantada com as descrições que ele faz das ruas e das construções de Barcelona. Aliás, descrição é algo que o Zafón faz muito bem, tanto do ambiente quanto dos personagens. Não é superficial e raso, como também não é monótono e extenso. Fica ali, bem entre esses dois extremos.
A construção do mistério é maravilhosa, a narração traz a carga certa de suspense para deixar o leitor curioso e as cenas de horror são narradas para causar desconforto. Porém, chegando nas soluções do mistério, achei tudo muito previsível.
Todo aquele mistério em torno de Marina, que começou interessante, no fim era só suspense porque não tinha mistério nenhum. O final, em relação à Marina, foi mais previsível e clichê o possível. Não gosto desse recurso trágico e dramático que insistem em usar como se fosse algo mirabolante (estou olhando para vocês, John Green e Nicholas Sparks). Estou sendo bem vaga aqui porque senão vou acabar entregando o final, o que na verdade é um cuidado meio desnecessário porque é bem provável que vá ser adivinhado logo no início do livro.
E o outro mistério, envolvendo o cemitério e a marca da borboleta, acabou sendo nada do que eu já não tenha visto ou lido. Adicione isso ao fato de que quando esses suspenses e mistérios acabam sendo ficção científica, eu costumo ficar decepcionada (só que aí já é problema meu, podemos dizer). Eu ainda me permiti ter esperanças de haver algum plot twist bem louco ou coisa do tipo, mas não, não teve nada. Volto a dizer, porém, que apesar dos finais previsíveis, a construção do mistério é muito boa.
O livro é bem curtinho, li em uma sentada só, mas o melhor é que você não sente o tempo passar. Então fica aí a indicação para aquela leitura a caminho da aula ou trabalho!
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Resenha: Corte de Espinhos e Rosas

segunda-feira, 29 de maio de 2017
 

Por: Raven Hraesvelg
Perfil: https://fanfiction.com.br/u/334899/

Olá, pessoa! (Infelizmente não temos o CAPTCHA para confirmar que você não é um robô, então te tratarei como pessoa mesmo, ok?). Como o Rodrigo noticiou, agora eu também estarei trazendo resenhas para o Blog, yey!
Eu estava meio que num dilema quanto ao que trazer para resenhar, porque ou eu trazia um livro que eu goste, mas que já li há um tempo, ou eu trazia um livro que li recentemente e não gostei tanto. Mas como eu gosto de reclamar, trouxe o livro mais recente lido mesmo.
Como o título indica, estarei comentando sobre o livro Corte de Espinhos e Rosas. Esta resenha é mais focada no primeiro livro, porém eu vou fazer uns paralelos com o segundo livro (a série atualmente tem três livros publicados — o terceiro foi lançado ainda esse mês, então não li). Por quê? Digamos que se eu resenhasse só o primeiro livro da série eu acabaria desencorajando a leitura, o que eu não quero fazer porque, para o público alvo a que é dirigido, acho que é uma série que vale a pena ser lida.
Eu particularmente não gosto de livros Young Adult e não sou muito dada ao romance (principalmente esses voltados para mais para jovens), porém uma amiga me obrigou recomendou ler essa série e me afirmou com toda a certeza que até eu iria ver alguma coisa positiva neles (no segundo livro, pelo menos. Ela bem me avisou que seria difícil passar do primeiro, mas que valeria a pena). Dito e feito, valeu mesmo a pena, apesar de eu ter relevado muita coisa em prol dos temas que são abordados. Gostei muito de como certos assuntos são retratados, sendo fiéis ao que acontece na realidade, e sem romantizações desnecessárias de temas sérios. Sem mais delongas, vamos à resenha.

