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Worldbuilding para Dummies, parte 2

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Por: Giulia Correia


Olá de novo! Depois de muito tempo, estou de volta com mais um artigo sobre sociedades fantásticas. (: Dessa vez, vamos falar sobre uma coisa muito interessante, mas pouco explorada: a economia.

Há muita, muita, muita coisa que eu posso falar sobre economia. Sério. É um assunto tão extenso quanto interessante. Aqui, porém, eu vou focar em alguns aspectos básicos e como eles podem ser pensados para aprofundar a sociedade que você está construindo e deixá-la mais verossímil.


A economia de um povo está intrinsecamente conectada à quantidade e qualidade de recursos que ele tem disponíveis para produzir e consumir, e a quantidade e qualidade de recursos estão, por sua vez, intrinsecamente conectadas ao tamanho e tipo de território que esse povo habita. Portanto, se estamos falando de um povo que habita montanhas (vamos ser clichês e chamá-los de anões, ok?), estamos falando de um povo cujos recursos mais importantes são, por exemplo, metais e pedras preciosas. 

E por que definir os recursos disponíveis para um povo é importante? Bem, lembra-se das suas aulas de geografia? Os recursos disponíveis são a sua matéria-prima. Com matéria-prima é possível produzir outros tipos de recursos, com mais utilidade e mais valor para as pessoas e, por consequência, que custam mais e produzem lucro. Vamos voltar aos anões. Se nos baseássemos nos recursos que eles têm disponíveis, o que conseguiríamos produzir? Armas, armaduras e talvez joias, certo? E, mais ainda, baseado nos recursos e no que eles produzem, que tipos de empregos seriam comumente encontrados? Mineradores, ferreiros, joalheiros, esse tipo de coisa, certo?

Já delineamos aspectos importantes da economia, então. Porém, não dá para parar aí. Temos que ir adiante e aprofundar nosso pensamento mais um pouco: se temos recursos e esses recursos são explorados, então quem os explora? Quero dizer, quem é que domina esses recursos e tira lucro deles? Pensemos não somente na mão de obra, mas efetivamente em quem paga essa mão de obra, se tal figura existe. Pode não existir? Pode, também. E isso é um aspecto econômico a ser pensado. Não somente isso, mas também é essencial pensar na relação entre essa mão de obra e a pessoa que domina os recursos disponíveis.

Vamos lá, quais são as opções? Vamos voltar aos anões e supor que há três grupos, cada um com uma economia diferente. O império norte, em que as minas pertencem à família imperial e onde a mão de obra são anões de famílias que servem à família imperial e destinam parte de sua produção a ela. O sul, em que as minas estão nas mãos de comerciantes ricos, que pagam impostos à família imperial baseados no lucro, onde a mão de obra recebe um salário determinado pela quantidade de trabalho prestado. E, por fim, as vilas a noroeste, onde as minas pertencem à comunidade e o lucro é dividido entre todos. Nesse momento, eu sugiro pesquisar sobre sistemas e ideologias econômicas, para ter ideias e entender como as coisas funcionam. Capitalismo, socialismo, feudalismo, liberalismo, etc.

Você não precisa, é claro, imitar nenhum deles. Pode pegar as características que quiser e misturar, desde que faça sentido. Além disso, você não precisa pesquisar a fundo nenhum desses sistemas, só conhecer como funcionam e saber como aplicar suas características na economia que você quer montar. Não sei se você notou, mas o império norte é meio feudalista, o sul é capitalista e as vilas são socialistas.

Nesse momento você tem mais ou menos uma ideia de como as relações econômicas funcionam internamente, certo? Quem é rico, quem trabalha, que tipos de recursos são produzidos, quais são os empregos mais comuns, como os ricos lidam com os pobres. Depois disso, é necessário pensar nas relações econômicas entre um país e outro. Claro, um país dificilmente será economicamente isolado de outros, e as relações econômicas são importantíssimas para enriquecer um país.

Logo, está na hora de pensar nas rotas econômicas. Vamos voltar aos anões. Eles vivem em montanhas, certo? Logo, há recursos necessários que eles não acham com facilidade mas precisam para viver. Além disso, eles têm recursos em abundância que podem ser vendidos para outras nações. Então, vamos pensar em termos de importar e exportar. Os anões importam madeira dos elfos da floresta, porque têm pouca, e exportam armas e armaduras para os humanos que estão sempre em guerra entre si.

