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Estereótipos em romance – Parte I



Por: Anne L

es·te·re·ó·ti·po 
(estereo- + -tipo)

substantivo masculino
1. [Artes gráficas] Chapa obtida pela fusão de chumbo numa matriz ou numa impressão. = CLICHÉ
2. Trabalho feito com essa chapa.
3. Ideia, conceito ou modelo que se estabelece como padrão.
4. Ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial. = PRECONCEITO
5. Coisa que não é original e se limita a seguir modelos conhecidos. = LUGAR-COMUM
6. [Patologia] Comportamento ou discurso caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, .anônimo ou impessoal, e desprovidas de originalidade e da adaptação à situação presente. = ESTEREOTIPIA

O foco aqui são os itens 3, 4 e 5. Com isso em mente, vamos começar. 

A primeira coisa que eu percebi quando fui fazer uma pesquisa, perguntando sobre o assunto em alguns grupos de escrita, foi que a maioria dos estereótipos existe por um motivo: machismo. Não falarei sobre isso no post, mas achei um tanto curioso o quanto os valores da nossa sociedade se refletem nas artes. 

Para facilitar a leitura, vou separar os estereótipos em “hétero” e “yaoi e yuri”, embora alguns não sejam exclusivos de uma categoria. Nessa primeira parte, falarei sobre os héteros.

- Estereótipos em romance hétero

Como nas outras categorias, o que mais se repete aqui é a escolha de personagens, de arquétipos, ainda que certas situações também sejam recorrentes nas histórias.

Opostos sempre se atraem: quem nunca viu uma história em que o casal principal é formado por alguém rico e alguém pobre; o nerd e o popular; pessoas que se odeiam; o bonito e o feio; ou variantes? Vale apontar também que, em geral, a parte “desfavorecida” é a mulher. O que eu considero verdadeiramente ruim nesse estereótipo é que os personagens costumam ser definidos por essa característica principal. Se a história for sobre um CEO famoso com uma garota pobre, por exemplo, boa parte do enredo vai girar em torno da diferença de poder aquisitivo entre eles. A garota vai descobrir os luxos e as maravilhas que só o dinheiro pode proporcionar, e o garoto, a felicidade e o amor que, segundo essas histórias, só existem quando se vive com pouco (mas, mesmo assim, no final, eles viverão felizes para sempre e muito ricos, obrigada). 

A mulher como um instrumento para a mudança do homem: “Um Amor para Recordar” é o exemplo mais óbvio dessa. Aliás, os romances do Nicholas Sparks são basicamente formados por alguns estereótipos costurados, se vocês forem reparar. 
Esse ocorre quando o único objetivo da mulher na história é alterar a vida do homem de algum modo. Normalmente, o cara é desempregado ou delinquente, e ela bem-sucedida na própria profissão, estudiosa, dedicada... Lembra bastante os Opostos, de que falei no item acima, embora aqui haja uma maior chance de a mulher ser “superior” ao homem de alguma forma — até porque ela serve apenas como um modelo, um catalisador para que aconteça a mudança positiva na vida do personagem. Muitas vezes, tal mudança é ocasionada para que o cara evolua, adquira responsabilidades, realize seus sonhos e se torne a melhor versão possível de si mesmo. Enquanto isso, sua parceira permanece imutável em relação ao começo da história ou até involui para se adequar a esse novo homem.

O enredo como desculpa para o romance: “Grávida por acidente”, “Casamento por contrato”. Esse estereótipo você já identifica pelo título da história. Não existe um romance entre os dois personagens — às vezes, o futuro casal nem se conhece ou já se odeia —, mas aí vem aquela surpresa: serão obrigados a fazer parte do dia a dia um do outro por uns tempos, talvez até morar juntos. É provável que a mocinha precise pagar uma dívida nesse estereótipo (e o corpo serve como moeda), queira salvar uma herança de família, a própria família, ou tenha tido um caso inocente de uma noite que resultou numa gravidez. A causa é o menos importante, uma vez que o foco é como o convívio na rotina alheia vai fazer o amor desabrochar e tornar o infortúnio a melhor coisa que já aconteceu na vida dos personagens. Quem nunca viu uma fic assim no Nyah?

Se não fosse aquele mal-entendido... não haveria conflito no enredo. Enquanto a maioria dos itens dessa lista peca por não formar laços com a realidade, esse apresenta um aspecto comum no dia a dia de qualquer pessoa: brigas e discussões. 
Mas não pense que estou dizendo que é ruim o casal da sua história ter desentendimentos. Nada disso. O que fez esse estereótipo ganhar um lugar no post foi a maneira como muitos autores trabalham com ele, como se os personagens fossem incapazes de deduzir certas coisas ou nunca tivessem o mínimo de interesse em clarear as próprias dúvidas. Falo do rapaz que assiste a uma cena ou escuta uma conversa suspeita da garota e conclui o pior; dos “vilões” da história que inventam algo sobre o protagonista, e a mocinha, decepcionada, termina tudo com ele em vez de averiguar se a informação que recebeu é verdade; do casal que simplesmente não conversa sobre nada e, quando o menor obstáculo se aparece em seu caminho, acaba por se separar. Esse item ainda vem acompanhado por um terceiro personagem, o mediador: aquela pessoa que surge no lugar certo e na hora certa e convence um dos lados de que tudo não passou de um mal-entendido.

Um é pouco, dois é bom, três é um triângulo: Para que deixar o romance se desenvolver numa boa quando se pode colocar mais alguém no meio? Sobre esse estereótipo, tenho uma confissão a fazer: adoro, mas quando bem feito. A ideia de triângulo amoroso não é ruim em si, porém, como a maioria dos clichês/estereótipos, fica ruim se não for explorada direito. 
Um jeito óbvio de fazer isso é deixando evidente o tempo todo quem vai ser “o escolhido”. Para que se dar ao trabalho de arrastar a história nessa quando os leitores já sabem qual casal vai ser feliz para sempre no fim? Outro muito comum é colocar o melhor amigo — normalmente, esse ocorre com dois homens e uma mulher — como um dos pretendentes. Tem aquele cara (com grandes chances de ser um badboy) por quem a protagonista é apaixonada, tudo bem, mas e o melhor amigo, aquele que sempre esteve lá, que faria tudo por ela? Lamento, mas, nesse item, as chances de ele ficar com a mocinha são ínfimas. 

Até que a morte nos separe: Alguém tem câncer. Alguém vai morrer. Só que, antes disso, esse alguém se apaixona e vive um amor épico até que a doença separa o casal. É interessante matar um personagem principal na sua história (ou assim acho eu, porque me divirto), mas, dependendo do enredo, até isso fica batido e previsível. Em muitos casos, esse estereótipo anda de mãos dadas com o da Mulher como instrumento de mudança, pois ela é quem costuma estar doente ou servir para que o homem aceite que vai morrer, cresça e realize seus sonhos antes disso. 

Já dizia “American Pie”... que a primeira vez é inesquecível. Para muitos escritores, isso ocorre porque ela é maravilhosa para todo mundo. Nem sei se é necessário comentar que, em geral, a personagem virgem é a mulher, consequência direta da ideia enraizada na sociedade de que é ela quem deve sempre se controlar, se guardar e esperar pacientemente até que “a pessoa certa” apareça. Aqui o problema parece ser apenas falta de pesquisa, já que muitos autores descrevem o momento como a melhor coisa da face da Terra. Ninguém sente dor, não existe nenhum tipo de desconforto, e ambos sempre chegam ao ápice. Só alegria. Isso quando o virgem não se torna de repente um expert em sexo, discutindo opções mais quentes e posições com seu parceiro. Esse tipo de abordagem acaba deixando as cenas um pouco genéricas, e não me refiro somente ao fato de sempre parecer a mesma coisa (porque, no fundo, meio que é), mas de vários personagens acabarem irreconhecíveis, perdendo todos os seus traços únicos quando ficam entre quatro paredes. 
Caso interesse, no blog já tem um post — em três partes — especificamente sobre erros comuns em cenas de sexo, que explora várias faces desse estereótipo. Aviso que é para maiores de 18 anos.

À primeira vista: Como a ciência ainda discute se isso é possível ou não, naturalmente, o meu foco não é na possibilidade de o amor surgir dessa forma, mas na frequência com que isso acontece em histórias. Costuma ocorrer só com os protagonistas, que batem o olho um no outro e, pronto, já estão apaixonados. O fato de os dois se apaixonarem ao mesmo tempo torna esse item ainda mais estranho. Cada pessoa é diferente, reage a determinadas situações de maneira diferente. Muita gente ainda cita que os astros se alinharam, que o destino fez um esforço para que o momento acontecesse e tudo mais. Nesse contexto, é até plausível, porque parece que só com o auxílio de uma força maior esse amor poderia nascer. 

Quebra de rotina: Essa “quebra” a que me refiro não diz respeito a uma mudança real na vida da pessoa, mas à entrada de um desconhecido nela, aquele desconhecido, que, com o tempo (não precisa levar muito também), se tornará seu grande amor. Muitas histórias já têm como premissa o aluno novo que entra na escola, o empregado novo contratado para a empresa, o parente que é distante tanto geograficamente quanto na árvore genealógica e que surge de repente.Não parece haver explicação para aquela pessoa nova ser especial em meio a tantas outras que o protagonista acabou de conhecer, mas ela é. Simples assim. Até entra um pouquinho no À primeira vista.

