Uma Reflexão Sobre o Processo Criativo (01/03)

quarta-feira, 11 de maio de 2016


Por: Edgar Varenberg 

Quando falamos em processo criativo, tendemos a pensar em aspectos simples: basicamente tendemos a aceitar que toda a nossa arte é fruto de puramente “inspiração”. Entretanto, o ramo da criatividade traz conceitos maiores que podem ajudar qualquer um a entender melhor como funciona a planificação de uma ideia. E é disso que trataremos neste artigo. O intuito deste artigo não é ajudar a ter um processo criativo mais eficaz, mas, sim, refletir a respeito de como funciona.

Antes de tudo, é importante refletir sobre o conceito de criatividade. Tal conceito é visto de maneiras diferentes em diferentes áreas; entretanto, todas possuem um consenso: a criatividade trata-se de um processo da criação do novo, seja em cima de algo antigo, seja não tendo base alguma. Mas o que seria algo novo? Como eu posso dizer que algo é novo, ainda mais no campo da literatura em que as ideias parecem cada vez mais restritas? Reparem que quando eu digo algo novo, é bom também refletirmos que há uma distância entre criatividade e originalidade. É daí que podemos começar a refletir sobre o processo criativo.

A criatividade não é nada sem o ser humano e vice-versa. Se temos três “doses” de ideias sobre, por exemplo, aviões, e distribuirmos tais “doses” para três humanos diferentes, teremos três obras diferentes sobre aviões; todos podem até falar dos mesmos detalhes, mas a nossa cognição, o jeito de escrever, o jeito de pensar, os conhecimentos prévios, e até as tão famosas inspirações, nos diferem no que se diz respeito da expressão do processo criativo.

O que você quer com isso, Tio Edgar?

A criatividade é um bem humano, que funciona independente entre cada indivíduo mediante fatores internos e externos que compõem a mente de cada um. Em outras palavras: a criatividade é a mesma, mas a forma de expressar dos seres humanos não; e apenas essa diferença já é o suficiente para transformar uma obra.

Para este artigo vamos explorar apenas três destes fatores, os que eu julgo como principais: consciência, memória e potencial. Contudo, nesta primeira parte, vamos tratar apenas da consciência.

Na planificação de pensamentos, mais especificamente quando estamos criando uma história desde o início, temos por instinto pegar todas as nossas bases de conhecimento e começar a montar diversas peças, que, aos tons de originalidade, se tornam nosso material. Mas de onde tiramos tais materiais? Na verdade, a planificação de ideias está diretamente ligada à inconsciência criativa; por isso é explicável o fenômeno de ser tão difícil começar algo do zero, da história parecer confusa e de não sabermos como guiá-la no início. E muitas vezes, nessas ocasiões, um beta-reader acaba nos salvando, não é mesmo? 

Ok, mas o que saber dessa inconsciência afeta no meu processo criativo?

O desenvolvimento da consciência criativa é fundamental para a compreensão dos campos que estamos criando cada vez mais sem percebemos. Acabei de citar acima a salvação de um beta-reader; eles, neste caso, funcionam simplesmente como a nossa consciência criativa, pois são eles que apontam positividades e negatividades de aspectos que ainda estão no pensamento, que não foram ainda para o papel, o que chamamos informalmente de “rascunho de ideias”.

Vamos colocar isso na mente então: tudo que ainda não foi passado para o papel pertence ao campo da consciência criativa.

Quando criamos um personagem, já pensamos logo naquele ator que admiramos que daria um bom “cast”, ou pensamos em outro personagem prévio, mesmo que minimamente. Ocorre muito também o efeito “Frankenstein”, que consiste em você pegar várias partes para construir um todo (mas isso será melhor discutido na segunda parte do artigo, pois se trata da memória criativa). E, para esta reflexão, eu quero estabelecer um comparativo. Imagina que você está bolando um antagonista para a sua história. Normalmente, de cara, você já pensa “Tem que ser alguém com personalidade diferente do protagonista!”. Ué, mas o que impede o antagonista de ter personalidade semelhante ao protagonista? Na hora de criar uma briga, você já pensa em quem vai vencer. Ué, por que não empatar? Entendem o que eu quero dizer? Não, então para o próximo parágrafo.

Aspectos inconscientes do nosso processo criativo tendem a seguir linhagens que estamos acostumadas a acompanhar em nossas leituras, nossas vivências ou simplesmente por nossas mentes serem preguiçosas. Citei acima o exemplo das lutas sempre terem um vencedor; mas, se você parar para pensar, um “empate” é sempre feito de propósito pelo autor; uma vitória não. O mesmo vale para o exemplo do antagonista: um antagonista muito parecido com o protagonista é feito propositalmente; um diferente não. Tudo que foge do padrão inconsciente é feito propositalmente porque passa a ser consciente.