Disso, há outras coisas para pensar. O quão importante são as relações econômicas para o país? Como que essas relações econômicas afetam o país politicamente? Não somente isso, mas como é que as rotas de comércio funcionam? Geralmente, quanto mais bem localizado é o país, melhor para fazer comércio ele é. Um país portuário, com bons barcos, é muito melhor para fazer comércio que um país montanhista, por exemplo. Chegar lá é mais fácil. Por que os outros países compram desse país em específico e não de outro país que produz a mesma coisa? Porque eles são mais baratos? De maior qualidade? Por motivos políticos?

No caso dos anões, seria impensável ficar sem exportar armas e armaduras, a economia deles quebraria. Logo, é importantíssimo que a cultura de guerra dos humanos permaneça a mesma E QUE as relações entre os dois governos seja amistosa para que o comércio flua facilmente. Além disso, estar nas montanhas é uma desvantagem econômica. Logo, se quero que o império norte seja rico, preciso de uma maneira para superar isso. Talvez as armas dele sejam as de melhor qualidade, o que faria valer a pena o preço pago por elas, ou talvez sejam o único produtor de armas (monopólio), o que faria com que os humanos não tivessem escolha. Ou, talvez, eles tenham uma tecnologia específica que permite que a mercadoria passe facilmente por dentro das montanhas até a fronteira com um dos reinos humanos. Tudo depende da criatividade e do perfil da nação.

Uma vez que você já tem tudo isso, vai perceber que a economia da sociedade que você está tentando construir já tem uma base sólida. A partir daí, é só ir pensando nos detalhes que ainda não foram pensados, se necessários. Você não precisa de nada muito detalhado, a não ser que a economia seja uma parte muito importante da história que você quer contar.


Agora, pra finalizar, um resumão dos pontos chaves a se pensar quando se está construindo a economia, que podem ter ficado perdidos no meio do texto:

  • Quais são os principais recursos do país?
  • O que o país costuma produzir?
  • Quais são os empregos mais comuns?
  • Quem é dono dos recursos?
  • Quem é a mão de obra que os explora?
  • Como é a relação entre essas “classes”?
  • Quais são as relações econômicas do país?
  • O quão importante elas são?
  • Como que o território afeta essas relações econômicas? E a política?
  • Por que essas relações econômicas existem?
Até a próxima!

Referências:
Principalmente esse doc com perguntas sobre worldbuilding em geral: https://docs.google.com/document/d/1sVjgHmircLnwbe0zpsB-GG6yrL1PlJPJX7_ZQ2QCXe8/edit
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Worldbuilding para Dummies, parte 1

terça-feira, 5 de maio de 2015

Por: Last Rose of Summer
Perfil: http://fanfiction.com.br/u/348014/


Olá! O intuito desse artigo é ajudar você a estruturar sua própria sociedade para a sua história de fantasia, e eu resolvi escrevê-lo principalmente porque considero a maioria das postagens do gênero, em português, um pouco superficiais. Resolvi dividir o post em várias partes, onde cada uma delas fala sobre um aspecto diferente da sociedade. A parte 1, essa aqui, fala sobre o sistema de governo. Nós ainda falaremos, em outras partes, sobre sistema econômico, território, cultura, religião e povo. 

Bem, não há uma ordem certa para começar a estruturar a sua sociedade, você pode começar pela que preferir. Escolha a que melhor funciona com você, a sua preferida ou mesmo a que você tem mais desenvolvida na sua mente. Começar pelo governo foi uma escolha pessoal, e a sua pode ser diferente.

É importante destacar que, antes de começar a estruturar sua sociedade, você precisa ter conhecimentos básicos de geografia e dos conceitos com os quais vai trabalhar. Logo, ao tentar criar seu próprio sistema de governo, precisa saber o que governo realmente significa. Antes de começarmos de verdade, então, vou colocar o conceito de governo aqui para vocês: “autoridade governante de uma unidade política, que tem o objetivo de regrar uma sociedade política e exercer autoridade.”

Um monte de palavras bonitas, certo? Mas ‘pera que eu vou explicar o que isso significa. Autoridade governante de uma unidade política quer dizer que há alguém (uma pessoa ou um conjunto de pessoas) responsável por administrar um pedaço de terra. Mas não é um pedaço de terra qualquer, é uma vila, uma tribo, uma cidade, um distrito, um estado, um país. Aqui no Brasil, os responsáveis por isso são os prefeitos, os governadores e a presidenta. 

Que tem o objetivo de regrar uma sociedade política quer dizer que há alguém (novamente, uma pessoa ou um conjunto de pessoas) responsável por criar as regras que as pessoas que habitam o pedaço de terra precisam seguir. Não são regras quaisquer, são regras de convivência gerais. Podem ser leis, podem ser mandamentos. Aqui no Brasil, os responsáveis por isso são os vereadores, os deputados e os senadores.