“A aposta”: Quem nunca viu uma fic com esse nome? Apostas são comuns em grupos de amigos e são feitas tanto por conta de coisas bobas como de importantes. O que torna isso um estereótipo, então? O enredo todo ser baseado nisso e haver apenas duas possibilidades de desfecho, é claro: 1 – o personagem que precisa cumprir a aposta fica com a pessoa que o ajudou a fazer isso; 2 – o alvo da aposta descobre tudo, fica bravo, mas acaba sendo reconquistado pelo parceiro e fica com ele. Sem surpresas.

Não é crime, é amor: Porque é perfeitamente normal aquele cara perseguir a mocinha pelos cantos, observá-la dormindo e tudo mais. Romantização de estupro entra aqui também, embora eu veja isso mais em yaoi. Recomendo analisar o contexto sempre, pois pode ser (pode ser) que o autor esteja trabalhando com Síndrome de Estocolmo ou algum distúrbio psicológico. Aproveito para lembrar, no entanto, que essa romantização não é apologia de estupro (que é crime), mesmo que seja considerado moralmente repreensível. Você é livre para trabalhar com qualquer tema na sua história, mas é sempre interessante saber do que está falando. Creio que esse item seja o mais complicado de se lidar, já que o machismo que permeia os valores da nossa sociedade às vezes impede as pessoas de discernirem o que é aceitável do que não é. É útil pensar que qualquer coisa que viole seus direitos (sejam eles ter o controle sobre o próprio corpo, ter dignidade, ter o poder de escolha quanto a seus parceiros ou companhias, etc.) não deve ser uma coisa boa.

Ela tinha tudo na vida, menos ele: Esse eu vejo mais em comédias românticas (Katherine Heigl, oi), apesar de aparecer em fics também. A personagem tem tudo que sempre quis, realizou todos os seus sonhos, é bem-sucedida, esclarecida e independente... Mas não tem namorado. Pobrezinha. Eis que surge aquele cara, aquele, que muda tudo. Após o derradeiro encontro, ela começa a perceber que não tinha exatamente tudo que queria, que não era tão bem-sucedida assim e que, na verdade, o trabalho até a privava de certas coisas.
Esse item pode fazer par com o Mulher como instrumento de mudança, porque costuma haver uma involução da personagem, que, no fundo, é infeliz sem um parceiro e precisa de um para enfim se sentir completa. É um retrato falso da mulher moderna, que conquistou conhecimento, independência e sucesso, mas que vê que, sem um homem, isso não serve para nada. O homem que ela conhece, por outro lado, passa por um crescimento pessoal que o leva a ser completo sozinho, ficando à altura dela ou até acima. 

Eu tinha um objetivo na vida... Até encontrar você: Não deve ser confundido com o Ela tinha tudo na vida. 
Frequente em romances de qualquer tipo, é mais um estereótipo que vem da ideia de que pessoas são definidas por seus relacionamentos ou pelo papel que desempenham nele. A protagonista tinha mil metas pessoais para cumprir, o mocinho tinha milhares de sonhos... Mas acabaram se conhecendo, e tudo isso virou pó sob a grandiosidade do amor deles. Não parece muito verossímil. Por mais que as pessoas mudem quando entram em um relacionamento, dificilmente elas negam a própria identidade para viver em função de seu parceiro. Isso não é nada saudável, na verdade. Fica legal mostrar na sua história como o amor afeta alguém, porém, é uma boa tomar cuidado para que o “amor” não torne seu personagem raso. 

Destruidora de lares: Ela é famosa por ser antagonista do casal feliz, querendo separá-los e fazendo o possível para que isso aconteça. Mesmo em yaoi e yuri, normalmente, é uma mulher, que é retratada como uma pessoa ruim e com pouca profundidade além da parte de querer separar o casal. Ex-namoradas/esposas/noivas cumprem esse papel, em geral, mas muitas melhores amigas (da garota ou do garoto) também são usadas para infernizar a vida dos pombinhos. Uma de suas ferramentas de destruição é o Mal-entendido e, de vez em quando, ela pode alcançar a redenção como mediadora. 

Esses foram apenas alguns exemplos dos estereótipos mais comuns em romance hétero — ainda que muitos se encaixem também em yaoi e yuri, como será tratado na segunda parte. Tenham em mente que não é crime nenhum usá-los na sua fic, e uns podem inclusive ter uma abordagem interessante, caso o autor se esforce. Escrita se baseia praticamente em leitura, pesquisa e dedicação, uma vez que todos os temas já foram colocados em alguma história. É uma abordagem diferente, um aprofundamento em algum aspecto que torna o seu texto único.


"estereótipo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/estere%c3%b3tipo [consultado em 29-01-2016].

Pesquisa de opinião em vários grupos de escrita.

Resenha: Outubro



Por: Humberto Cotrim

Olá, pessoas. Tudo certo? 
Bom, como é de praxe, o Blog da Liga trouxe a resenha sobre o livro de nossa última entrevistada. 

Titulo: Outubro
Autor: Kamile Girão
Editora: Independente
Ano: 2014
Formato: Livro digital (disponível atualmente na Amazon)

Sinopse: 

"Você sabe o por quê das folhas caírem no Outono?"
Shau desconhecia a resposta para aquela pergunta - até conhecer Kaero Morgan. E, naquele outubro de 2004, ele encontrou, no auditório da escola, aquela que lhe mostraria não apenas a razão pela qual as folhas abandonam suas árvores durante a estação que precede o inverno, mas que, também, ensinaria o rapaz de roupas largadas e desânimo constante a virar um homem.
Outubro, 2013. Para Felipe Alves, seria somente mais um dia de árduo trabalho no hospital. Contudo, ao entrar no quarto 706, o jovem enfermeiro percebeu que aquele não seria um mês comum. Após tantos anos, a vida finalmente lhe deu a chance de retificar os erros do passado e de livrar-se, finalmente, das folhas velhas que persistiam na árvore da sua vida.

Resenha: 

A história é contada em tempos distintos, alternando-se entre os anos de 2004 e 2013. Em ambos, os personagens principais são Felipe Alves e Kaero Morgan. No passado, o rapaz, também conhecido por Shau, era um adolescente despreocupado, sem ambições e que ligava pouco para seu modo de vestir. Possuía uma namorada, mas ela não parecia se importar em se assumir o relacionamento deles. Já Kaero era uma jovem madura, apesar de seus dezessete anos, conseguiu a vaga de professora substituta de piano e auxiliava no coral da escola; possuía seu futuro traçado e uma viagem marcada para Inglaterra. 
Foi ao adentrar o ensaio na sala de música que Shau viu Kaero, a garota de traços joviais, porém com uma maturidade tão aparente que lhe fez se sentir simplório e medíocre. Dali também nasceu uma admiração, que tenderia a evoluir, e que o fez voltar para assistir aos ensaios periódica e furtivamente. 

Nos dias atuais, o enfermeiro Felipe Alves reencontra aquela que marcou sua adolescência, sendo novamente atingido pelos sentimentos antigos, os mesmo que não trouxeram somente coisas boas. Ver Kaero hospitalizada o fez querer consertar todos os erros (e imposições do destino) ocorridos. 
A narração ocorre sob a perspectiva pessoal de Kaero, quando no passado, ao exibir o seu diário; e utiliza um narrador onisciente para tratar tanto sobre os momentos presentes quanto sobre os de 2004, abordando o desenrolar da história. Esta foi uma opção válida e que pôde aprofundar cada detalhe da história, porém não se engane, mesmo tudo sendo devidamente explicado, nada vem antes da hora. Por mais que você pense que determinado detalhe foi negligenciado, ele virá no momento exato. O que provoca certo mistério e aumenta mais a velocidade da leitura, embora isto só tenha ocorrido comigo a partir do meio da história. 
Aproveitando o gancho, digo que o começo da narrativa tem seu impacto, mas resolve diminuir bastante seu ritmo e evolução, podendo provocar uma perda momentânea de interesse no leitor, mas se você seguir, não haverá motivos para se arrepender.
Tenha em mente que Outubro é um romance que aborda a história de um casal e diversos temas da adolescência, mas não se tornando previsível e clichê. Trata aquilo que se propõe a trazer de maneira madura e com um quê de filosofia. As personagens são desenvolvidas, mesmo apresentando certas instabilidades. Talvez por própria vontade da autora. Em certos momentos, alguns personagens secundários pareciam se tornar meras ferramentas para a continuação da história. Seus diálogos pareciam não condizer com suas respectivas personalidades. Há um ponto na narrativa em que a avó de Kaero tem uma fala fria sobre um assunto muito sensível, isto causa impacto no leitor, porém não encaixa com a avó maternal que nos é brevemente apresentada anteriormente. Existem também momentos em que outros personagens parecem verdadeiros filósofos e capazes de tal discernimento sobre a vida que causaria inveja a qualquer um. Aponto que essas falas podem pesar negativamente, mas não posso deixar de afirmar que os diálogos entre os personagens principais são ótimos, nos fazem acreditar na relação deles, possuem carisma.
É valido destacar que a revisão do livro deixou passar meia-riscas, pontos equivocados, falta de hifens, entre outros escorregões, contudo não afirmaria que este é um ponto negativo, afinal, a transmissão de ideias não é prejudicada. Os deslizes não comprometem o andamento do enredo. Já sobre a escrita da autora, poderia dizer que ela se rebusca demais em certos momentos, existem palavras incomuns do vocabulário de jovens, além de uma colocação pronominal tão polida que soa estranha em um ambiente contemporâneo e new adult que a história aborda.