Autor: Sarah J. Maas
Título Original: A Court of Thorns and Roses
Tradução: 434 páginas
Editora: Galera Record
Sinopse: Nesse misto de A Bela e A Fera e Game of Thrones, Sarah J. Maas cria um universo repleto de ação, intrigas e romance. Depois de anos sendo escravizados pelas fadas, os humanos conseguiram se libertar e coexistem com os seres místicos. Cerca de cinco séculos após a guerra que definiu o futuro das espécies, Feyre, filha de um casal de mercadores, é forçada a se tornar uma caçadora para ajudar a família. Após matar uma fada zoomórfica transformada em lobo, uma criatura bestial surge exigindo uma reparação. Arrastada para uma terra mágica e traiçoeira — que ela só conhecia através de lendas —, a jovem descobre que seu captor não é um animal, mas Tamlin, senhor da Corte Feérica da Primavera. À medida que ela descobre mais sobre este mundo onde a magia impera, seus sentimentos por Tamlin passam da mais pura hostilidade até uma paixão avassaladora. Enquanto isso, uma sinistra e antiga sombra avança sobre o mundo das fadas e Feyre deve provar seu amor para detê-la... ou Tamlin e seu povo estarão condenados.
Resenha:
Já deu para perceber pela sinopse que esse livro parece ser um senhor clichê, não? Confesso que foi complicado ler esse livro, levei dias para conseguir chegar na metade do livro porque a história não me descia. Eu só consegui pegar um ritmo de leitura lá para o final do livro.
A protagonista, Feyre, é aquele estereótipo que a gente já conhece muito bem: uma garota que perdeu tudo o que tinha, precisando aprender a caçar para alimentar a família e que não é a exata definição de simpatia, além de ter uma personalidade meio medíocre, que não sabe se impor e que "precisa de cuidados" (ela tem problemas com baixa autoestima, auto piedade excessiva e por aí vai). Só depois de ter lido os dois livros dessa série foi que entendi que a escritora fez isso de propósito, talvez até mesmo como uma crítica, porque uma das coisas que ela mais gosta de fazer nos livros dela é o desenvolver seus personagens. Percebi que ela gosta de trabalhar bastante com o lado psicológico, abordando até mesmo estresse pós-traumático, depressão, etc, e ela usa isso para “evoluir” seus personagens (todos, não só a protagonista). Aliás, fazendo um adendo aqui, outro ponto alto da Sarah J. Maas é que ela trabalha bem as emoções e sentimentos na sua narração e eu adoro quando um escritor faz isso.
Mas voltando à Feyre, como era meu primeiro contato com a autora e com a escrita dela, foi muito difícil gostar da protagonista nesse primeiro instante, antes de perceber que havia um motivo por trás do comportamento dela. Com o passar da leitura você percebe isso e também repara que a própria protagonista reconhece um pouco essa passividade que ela tem. Ainda assim era extremamente irritante ver algumas coisas, como, por exemplo, o modo do pai e as irmãs mais velhas a tratavam (o que na verdade acaba por ser interessante, porque Maas demonstra nessa situação que famílias também podem ser abusivas) e também o modo como ela vai se relacionar com o Tamlin.
E desse macho aí eu nem quero comentar muito (eles usam “macho” no livro mesmo, referindo-se aos homens féericos), primeiro porque vou estragar a experiência de quem ainda não leu os livros e segundo porque não vai sair coisa agradável daqui. Assim como Feyre, ele é o personagem que a gente já viu em infinitos livros Young Adult. É príncipe da Corte da Primavera (agora imagem borboletas saindo da tela e voando ao seu redor enquanto passarinhos assoviam uma canção; é exatamente essa impressão que você tem ao ler as descrições dessa corte). E quanto os dois se apaixonam... Melodrama, doce melodrama. Muito felizmente eu acabei descobrindo que esse romance foi um mal necessário para tocar num assunto muito importante que só vai ser trazido à tona no segundo livro. Não se enganem com a relação deles, lembrem do que eu disse sobre a família dela.
Sobre o enredo em si, eu diria que uns 80% do livro é... clichê. Feyre se adaptando ao seu cativeiro e ela e Tamlin se apaixonando. Mas eu gostei do mundo que a Maas criou, dos feéricos, da mitologia. Isso não é tão explorado no início, mas vai melhorando com o passar da leitura. O universo que ela cria é bem rico, fantasioso mesmo, mas de uma maneira doce e agradável. É bastante baseado no paganismo, principalmente mitologia celta, temos até a presença de um Caldeirão, objeto que no livros seria o criador do mundo, fazendo uma clara referência à deusa Ceridwen. Aliás, a “divindade maior” dos livros é mulher, a deusa de três faces.
E por falar em pontos positivos, vamos falar dos outros 20% restantes então. Do meio ao fim acontece uma reviravolta que muda o livro da água para o vinho. É sério, parece até outra pessoa escrevendo. Tudo fica mais denso, pesado, o clima de contos de fada é extinguido. Temos a inserção de novos personagens (que são muito maravilhosos, preciso dizer, porque possuem o tipo de personalidade que eu pessoalmente gosto bastante) e a própria personalidade da Feyre começa a se desenvolver a partir daí por causa dos eventos que acontecem e das coisas que ela vai ter que fazer. Quando a sinopse diz “misto de A Bela e A Fera e Game of Thrones” ela está exagerando um pouquinho, mas não vou negar que a escritora trabalha bem sim com sofrimentos. Se a primeira parte da história é a parte de contos de fada, a segunda parte é com certeza influenciada por George R. R. Martin (um pouquinho, mas é).
Em resumo, posso dizer que o livro só começa de verdade do meio ao fim. É lá que alguns assuntos são melhor abordados e explicados, onde está a essência da história, a (re)construção da personagem principal e dos secundários, onde o desenvolvimento do enredo acontece. Enfim, é lá onde está tudo. Deixa de ser um conto de fadas que narra a história de um casal se apaixonando e passa a ser um conto de fadas que narra a história de uma mulher descobrindo que ela pode, sim, fazer o que quiser. Tem bastante protagonismo feminino (mais presente no segundo livro, porém). O romance continua bastante presente (mais do que eu gostaria, para ser sincera), mas como faz parte do gênero não dá para reclamar muito. E os livros não ficam só nisso, a Maas faz mesmo um esforço para mostrar que a vida (da mulher, principalmente) não deve se resumir a se apaixonar.
E por hoje é isso. Talvez eu faça uma resenha do segundo livro também, já que falei bastante dele (o lado bom é que vou ter mais coisas boas para falar), mas já adianto que ele é mesmo bem melhor do que o primeiro. Vale a pena ler o primeiro só para ler o segundo, os melhores personagens estão por lá haha Até a próxima e, no mais, boas leituras!
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