Já exercer autoridade significa que há alguém (pessoa ou conjunto de pessoas) responsável por garantir que as pessoas que habitam o pedaço de terra sigam as regras que precisam seguir. São responsáveis por julgar e punir aqueles que infringem essas regras, e não necessariamente precisam fazer isso bem ou de maneira justa. Aqui no Brasil, os responsáveis por isso são as forças policiais e os juízes.



Para começar a organizar o sistema de governo, então, você precisa pensar nos três aspectos acima e de que maneira eles agem na sociedade que você planeja criar. Aqui no Brasil, eles são separados nos três poderes — executivo, legislativo, judiciário — mas na sua sociedade não precisa ser dessa forma. Você pode misturar o executivo com o legislativo, fazer com que a mesma pessoa exerça todos os três poderes ou mesmo colocar algum outro poder na equação — no Brasil, por exemplo, houve uma época em que havia o poder moderador, exercido pelo imperador, que dava a ele o poder de anular qualquer decisão tomada por um dos outros poderes.

Além disso, não é só de poderes que vive um governo. No Brasil, há um órgão público chamado Ministério Público, responsável por, entre outras coisas, promover a acusação na maior parte das ações penais, defender indivíduos vulneráveis, como crianças e idosos, e representar os interesses da sociedade em processos que envolvam, por exemplo, o direito do consumidor ou casos ambientais. Ele não é um quarto poder, nem faz parte, diretamente, dos três já citados, mas é responsável por auxiliar na organização da sociedade. Pode ser que haja, na sua história, a necessidade de se criar órgãos semelhantes (ou mesmo com funções completamente diferentes!). Minha sugestão é: pesquise sobre outros ministérios e órgãos públicos existentes, no Brasil ou em outros países, para que você possa ter uma ideia geral de como funcionam e nos quais pode se basear. 



Nesse momento, nomes não são importantes, nem classificações. O mais importante é que você tenha um rascunho em mente de como as coisas funcionam. Isso significa ser capaz de responder, pelo menos, à pergunta “quem possui o poder político.” É uma única pessoa ou um grupo de pessoas? Que tipo de pessoa(s) é (são) essa(s)? Um presidente, um primeiro-ministro, um partido político, um imperador, o próprio povo? De que maneira alguém pode chegar ao poder? Votação? Merecimento? Hereditariedade? Quem pode chegar ao poder? Militares? Pessoas de uma família específica? Pessoas de uma determinada casta?

Dessa forma, uma resposta possível para “quem possui o poder político” poderia ser “um presidente que chegou ao poder por meio da votação de um parlamento — equivalente ao nosso legislativo — e só pôde alcançar o poder porque era cidadão e possuía uma carreira militar”, ou talvez um “imperador que só pôde chegar ao poder porque era o filho mais velho do imperador que morreu” ou mesmo “um conselho que chegou ao poder por eleição do povo”. Entende? 

Dependendo da sua resposta, outros desenvolvimentos são necessários. Se a pessoa que governa chegou lá por meio de votação, você precisa saber quem pode votar. Qualquer cidadão? Cidadãos que possuem uma determinada característica (pertencem à casta x, recebem y por mês, têm nível z de escolaridade)? Um grupo de pessoas? Há votos que valem mais que outros? De que maneira é feita essa eleição? Há fases nessas eleições? E se houver empate, como faz? Já se chegou por meio de merecimento, precisa saber o que fez com que essa pessoa merecesse o cargo. Quem julga se merece ou não? Quem “pode merecer”? Somente homens? Somente mulheres? Somente intelectuais? Somente militares? Já se é por hereditariedade, quem pode herdar? O filho mais velho (independente do gênero)? Somente filhos homens? E se sim, o que acontece se uma pessoa não possui filhos homens?

O ideal é que você tente pensar nas possibilidades e nos aspectos mais profundos da maneira como o poder político funciona na sua sociedade. Se você dividiu os poderes, vai precisar pensar neles separadamente. Se possui um presidente no poder executivo e um parlamento no poder legislativo, pode fazer com que eles cheguem ao poder de maneira diferente. O povo pode votar no parlamento que, por sua vez, escolhe o presidente. Ou o povo vota no presidente, que escolhe o parlamento. Ou, se há um rei, ele escolhe o parlamento. Ou o parlamento é escolhido pelo povo, mas há um rei que é definido por hereditariedade. As possibilidades são infinitas e tudo depende da sua criatividade e da necessidade da sua história.