Em suma, Outubro provoca uma ótima leitura. É agradável aos olhos de quem gosta de romance, mas saberia conquistar os não adeptos. Trata sobre amadurecimento e nos leva a pensar que o cair das folhas é tão necessário para as árvores quanto para as pessoas.

Entrevista: Kamile Girão



Kamile Girão é uma estudante cearense de Design Gráfico e Letras Português/Inglês. Nascida no início da década de 90, começou a escrever ainda na infância, quando comprava brochurinhas para descrever suas brincadeiras no colégio e de boneca. Com o advento da pré-adolescência, a então diversão virou hábito. Inventou várias histórias, transformou outras em livros. Vive criando mundos paralelos e realidades alternativas nos percursos de ônibus que faz pelas ruas de Fortaleza.

Liga dos Betas (LB): Estudante de Letras e Design Gráfico, criadora do blog Café da Kami, autora de dois romances publicados, Yume (2011) e Outubro (2013), além do conto O Eco dos Sinos; e revisora. Obrigado por ceder um pouco do seu tempo para nós. Bom, para iniciarmos nada melhor do que saber sobre as origens do seu interesse pela escrita. Como começou a escrever? Você se lembra da primeira coisa que escreveu e o que te inspirou a fazê-la?

Kamile Girão (KG): Minha história com a escrita é engraçada. Veja bem, eu fui uma criança solitária. Não podia sair muito de casa e só tinha minhas amigas da escola para brincar (e não era sempre que elas vinham para a minha casa). Então, meu refúgio e minha diversão sempre foram os livros. Minha mãe lia muitas histórias para mim e isso me influenciou a querer escrever minhas próprias aventuras (principalmente, porque eu tinha dois primos mais novos e queria ler para eles também). Então, eu pedia para os meus pais comprarem caderninhos e escrevia lá as minhas brincadeiras no colégio, sempre acrescentando algum elemento fantasioso. Era a minha diversão: escrever sempre foi, acima de tudo, minha maneira de me divertir sozinha.

LB: É sempre bom ver o quanto a escrita e a leitura, acima de tudo, podem acrescentar a nossa vida. Então, enquanto autores, é natural recebermos diversas influências. Quais você pode mencionar como primordiais para aquela jovem escritora? E quais aquelas que te acompanham até os dias de hoje?

KG: Eu sinto que minhas influências variam conforme vou ficando mais velha e minha experiência como leitora cresce. Por exemplo, quando eu tinha 12 anos, era muito influenciada pela Flavia Bujor (autora de "A Profecia das Pedras") e pelas garotas que escreviam fanfics de Naruto (Neji x Tenten). Atualmente, sinto que aprendo com cada novo autor que entro em contato. No momento, as meninas dos meus olhos são Jane Austen e Caitlín R. Kiernan (A Menina Submersa). Mas coloco no pódio do meu coração Anne Rice, Neil Gaiman, Bran Stoker e Oscar Wilde. Aprendi muito com eles. Também posso dizer que fui muito influenciada pelas mangakas Naoko Takeuchi (Sailor Moon) e as garotas do CLAMP. Elas me influenciaram (e influenciam) até hoje.

LB: Já que mencionou as fanfics, vamos para seguinte pergunta. Pode-se afirmar que o site Nyah! foi o palco para as sua primeiras histórias disponíveis ao público? Suas fanfics ajudaram a te moldar como autora?

KG: Claro! Eu era muito tímida para mostrar meus escritos para alguém, então o Nyah! foi uma ótima forma de superar minha timidez e ganhar alguma confiança como escritora. Minha webnovel "Inevitável" foi bem aceita na época em que publiquei (meados de 2009), e isso me deixou segura para continuar a escrever.

LB: E sobre o seu processo de criação, costuma deixar a história fluir naturalmente ou prefere partir de uma base bem estruturada? Há algum ritual na hora de escrever?

KG: Eu passo um tempo ruminando a história e monto o roteiro dela. Mas não tenho nenhum ritual para escrever, além de olhar pro computador e pensar: "Eu deveria estar escrevendo, né?"

LB: Você poderia falar de seus dois romances publicados? Sobre o que fala Yume e Outono?

KG: Yume (que no momento está fora de circulação) fala sobre sonhos. A Nadia, uma garota alemã, recebe a proposta de desenhar um personagem dos seus sonhos por 1000 euros. Ela topa a oferta e começa a se forçar a sonhar com um rapaz que, ao contrário do que ela acredita, mora no Brasil e se chama Adrien. Por causa disso, ele também começa a sonhar com ela, e daí a história se desenrola.
Outubro já é um drama/romance/new adult ambientado em dois tempos. No presente, nós temos o enfermeiro Felipe Alves reencontrando o amor de sua adolescência e tentando acertar os erros do passado com ela. Já no passado, a gente vê a história deles se desenrolando cronologicamente. Um período intercala o outro e ambos se completam para narrar a história de Kaero e Felipe.

LB: Yume foi publicado primeiramente pela Editora Dracaena, enquanto Outono teve distribuição feita através da Amazon. O que você pode destacar como pontos positivos e negativos destas duas formas de publicação?

KG: Ah, Outubro também entrou em uma editora por demanda. Mas confesso que pesco poucos pontos positivos nessa forma de publicação. Tive muitas chateações, principalmente com a falta de profissionalismo com os editores. Então, posso dizer que foram experiências ruins.
Mas, com a publicação independente, a coisa melhorou de rumo. Consegui alcançar mais leitores e divulgar melhor o meu trabalho. Isso foi ótimo! O livro, com um preço mais acessível, foi adquirido por mais gente, fato que não consegui nas editoras pagas. Porém, o índice de pirataria subiu também. Já cheguei a ver gente vendendo o ebook de Outubro no Mercado Livre (na maior cara de pau mesmo). Já teve site distribuindo o ebook sem meu consentimento e se negando a apagar o livro mesmo com minha pressão. É algo bastante chato, mas consegui resolver. Inclusive, já vi gente publicando o livro (novamente, sem meu consentimento) integralmente em plataformas como o Wattpad.

LB: Seja qual for a forma de publicação é essencial a revisão da história. Você, ao ter seus textos finalizados, procura a ajuda de um beta reader, ou revisor? Ou opta por fazer a revisão de forma independente?

KG: Opto pelos dois. Eu já tive experiências infelizes em publicar algo sem antes submetê-lo ao crivo de um beta. Revisão também é essencial. Embora eu trabalhe com isso, prefiro ter um outro olhar sobre meus textos e contrato revisores. Eles podem perceber erros que não notei por já estar viciada e acostumada com o texto. É mais seguro passar por esse processo.

LB: Enquanto aos novos projetos, tem algo preparado para lançamento futuro?

KG: Tenho um livro no momento que está passando por uma leitura crítica, porém não tenho data de lançamento. Estou mais focada agora em concluir minha faculdade (me formo em Design agora em 2016, no meio do ano). Por isso, é provável que eu não divulgue novidades até conseguir o meu diploma...

LB: Ah, claro. Um projeto deve requerer tanto tempo e energias quanto a conclusão de um curso superior. Então, no mundo das fanfics a interação com o leitor é muito mais simples, acontecendo através de reviews e recomendações. Já no mercado editorial isto muda de figura. Como você obtém o feedback de seus leitores?

KG: Através de resenhas. Eles também entram em contato comigo pelas redes sociais, porém não é com a mesma velocidade que chegam as reviews das fanfics (risos).

LG: Para provar que a sua relação com as fanfics não podia ser mais real, existe uma fanfic postada no Nyah! de um de seus livros. Você sabia? Como se sente em relação a isto?

KG: Sim! Foi da super querida Milla Felacio! Eu fiquei muito honrada quando ela me falou que escreveu algo sobre Outubro. Como eu sou cria de fanfic, ver que alguém fez uma do meu livro me deixa honrada demais. Dá um sentimento quentinho no coração!

LG: Estamos chegando no fim de nossa entrevista. Mas, para encerrar em definitivo, um último questionamento. Tendo publicado seu primeiro romance aos dezoito anos, pode-se dizer que você possui conhecimento e experiências dentro do mercado editorial, não? Portanto, qual conselho poderia dar para aqueles autores de fanfics que almejam ter sua obra publicada?