O que isso significa, Edgar?

Que a partir do momento em que separamos o que deve ou não ser consciente no nosso trabalho, temos um controle diferenciado das ideias. E o objetivo deste artigo é justamente refletirmos sobre isso para usarmos a nosso favor tal habilidade cognitiva. Mas como ser consciente das minhas ideias pode me ajudar a desenvolver melhor o meu processo criativo?

Suponhamos que você esteja no terceiro capítulo da sua fanfic nova, você está lá abalando, recebendo elogios do Brasil inteiro, bem Andrea Mello, e, BOMBA, bloqueio criativo. Você não sabe como fazer a cena do encontro da Yrisbelle com o Carlos Daniel Jorge, não sabe o porquê de um diálogo entre eles começar, como juntar a história de ambos, acabou, e agora? É aí que entra a consciência criativa. Quando temos ideias e mais ideias, geralmente oriundas do que conhecemos como inspiração, elas não estão muito filtradas, portanto, muito abrangentes, são todas inconscientes criativas.

Mas, Edgar, se o consciente é uma limitação do inconsciente, como isso pode me ajudar a combater o bloqueio, que é outra limitação?

Primeiramente, a função da consciência criativa não é combater nada. Tal consciência é usada para termos uma segunda forma de pensar, totalmente diferente da primeira; então se uma está emperrada, usamos a outra, simples. Usar essa “segunda cognição” nos ajuda a obter resultados que nossa forma comum de pensar não nos permitiria; e por que é importante fazermos uso disso? Porque toda ideia que dá certo abre portas para novas ideias. Então melhor que ter uma porta aberta é ter duas.

Praticamente falando, temos a seguinte situação, baseada no exemplo que eu dei mais acima: está impossível criar alguma ligação entre Yrisbelle e Carlos Daniel Jorge. Ora de trabalhar nossa cognição, toda a nossa consciência, finge que deu aquele freeze dramático estilo Elsa e vamos pensar:

Impossível eles se falarem? Por quê? Por acaso um deles está preso num buraco negro?

Não. Então, SIM, é possível eles se falarem, vamos acordar!

Ah, mas se ela chegar e falar com ele do nada, não vai combinar com a personalidade da personagem, ela é muito tímida, jamais faria isso. E ele nem sabe da existência dela.

Tá, ele não falar é plausível. Agora ela. Se ela quer mesmo, ela vai. Mas Edgar, você está falando para eu ir contra a personalidade da minha personagem?

SIM. Humanos não são padrões que nunca saem do seu estado, mas não é conversa pra esse artigo. O que eu quero trazer como reflexão para esse caso, é mostrar que a impossibilidade não está na situação, mas nas limitações que a nossa inconsciência criativa nos impõe. Inconscientemente, foi colocado na cabeça do autor que a menina tímida jamais teria coragem de falar com o cara do nada. Entretanto, inconscientemente, também sabemos que o cara não fala com a menina porque ele não sabe da existência dela. Então vemos que essa inconsciência nos guia para informações boas e ruins (não diria ruins, diria mais “limitadas”). Então cabe à nossa consciência criativa quebrar as barreiras daquilo que, sem sabermos, acabamos por limitar.

Tá, mas é assim? Ela fala com o cara e fim? Mas como eu vou fazer isso sem parecer forçado? Isso aí já fica para o tópico sobre potencial criativo, mas o que temos que refletir no momento é que muitas limitações são criadas dentro da nossa própria mente, e que podem facilmente serem “corrigidas” para não atrapalhar nosso fluxo criativo.

Para encerrarmos, um pequeno resumo: criamos tudo inconscientemente porque a cognição humana trabalha assim. Quando criamos algo novo, tendemos a criar blocos de informações inconscientes que nos servem para estabelecer informações essenciais para o prosseguimento do enredo, pois são informações básicas que nos impedem quase sempre de cometer erros de enredo; todavia, esses blocos também acabam por nos limitar, pois trazem conceitos que muitas vezes podem ser quebrados se notarmos que eles existem e, em determinados conceitos, não precisam fazer sentido.

Referências:

http://www.mariosantiago.net/textos%20em%20pdf/criatividade%20e%20processos%20de%20cria%C3%A7%C3%A3o.pdf
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212009000300017

3 comentários:

  1. Que viagem... Me sinto numa das aulas de mestrado da minha mãe ^^' Vou ter que ler mais algumas vezes pra entender 100%

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