Para conseguir aprofundar ainda mais a maneira como o seu governo funciona, agora é a hora de pesquisar. Claro, sempre é hora de pesquisar, mas se você já sabe mais ou menos o que quer, você sempre vai ter um lugar para ir. Nesse momento eu sugiro pesquisar sobre os tipos de governo, ver com qual deles o seu governo se encaixa e pesquisar mais profundamente sobre eles. Você pode, também, pesquisar sobre a maneira como algumas nações da antiguidade funcionavam e tentar basear-se nelas. Se é uma nação militarista, Esparta pode ser uma boa ideia, ou a Alemanha nazista, ou a França napoleônica. Se for uma nação democrática, pode ser legal se basear em Atenas, ou talvez nos Estados Unidos, na época de sua fundação. Se for um império poderoso, dá para se basear no Império Romano ou no Império Britânico, por exemplo.

Pesquisar e ver como as coisas funcionam sempre ajuda na hora de construir o seu mundo. Claro, a não ser que você vá fazer uma história cheia de intrigas políticas, ou cujo protagonista é político, ou cuja política seja uma parte muito importante, talvez não seja necessário desenvolvê-la em detalhes, e pode ser muito mais simples usar um governo que já existe/existiu e modificar alguns detalhes, a criá-lo do zero e levantar suas bases. O que vai definir, no entanto, o melhor a fazer, é a necessidade da sua história, e isso só você pode descobrir.


Material utilizado e links úteis para pesquisa:
Grande parte do conhecimento que eu possuo (e que, por consequência, foi colocado no texto) veio das minhas aulas de história, geografia, sociologia e filosofia.
Também rolou a ajuda de uma pessoa linda chamada Sarah Hardt, e do povo com quem eu falo da Liga dos Betas do Nyah! Fanfiction.
Sobre o conceito de governo: http://www.significados.com.br/governo/
E esse doc super útil com perguntas sobre worldbuilding, traduzido por mim: https://docs.google.com/document/d/1sVjgHmircLnwbe0zpsB-GG6yrL1PlJPJX7_ZQ2QCXe8/edit



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Como criar um personagem queer

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
Por: Last Rose of Summer


Queer é uma palavra que vem do inglês, e sua definição do dicionário é ligeiramente diferente da definição usada pela comunidade LGBT. Há quem diga que ela é usada apenas para pessoas trans não-binárias (calma, vou explicar o que isso significa mais tarde), há quem diga que apenas para pessoas trans (binárias ou não-binárias), mas aqui no texto eu vou usá-la pelo seu significado mais amplo, que é para designar toda e qualquer pessoa que não seja heterossexual ou cisgênera (que eu também vou explicar o que é logo adiante), como um sinônimo de LGBT.
Dito isso, devo completar dizendo que personagens queer são personagens como qualquer outro, embora sejam consideravelmente mais difíceis de se retratar, principalmente se você não está familiarizado com a comunidade, e retratá-lo baseando-se em estereótipos pode ser muito ofensivo para as pessoas que se consideram queer. Por isso, o ideal, antes de começar a pensar em criá-lo, é fazer uma pesquisa e conversar com pessoas que sejam da mesma “categoria” que o seu personagem. A maioria das pessoas não se importa em responder perguntas se você não for ofensivo, e é bastante comum encontrar tumblrs sobre isso, principalmente se você souber inglês (se não souber, mas estiver interessado, o google tradutor é sempre uma opção). Há também páginas no Facebook que podem ajudar um leigo a compreender as vivências queer, e que podem ser muito úteis como pesquisa. Só lembrem-se de não utilizar nada do que eles dizem em uma história, nem uma situação específica, sem permissão.
Nesse artigo eu vou falar, de maneira bem básica, sobre orientação sexual, orientação romântica, identidade de gênero e expressão de gênero, e a maneira como elas podem afetar seu personagem na história. Vou deixar claro, logo agora, que não existe uma maneira certa de se retratar um personagem queer, mas existem, sim, maneiras muito erradas e ofensivas de fazê-lo.
Sem mais delongas, vamos ao que interessa?