KG: Primeiro de tudo: perseverança. Escrever um livro é, acima de qualquer coisa, um ato de persistência e dedicação.
Segundo: sempre procure um bom beta-reader. Por mais que seja complicado, a gente precisa entender que nossos manuscritos precisam passar por ajustes. Eles não saem perfeitos assim que terminamos de escrever, então é necessário fazer essa lapidação.
Terceiro: paciência, jovem padawan! Antes de lançar seu livro, pesquise sobre mercado editorial, analise qual alternativa de publicação é mais adequada ao que você deseja. Converse com autores, leia blogs, mantenha-se informado. Isso é muito importante.

Boa sorte a todos!

Novo Acordo Ortográfico [2/2] – Prática


Por: Coralie



E aí? Belezinha?

Faz um tempo que eu não apareço por aqui! Estou saindo da minha montanha de livros, diretamente do Mundo Chamado Meu Quarto, para escrever este post! Brincadeiras à parte, estou finalmente trazendo a segunda parte do artigo sobre a Nova Ortografia. Antes, vale lembrar que ela é oficial a partir deste ano (2016).

Muito bem! Para começar, eu acredito que a melhor forma de se aprender as novas regras, para quem mal chegou a conhecer as antigas, é aprendendo-as como se nada tivesse acontecido. Isso mesmo! Esqueça que há regras antigas e novas. Se você tentar aprender as duas formas, pode confundi-las e terá dois trabalhos, sendo que as regras antigas em breve não valerão para o português formal. Porém, para fins didáticos, colocarei a diferença entre ambas. Vamos lá?!

Mudanças no alfabeto


Nosso alfabeto passou a ter, oficialmente, 26 letras, com a reinclusão do K, Y e W. Essas três letras são originalmente do alfabeto latino, contidas também no alfabeto inglês, mas não faziam parte do nosso desde 1943. Elas são usadas como símbolos de unidades e em palavras e nomes estrangeiros, como show, William, playground etc.

Trema


As famosas "bolinhas" (¨) sobre o u para indicar a pronuncia do gue, gui, que e qui. Alguns exemplos de palavras que o levavam: bilíngue, linguiça, cinquenta, sequestro, tranquilo. Vale lembrar que a maioria das pessoas não se lembravam de usar o trema, embora seja evidente pelo fonema sua singularidade. Mesmo que ele não esteja mais presente na escrita, seu som ainda é usado na fala: bilíngUe, lingUiça, cinqUenta.

Obs.: o trema permanece em palavras estrangeiras, como Müller.


Acentuação


1. Não há mais acento nos ditongos abertos (éi e ói) das palavras paroxítonas (aquelas que levam acento tônico na penúltima sílaba). 
Exemplos de palavras que antes levavam acento: apóio, colméia, Coréia, estréia, heróico, jóia, paranóico, platéia (considerando-se a separação silábica: Co-rei-a, es-trei-a, joi-a, pa-ra-noi-co)
Obs.: a regra vale apenas para palavras paroxítonas; oxítonas e monossílabos tônicos terminados em éi e ói continuam tendo acento: papéis, herói.
2. Não se usa mais o acento no i e no u, nas paroxítonas, quando vierem depois de um ditongo.
Exemplo: bAIúca.
Obs.: o acento permanece se a palavra for oxítona terminada em i e u (ou terminar em s). Exemplo: Piauí.
Também permanece se o ditongo for crescente: gUAíba.

3. Não há mais acento nas palavras terminadas em êem ou ôo(s).
Exemplos: doo, leem, magoo, creem.

4. Não se usa mais acento para diferenciar as palavras: pára/para, péla/pela, pêlo/pelo, pólo/polo e pêra/pera.
Exemplos: Ela foi ao polo Norte; O gato tem o pelo amarelo.
Obs.: O acento permanece nos casos de:
• Pôde (forma do passado do verbo poder) e pode (forma no presente do indicativo). Exemplo: Ela não pôde correr ontem por causa da chuva, mas hoje pode.
• Pôr (verbo) e por (preposição). Exemplo: Você vai pôr aquela camisa? Por mim?
• Acentos que diferenciam as formas no singular no plural: tem/têm, detém/detêm, mantém/mantêm.
• No caso do forma e fôrma, é facultativo o uso do acento. Vale ressaltar que o uso pode causar maior clareza.

5. Os verbos arguir e redarguir, nas formas arguis, argui e arguem, do presente do indicativo, não levam acento.

Hífen


Hífen com composto


01. Usa-se o hífen nas palavras compostas que não apresentam elementos de ligação.
Exemplos: guarda-chuva, arco-íris, segunda-feira, bate-boca.
Exceção: não se usa hífen em palavras que perderam o sentido de composição, como girassol e paraquedas.

02. Usa-se o hífen em compostos que têm palavras iguais ou quase iguais, sem elementos de ligação.
Exemplos: blá-blá-blá, tique-taque, cri-cri, glu-glu, pingue-pongue, zigue-zague, esconde-esconde.

03. Não se usa o hífen em compostos que apresentam elementos de ligação.
Exemplos: pé de moleque, dia a dia, fim de semana, cor de vinho, ponto e vírgula.
Incluem-se, nesse caso, os compostos de base oracional.
Exemplos: maria vai com as outras, leva e traz, faz de conta.
Exceções: água-de-colônia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa.

04. Usa-se o hífen nos compostos entre cujos elementos há o emprego do apóstrofo.
Exemplos: gota-d'água, pé-d'água.

05. Usa-se o hífen nas palavras compostas derivadas de topônimos (nomes próprios de lugares), com ou sem elementos de ligação.
Exemplos: Belo Horizonte — belo-horizontino, Porto Alegre — porto-alegrense, Mato Grosso do Sul — mato-grossense-do-sul, Rio Grande do Norte — rio-grandense-do-norte.

06. Usa-se o hífen nos compostos que designam espécies animais e botânicas (nomes de plantas, flores, frutos), tenham ou não elementos de ligação.
Exemplos: bem-te-vi, peixe-espada, mico-leão-dourado, erva-doce, pimenta-do-reino, cravo-da-índia.
Obs.: não se usa o hífen quando os compostos que designam espécies botânicas e zoológicas são empregados fora de seu sentido original. Observe a diferença de sentido entre o par:bico-de-papagaio (espécie de planta ornamental) — bico de papagaio (deformação nas vértebras).

Hífen com prefixo


1) Usa-se o hífen diante de palavra iniciada por h.
Exemplos: anti-higiênico, macro-história, super-homem.

2) Usa-se o hífen se o prefixo terminar com a mesma letra com que se inicia a outra palavra.
Exemplos: micro-ondas, inter-regional.

3) Não se usa o hífen se o prefixo terminar com letra diferente daquela com que se inicia a outra palavra.
Exemplos: autoescola, intermunicipal, superinteressante, semicírculo.
Obs.: se o prefixo terminar por vogal e a outra palavra começar por r ou s, dobram-se essas letras. Exemplos:minissaia, ultrassom, semirreta.

4) Nos prefixos sub e sob, usa-se o hífen também diante de palavra iniciada por r.
Exemplos: sub-região, sub-reitor, sub-regional.

5) Nos prefixos circum e pan, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por m, n e vogal.
Exemplos: circum-navegação, pan-americano.

6) Usa-se o hífen com os prefixos ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, pró, vice.
Exemplos: além-mar, ex-aluno, pós-graduação, pré-história, recém-casado, vice-rei.

7) O prefixo co junta-se com o segundo elemento, mesmo quando este se inicia por o ou h. Neste último caso, corta-se o h. Se a palavra seguinte começar com r ou s, dobram-se essas letras.
Exemplos: coedição, cofundador, coabitação, cosseno.

8) No caso dos prefixos pre e re, não se usa o hífen, mesmo diante de palavras começadas por e.
Exemplo: reescrever.

9) Nas palavras com ab, ob e ad, usa-se o hífen diante de palavra começada por b, d ou r.
Exemplos: ad-digital, ad-renal, ob-rogar, ab-rogar.

10) Não se usa o hífen na formação de palavras com não e quase.
Exemplos: (acordo de) não agressão, (isto é um) quase delito.

11) Com mal, usa-se o hífen quando a palavra seguinte começar por vogal, h ou l.
Exemplos: mal-entendido, mal-humorado.
Obs.: Quando mal significa doença, usa-se o hífen se não houver elemento de ligação.
Exemplo: mal-francês.
Se houver, no entanto, elemento de ligação, escreve-se sem o hífen.
Exemplo: mal de lázaro.

12) Usa-se o hífen com sufixos de origem tupi-guarani que representam formas adjetivas, como açu, guaçu, mirim.
Exemplos: capim-açu, amoré-guaçu.

13) Usa-se o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando não propriamente vocábulos, mas encadeamentos vocabulares.
Exemplos: ponte Rio-Niterói, eixo Rio-São Paulo.


É isso aí, pessoal. Parece muita coisa para gravar, mas o importante é você sempre pesquisar quando tiver dúvida. Com o tempo nós nos acostumaremos a usá-las.