Orientação Sexual vs Orientação Romântica:

Estou colocando esses dois juntos porque eles geralmente andam de mãos dadas, e é difícil falar de um sem puxar o outro. Eles são muito parecidos e frequentemente confundidos, e a maioria das pessoas que conhece o primeiro não faz ideia de que o segundo existe. Outra parcela não acredita que eles estão separados, e outra ainda não entende o que cada um significa. Para esta, uma breve explicação:
Orientação sexual é algo bem amplo e relativamente abstrato, e tão físico quanto psicológico, mas não quero entrar em detalhes ou discussões filosóficas. Engloba principalmente atração sexual, desejo sexual e impulso sexual. De maneira menos ampla: por quem o seu personagem se sente sexualmente atraído (com quem ele gostaria de fazer sexo), seu desejo de engajar em atividades sexuais e a sua necessidade física de fazê-lo (a sua resposta fisiológica ao estímulo sexual). É preciso destacar que há uma diferença entre atração estética, que é, basicamente, achar alguém bonito, e atração sexual, e que atração estética não tem relação com a orientação sexual que o personagem possui. Um personagem masculino e heterossexual pode achar um outro homem bonito e isso não faz com que ele seja menos hétero. A orientação romântica, por outro lado, engloba basicamente a atração romântica do personagem, ou seja, seu desejo de estar em um relacionamento romântico com outro personagem. É simples assim.
Como eu disse, as duas podem andar de mãos dadas, e geralmente andam, mas isso não é uma regra: um personagem pode ser homossexual e birromântico, por exemplo, ao sentir atração pelo mesmo gênero, mas se imaginar namorando tanto garotos quanto garotas. Um personagem pode ser heterossexual e arromântico, ao sentir atração sexual pelo gênero oposto, mas nunca se imaginar namorando ninguém — e isso não faz dele um personagem necessariamente promíscuo ou que pega todos, não. A orientação sexual (e a romântica) não definem traços de personalidade.

Agora que você já sabe o que é orientação sexual e o que é orientação romântica, está na hora de conhecer quais elas são mais especificamente. O prefixo é sempre o mesmo, o que muda é o final:

Hétero — heterossexual, heterorromântico — pessoa do gênero masculino que sente atração pelo gênero feminino, ou pessoa do gênero feminino que sente atração pelo gênero masculino. Para pessoas não-binárias que sentem atração pelo gênero feminino, usa-se gyno (gynossexual, gynorromântico), e para não-binárias que sentem atração pelo gênero masculino usa-se andro (androssexual, androrromântico)
Homo — homossexual, homorromântico — pessoa que sente atração pelo mesmo gênero com o qual se identifica.
Bi — bissexual, birromântico — quanto a esse aqui, há controvérsias. Normalmente, diz-se da pessoa que sente atração pelo gênero masculino e pelo gênero feminino. No entanto, algumas pessoas usam para se referir a alguém que sente atração por dois gêneros distintos, não necessariamente binários. As pessoas que usam bi para binários usam, para não-binários, poli (polissexual, polirromântico).
Pan — pansexual, panromântico — pessoa que sente atração independentemente de gênero (ou por todos os gêneros).
Ace — assexual, arromântico — pessoa que não sente atração, ou sente tão pouca que pode ser desconsiderada.

Agora que você já sabe o básico, vamos ao que interessa: como a orientação do seu personagem afeta a sua história?

Ora, de várias maneiras. É importante ressaltar que a orientação funciona diferente de pessoa para pessoa, então você pode, mais do que dar um nome para essa orientação — dizer se o seu personagem é gay, bi, pan —, descrevê-la. Você não precisa que seu personagem, ou o narrador, diga com todas as letras em sua história que o seu personagem gosta de garotos ou garotas, ou ambos, ou nenhum. Você pode mostrar, descrevendo as reações de seu personagem diante da maneira como ele se relaciona com as pessoas.
Uma personagem do gênero feminino e bissexual pode se pegar imaginando, por exemplo, como seria beijar a sua melhor amiga, mesmo que ela já tenha tido namorados antes. Um garoto homossexual pode se sentir excitado diante da imagem de um homem sem blusa na televisão. Você não precisa que ele beije um garoto durante a história — não. Também é possível mostrar por meio de comentários que ele faz ou mesmo pela maneira como ele recebe investidas sexuais das pessoas. Um personagem assexual pode, por exemplo, se sentir desconfortável com a ideia de “pegar” alguém.
Além disso, as orientações sexual e romântica permitem que você desenvolva seu personagem psicologicamente — como ele lida com o fato de não ser hétero? Se a atração sexual difere da atração romântica, como ele lida com o fato de poder entrar num relacionamento e não sentir atração sexual pelo parceiro? Ele tem problemas com pessoas leigas no assunto, caso se depare com alguém que não saiba o que a sua orientação significa? Se alguém faz um comentário preconceituoso, como ele reage?
É importante levar em consideração que algumas pessoas lidam com o preconceito melhor do que outras — logo, seu personagem pode ser daqueles que fica calado no seu canto ou levanta a voz e discute. Pode ser ativo nas discussões LGBT, pode frequentar marchas, por exemplo, e falar abertamente sobre o que ele é, ou pode chorar, se trancar no quarto e tentar se esconder. Pode fingir ser hétero para se encaixar, o que é comum, ou pode se recusar a aceitar que não o é.
Você também pode desenvolver a história dele baseada na orientação — ele perdeu amigos quando se assumiu (se é que se assumiu)? Como seus pais lidaram com o assunto? Como ele lidou com o assunto? Ele já teve muitos relacionamentos não-heterossexuais? Tais relacionamentos terminaram bem? Acima de tudo, como tudo isso afeta a maneira como ele vive e age no tempo presente (ou no tempo em que a história se passa)?
Outra coisa que é legal levar em consideração é que nem todos os pais são preconceituosos ou têm problemas com a orientação dos filhos. Alguns conseguem aceitá-los facilmente, alguns conseguem aceitá-los com alguma dificuldade — e pode ser bem legal desenvolver a maneira como os pais lidam com a sexualidade do filho, por exemplo, ao ter que apresentar isso para os amigos ou vizinhos — e alguns, infelizmente, não conseguem aceitá-los. Além disso, nem todo mundo perde todos os amigos ou fica rodeado de amigos com a mesma orientação.
Se o seu personagem possui alguma religião, também pode ser interessante desenvolver a maneira como ele lida com o fato de a maioria das pessoas acreditar que não ser hétero é pecado — ou ele é do tipo que acredita que Deus vai aceitá-lo independentemente da Bíblia? As possibilidades são infinitas!
É claro que a orientação do seu personagem não precisa ser o mais importante na história — pode ser só um fato como a cor do cabelo ou o emprego, por exemplo, ou o que quer que a sua história peça.

Identidade de Gênero vs Expressão de Gênero

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que orientação sexual não tem nenhuma relação com identidade de gênero. Um homem homossexual é apenas um homem que sente atração por outros homens, e não um homem que quer ser mulher. Isso dito, vamos seguir em frente:
Para saber o significado de identidade e expressão de gênero, primeiro nós precisamos saber o que é “gênero”.

Gênero é uma construção social. Não é definido pelo nosso sexo — o órgão genital com o qual nascemos —, mas pelo conjunto de características com o qual nos identificamos. Uma frase que eu gosto muito e que eu acho que resume isso bem o bastante é “nós geralmente pensamos em gênero como uma característica fixa, mas, na realidade, é mais como uma constelação de traços”. Logo, identidade de gênero é a constelação de traços do seu personagem. Se a maioria desses traços é socialmente considerada masculina, então ele provavelmente se identifica como um homem. Se é feminina, então se identifica como mulher. Se é uma constelação única, cuja maioria não é nem masculina nem feminina, então se identifica com outra coisa. Expressão de gênero, por outro lado, é o “gênero” que o seu personagem expressa. Enquanto identidade de gênero se refere principalmente a características psicológicas — gostos e traços da personalidade —, a expressão se refere a características físicas: roupas, cabelo, maneira de falar, etc.
O gênero, geralmente, é socialmente imposto — ou seja, espera-se que ajamos e nos expressemos de acordo com o sexo com o qual nascemos. Se há uma vagina, espera-se que sejamos do gênero feminino, se há um pênis, espera-se que sejamos do gênero masculino. Quando isso acontece — quando a pessoa se identifica com o gênero que lhe foi imposto — ela é cisgênera ou cissexual (abreviado para cis). Por outro lado, quando a pessoa não se identifica com o gênero imposto, ela é transgênera ou transexual.
Algumas pessoas diferenciam transgênero de transexual — sendo transexual aquele que passou pela operação de redesignação sexual, e transgênero aquele que não passou —, mas a maioria acha essa diferenciação irrelevante. Para não errar, é muito mais simples usar a abreviação, trans (caso você pesquise sobre o assunto, provavelmente vai encontrar textos em que trans é seguido por um asterisco — trans* — isso, porém, não é mais utilizado).

Caso você vá pesquisar sobre transsexualidade (como eu sugiro que faça, já que esse artigo é bastante superficial), há alguns termos que você precisa conhecer:

Amab — assigned male at birth — pessoa trans que nasceu do sexo masculino. A tradução literal seria “assinalado macho ao nascer”.
Afab — assigned female at birth — pessoa trans que nasceu do sexo feminino. A tradução literal seria “assinalado fêmea ao nascer”.
Nb — non-binary, não binário — pessoa trans que não se identifica nem com o gênero feminino, nem com o gênero masculino. Ela pode ser neutrois, demiboy ou demigirl, por exemplo.

Como a expressão de gênero realmente se diferencia da identidade?