Resenha: Star Wars – Marcas da Guerra


Por: Rodrigo Caetano



E aí, galera? Tudo bem? Hoje venho aqui falar de modinha. Sim, modinha. Mas não é qualquer modinha não. Vim falar de Star Wars, a maior modinha de todos os tempos, a modinha das modinhas. E, por que não (?), talvez a melhor de todas elas.

Aos fãs de carteirinha e longa data, deixem-me explicar. Deixem-me esclarecer que não há nada de pejorativo quando digo que Star Wars é modinha. Nem quando digo que Star Wars foi feito para ser modinha. Ele foi a primeira saga de filmes feita para ser viral, antes mesmo do conceito de “viralizar” existir. Foi o primeiro filme a ser lançado acompanhado de jogos (não necessariamente de videogame), bonecos, propaganda de massa, livros e histórias secundárias.

Star Wars foi a primeira saga a tentar buscar fãs de todos os modos, em todas as mídias, de todas as idades, no mundo inteiro. Boba Fett é um personagem icônico e um líder de venda de bonecos, e tem apenas poucas falas nos filmes. Seu personagem foi inteiramente construído de maneira secundária na época da trilogia original, e hoje ele é conhecido mundialmente. Ele serve como exemplo de como Star Wars foi o primeiro filme a virar febre mundial e conquistar todos os públicos.

Star Wars foi feito para ser modinha, conseguiu e o é até hoje. Nenhuma saga, de livros, de TV ou de cinema, conseguiu atingir o que Star Wars conseguiu. Não discuto aqui qualidade, mas sim tamanho, proporção, poder de venda e apelo com o público. E é por isso que hoje, quase quatro décadas após o lançamento do primeiro e original filme, ainda estamos aqui, sentindo novamente a febre com o lançamento de um novo, vendo o filme quebrar recordes e mais recordes de bilheteria no mundo todo.

Goste ou não, Star Wars já é fato há muito tempo e faz parte da nossa vida de muitas e muitas formas. Já é referência cultural do mundo. Seja impresso no cereal que você vê no mercado, no livro que acabou de lançar na livraria, no pôster de cinema, no desenho de TV para as crianças ou no novo game lançado. No Youtube e no cinema, na loja de brinquedos e no supermercado.


E, agora, também no blog da Liga dos Betas.


Dessa vez a resenha é sobre o novo livro da saga Star Wars, o primeiro de uma trilogia que pretende preencher um pouco do vazio de história entre o sexto filme, O retorno de Jedi, e o novo, O despertar da Força. O livro faz parte de um esforço de publicação com o selo: Jornada para o Despertar da Força, que inclui quadrinhos, livros infanto-juvenis e livros adultos, como é o livro que será analisado aqui: Marcas da Guerra.

Um último comentário, antes de entrarmos na ficha do livro: já pensaram que máximo seria ser contratado para fazer a representação literária de uma obra do cinema da qual você é fã? Esse autor, assim como muitos outros, literalmente foi contratado para escrever e publicar uma fanfiction de Star Wars. E essa fanfiction entra para o Canon da saga! Que máximo!


Título Original: Star Wars – Aftermath
Título Traduzido: Star Wars – Marcas da Guerra
Autor: Chuck Wendig
Editora: Aleph
Ano: 2015

Sinopse: 

O que aconteceu depois da destruição da segunda Estrela da Morte? Qual o destino dos remanescentes do Império Galáctico e dos antigos Rebeldes, agora responsáveis pela fundação da Nova República? Marcas da guerra é o primeiro livro do cânone oficial a mostrar o que acontece depois do clássico Episódio VI: O retorno de Jedi, dando pistas sobre o que podemos esperar da nova trilogia que se inicia com O despertar da Força, a ser lançado nos cinemas em dezembro.
Nesse novo panorama galáctico, vamos descobrir que a guerra ainda não chegou ao fim... e que os traumas deixados por ela ainda serão sentidos por muitos e muitos ciclos. Capitão Wedge Antilles, almirante Ackbar, almirante Sloane, o garoto Temmin e a mãe, Norra Wexley, a caçadora de recompensas Jas Emari, o antigo agente imperial Sinjir: novos personagens e velhos conhecidos dos amantes da saga, que sempre estiveram envolvidos na luta, agora devem escolher o lado a que deverão jurar lealdade. Deverão colocar-se ao lado da Nova República, procurando estabelecer um novo governo democrático na galáxia? Ou juntar-se às fileiras imperiais, na tentativa de voltar ao poder absoluto depois das mortes dos lordes Sith Palpatine e Darth Vader?

Resenha:

Antes mesmo de comprar o livro, li algumas opiniões divergentes sobre Marcas da Guerra. Alguns diziam que era um livro terrível, feito única e exclusivamente para capitalizar em cima do lançamento do novo filme. Outros diziam que era uma ótima leitura, que lhe entregava exatamente aquilo que prometia entregar, e que apesar de não ser o melhor livro do mundo, era uma leitura prazerosa que valia a pena.

Como normalmente ocorre comigo nesses casos, minha opinião sobre o livro acabou recaindo em algum lugar entre uma posição e outra. Porém, provavelmente mais para o lado positivo.

Marcas da Guerra não me pareceu entregar tudo aquilo que se propunha. Algumas coisas ali dentro não foram bem construídas e soaram genéricas. Pareciam ter sidocolocadas ali apenas para explorar o universo e fazer referências aos filmes. Alguns fan-services não foram feitos com tanto bom gosto quanto o novo filme demonstrou ter, e, de modo geral, o livro demora um pouco demais para engrenar.

Na tentativa – correta, na teoria– de apresentar todos os seus personagens no primeiro arco do livro, o autor acaba sofrendo por ter tantos novos personagens principais a apresentar.Desse modo, o início, apesar de bem povoado de cenas emocionantes de ação, se arrasta. As cenas de ação — nem todas perfeitas, mas bem construídas — acabam sofrendo, por que não estamos envolvidos com os personagens.

É apenas mais próximo à metade do livro que conseguimos começar a criar laços mais fortes e a nos importar mais com aquilo que nos é apresentado. E, por tanto, é apenas a partir daí que o livro começa a crescer e cumprir mais com as suas promessas, de entreter e nos gerar interesse. Uma vez engajado, o leitor com certeza se divertirá e encontrará nele uma boa fonte de entretenimento.

O livro brinca com uma estrutura de narrativa complicada. Ele corta muitas cenas, sempre mudando o personagem-foco, em uma tentativa de deixar o ritmo acelerado, de forma similar ao novo filme. O problema é que, na mídia literária, isso acaba sendo um desafio maior do que na tela de cinema. E, com tantos personagens a serem a apresentados, isso se prova um desafio ainda maior. Por tanto, enquanto ainda não estamos engajados, esse ritmo acelerado mais atrapalha do que ajuda a narrativa. Apenas quando já estamos bem situados, esse ritmo começa a dar frutos.

Um dos melhores pontos do livro são os interlúdios. Apesar de numerosos e desconexos da história principal, é através deles que conseguimos ter uma noção maior do estado em que a galáxia se encontra, nesse período tão caótico, de troca de governo e últimos estágios da guerra. Vemos paisagens familiares e novas, conhecendo pequenos contos que nos servem de quadros para os diferentes pontos da galáxia, e como cada um deles está lidando com o período após os feitos da batalha de Endor. É aqui onde o livro mais brilha, ao cumprir a promessa de nos dar um bom entendimento sobre a queda do império e a ascensão da Nova República. Acredito que, se isso continuar durante toda a trilogia, os livros serão um material sem igual para retratar a mudança política na galáxia e, quem sabe, a criação da Primeira Ordem e da Resistência.

É, por sinal, em um desses interlúdios que o livro cumpre sua promessa de nos mostrar um dos personagens favoritos dos fãs. E, incrivelmente, esse foi um dos interlúdios que menos gostei.Ele me pareceu ter sido escrito única e exclusivamente para colocar esse personagem no livro, e poder dizer para o público que existe ali uma participação de alguém que eles gostam. Se você comprar o livro para ver um dos personagens mais queridos dos filmes, saiba que apenas o verá em algumas poucas páginas, e que elas não serão assim tão importantes para a história em geral, pelo menos por enquanto.

Apesar disso, o livro apresenta personagens interessantes e bem construídos, que fazem valer o esforço da leitura e o esforço de conhecê-los. Existem alguns momentos bastante animados e que me fizeram prender a respiração, e, no fim, me peguei roendo as unhas e torcendo para mais de um personagem, de ambos os lados da luta. Uma leitura de que não me arrependo e que me dá razões suficientes para indicá-la para qualquer fã da saga, principalmente um que se interesse pela construção de mundo e pelos por menores da história maior.


Eu aprovo, e com certeza porei as minhas mãos nos próximos volumes da trilogia.


Acho é isso. Espero que tenham curtido e até a próxima!

Criação de Enredos Originais e Criativos


Nick: PedroDiAngelo


Introdução

            
“Enredo: sucessão de acontecimentos que constituem a ação, em uma produção literária (história, novela, conto etc.); entrecho, trama.”

Em outras palavras: o enredo é a alma de toda história. Seja naquele clichê adolescente, naquele conto repugnante (e lindo) de Edgar Alan Poe ou naquela história que alguém nos contou quando éramos crianças; em todos esses exemplos há a presença de um enredo (na maioria das vezes até mais de um).

É virtualmente impossível que alguém pense em uma ideia que já não tenha sido pensada. Logo, é impossível escrever algo que, em sua essência, já não tenha sido escrito. Se cai, então, em uma conhecida frase entre roteiristas: “Me dê o mesmo... só que diferente”.

A principal questão não é “pensar em algo novo”, mas “remodelar algo que já foi pensado”. Mesclar enredos, gêneros, personalidades, eventos que, normalmente, não são misturados. Normalmente o primeiro passo para isso é pensar em algo.

Pensando em uma ideia

              
A maioria das histórias começa com aquela ideia despretensiosa (ou genial) que vem em qualquer hora (muito comum vir debaixo do chuveiro, inclusive). Depois de chegar e conquistar nosso lado escritor, ela começa a se desenvolver, ganhar forma e, depois de algum trabalho, se torna um texto. Como garantir, entretanto, que tudo isso aconteça de uma forma que propicie a criação de uma história memorável, original, criativa e [anexe aqui um adjetivo de sua preferência]?

O primeiro passo é ter a ideia. Não são todos que tem uma mente criativa, nem há quem mantenha uma mente criativa ativa o tempo todo. Para a nossa sorte, uma pesquisa já comprovou que a criatividade se adquire com a prática, então, naturalmente, há truques que vão te ajudar a ter uma ideia supimpa.

O primeiro desses passos é se perguntar frequentemente “O que aconteceria se...”. Vale para tudo. Exemplos: “o que aconteceria se o céu fosse vermelho? O que aconteceria se eu ganhasse um milhão de reais? O que aconteceria se meu irmão mais novo fosse um alienígena? O que aconteceria se eu, nesse momento, caísse em um universo paralelo? O que aconteceria se eu tivesse uma capivara de estimação? ”. Não há nenhum tema tão ordinário que não possa render uma boa história, então comece a olhar de um jeito diferente para as coisas.

Outro método bastante funcional é mesclar gêneros que, normalmente, não se misturam. É assim que se escapa de clichês. Basta lembrar que Star Wars não deixa de ser um faroeste no espaço, então nada te impede de ter, por exemplo, uma guerra civil em uma cidade subaquática.


Desenvolvendo a ideia


A regra é bem clara para a maioria esmagadora dos casos: sem planejamento, a história está fadada ao fracasso. Há exceções (e um monte delas), mas hoje em dia é praticamente impossível encontrar alguma boa história feita ao acaso, com o escritor utilizando apenas a experiência como leitor para guiá-lo pelos atos, capítulos, plot twists e afins da narrativa.

Montar o enredo é o passo fundamental para que haja sucesso na construção de uma história bem-feita. É nesse contexto, também, que são definidos os rumos criativos de toda a narrativa. Você pode escolher entre inúmeras alternativas de criação ou simplesmente não escolher e escrever a torto e a direito [a decisão é sua, afinal]. O método que trago é um dos mais utilizados no meio editorial, ainda sem tradução para o português, por isso vou fazer uma referência e chama-lo de Método Massa Folhada. Oi? Não entendeu a referência? Certo, que tal Método Floco de Neve? Ainda não entendeu? Pode chama-lo de Método Árvore da Praça, então.

O que a massa folhada, o floco de neve e a árvore da praça têm em comum é algo bem simples: foram construídos com base em um sistema de etapas. Um pinheiro, por exemplo, nasce de uma pinha minúscula. Uma massa folhada chega a ter 1000 camadas e o floco de neve é uma estrutura muito delicada e composta de diversos filamentos de gelo. É exatamente assim que você tem que tratar sua ideia: como a semente de uma história.

Enumerei aqui 8 passos para o sucesso em escrever um roteiro digno de best-sellers. Aplique-os onde achar melhor; na sua fanfic despretensiosa ou naquele seu projeto secreto.


1. Defina sua história em uma frase. Simples assim, mas isso vai fazer toda a diferença. É esse o ponto inicial de sua história e a frase vai te servir como guia definitivo. Sobre ela: quanto menor, melhor; use em torno de 15 palavras. Para ter uma ideia de como é, veja exemplos na lista de best-sellers do The New York Times.


Repare nessa definição do livro See Me, do Nicholas Sparks: “Um casal apaixonado ameaçado por segredos do passado”.


2. Separe algum tempo e transforme essa sentença em um parágrafo completo. Esse parágrafo deve resumir a história, conter os desastres principais (em média 2 ou 3) e o final. Faça cada um desses conteúdos ficar em um período independente. 

É preferível que você faça algo como: “Robert e Dana se encontram anos depois da faculdade, Dana era apaixonada por um Robert que deixou de existir [definição da história]. Dana descobre que Robert é procurado por assassinatos em todo o país [primeiro desastre]. Robert perde o controle emocional e se torna um risco para a vida de Dana [segundo desastre]. Robert é morto por Dana [fim]”.

Se você estiver planejando organizar seu texto por atos, o primeiro desastre é o fim do ato I, o segundo é o ponto médio do ato II (se não houver terceiro desastre, o segundo passa a ser o fim do ato II) e o terceiro é o fim do ato II.



3. Crie uma ficha preliminar para seus personagens. Após ter um parágrafo resumindo a parte fundamental de sua história, é hora de cuidar dos personagens. Personagens incomuns criam histórias incomuns, então, se estiver querendo fugir dos clichês, crie personagens com características que fogem ao senso comum, com personalidades extravagantes ou peculiares. 


Essa primeira ficha deve conter: O nome do personagem, o resumo de sua vida em um período (parecido com a definição da história), a motivação do personagem (importante), o objetivo do personagem (importante), o conflito interno do personagem (importante também) e um parágrafo que conte sua história. Não se empolgue na criação do personagem (não ainda).



4. Expanda cara período (do passo 2) para um parágrafo completo. Volte naquele parágrafo e o torne maior. Talvez você sinta vontade de retornar aos passos anteriores e modificar um ou outro detalhe da história, se assim for: o faça. 


É nesse período que sua história vai, realmente, ganhar vida. Dê mais detalhes às frases que você escreveu no passo 2, enriqueça os desastres e diga como a história termina. É hora de libertar a criatividade.



5. Escreva uma página de detalhes sobre os personagens principais. Complemente a ficha que você já havia montado; torne-a mais completa. Para personagens importantes, mas secundários: apenas meia página basta.


Crie uma história para seu personagem, narrando um pouco da vida dele até o início da narrativa. Não se esqueça da motivação e dos objetivos do personagem: é isso que vai manter os leitores grudados na história!


6. Expanda novamente a sinopse do enredo (os parágrafos que foram montados no passo 4). Transforme cada parágrafo que você escreveu em uma página. Responda questões básicas (como, quando, onde e por quê), enriqueça com mais detalhes, adicione novos acontecimentos... É uma parte bastante divertida, pois você vai acabar conhecendo mais sobre a história, sobre seus personagens e vai se envolver no enredo.

É provável que você queira voltar aos passos anteriores e fazer correções.


7. Expanda sua ficha de personagem intermediária para uma ficha completa. Nessa etapa tem que constar tudo o que deveria se saber sobre os personagens: onde nasceram, sotaque que possuem, visão religiosa, aparência, caráter, personalidade...

É de extrema importância que você defina como seu personagem vai estar quando a história acabar, pois eles vão (ou pelo menos devem) sofrer mudanças. Eles se tornaram mais caridosos? Menos humildes? Mais receosos? É hora de especificar tudo isso.


8. Com as fichas dos personagens e o enredo feito, crie uma planilha de cenas. Sim, uma planilha. Sério, posso sentir seu ar de “sério? Planilha?” daqui! Uma planilha é o meio mais confiável de se montar um catálogo de cenas, já que você pode ver a progressão da história e mudar cenas de lugar, se for o caso.


Escrevendo (finalmente)



Então chegou a última parte de sua tão esperada história! É hora de colocar a mão na massa e escrever. Talvez esse seja o processo mais longo de todos, mas não desanime.


“Então, eu já fiz tudo o que podia para que o enredo fique original e criativo?”


A resposta é: não. É justamente nessa hora (nem tanto nessa hora, essa dica vale para as outras fases do planejamento) que você pode tornar sua história única, mesmo se for um eterno clichê.

Aristóteles, certa vez, disse: “Toda história deverá ter início, meio e fim”. Não deixa de ser uma afirmação óbvia que eu, você, sua vó, minha vó, ..., sabem, mas há um detalhe: essas partes não devem, necessariamente, estar nessa ordem.

Quantas histórias possuem aquele clichê badboy x mocinha? E, dessas, quantas são contadas do fim para o início? 

Retomando aquilo que disse lá no começo: não há mais história genuinamente original. Sua ideia, por mais mirabolante que seja, já foi pensada antes. O que vai fazer a diferença na sua narrativa é o fato de ter ou não algum diferencial, seja na narrativa ou nos personagens. 

Só para deixar bem claro: a chave para uma história realmente original é reinventar; procure, em cada um dos passos descritos acima, mesclar enredos, perguntar-se “E se...”, anexar características incomuns aos personagens (que tal uma garota nerd lutadora de karatê?) e usar ordens de narração incomuns (seria possível começar a história pelo meio e terminar com o início?). Regra geral: não se imponha limites, nem regras.



Referências:

Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [2/3]


Por: Elyon Somniare

Ohayo!
Na primeira parte desta sequência de artigos não passamos da introdução, mas julgo não estar errada em dizer que valeu a pena, que muito houve naquela introdução que se aproveitasse (razão pela qual sugiro que, se ainda não a leram, o façam antes de começar este). Mas desta vez estou particularmente empenhada em começar com as estruturas em si, e vou lançar o wild guess que vocês também têm algum interesse nisso, então, adiante, e para a frente com as estruturas mais comuns a determinados tipos de enredo!

1) Demanda.
Este tipo de enredo caracteriza-se por colocar o protagonista em busca de algo, físico ou não, que é tudo para ele. Ao contrário do que acontece nos filmes do Indiana Jones, por exemplo, este objecto de busca é, em si próprio, a razão do enredo, ao invés de ser uma desculpa para a acção. Ademais, tem ainda um grande papel sobre a personagem, influenciando-a e mudando-a, usualmente em consequência do conhecimento ganho. O comum neste tipo de enredo é a personagem começar e acabar em casa, enquanto pelo meio está sempre em movimento.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: Estabelece a personagem no seu ponto de partida, bem como a “casa”, mas também qual o motivo da demanda do protagonista, demonstrando a força que o leva a mover-se, seja por necessidade, seja por desejo. Coloca a pergunta que será respondida no acto 3.
Acto 2: É a viagem, onde os obstáculos e peripécias se encontram, e o que torna a história interessante.
Acto 3: É onde se encontra a resposta da pergunta colocada no acto 1. É aqui que se dá a revelação, quando a personagem obtém - ou vê recusado - aquilo que deseja.
Quais as dicas a ter em conta neste tipo de enredo?
⚈ Não esquecer que, desde o seu início até ao fim, a demanda implica uma mudança na personagem. Por essa mesma razão, o foco encontra-se no conhecimento;
⚈ Deverá haver um incidente inicial, e não começar a demanda só “porque lhe apeteceu”. Enquanto leitora posso afirmar: é de revirar os olhos quando o autor faz isso;
⚈ Um companheiro de viagem evita que a dita se torne demasiado interior;
⚈ O que a personagem encontra é muitas vezes diferente daquilo que originariamente procurava.

2) Aventura
Assemelha-se em muito à Demanda, estando a diferença no facto de o foco ser mais na acção que na personagem (mente vs corpo). Os eventos tornam-se importantes pela causa-consequência e um bom exemplo deste tipo de enredo são os contos-de-fadas tradicionais.
Ao contrário da Demanda, a personagem não muda necessariamente, e o que usualmente procura é a fortuna que raramente encontra em casa. Mas também esta partida pelo mundo é incentivada por algo ou por alguém.

3) Perseguição
Podemos dizer que é a versão literária do jogo das escondidas. A sua estrutura básica é bem simples, podendo ser resumida em: estabelecer o herói e o vilão, bem como o porquê de um estar atrás do outro. Um bom exemplo deste tipo de enredo são as personagens Coiote e Bipbip dos Looney Toons.

4) Resgate
A denominação já é um pouco auto-explicativa, e o que logo se salienta é a trindade de personagens Vilão - Herói - Vítima.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: A separação (entre o herói e a vítima) apresenta-se como incidente de motivação, ou seja, o que vai levar o herói a querer resgatar a vítima. Consequentemente, estabelece as identidades do herói e da vítima, bem como a sua relação.
Acto 2: O resgate em si: os obstáculos e o ultrapassar dos ditos. É um acto definido primariamente pelas acções do antagonista.
Acto 3: O confronto entre o antagonista e o protagonista, ou seja, no caso, o vilão e o herói. E, espera-se, a libertação da vítima.

5) Fuga
Refere-se a uma fuga física e não mental. Em que difere do Resgate? Um único e fulcral detalhe: a vítima liberta-se a ela mesma.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O protagonista é preso, seja por um crime real ou imaginário (por ex.: alguém armou para o protagonista).
Acto 2: Foca na prisão e nos planos de fuga. Naturalmente, as falhas nos planos de fuga são aqui exploradas, dando-se os plot twists que conferem interesse à história.
Acto 3: Dá-se a fuga em si. Podem surgir complicações, mas é neste momento que o protagonista finalmente tem vantagem sobre o antagonista, seja a instituição que o prende, seja quem tramou para o prender (caso seja essa a situação).

6) Vingança
Em enredos de Vingança o foco encontra-se na retaliação do protagonista ao antagonista por uma ofensa real ou imaginária. Um bom exemplo deste tipo de enredo é a peça Hamlet, de Shakespeare.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: É quando se dá o crime, sendo que o herói nada pôde fazer. Algumas histórias começam já depois do crime, no entanto, optar por descrevê-lo é um modo de criar empatia entre leitor e protagonista.
Acto 2: A vingança (mwahahaha). O herói faz os seus planos de vingança/acção. Usualmente há uma terceira parte que tenta impedir estes planos, podendo ou não acabar por ajudar o herói.
Acto 3: O confronto. Se a vingança for referente a uma só pessoa, é neste momento que ela se desenrola. Se a vingança for dirigida a um grupo de indivíduos, então tem-se vindo a desenrolar desde o acto 2, sendo que aqui encontra o “big boss”. Atenção que o facto de ser uma vingança não implica que seja violenta.
Quais as dicas a ter em conta neste tipo de enredo?
⚈ Estabelecer primeiro a vida normal do protagonista, aquela que ele levava antes de se dar a ofensa que desencadeia os acontecimentos do enredo;
⚈ É aconselhável que o protagonista tente primeiro resolver a ofensa com os meios tradicionais (ex: indo à Polícia). Naturalmente, na generalidade dos casos isso falha;
⚈ Deverá haver um equilíbrio entre a ofensa e a vingança. De outro modo, o protagonista corre o risco de “perder a razão” aos olhos do leitor e, por consequência, a empatia, podendo vir a ser encarado como o vilão e não como herói;
⚈ A vingança tem um forte poder emocional, podendo ser encarada como o grande preço a pagar (visão geralmente encontrada nas peças gregas) ou como trazendo alívio e justiça às personagens.

7) Mistério
É o tipo de enredo que usualmente se encontra nos livros policiais e, tcharãn, de mistério. (Alguém falou em Agatha Christie?). Usualmente vai dando pistas ao leitor sobre o que ele precisa de saber, mas não serão óbvias.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O crime, a vítima e quem vai resolver o crime são apresentados. O panorama geral também é estabelecido e as questões são colocadas. (“Sempre eu, caramba, por que não o Carlos da Contabilidade?” como questão a ser colocada pela vítima seria hilariante, mas como usualmente ela já está morta, não aconselho.)
Acto 2: O leitor acompanha a resolução do mistério. É o momento ideal para dar pistas, mas disfarçando-as na narração e no ambiente. O equilíbrio ideal é entre algo que o leitor se lembre depois, mas que no momento em que a leia não pense “Ahá! Uma pista!”, ou seja: a aplicação prática do conceito de foreshadowing. Agatha Christie, uma das mestras deste género de enredo, também costuma colocar personagens com segredos secundários, nem sempre relacionados com o crime, de forma a despistar.
Acto 3: O mistério é resolvido. As razões do antagonista são explicas, e o leitor é colocado a par da verdadeira sequência de eventos.
Pode, no entanto, não haver uma resposta clara ao mistério: tudo depende do tipo de audiência que se visa, e do que se pretende transmitir. Kafka, por exemplo, termina muitas das suas obras sem clareza, visto que pretende transmitir a ideia de que a vida não tem respostas certas e óbvias. (Pessoalmente, considero estes finais muito frustrantes, ahah.)

8) Rivalidade
Rival não é necessariamente alguém que deseja mal ao outro, mas sim alguém que compete pelo mesmo objecto ou objectivo que o outro. Cada um tem a sua motivação e tipos diferentes de falhas. A força, no entanto, será similar, ainda que não igual: o ponto essencial é que as respectivas forças os colocam com as mesmas possibilidades. Um exemplo muito explorado disto é o afamado triângulo amoroso.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: O “terreno comum” é estabelecido e dá-se início ao conflito. Um ganha terreno sobre o outro e a competição começa. Usualmente, o protagonista sofre um acto do antagonista e começa em desvantagem.
Acto 2: É o momento de pôr a funcionar os eventos que invertem a má sorte/posição do protagonista, colocando-o novamente ao nível do antagonista. É lançado um desafio ao antagonista, invertendo-se a situação do Acto 1. Frequentemente o antagonista está consciente disto, o que aumenta a tensão.
Acto 3: Que outra coisa se não o confronto? O resultado (quem vence) depende da escolha do autor, no entanto, como bem sabemos, a preferência costuma ir para o protagonista.

9) Underdog/Oprimido
De certa forma pode ser considerado como um ramo da Rivalidade. A diferença é que o protagonista tem capacidades, ou encontra-se numa situação, abaixo do antagonista. Deste modo, existe uma maior identificação com o leitor, pois ele é “um de nós”: todos sentimos opressão em relação a algo que achamos que não conseguimos vencer. O underdog partilha isso connosco, com a diferença de que consegue vencer (ora a ver se isso não dá ao leitor um boost de esperança e optimismo! Por isso toda a gente gosta de underdogs). A estrutura é similar à da Rivalidade, mas a ênfase encontra-se no desejo realmente forte do underdog em ter sucesso: como consequência, é aconselhável que o autor desenvolva bem os seus motivos.
No entanto, é preciso ressalvar que não convém colocar obstáculos totalmente irrealistas. O sucesso tem de ser algo que já era possível, ainda que minimamente. A palavra-chave será verosimilhança. 

10) Tentação.
Saquem das vossas maçãs, serpentes, chegou o enredo que foca na fragilidade na natureza humana! Como tal, centra-se mais na personagem que na acção, analisando motivos, necessidades e impulsos. O conflito dá-se no interior da personagem, sendo que se reflecte no exterior. Dica: não esquecer que cada tentação tem um preço.
Como se pode estruturar este enredo em três actos?
Acto 1: É estabelecida a natureza do protagonista e, se houver, a do antagonista. É também determinada a natureza da tentação, o seu efeito sobre o protagonista, e como ele lhe reage. O protagonista pode lutar contra a tentação, mas eventualmente acaba por lhe ceder. Segue-se frequentemente um período de negação, em que o protagonista tenta racionalizar uma desculpa ou justificação.
Acto 2: Reflecte os efeitos de ceder à tentação. O protagonista pode ter tido benefícios a curto prazo, mas o preço começa a surgir, e o lado negativo emerge. Este é o momento em que os efeitos negativos dominam e se intensificam.
Acto 3: Depois da tempestade… Vem a bonança! O conflito interior do protagonista resolve-se, e temos a expiação, a reconciliação e o perdão. 

E aqui, juventude, fazemos uma pausa, porque este artigo já vai longo, vocês já devem estar a rilhar os dentes, e já chegamos a metade das estruturas que serão abordadas. E toda a gente sabe que se é para dividir alguma coisa, que seja pela metade (vide, Rei Salomão).
Vejo-vos na terceira (e última parte)!



REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master Plots and How to Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999

O Arco do Personagem


Por: Beatriz Goés

Também conhecido como Arco da Transformação, é um elemento implícito da história, definido por letristas e estudiosos da literatura ao longo de anos. Trata-se da trajetória do protagonista ao longo do enredo. É um fato importante a ser estudado, especialmente para escritores iniciantes, pois é como um "esqueleto" da história, que contém elementos "necessários" para fazer a história "dar certo". Há aspas porque, como sempre, para toda regra há exceções; ainda assim, o Arco do Personagem é um conhecimento extremamente válido para qualquer escritor.
Mas o que é, então, esse tal arco? É o processo de transformação do protagonista dentro de uma história e, muitas vezes, o que nos faz criar tanto carisma por um personagem. A possibilidade da mudança, da redenção, da esperança é, contantemente, o que nos faz gostar tanto de uma história.



E junto ao Arco do Personagem, automaticamente a "Estrutura dos Três Atos" entra na conversa, pois ambos tratam da evolução da história de forma ordenada. Vou usar um exemplo para facilitar o entendimento: o filme Frozen (2013). Eu o escolhi porque, além de ser uma história de fácil compreensão, acredito que a maioria de vocês tenha visto. Como o gráfico mostra, ocorre a divisão em três atos.
Observação: perdoem as traduções grotescas, mas não encontrei produções oficiais em português sobre o tema, então traduzi ao pé da letra.

Primeiro Ato

- Temos, a princípio, o Incidente Inicial (Inciting Incident), a situação que dará origem à situação maior da história. Ou seja, temos Elsa, ainda criança, atirando, sem querer, gelo em sua irmã, Anna, a qual fica gravemente machucada e, por temer causar maiores prejuízos a ela, Elsa decide esconder seus poderes e omitir-se de todos.
- A partir daí tiramos a "Call to Action" ou "Tag Question" ou Motivo da Narrativa: Elsa vai conseguir descongelar seu coração? Isso é o que nos mantém presos à narrativa, que gera ansiedade e nos faz torcer pela personagem. É a pergunta que vai gerar a transformação da personagem.
- A personagem, então, passa por uma circunstância considerada o Primeiro Ponto de Virada (1st Turning Point), o acontecimento que vai mudar terminantemente a sua vida: revelar os seus poderes e fugir de Arendelle. Esse momento condiz também com uma falsa libertação da personagem, o Despertar (Awakening), representado por meio da música Let It Go.
O primeiro ato, então, é repleto de acontecimentos que procuram despertar a curiosidade e a simpatia do leitor ou do público perante o protagonista, um dos atos mais difíceis de serem executados.

Segundo Ato

- Como mencionado nos parágrafos anteriores, o protagonista se depara com uma falsa paz, que representa a Metade do Caminho (Midpoint), uma parte de tranquilidade momentânea. Esse instante é compreendido como os momentos logo após Let It Go, e vai até quando Anna chega ao castelo de Elsa.
- A partir de então, inicia-se a Queda (Fall) da personagem. E, por queda, não se trata de uma queda física. Na história em questão podemos compreender como uma queda emocional, pois Elsa passa de uma confiança absurda em si mesma, apresentada em Let It Go, para um temor intenso após machucar sua irmã mais uma vez.
- O último momento do segundo ato é a Experiência de Morte (Death Experience). Logicamente, é mais um termo que deve ser compreendido na forma conotativa. Não há uma "experiência de morte", digamos que aqui é um momento em que a personagem aproxima-se de um colapso, seja emocional ou físico. É quando começam a surgir mais empecilhos na sua vida e ela não consegue solucionar nenhum. Elsa, além de machucar sua irmã mais uma vez (remetendo ao evento causador de todo o transtorno de sua via), é atacada pelo seu próprio povo, e por Hans, em seu castelo.

Terceiro Ato

- No Segundo Ponto de Virada, a protagonista tenta algo que nunca tentara antes, algo completamente oposto ao seu verdadeiro caráter; no caso da nossa personagem, ela usa seus poderes para agredir intencionalmente os seus súditos. Tanto que até temos a frase de Hans "Elsa, não seja o monstro que pensam que você é."
- Um constante Declínio (Descent) da protagonista é percebido: Elsa é presa e, finalmente, vê o desastre que fez no seu próprio reino. Há um acumular de todas as mágoas e tristezas ocorridas na trama até então, e podemos sentir a angústia de Elsa.
- O Clímax vem logo depois, com a notícia da suposta morte da sua irmã. Nesse instante, a nossa protagonista simplesmente não pode mais fugir: destruiu seu próprio reino, prejudicou os cidadãos de Arendelle e causou a morte de sua irmã. Elsa arrepende-se profundamente de ter sentido medo e escondido seus poderes por tanto tempo.
- Quando percebe que a sua irmã está viva, Elsa vê uma chance de recomeçar e de finalmente acertar como rainha. A tão aguardada Transformação da personagem ocorre quando ela decide abrir seu coração para o "calor" do amor. Seu coração, então, derrete, igual ao reino uma vez congelado.

Então, podemos dizer que a pergunta feita no início da narrativa foi respondida? Sim, Elsa conseguiu descongelar seu coração. E a transformação da personagem, ocorreu? Sim, a protagonista deixou de possuir um caráter extremamente reservado e autoprotetor para se tornar mais afável e generosa.
Percebemos, durante o Arco do Personagem, uma ideia implícita de 180°: o protagonista nunca terminará a história do mesmo jeito que a inicia.
Bea, isso quer dizer que eu tenho que seguir estritamente o Arco do Personagem e a Estrutura de Três Atos? Claro que não. Ambas as teses foram tendências percebidas em inúmeras histórias ao longo de toda a ficção humana, uma "fórmula" que funciona. Mas para toda regra há exceção.
Na minha opinião, uma história não faz muito sentido sem transformação de pelo menos um dos personagens. De que adianta toda uma trama se a sua experiência não alterou ou afetou o personagem? Se, em Titanic, Rose e Jack, na famosa cena no mar, não fizessem as declarações do quanto um mudara a vida do outro, certamente não nos sentiríamos tão emocionados assim. Histórias são criadas a fim de nos emocionar, nos dar esperança ou um choque de realidade.



Para os que ficaram interessados nesse modelo, recomendo, a cada filme assistido ou história lida, perguntar-se "Qual foi a pergunta feita no início da narrativa que me deixou preso a ela?" e "Será que houve a transformação de algum personagem?". Parece bobagem, mas esse exercício o faz perceber que o Arco do Personagem pode ser identificado em qualquer história.



Fontes:
Anotações próprias durante aulas de roteiro e escrita criativa.
KIM THOMPSON. Writing Club: Character Arc and Motivation http://kimthompsonauthor.com/writing-club-character-arc-and-motivation/