Assim como a orientação romântica anda junto com a orientação sexual, a expressão de gênero anda junto da identidade de gênero sem, no entanto, serem a mesma coisa. Uma pessoa que se identifica como sendo do gênero masculino pode, por exemplo, usar saias, se preferir, e ele não se torna menos homem por isso. O que quero dizer é: o fato de ele usar saia não anula que sua constelação de traços é essencialmente o que a nossa sociedade encara como masculina.
Pense, por exemplo, na moda feminina de alguns séculos atrás. A ideia de mulheres usarem calças era absurda! Ainda assim, hoje em dia, muitas mulheres as utilizam e nem por isso são menos mulheres. A definição do que é aceitável ou não para determinado gênero muda de acordo com a cultura da época e do lugar, mas o fato de ser mulher não vai mudar só porque nasceu numa cultura diferente — entende?

Retratar a transexualidade num personagem é uma coisa tão difícil quanto ampla — você precisa levar em consideração, por exemplo, de que ser trans é muito menos socialmente aceito que ser gay, e que há muito menos gente que entende e aceita a transexualidade. Também precisa levar em consideração que não é algo instantâneo, não é algo de um dia para o outro, mas um processo. Algumas pessoas se assumem muito jovens — “garotos” que pedem vestidos para os pais e fazem comentários como “você sabe que eu sou uma garota, não sabe?” mesmo que ainda não entendam muito bem sobre isso (e tem um vídeo muito lindo sobre isso, em inglês, infelizmente, sobre uma mãe falando sobre sua filha trans: https://www.youtube.com/watch?v=-oIuw3yIyhI) — e outras demoram anos para se assumir — a Laerte, por exemplo, cartunista relativamente famosa que se assumiu como travesti aos cinquenta e poucos anos de idade (tem uma entrevista da Laerte maravilhosa, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=uxD1xXvQWYM, que trata bastante sobre isso. O melhor de tudo: ela é brasileira!).
Pessoas trans passam por fases — logo, personagens trans passam por elas também. Tem a fase de descobrimento, em que o personagem descobre que não se identifica com seu gênero imposto, e então vai definindo qual é o gênero com o qual se identifica, e tem a fase da transição, que é quando o personagem já sabe quem é, e passa a agir de acordo com isso — seja passando a se vestir de acordo, mudando de nome ou, ainda mais importante, pedindo às pessoas que se refiram a ele com outros pronomes. Essas fases não possuem duração específica e podem ocorrer mutuamente — um personagem trans pode mudar a maneira de agir ao mesmo tempo em que define quem é, por exemplo.
Os pronomes são muito importantes para as pessoas trans — então, por favor, use-os corretamente quando for escrever. Se seu personagem é amab, mas se identifica com o gênero feminino, use pronomes femininos, por exemplo. Caso se identifique como neutro, pode utilizar linguagem neutra, pronomes masculinos ou femininos (a maioria das pessoas tem a preferência por um deles, ou seja, o ideal é escolher um e referir-se ao personagem por tal pronome durante toda a história).
A escolha de um novo nome pode ser importante — embora algumas pessoas trans decidam não modificá-lo. Outra coisa que é importante ressaltar, é que nem todas as pessoas trans tomam hormônios ou passam pela operação de redesignação sexual (aliás, perguntar para uma pessoa trans se ela já passou pela operação pode ser bastante ofensivo).

Como a transexualidade afeta a sua história?

Como no caso da orientação, você pode decidir se a sua história vai girar em torno disso ou não. Pode ser simplesmente um fato na história como qualquer outro fato, e a história pode ser sobre uma aventura no espaço. Ainda assim, o fato de ser trans pode (e deve) afetar o personagem: Ele fala abertamente sobre ser trans ou é algo que esconde das pessoas que conhece? Ele se sente mal quando as pessoas utilizam o pronome errado ou o chamam por seu nome antigo (caso tenha trocado)? Ele se ressente do preconceito? Os pais têm problemas com isso ou são capazes de aceitá-lo? Se sim, como foi que lidaram com isso no início? O fato de os pais lidarem mal com sua transgeneridade (caso lidem mal) atrapalha sua vida? Com quantos anos ele começou a questionar seu gênero? Sua transição foi fácil ou difícil? Novamente, há inúmeras possibilidades a serem exploradas, e tudo depende de o que você pretende fazer na sua história.


Criar e desenvolver um personagem queer não é uma tarefa fácil, e requer muita pesquisa. Antes de começar, eu sugiro que se pergunte se o seu personagem ou sua história realmente pedem por isso: um personagem queer não é uma cota a se cumprir, não é algo que deve ser feito só por fazer. Também não é algo que você deva deixar de fazer só porque já tem queer demais — a diversidade é uma coisa linda e deve, sim, ser explorada.
Se a resposta para a pergunta for sim, então sugiro pesquisa. Defina o que seu personagem será — cis e pan, cis e ace, trans e ace, trans e hétero? — e pesquise mais profundamente sobre o assunto. Se o seu personagem for arromântico, por exemplo, eu sugiro pesquisar sobre relacionamentos queerplatonics, e se for trans, sobre disforia e genderfluidismo, assuntos que eu não tratei aqui.
Eu espero que o artigo seja de ajuda para vocês, e qualquer pergunta é só falar. Deixo vocês com uma música linda (https://www.youtube.com/watch?v=Cf79KXBCIDg) e os links que usei para pesquisa.



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Capas

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Por: Last Rose of Summer

Capas são bastante importantes, principalmente para fanfictions. Pouquíssimas pessoas não “julgam o livro pela capa”, o que significa que uma capa bonita pode sim ser responsável por atrair mais leitores. Junto com a sinopse, é o primeiro contato que o leitor tem, então precisa ser chamativo, sem dar spoilers.

Antes de mais nada, porém, eu preciso avisar que isso aqui não é um tutorial faça-sua-capa, mas mais uma espécie de ajuda sobre elas, na hora de criá-las/escolhê-las. Espero que gostem! 

Tamanho:

A capa não pode ser pequena demais, a ponto de ser impossível de enxergar e, no caso do Nyah!, também não pode ser muito larga (e com pouca altura), porque o ícone que aparece na hora da pesquisa fica difícil, muito pequeno. Sugiro tamanhos cujos formatos fiquem “na vertical”.

Imagem: 

A imagem é, talvez, a parte mais importante da capa. Há muitos aspectos sobre ela que merecem ser comentados, então vou separar em tópicos:

  • Escolha uma imagem que remeta à história: colocar uma imagem de dois artistas aleatórios (por mais que as descrições sejam parecidas com as descrições dos personagens na história), não vai fazer com que leitores percebam exatamente o que você pretende passar. Se a história é colegial, talvez seja interessante pegar uma imagem de uma garota uniformizada, em vez de utilizar a Karen Gillan numa roupa aleatória. Veja como você pode combiná-la com a trama de maneira que, ao chegar a certo ponto, seu leitor consiga pensar: “Ah, entendi! A capa significa alguma coisa.”
  • Evite colocar gente demais: se for escolher uma foto, prefira as que possuem, no máximo, quatro pessoas. O ideal é que os leitores logo liguem uma pessoa a um personagem, e não precisem perder muito tempo decifrando a capa. 
  • Evite colocar vários focos: isso acontece bastante quando uma pessoa não sabe usar o photoshop/similares, mas quer uma montagem como capa, então cola um monte de imagens diferentes num fundo qualquer. Há um certo lugar de uma imagem que atrai a atenção de alguém num primeiro momento, e é esse “lugar” que a pessoa memoriza e presta atenção. O ideal é que toda a informação necessária para o leitor se encontre nesta parte da imagem, não dividida. 





Complexidade nem sempre significa beleza: encher a imagem de efeitos, colar aquele monte de PNGs lindos que você encontrou, colocar aquela moldura enorme e mais um monte de outras coisas pode deixar a capa poluída: muitas vezes, quando dois efeitos resolveriam e um ou outro PNG faria um ótimo trabalho. Como dizem por aí, “menos é mais”.

Escritos:

O texto não é muito importante numa capa de fanfic, principalmente porque tudo o que precisa ser dito já está na sinopse. Ele deve ser visto como um “algo a mais”, um complemento, e nunca deve chamar mais atenção que a imagem em si. 

  • Escreva pouco: letras demais chamam pouca atenção. 
  • Use uma fonte legível: se você quer que os leitores entendam o que escreveu, a fonte precisa estar legível e ter um tamanho razoável, em comparação com o resto da imagem.
  • Evite utilizar “estilos” que atrapalhem a leitura: estilos cuja cor seja muito similar ao fundo, por exemplo.
  • Evite tampar o “foco” da imagem

Por fim, lembre-se de que as dicas acima são apenas gerais. É possível que uma ou outra coisa dê certo em casos específicos, porque o autor da capa foi capaz de combinar várias ferramentas diferentes e criar uma estética maneira. Tudo depende do que você pretende mostrar com a capa e de como vai fazer isso.

Espero que as dicas tenham sido úteis e que se divirtam fazendo suas capas. Até a próxima!

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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana