Por: Sahky Uchiha

Olá pessoas! Hoje vou falar um pouco sobre Gêneros Literários, que têm uma grande importância para nós ‒ autores e leitores ‒ pelo motivo de conhecermos melhor a história que estamos criando. Sabendo em que gênero ela se encaixa, entenderemos suas características predominantes e isso nos dará o poder de explorar ao máximo na hora de escrever. Lembrem-se, quanto mais temos conhecimento teórico sobre algo, melhor será o desenvolvimento quando se puser em prática.

Voltando um pouco no tempo, é interessante ressaltar que a literatura começou a existir no Brasil através da colonização europeia pelos portugueses. Até então, a literatura portuguesa, formada e influenciada pela literatura greco-romana, seguia a tradição da divisão padronizada dos gêneros literários, a qual se fundamentou nos dias de hoje por meio do filósofo Aristóteles. Esta separação facilita a identificação das características temáticas e estruturais das obras, sejam elas em prosa ou em verso. 

De acordo com a concepção clássica (Arte Poética, de Aristóteles), os gêneros se dividem em três categorias básicas: o lírico, o dramático e o épico. Atualmente, também se organizam os textos literários em três gêneros: lírico, dramático e narrativo.

Gênero Lírico: É a manifestação literária em que predominam os aspectos subjetivos do autor. É, em geral, a maneira de o autor falar consigo mesmo ou com um interlocutor particular (amante, amigo, fantasia, elemento da natureza, Deus...). Seu nome vem de lira, instrumento musical que acompanhava os cantos dos gregos.

Caracteriza-se por um texto de caráter emocional, centrado na subjetividade dos sentimentos da alma e predominância das palavras e pontuações de 1ª pessoa. Além disso, ela ainda conta com a participação do “eu-lírico”, ou seja, a própria voz que fala no poema, expressa pelas emoções e pelo sentimentalismo, no qual o eu-poético não mantém nenhuma ligação com o artista (o poeta).

Assim podemos encontrar:

Autor masculino → eu-lírico masculino
Autor masculino → eu-lírico feminino
Autor feminino → eu-lírico feminino
Autor feminino → eu-lírico masculino

Exemplo:

Garganta, de Ana Carolina

Sei que não sou santa
Às vezes vou na cara dura
Às vezes ajo com candura
Pra te conquistar
Mas não sou beata
Me criei na rua
E não mudo minha postura
Só pra te agradar

Nesse caso temos um autor feminino com o eu-lírico feminino, demonstrado principalmente nas palavras “santa” e “beata”.

O gênero lírico se divide em:

Poesia: Expressão artística com foco na estética da palavra;
Ode: Texto entusiástico e melódico (geralmente música);
Sátira: Ridiculariza uma pessoa ou situação;
Hino: Exalta ou glorifica um tema (país ou religião);
Soneto: Poesia com 14 versos, dois quartetos e dois tercetos;
Haicai: Poesia japonesa sem rima, constituída normalmente por três versos.

Gênero Dramático: Tem origem na Grécia Antiga, provavelmente em eventos em homenagem a Dionísio, deus do vinho. São textos escritos para serem encenados em uma peça teatral. Atualmente é difícil diferenciar um texto dramático dos outros gêneros, devido à tendência que se observa de transformar qualquer tipo de texto em um roteiro. Como exemplo de textos de gênero dramático, temos os de William Shakespeare, que escreveu várias peças e que se transformaram em clássicos do teatro universal, como Romeu e Julieta.

Exemplo:

Ato II - Cena II

[...] Julieta aparece na janela [...]
[...] Julieta: Ai de mim!
Romeu: Oh! Falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas, poderia ser para os olhos brancos dos mortais atônitos (espantados, pasmados, estupefatos), que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.
Julieta: Romeu! Romeu! Por que és tu, Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome, ou então, se não quiseres, diga ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
Romeu (à parte): Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?
Julieta: Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és se Montecchio tu não fosses. Que és Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos de rosa sob uma outra designação teria igual perfume. Assim, Romeu, se não tivesses o nome de Romeu, conservaria a tão preciosa perfeição que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo, fica comigo inteira.[...]
(Romeu e Julieta, de William Shakespeare)

São várias as espécies que representavam o gênero dramático, entre elas destacam-se:

Tragédia: É a representação de um fato trágico, apto a suscitar compaixão e terror. 
Comédia: É a representação de um fato inspirado na vida e no sentimento comum, de riso fácil, em geral criticando os costumes.
Tragicomédia: É a mistura do trágico com o cômico. Originalmente, significa a mistura do real com o imaginário.
Farsa: Pequena peça teatral, de caráter ridículo e caricatural, criticando a sociedade e seus costumes; baseia-se no lema latino Ridendo castigat mores (“Rindo, corrigem-se os costumes.”).

Gênero Narrativo: É o relato de um enredo, que pode ser baseado em fatos ou ficcional. Nesse gênero os fatos ocorrem em sequência. Sua principal característica estrutural é que conta com um inicio, um clímax e um desfecho. Como exemplo desse gênero, temos:

O Coveiro
Millôr Fernandes

Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não se ouviu um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima, perguntou o que havia: O que é que há?
O coveiro então gritou, desesperado: Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível! Mas, coitado! - condoeu-se o bêbado. - Tem toda razão de estar com frio. Alguém tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho! E, pegando a pá, encheu-a e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.

Entre a divisão do gênero narrativo, estão:

Romance: Forma literária do gênero narrativo que apresenta uma história completa, com temporalidade, ambientação e personagens claramente definidos. Surgiu na Idade Média, tendo em Dom Quixote, de Cervantes, sua principal representação.
Fábula: Texto de caráter fantástico que não guarda nenhum compromisso com a realidade, e funde dois elementos principais: o lúdico e o pedagógico. Os personagens costumam ser animais ou objetos, para transmitir alguma lição de moral através da narrativa. Ex.: Fabulas de Fontaine, algumas adaptadas por Monteiro Lobato.
Epopeia: Narrativa feita em versos, em um poema extenso, que ressalta os feitos significativos de um herói ou de um povo. Ex.: Os Lusíadas, de Camões; Ilíada e Odisseia, de Homero.
Novela: Texto narrativo com extensão menor que o romance, porém mais longo que o conto, e a brevidade do conto. (Os folhetins de televisão, a rigor, deveriam ser chamados de romance televisivo, mas por influência espanhola, ficaram conhecidos como telenovelas). Ex.: Um exército de um homem só, de Moacyr Scliar.
Conto: Texto de ficção narrado em 3ª pessoa, caracterizado pela densidade e a concisão. Cria situações e personagens fantasiosos. Autores que se destacam nesse gênero são: Machado de Assis e Clarice Lispector.
Crônica: Esse termo deriva do grego “Chronos”, que significa tempo. Trata-se de uma narrativa informal, que procura captar um flagrante da vida cotidiana, com linguagem breve e um toque de humor. É considerado um gênero menor, porque oscila entre a literatura e o jornalismo. Um exemplo de cronista brasileiro consagrado é Rubem Alves.
Ensaio: Texto curto, com uma linguagem situada entre a poesia e a didática, sem nenhuma exigência de comprovação externa. É apenas uma exposição de ideias e reflexões a cerca de algum tema. Ex.: Ensaio sobre a tolerância, de John Locke.

Bom, é isso que eu queria passar, espero que tenham gostado.
Até a próxima!

VILARINHO, S. Gêneros Literários. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/literatura/generos-literarios.htm>. Acesso em: 10 abr. 2014.
LIMEIRA, E. A. Gêneros Literários. Disponível em: <http://educacao.globo.com/portugues/assunto/estudo-do-texto/generos-literarios.html>. Acesso em: 10 abr. 2014.
DUARTE, V. M. N. Gênero Lírico. Disponível em: <http://www.portugues.com.br/literatura/generolirico.html>. Acesso em: 10 abr. 2014.
PEREIRA, C. L. Gêneros Literários. Disponível em: <http://pt.slideshare.net/CarolinaLoassoPereira/gneros-literrios-8309081#>. Acesso em: 11 abr. 2014.
Revista Literária, Gêneros Literários. Disponível em: <http://www.revistaliteraria.com.br/generos.htm>. Acesso em: 11 abr. 2014.

Gêneros Literários

Posted by : Ligados Betas
17 abril 2014
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Vamos às resenhas da décima rodada do clube de leitura! A fanfiction sorteada foi “O Primeiro de seus Últimos Dias”, escrita por Hairo Rodrigo.




Olá, jovens!
Ultimamente as resenhas para o Clube de Leitura têm sido escassas, apesar da divulgação que tem sido feita. Assim sendo, o Clube ficará suspenso até o próximo período de férias escolares, esperando que nessa altura haja uma maior animação e disponibilidade para este projeto, cujos principais objetivos são, afinal, a divulgação e a partilha de resenhas/ críticas/ reviews. As histórias daqueles que enviaram as suas resenhas para esta rodada serão as utilizadas no reativamento do Clube. Pedimos desde já desculpas aos participantes pelo tempo de espera, mas não encontramos uma solução que se adequasse melhor.
Boas leituras!
Elyon Somniare, Coordenação de Comunicação.

Clube de leitura: 10ª rodada

Posted by : Ligados Betas
14 abril 2014
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Por Ironborn (Liga dos Betas)
O Grande Irmão está observando você.” — George Orwell, 1984

Você já deve ter escutado sobre utopia, seja em músicas ou livros. Ora, a utopia pode ser creditada como o objetivo de muitas pessoas; isso porque a palavra designa a existência de um sistema perfeito, onde a felicidade está nas mãos de todos os cidadãos e não existe qualquer tipo de problema político, econômico e social. Porém, o gênero que destaca-se é o “inimigo” da utopia: a distopia.
Então vamos começar com a definição: Um universo imaginário e/ou futurístico que o controle opressivo sobre a sociedade e a ilusão de sua perfeição são mantidos através de um controle corporativo, burocrático, tecnológico, moral ou totalitário. Distopias, apesar de serem um cenário pessimista exagerado, criticam uma tendência atual, norma social ou sistema político.
Ou seja, as distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo e pelo opressivo controle da sociedade (essas características não precisam, necessariamente, coexistir na história). Nelas, "caem as cortinas" e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações. Algumas têm cidadãos vivendo desumanizados e constantemente temerosos, sentindo os olhos do governo sobre eles a cada passo e com medo de “pisar fora da linha” por uma mínima fração de segundo, porque podem ser brutalizados pela polícia — ou pior, levados embora pelo serviço secreto. Outras distopias são/estão, na verdade, disfarçadas de utopias, com seus problemas (geralmente sociais) sendo cada vez mais jogados “debaixo do pano” até o momento em que explodem como a lava de um vulcão. Existem aquelas em que apenas uma maioria é brutalmente reprimida — e qualquer coisa pode demarcar uma minoria, como por exemplo, ler livros. A utopia de um homem pode facilmente ser a distopia do outro.
A maioria dos trabalhos de ficção distópica passa-se no futuro, mas isso não é regra. Algumas histórias podem se passar em universos alternativos, mudando fatos que ocorreram no passado. Exemplo simples: um universo em que a Alemanha Nazista foi a grande vencedora da Segunda Guerra Mundial poderia facilmente acontecer em 1980.
Para facilitar a construção da história, a distopia é divida em vários tipos, onde dois ou mais podem — e devem — existir na mesma história.

Distopia Totalitária

Como o próprio nome já diz, refere-se a uma sociedade que é totalmente controlada pelo seu governo, através de ideologias. Os cidadãos são monitorados de perto e qualquer fagulha de revolta é punida severamente. E como podem perceber, essa distopia não acontece só em livros e filmes, fique ligado!

Distopia Cyberpunk

Uma distopia cyberpunk é, geralmente, uma versão exagerada de nossa própria sociedade. Apesar de ser um gênero heterogêneo, a maioria das distopias tem os seguintes temas: a aceleração da evolução tecnológica, o iminente colapso ambiental, a urbanização alcançou novos níveis e os crimes fora de controle. Também é importante ressaltar que o conceito de cyberpunk é a cibernética. Melhorias artificiais no corpo, na mente, no cyber espaço, na internet. Geralmente são histórias violentas.


Distopia Off-World


Visa cobrir todas as distopias localizadas num espaço exterior. Nessas histórias a exploração do homem sobre o universo não se tornou uma aventura feliz como esperado. Colonização de planetas, industrialização pesada, guerras interestrelares entre civilizações distantes são características deste gênero, que tem possibilidades quase ilimitadas.

Distopia Apocalíptica

A humanidade, ou às vezes uma única nação ou um grupo étnico, estão enfrentando um Armageddon, seja ele uma guerra nuclear, queda de meteoritos gigantes, desastres naturais ou um vírus que transformam pessoas em zumbis. O foco principal pode ser político, no entanto, histórias apocalípticas podem expor a psicologia obscura do homem. As vítimas do apocalipse podem ser egoístas, cínicas e oportunistas, mesmo no momento da aniquilação.

Distopia Pós-Apocalíptica

A causa é a guerra nuclear, o colapso ambiental ou epidemias mortais. O efeito é geralmente a anarquia e a sobrevivência do mais apto, e uma regressão ao feudalismo também. As histórias que acontecem na distopia pós-apocalíptica são aventuras de ação simples, com pouca profundidade.

Distopia Alienígena

A Terra foi ocupada ou infiltrada por outra espécie de algum sistema solar distante. Em muitas distopias alienígenas, os ocupantes quase sempre exibem uma grave falta de empatia e tendem a tratar os seres humanos como escravos sem valor e animais primitivos. Um dos pontos fortes da distopia alienígena são as maneiras inteligentes e criativas para falar dos choques culturais. 

Distopia pseudo-utopia

Sua utopia pode ser minha distopia e vice-versa. Criadores de utopias muitas vezes têm uma imagem muito clara do seu paraíso pessoal e não gostam de pessoas que se atrevam a criticar suas paisagens oníricas. Muitas das chamadas utopias são estritamente hierárquicas. A classe dominante é uma elite intelectual com poder absoluto e os dissidentes são ameaçados com desdém, ou até mesmo crueldade. Os inimigos são tratados sem piedade, quase sadicamente. Tecnicamente, a maioria das utopias pertence a essa categoria.

Distopia de Viagem no Tempo

Nestas histórias as trevas estão esperando: guerra nuclear, inteligência artificial, colapso ambiental, pragas etc. Na maioria das histórias de viagem no tempo, os agentes são enviados para o nosso tempo a fim de mudar a história. Como o nome sugere, distopias de viagem no tempo costumam se concentrar mais em como certos eventos podem mudar a história. O objetivo é brincar com o nosso medo do futuro e enfatizar que nós podemos criar o nosso próprio amanhã.

Além disso, todas essas categorias possuem as seguintes características em comum:

1. Conteúdo moral, projetando o modo como os nossos dilemas morais presentes figurariam no futuro.
2. Oferecem crítica social e apresentam as simpatias políticas do autor.
3. Exploram a estupidez coletiva.
4. O poder é mantido por uma elite, mediante a somatização e consequente alívio de certas carências e privações do indivíduo.
5. Discurso pessimista, raram
ente "flertando" com a esperança.
6. Violência banalizada e generalizada.

A dica para criar uma distopia é escolher um problema sociopolítico — ou melhor, vários deles — e levá-los ao extremo. As melhores distopias são aquelas em que uma porção de coisas deu errado, e agora aqui estamos, sobrevivendo com tanta graça quanto é possível.
Você deve decidir sobre o governo dessa sociedade. É uma ditadura fascista? Na maioria das vezes sim, não isso não ocorre sempre. Pode ser que um pequeno grupo de pessoas governe um país com punhos de ferro. Que leis essa sociedade tem? Seus cidadãos são constantemente monitorados? As pessoas são autorizadas a reproduzir normalmente ou bebês crescem em fábricas? A escolha é sua.
Quem é o herói da sua história? Os heróis da ficção distopiana geralmente são aqueles que querem escapar de sua sociedade corrompida e estão sempre sendo seguidos pelas autoridades.
Como esse mundo surgiu? Quem o fundou? Essas são algumas das questões que você terá que responder antes de iniciar sua história.
Boa sorte e divirta-se!

Referências:
Dystopias: Definition and Characteristics 
Acesso em: 01/03/14
Distopia: Características principais
Acesso em: 02/03/14
Dystopia
Acesso em: 04/03/14
So You Want To: Write A Dystopia
Acesso em:04/03/14

Gênero - Distopia

Posted by : Ligados Betas
10 abril 2014
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Por Anne L (Liga dos Betas)

Gêneros Polêmicos – parte II

Atenção: esse post tratará de temas polêmicos, rejeitados pela sociedade como um todo por ofenderem a moral, os bons costumes, algumas religiões e, em alguns casos, até a lei vigente de um país. Se o assunto incomodar você de alguma forma, não leia.

3. MPreg (Male Pregnancy) – Do inglês “gravidez masculina”, este gênero existe quase inteiramente em fics com yaoi. Creio que o nome seja autoexplicativo, são histórias em que os homens engravidam. 
Não existe uma explicação fixa para os homens engravidarem nas fics. Algumas usam personagens hermafroditas, outras, personagens trans que ficaram grávidos de surpresa e existem aquelas, ainda, em que o personagem fica grávido sem explicação aparente. 
A origem do gênero, creio eu, está associada à origem do yaoi propriamente dito. Se já eram feitas histórias em que dois homens representavam uma relação heterossexual em pé de igualdade, por que esses mesmos homens não poderiam dar mais um passo e assumir outra coisa associada somente a mulheres, a gravidez? O motivo é válido, e faz até certo sentido, mas como mencionado no post anterior, muitas fics do gênero se perdem por não explorarem as implicações da gravidez masculina de forma satisfatória. Quer dizer, é um cara carregando um bebê! Por que simplesmente estabelecer isso como um fato, sem acrescentar mais nada?
No mundo real, fora das histórias, há várias especulações e casos — não realmente comprovados — de gravidez masculina em seres humanos. Com as constantes mudanças e melhorias na tecnologia mundial em diversos campos, não só o embrionário, seria besteira dizer que é algo completamente fora da nossa realidade. 
No mundo animal, embora as opiniões dos especialistas tendam a divergir, alguns animais apresentam o que poderia ser chamada de gravidez masculina, como os cavalos-marinhos. Em geral, essa característica se estende a peixes, e os animais incluídos aqui podem ou não ter algum tipo de bolsa para guardar os filhotes em desenvolvimento.


4. Estupro – Eu ia fazer canibalismo primeiro, mas, aproveitando a pesquisa do IPEA e os protestos, vamos lá.
Definição, segundo o dicionário Priberam:

es·tu·pro
(latim stuprum, -i)
Ato de forçar alguém a ter relações sexuais contra a sua vontade, por meio de violência ou ameaça. = VIOLAÇÃO
Confrontar: estrupo.

E, como explícito aí em cima, é “estupro”, não “estrupo”. Se é para falar a respeito, tem que falar e escrever do jeito certo.
Estupro é crime. Eu sei que é óbvio, gente (ou pelo menos deveria ser), mas ser estuprado não é uma coisa boa. O que eu vejo com muita frequência em histórias (e em livros, sim) é esse crime ser retratado como se fosse. Talvez nem necessariamente o estupro em si, mas a relação entre estuprador e vítima. Muita gente gosta de fazer cenas de estupro em que, na verdade, no fundo a vítima “está gostando”. Nem preciso comentar o quão tenebroso é isso aí. Claro que existem casos e casos, pode ser que aconteça de alguém ser estuprado e desenvolver assim mesmo algum sentimento pelo responsável, mas isso não é uma coisa frequente, e não deveria ser tratada como tal. 
Sabe aquele mangá yaoi fofíssimo em que o seme “tara” o uke, que fica chorando e implorando que “ele pare, por favor, pare, eu não quero”, e ele não para? Pois é, estupro. Aquele seme que amarra o uke na cama e aí fica fazendo todo tipo de coisa com o uke contra a vontade dele? Estupro. Sabe aquele cara lindo e maravilhoso que sequestra a protagonista na fic e, com ela presa no depósito, ele acaba sentindo uma atração tensa e obriga a moça a transar com ele? Adivinhem. 
Não importa se o personagem “parece” que está gostando. Não importa que ele fique negando “só para fazer charminho”. Se a pessoa não quer, é estupro. Muitos mangás (eu citei semes e ukes porque isso é muito normal em mangás yaoi, tem toda uma legião de fãs), fics e livros tratam esse crime de forma banal e, me atrevo a dizer, até romântica, quando a realidade não é bem assim. Não faz diferença o cara que estupra a menina ser bonito ou feio; rico ou pobre; apaixonado por ela e cheio de boas intenções. A violência ainda ocorre e, diferentemente do que é narrado e mostrado nas histórias de que eu falei, no fim de tudo a vítima não fica grata pelo que aconteceu, não fica feliz, não se apaixona. Mas um fato é que ela nunca mais é a mesma. 
Pessoalmente, eu considero o estupro pior que a morte. Não é algo que possa ser apagado com facilidade, as sequelas continuam com o tempo e, muitas vezes, a vítima ainda sofre outras consequências depois disso, como uma gravidez nem um pouco desejada ou o escárnio da sociedade. Não é algo a ser tratado de maneira tão leviana.
Vale também ressaltar que esse crime não é válido só quando há uma situação extrema, como um sequestro, um contrato suspeito (sim, me lembrei de 50 tons e, não, não vou falar de BDSM agora). Pode ocorrer um estupro entre namorados, dentro de um casamento. Por mais que duas pessoas se amem e já tenham tido relações sexuais antes, isso não dá a nenhuma das partes o direito de exigir que a outra satisfaça seus desejos mesmo quando não tem vontade, e ameaçá-la e obrigá-la a tal é... Vocês sabem. Já vem da definição, gente, “forçar alguém a ter relações sexuais contra a sua vontade”. Para quem ficou chocado, saiba que, na maioria dos casos (reais), o estuprador é alguém que a vítima conhece. 
No entanto, se você leu até aqui e acha que eu sou contra utilizar o tema em histórias por ser tão grave, está enganado. Como todos os gêneros do post 1 e MPreg, este também é interessante, com aspectos dos mais variados para você explorar. O problema é explorar direito. Se você realmente quer escrever sobre o assunto, a chave é saber como abordá-lo. Veja o estupro como ele é, um crime. Pense em como ficariam o psicológico da vítima e suas ações durante, depois, no que acontece com o mundo ao redor dela e em como eles passam a se relacionar. O mesmo vale para o estuprador.
Em último caso, se o tema da sua fic/livro/coisa é fulano se apaixonando por ciclano mesmo sendo estuprado por ele, não há mal em escrever assim. Só tenha em mente que não é o usual e que você provavelmente vai ter que se esforçar em dobro para mostrar de maneira plausível por que/como o plot chegou a isso. 

Vejo vocês na última parte!


Material Consultado:

"estupro", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/estupro [consultado em 04-04-2014].

Gêneros Polêmicos (02/03)

Posted by : Ligados Betas
07 abril 2014
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Por Blitzkrieg

Aqui serão analisados alguns procedimentos para se criar um universo vasto e original. 

Primeiramente, é preciso determinar qual tipo de universo para se criar. Será um mundo de fantasia medieval, como o da obra “Senhor dos Anéis”? Um mundo de ficção científica (sci-fi), como o de Star Wars? Ou até mesmo os dois, mesclados? 

Seja bastante seletivo neste processo inicial, pois dependendo do mundo, um leque de variadas opções é aberto. Um dos maiores exemplos de um mundo com características de fantasia medieval é o das Crônicas de Gelo e Fogo, do autor George R.R Martin. Focarei neste tipo de universo por enquanto, mas as dicas válidas para este, servirão para os outros, ok? Bom, vamos lá. 

Narração

Partindo destas noções primárias, o que seria preciso para a construção de uma história em um universo abrangente e com elementos de fantasia medieval, por exemplo? Por onde começar? Passa a ser necessário, primeiramente, determinar o modelo de narração, para orientar o leitor pela história. É vantajoso, no princípio, não focar na estrutura dos personagens. Bom, que espécie de autor conduziria melhor uma história de tal natureza? Logicamente, um autor que narrando acontecimentos em um mundo de proporções eloquentes, tivesse domínio sobre os pontos chaves para interligar todos os fatos importantes da história e que ao mesmo tempo revelasse a dimensão do universo que seria criado. Sendo assim, posso citar três modelos de narrativas que podem ser utilizados para concretizar o que foi explicado:

  • Narrador omnisciente.

Este narrador é praticamente Deus. Ele vê tudo, sabe de tudo, pode estar em qualquer lugar e controla o tempo (Relatos em feedback). É um tipo de narrador bastante comum, utilizado pela grande maioria dos autores profissionais. Existem vantagens em adotar a postura desse modelo narrativo, dentre elas a de poder rodar todo o mundo, poder descrever paisagens e tudo que possa estar fora do alcance da visão dos personagens e relatar acontecimentos em períodos simultâneos. Alguns autores podem se sentir desconfortáveis nesta narração, por não poderem explorar totalmente um determinado tipo de personagem que não seja um protagonista, pois seria necessário fornecer espaço para os demais, devido ao alcance omnisciente. Além disso, este tipo de narrativa dificulta o desenvolvimento do suspense e mistério. Em outras palavras, utilizando o ponto de vista, desta vez em primeira pessoa, diferente deste modelo, o autor mantém o mistério do personagem, pois o que o personagem vê o autor vê, tudo que o personagem conhece o leitor conhece. O que não acontece nesse caso. Exemplo: 

[SPOILER]

Via-se balaustradas, a maioria quebrada, nas quais se amarravam animais diante dos prédios. Antigamente houvera passadiços largos, mas agora quase todas as tábuas haviam desaparecido e o mato brotava pelas cavidades onde se encaixavam. Algumas tabuletas dos prédios, embora desbotadas, ainda eram legíveis...   [Stephen King – A Torre Negra. Vol 3] 

  • Narrador com focalização restritiva.

Aqui está o tipo de narrativa que predomina nas obras de George. Quem conhece as crônicas deve saber que seu estilo de narrativa é bastante peculiar, pois ele narra utilizando o ponto de vista de um personagem específico. Sendo assim, uma das vantagens, trata-se justamente de poder analisar de uma maneira mais profunda o psicológico dos personagens, assim como seu passado e sua maneira de enxergar os fatos que acontecem ao seu redor. Dentre as desvantagens, estão a necessidade de criar vários personagens para que vários eventos importantes possam ser descritos. O gerenciamento do destino de cada um, que devido a esse estilo de narrativa pode causar uma baita dor de cabeça, dando a impressão de que os “personagens possuem vida própria”. Além disso, pode ser necessário “matar” alguns deles à medida que a história avança, com o intuito de não sobrecarregar o foco narrativo, com pontos de vistas que não levem a história pra frente. Um exemplo deste tipo de narração:

[SPOILER]

“Dany olhou para a extremidade do longo salão sem teto e ali estava ele, encaminhando-se a passos largos na sua direção. Pelo desequilíbrio no andar, compreendeu de imediato que Viserys encontrara o seu vinho... e algo que se passava por coragem. 

Vestia suas sedas escarlates, enodoadas e manchadas pela viagem. A capa e as luvas eram de veludo negro, desbotado pelo sol. As botas estavam secas e fendidas, os cabelos prateados, baços e emaranhados. Uma espada balançava, presa ao cinto, enfiada numa bainha de couro. Os dothrakis fitavam a espada enquanto ele passava.” [A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin.]

  • Narrador com focalização interventiva.

É o narrador que possui acesso a tudo, porém acaba se tornando um comentarista, como se assistisse toda a história e se limitasse a comentar sobre os personagens. É quase como um espectador. A vantagem deste tipo de narrativa é que é possível expressar opiniões e ideologias através de exemplos. A desvantagem é que a riqueza de determinados personagens é obscurecida, no sentido de que se perde a capacidade de descrever seus pensamentos e noções mais íntimas. 

D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons
ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre
como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo,
que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele
respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música
alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo
escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente
falavam de política. [ Conto: A Carteira, de Machado de Assis. ]

É lógico que existem outros variados tipos de narrativas. Procurei apontar aqui os tipos que podem contribuir para o desenvolvimento do universo que será criado. Além disso, é perfeitamente possível explorar os três tipos de narrativas em uma mesma história. Bastaria apenas tomar cuidado com a incoerência. Considerando que separar tais narrativas, alternando capítulos, poderia ajudar muito. Estas são as ferramentas e não há nada errado em utilizar todas elas. Uma obra de arte não se constrói com apenas uma ferramenta, não é? 

É preciso também definir se o universo será distinto da nossa realidade ou se fundirá com ela. Em outras palavras, a história se passará no mundo real ou em outra dimensão? Seja como for, mesmo que se crie um mundo totalmente novo, é necessário manter-se com os pés no chão. Assim, fica difícil cometer o erro de criar ambientes totalmente incoerentes e que possam afetar o desenvolvimento da história. Os livros do Harry Potter, por exemplo, revelam todo um universo original criado, porém, paralelo ao mundo real, de tal forma que os personagens trafegam livremente pelos dois mundos.

Personagens   

Levando em consideração tudo o que foi analisado até agora, vamos partir para um dos focos essenciais: as personagens. Ainda utilizando como base o mundo com características de fantasia medieval, seja coerente quanto ao desenvolvimento desta área, isto é, não faz muito sentido dotá-los de características impróprias ao universo que se está gerenciando (e não mais criando). Uma dica que pode ser bastante útil é a de separar um documento com a biografia dos principais. Se você deseja ter uma obra rica, é preciso trabalhá-los individualmente, construindo suas histórias de vida, construindo suas personalidades e depois interligando as histórias com as dos demais personagens.

Um ponto essencial é emprestar a mente do autor aos seus “filhos”. O que isso quer dizer? Se você não quer que sua história se torne um diário, com múltiplas versões inacabadas de você, é preciso seguir algumas dicas: 

  • Procure compreender um conflito de diferentes maneiras e perspectivas. Desta forma, a convivência entre seus personagens não se tornará incoerente e a qualidade da história não será prejudicada. 
  • Coloque-se no lugar de alguém que você discorda. Esse tipo de experiência no nosso dia a dia, deve sim ser importada para a obra que está sendo desenvolvida. Com isso, a aproximação do leitor é garantida pelas situações que ele vivenciará por meio da leitura do texto, e isso também despertará seu interesse.
  • Seguindo a mesma noção de importar vivências pessoais para a história, procure ver as pessoas e situações além das aparências. Para que os personagens sejam interessantes, eles devem possuir complexidade. Pinte as almas dos seus personagens de “cinza” e não “colorido” [Parafraseando George R.R. Martin]. A cor “cinza”, nesse caso, representa toda a complexidade humana (ou do que pode ser considerado humano). Deve haver personagens que tomam atitudes ambíguas na história. 
  • Tente entender suas crias, a partir das experiências individuais que constituíram suas personalidades e visões de mundo.  

O criador das crônicas utilizou o sistema de casas para formar “grupos” de personagens. Ele criou famílias, de certo modo, e inseriu detalhes específicos para cada uma, como símbolos, lemas e uma história de origem. Independentemente do meio que utilizar para separá-los em grupos, os mais importantes, os chamados primários, devem possuir uma história mais bem trabalhada. Tudo o que os envolve deve ser desenvolvido com cuidado e concentração. Até aqui, já foi possível notar que o número de personagens se excede bastante em uma história desse tipo. Um universo grande deve ser preenchido por muitas vidas, não? Caso contrário, não fará sentido criar um universo alternativo. 

Um efeito bastante característico que será notado ao trabalhar com um universo povoado por muitas personalidades é o de que algumas delas irá se tornar bastante carismática. Algumas vezes, este efeito virá de maneira acidental e outras, não. Às vezes há tanta convicção de que um dos habitantes daquele mundo irá cativar o leitor devido à sua história de vida, que foi desenvolvida de maneira árdua, apaixonada, etc, e este personagem, depois, simplesmente, não chama a atenção daquele que lê a fic. Em contraste, um personagem, até mesmo secundário, que nem foi muito bem trabalhado, acaba se destacando e ofuscando os demais e até pior, acaba mudando o rumo da história que é desenvolvida pelo autor, por seu carisma influenciar até mesmo o criador da obra. É como se ganhassem vida própria e, suas ações, mesmo previamente planejadas, acabassem mudando o rumo da história. Esse fenômeno é bastante conhecido por escritores profissionais.

George R.R Martin disse em uma de suas entrevistas que os personagens parecem ter “vida própria”. Na verdade esse efeito ilusório é causado pela necessidade de manter a coerência ao longo do enredo, exatamente como se a coerência fosse um rio, as nossas intenções o barco e o vento os personagens. Dependendo de como o vento sopra, o barco se torna difícil de conduzir ao nosso favor. Sendo assim, independentemente da maneira como explorar o mundo pessoal dos habitantes do seu universo, a seleção parcialmente aleatória do leitor de afeição por eles, irá influenciar o rumo que a história tomará de forma indireta. Contudo, existem certas dicas que podem ser adotadas para guiar os sentimentos dos leitores, de tal modo que eles se afeiçoem pelos que são interessantes para o autor do texto e com isto a história siga um rumo próximo do previsto inicialmente. Tais dicas podem ser encontradas no tópico “Personagens Marcantes“, aqui mesmo, no blog da Liga dos Betas, na categoria de Generalidades.

Muitas vezes o protagonista e o antagonista acabam não sendo identificáveis em um modelo de história como o citado neste tópico. A não ser em casos específicos, como a obra de Harry Potter e de Percy Jackson e os Olimpianos, em que o esforço em destacá-los acaba se tornando evidente. Esta característica é típica das histórias que não são maniqueístas. O que é isto? Maniqueísmo é um tipo de filosofia que defende a existência de apenas dois princípios opostos: o Mal e o Bem. Atualmente essa noção maniqueísta está sendo pouco utilizada em obras de literatura, pelo simples motivo de que hoje há uma compreensão mais aprofundada da natureza humana. Portanto, procure não guiar seus personagens pela filosofia maniqueísta, principalmente para o antagonista e o protagonista, se houver esta distinção na fic. Insira uma dose de complexidade nas almas desses dois personagens principais, especialmente.  

Ainda tratando daqueles que podem ser considerados os guias do enredo, é importante salientar um dos meios clássicos para sua organização em grupos. A elaboração de raças distintas, no sentido puramente biológico, e até mesmo o estabelecimento de certo tipo de cultura diferenciando-os. Sendo assim, considerando que uma raça é o conjunto de indivíduos com determinada combinação de caracteres físicos geneticamente condicionados e transmitidos de geração a geração, em condições relativamente estáveis, este conceito pode muito bem ser aplicado na história, para diversificar os personagens. George utiliza este método, enriquecendo sua história ao descrever uma raça em sua obra, a dos membros da casa Targaryen. Veja o exemplo:

[SPOILER]

   “12. Lhe emprestara e disse: — Tendes a certeza de que Khal Drogo gosta das suas mulheres assim tão novas? — Ela já teve o seu sangue. Tem idade suficiente para o Khal — respondeu Illyrio, e já não era a primeira vez que o dizia. — Olhai para ela. Aquele cabelo louro prateado, aqueles olhos púrpura… ela é do sangue da antiga Valíria, sem dúvida, sem dúvida… e bem nascida, filha do antigo rei, irmã do novo, não é possível que não arrebate o nosso Drogo. ” [ Daenerys – A Mãe dos Dragões, versão pt-pt. ]

Temos aqui a descrição física de uma raça no mundo de George, a dos Targaryen. Em outro tipo de universo que explore as características de ficção científica fica mais fácil seguir por este caminho. O uso da genética em uma história de tais proporções é algo que contribui diretamente para expandir a riqueza dos personagens. 

Logicamente, ao desenvolver um mundo com uma grande quantidade de personagens, atribuindo complexidade na construção dos mesmos e também se utilizando da genética para a formação de raças, torna-se interessante organizá-los em sociedades, sendo assim, culturas podem ser desenvolvidas. Talvez seja difícil sair do que melhor conhecemos para criar uma cultura totalmente distante, em comparação com aquilo que lidamos no nosso mundo real. Mas se você deseja tentar criar algo completamente novo e distinto do que temos em nosso mundo, será um desafio interessante, ao qual eu desejo toda a boa sorte. O autor das Crônicas de Gelo e Fogo acabou se , de certa maneira, nas culturas orientais de nosso mundo real, ao descrever os povos do “leste” no continente de Essos, onde se encontram as cidades-estados livres, como podemos ver neste exemplo:

[SPOILER] 

“– Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qartenos fizeram. Se não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos, Vossa Graça. Peles de tigre são caras.

    – Essas peles de tigre são de Illyrio – ela objetou.

    – E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.

    – Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.

    – Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha? Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar-lhe três navios carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que comprar o início de um exército para você?

    Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.” [As Crônicas de Gelo e Fogo – A Tormenta de Espadas.] 

Espero que essas dicas lhe sejam úteis. Na próxima parte, irei tratar de assuntos referentes ao desenvolvimento de mitologia, política e economia, para se inserir no universo alternativo.  

Referências:

. Stephen King – A Torre Negra. Vol 3
. A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin.
. Conto: A Carteira, de Machado de Assis.
. Daenerys – A Mãe dos Dragões, de George R.R. Martin, versão pt-pt.
. As Crônicas de Gelo e Fogo – A Tormenta de Espadas, de George R.R. Martin.

Dicas para se criar um Universo Alternativo

Posted by : Ligados Betas
03 abril 2014
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Por Elyon Somniare


“Ai, pânico… Não sei mais como continuar a minha história!”

Familiar? Se não o é, eu contextualizo: uma grande maioria de escritores começa por ter uma ideia linda, brilhante, fenomenal para uma história. Começa a escrever, empolgado da vida, e tudo são rosas e caramelo. Por vezes mantem-se assim por largos capítulos, outras é uma sensação que só dura durante os primeiros. E depois? Depois chega a escuridão de Hades e a história ali fica, congelada, enquanto o autor desespera porque não tem “inspiração” sobre como continuar a maldita.

Pois bem, tal acontece porque a história foi iniciada sem ter uma estrutura. Na maioria dos casos, pelo menos: como em tudo, generalizações são banidas daqui (Xôôô!). Mas enquanto para alguns ter uma estrutura em mente é tanto lhes faz como tanto lhes fez, para muitos é essencial para saber como conduzir a história até o final. E convenhamos, quer se planeie quer não, todas as histórias acabam por ter uma estrutura.

“Mas o que é uma estrutura?” perguntam vossemecês, e perguntam muito bem. Expondo de uma forma simples, uma estrutura é a ordem pela qual um autor coloca os seus eventos. Os eventos em si serão o enredo. First tip: tenham esta distinção em mente quando estiverem a estruturar o vosso enredo.

“Mas se eu estruturar vai ficar igual a todas as outras histórias e eu não quero, eu quero algo original!”

Esta tem sido uma justificação muito apresentada por quem não deseja estruturar a sua história. Infelizmente é uma justificação que demonstra preconceito para com a pobre da estrutura, coitadita, que fica com os seus sentimentos magoados sem razão de ser. Por quê? Porque a estrutura é um esqueleto. Eu tenho um esqueleto. Vocês têm um esqueleto. Todos à vossa volta têm um esqueleto. Até o Jack Skelleton tem um esqueleto. Significa isso que somos todos iguais? Não. Com a estrutura e a história funciona da mesma forma. E mais: a estrutura está além do plágio! Que quero dizer com isto? Quero dizer que enquanto “OMG que personagem/ evento/ world building/ fala/ descrição magnífica, preciso mesmo de a usar na minha história” é plágio e não se deve fazer, “OMG que estrutura magnífica, preciso mesmo de a usar na minha história” não é plágio e pode-se perfeitamente fazer. Não acreditam? Pois eis algumas histórias que partilham a mesma estrutura: Harry Potter, Senhor dos Anéis, Percy Jackson e Star Wars. Não são as mesmas histórias. Não são plágio umas das outras.

Tudo isto esclarecido, avancemos para a próxima questão pertinente, mais uma vez colocada por vocês, jovens, que eu confio na vossa perspicácia: “Como é que eu estruturo a minha história?” E uma excelente questão que esta é. Não existe uma só estrutura to rule them all ou método de estruturação, contudo, ao longo dos anos vários críticos e estudiosos foram investigando e acumulando alguns “esquemas” de estruturação à história da Literatura. Isto, naturalmente, é um trabalho que ainda está a ser feito e, como qualquer coisa académica, não há consenso (oh, alegria!). O que acaba por ser bom: permite ao autor que aplique a estrutura que melhor lhe apraz.

A estrutura da qual iremos falar hoje, contudo, é uma das mais amadas pelo público, quer o público saiba quer não. É a estrutura de Harry Potter, Senhor dos Anéis, Percy Jackson e Star Wars, entre outros. É “A Jornada do Herói”, uma teoria desenvolvida por Joseph Campbell e publicada em 1949 sob o título “O Herói das Mil e Uma Faces”. No seu ensaio, Campbell utiliza como exemplos contos mitológicos de uma grande variedade de culturas, demonstrando a ancestralidade da estrutura e quão instintiva esta é ao ser humano. Eu, no entanto, vou procurar utilizar exemplos mais recentes, e aproveitar para sumariar e muito a teoria aqui do Campbell, porque ao senhor deu-lhe para escrever umas 400-páginas-mata-focas-bebés e isso seria extrapolar em muito o limite de bom senso de um blog.

Vamos ao trabalho? Vamos ao trabalho!

A Jornada do Herói divide-se em três partes, cada uma com as suas próprias divisões: Partida, Iniciação e Regresso. As subdivisões que aqui se encontram não estão necessariamente em todas as histórias que utilizam esta estrutura, nem sempre com a ordem aqui estipulada, mas pelo menos uma delas somos sempre capazes de distinguir. Olhemos mais a fundo.

Na Partida podemos encontrar cinco subdivisões principais:

1) O Chamamento da Aventura
O destino tira o herói do mundo que ele conhece, da sua bolha de conforto, e leva-o para o desconhecido. Este “destino” pode ser um ataque do inimigo que lhe destrói a casa e assassina os tios, como acontece com Luke Skywalker em “Star Wars”, ou pode ser um feiticeiro de longas barbas que nos enfia um bando de anões pela casa adentro, como acontece com Bilbo Baggins em “O Hobbit”. Ou seja, pessoa, acontecimento ou acidente, tudo se encaixa.

2) A Recusa do Chamamento
Como já devem ter adivinhado pelo nome, o herói recusa partir numa aventura. Esta recusa pode ser permanente ou reversível, sendo esta última a mais comum. Lembram-se de como o Bilbo estava reticente em deixar o Shire?

3) O Ultrapassar do Primeiro Limiar/ Desafio
O herói ainda não começou a aventura propriamente dita, quando já tem de dar a volta aos guardas que verificam o caminho para o desconhecido. Uma boa analogia é a Esfinge, aquela que apenas permite a entrada na cidade aos viajantes que consigam responder acertadamente ao seu enigma. Mais um bom exemplo? Um bom exemplo seria quando Frodo Baggins deixa o Shire, tendo de escapar aos Nazgûl. Na sua primeira aparição, eles são os “guardas” que o querem impedir de partir na sua aventura.

4) O Estômago da Baleia
O estômago do quê? Vamos falar sobre Jonas? Quase. Esta fase é uma metáfora para o “desaparecimento” do herói do mundo que ele conhecia. O desconhecido, de certa forma, engole o herói. Harry Potter, por exemplo, “desaparece” do mundo dos Muggles para ser absorvido pelo mundo dos feiticeiros. Bilbo e Frodo “desaparecem” no Shire para serem engolidos pelas aventuras no resto da Terra Média. Percy Jackson “desaparece” do mundo normal para ser engolido pelo Acampamento Meio-Sangue. Já apanharam a ideia, suponho.

5) Ajuda Supernatural
Sendo a mais flexível, podemos encontrá-la entre várias das restantes subdivisões, em simultâneo que qualquer uma delas, e mais do que uma vez – ou nunca a encontrar. Explicando com simplicidade, o herói é auxiliado por outrem, usualmente um guia, e usualmente com algum tipo de poder. Há já nomes a pipocarem nessas cabeças jovens? Exactamente. Dumbledore em “Harry Potter”, Gandalf em “Senhor dos Anéis”, Brom em “Eragon”, etc, etc.

Na Iniciação, aquele momento comummente visto como o “meio” da aventura pelo leitor ou espectador, temos seis subdivisões a merecer uma palavrinha:

1) A Estrada dos Desafios
É uma altura em que o herói deve pôr de lado o seu orgulho, beleza, virtude e/ou vida, e curvar-se ou submeter-se ao absolutamente intolerável. Assim que o fizer, descobre que ele e o inimigo não são de espécies diferentes, mas uma só carne. Psique e as suas quatro tarefas para recuperar o perdão e confiança de Eros é um exemplo desta subdivisão. Em “Harry Potter e a Pedra Filosofal” temos também esta “Estrada” em evidência quando, no final, Harry percorre as salas e desafios necessários para chegar à Pedra Filosofal, e encontra Voldemort estampado na nuca do Professor Quirrel.

2) O Encontro com a Deusa
Rebuçados para quem pensou em mais uma metáfora! Elas são recorrentes pelas teorias literárias. Isto espelha o papel que a mulher tem na mitologia: ela representa a totalidade do que pode ser sabido, sendo que o herói é aquele que aparece para saber. Este encontro pode ser positivo ou negativo, conforme as implicações que terá para o herói, e pode ser levado a cabo por mais do que uma personagem, não tendo de ser obrigatoriamente uma mulher toda-poderosa. Um bom exemplo desta subdivisão é a personagem Angela em “Eragon”, ou Galadriel em “Senhor dos Anéis”.

3) A Mulher como a Tentação
Ah, uma tentação que coloca as peças em movimento! Mais uma vez representada por uma mulher, embora não seja obrigatório, e um pouco autoexplicativo. Fugindo da ficção especulativa, que tem fornecido todos os exemplos até ao momento, as melhores “materializações” desta subdivisão podem ser encontradas em Lady Macbeth, da peça shakesperiana “MacBeth”, e a própria Eva, do Génesis.

4) Reconciliação com o Pai
Primeiro é preciso compreender que este “pai” não é literal, mas sim uma representação dos medos do herói, ou uma figura que representa aquilo em que o herói se quer tornar. Deste modo, caso estejamos perante o primeiro caso, o herói consegue abandonar o duplo monstro auto-gerado, vencer os seus monstros psicológicos, por assim dizer, enquanto no segundo caso o herói, de certa forma, consegue ultrapassar ou igualar-se ao seu mentor.

5) Apoteose
Ou divinização. O herói apercebe-se das suas capacidades, e consegue alcançar o seu potencial máximo.

6) A Derradeira Graça
O herói consegue aquilo que desejava, para seu bem ou para seu mal. Harry tem uma bela de um pedra filosofal no seu bolso no fim d’A Pedra Filosofal, Percy Jackson limpou o seu nome e recuperou os raios n’O Ladrão de Raios, Frodo destrói o Anel, Luke Skywalker vence o Império, o Rei Minas consegue o toque de ouro…

Tudo se encaminha para o final. “Mas eu preciso de ter tudo isso na minha história? É que é tanta coisa, e eu realmente não preciso da subdivisão X para isto ou para aquilo.” A resposta é: não. Cada autor utiliza as subdivisões de que necessita. Em literatura, até com o esqueleto se pode brincar.

“Ah, óptimo, então vou agora começar a escre…”

Calma, calma, que ainda falta o Regresso! Não podemos deixar o herói abandonado por aí, depois de ele ter passado por todos aqueles problemas para nos entreter, não é? Não seria educado, então, apenas natural que o herói leva o seu prémio (conhecimento, valores, pessoas, liberdade, etc) de volta ao mundo comum. Também aqui temos seis subdivisões principais, sendo mais evidente a sua não-obrigatoriedade, pois enquanto umas podem ser usadas em simultâneo, outras dariam uma salgalhada de todo o tamanho, caso se tentasse misturar – se é que não se contrariam de todo.

1) Recusa em Regressar
Meio óbvio o que o herói faz aqui. Esta recusa pode ser temporal ou definitiva. Ou pode ser algo como “João Sem Medo”, em que o herói se duplica, e enquanto um João vai viver a sua vida comum, o outro João continua as aventuras, sendo que trocam de lugar de X em X anos.

2) O Voo Mágico
Apesar de eu ter imediatamente uma imagem do Alladin no Tapete Voador cada vez que leio isto, o que verdadeiramente isto quer dizer é: o regresso é feito com o auxílio de favores sobrenaturais. Até pode ser um tapete voador, mas o exemplo mais conhecido – de tanta piada que já gerou – são as Águias que levam Frodo e Sam do Vesúvio, perdão, de Mordor para Rivendell, em “O Senhor dos Anéis”.
Não, não tem de ser necessariamente feito através de uma entidade voadora.

3) O Resgate
O herói é resgatado, ou obrigado a regressar. Por exemplo, em “Harry Potter e os Talismãs da Morte”, quando Harry “morre” por uns segundos/minutos, conversa com o Dumbledore na Plataforma 9 ¾, e depois regressa ao mundo dos vivos.

4) O Ultrapassar do Limiar/Desafio do Regresso
O herói não é a mesma pessoa que era aquando a partida. A sua aventura alterou a sua maneira de ser, de pensar e de encarar o mundo. Agora, o herói tem de sobreviver ao impacto do mundo. Mais uma vez, a saga “Harry Potter” apresenta excelentes exemplos no final de cada um dos livros.

5) Mestre dos Dois Mundos
O herói adquire a capacidade de viajar entre ambos os mundos. Percy Jackson, por exemplo, pertence tanto ao “nosso” mundo comum, como pertence ao mundo mitológico representado no Acampamento Meio-Sangue.

6) Liberdade para Viver
No final da saga de “Harry Potter”, o mundo mágico respira de alívio pela liberdade que adquiriu após o desaparecimento definitivo de Voldemort. Em “Jogos Vorazes”, mais nenhuma criança terá de matar outra para sobreviver a um jogo. Em “A Bela Adormecida” todas as pessoas que se encontram adormecidas no castelo acordam junto com o quebrar do encantamento. Em todos estes exemplos, é permitido a uma generalidade que prossiga com as suas vidas comuns.

E isto, meus jovens, é “A Jornada do Herói” de Campbell, resumida. Como já antes disse, e como ficou evidente pelos exemplos, trata-se de uma das estruturas que mais aceitação tem, e que mais empolgamento desperta. Possa esta estrutura ajudar-vos nos vossos escritos, e impedir que fiquem sem saber como continuar o vosso épico.

Bibliografia:

COX, Ailsa (2005). Writing Short Stories – A Routledge Writer’s Guide. New York: Routledge
CAMPBELL, Joseph (1968). The Hero With a Thousand Faces. New Jersey: Bollingen Foundation

A Jornada do Herói

Posted by : Ligados Betas
31 março 2014
3 Comments

Por: Hairo-Rodrigo

“ ‘Fuck’ era a melhor palavra. A palavra mais perigosa. Você não podia sequer sussurrá-la. ‘Fuck’ era sempre muito alto, explodia no ar sobre você e caía devagar sobre a sua cabeça, tarde demais para ser impedida. E então vinha o silêncio total, nada além do ‘Fuck’ flutuando para baixo...”

Esse é Roddy Doyle, um escritor irlandês conhecido por seu bom-humor, sua careca lisa, seu par de óculos redondos, além de, é claro, seus diversos livros de sucesso, entre eles “Paddy Clarke Ha Ha Ha” e “The Commitments”, adaptado para o cinema em 1991 e atualmente sendo adaptado para os palcos dos teatros, como um grande musical.

 “Eu não sou tão reconhecido assim. Sou apenas um cara careca que usa óculos, e tem um monte desses em Dublin. Seria diferente se eu usasse um moicano...”

Ah, não vem com essa, Roddy! Sem falsa modéstia, que você não é disso. Se bem que um moicano não chamaria lá tanta atenção, principalmente em Dublin, um lugar tão divertido e cheio de vida...

“Isso é tudo uma grande farsa. Nós vendemos o mito de Dublin como um lugar sexy muitíssimo bem; porque é um porcaria de um lixão, na maioria do tempo.”

Espera aí, como assim?! Os seus personagens são tão vivos, tão divertidos e tão charmosos! E a maioria vive aí! Como é que você consegue fazer isso se o lugar é uma “porcaria de um lixão”?

“Eu vejo as pessoas em termos de diálogo e acredito que elas são o que elas falam. A melhor maneira de se revelar o caráter de uma pessoa é fazer com que ela abra a boca.”

É um modo interessante de ver o mundo, com certeza. Mas posso voltar para a sua apresentação? Então... Como eu estava dizendo, esse cara abandonou a antiga carreira para escrever, já publicou diversos livros para públicos de todas as idades e é internacionalmente reconhecido por seu trabalho, tendo vencido diversos prêmios literários e fazendo parte da Sociedade Real da Literatura, uma organização britânica fundada em 1820, pelo Rei George IV.

“Eu não trabalho por comissões. Eu apenas faço o que quero fazer. Meus romances vêm de dentro. São coisas que eu sinto que quero fazer.”

Eu sei, Roddy. Não era isso que eu estava querendo dizer... Só queria que o pessoal entendesse que você é um tipo de autoridade no assunto, antes de falar sobre as regras de ouro que você segue para escrever seus livros. É bem melhor do que simplesmente dizer que você era um professor de colégio, que passava grande parte do dia falando com crianças, entendeu?

“Algumas vezes os adultos parecem ter cortado a ligação com o seu lado infantil.” 
“É ótimo conhecer as crianças, porque você nunca sabe o que elas vão dizer”
“Algumas das pessoas que mais parecem normais são, provavelmente, as pessoas mais piradas tentando parecer normais.”

É o que eu percebi hoje... Diz logo as suas regras então, antes que todo mundo aqui acredite que você é maluco.

1. Não coloque uma foto do seu autor favorito na sua mesa, especialmente se o autor é um daqueles famosos que se suicidou;
2. Você pode ser generoso com você mesmo. Encha as páginas o mais rápido possível; use o dobro de espaços ou então escreva pulando linhas. Considere cada nova página como um pequeno sucesso...
3. ...Até você chegar à página 50. Então se acalme e comece a se preocupar com a qualidade. É normal se sentir ansioso. São ossos do ofício;
4. Dê um nome ao seu trabalho o mais rápido possível. Seja dono dele, o visualize. (Charles) Dickens sabia que “Bleak House” (Casa abandonada) iria se chamar “Bleak House” antes de começar a escrever. O resto deve ter sido fácil;
5. Você vai ter que restringir a sua navegação à alguns sites por dia. Não chegue perto das casas de apostas online – a não ser que seja pesquisa;
6. Tenha sempre um thesaurus, mas na estante, nos fundos do jardim, ou então atrás da geladeira. Algum lugar que exija esforço, locomoção. Na maioria das vezes a palavra que lhe vier à cabeça vai servir perfeitamente bem, como “cavalo”, “correu” ou “disse”;
7. Você pode, ocasionalmente, cair em tentação. Lave a cozinha, pendure as roupas lavadas... É tudo pesquisa;
8. Mude de ideia. Boas ideias são constantemente assassinadas por ideias melhores. Eu estava trabalhando em um romance sobre uma banda chamada “The Partitions”. E então eu decidi chamá-los de “The Commitments”;
9. Não procure no Amazon pelo livro que você ainda não escreveu; e
10. Gaste alguns minutos do seu dia trabalhando na biografia de capa – “Ele divide seu tempo entre o Kabul e Tierra del Fuego.” Mas depois volte ao trabalho.
Fontes consultadas:

DOYLE, Roddy; “Roddy Doyle’s Rule for Writers; Publicado em 22 de fevereiro de 2010, disponível em: “http://www.theguardian.com/books/2010/feb/22/roddy-doyle-rules-for-writers"
BROWN, Mark; “The Commitments to be turned into West End Musical”, Publicado em 23 de Abril de 2013; Disponível em: http://www.theguardian.com/stage/2013/apr/23/the-commitments-west-end-musical
FIRETOG, Emily; Interview with Roddy Doyle; Publicado em maio de 2012; Disponível em: http://columbiajournal.org/wp-content/uploads/2012/05/doyle.pdf
???; Roddy Doyle Quotes; Disponível em: http://www.brainyquote.com/quotes/authors/r/roddy_doyle.html
???; Roddy Doyle Quotes; Disponível em: http://www.goodreads.com/author/quotes/10108.Roddy_Doyle

O Professor da Terra dos Duendes

Posted by : Ligados Betas
27 março 2014
5 Comments

Vamos abrir a décima rodada do Clube de Leitura!
A fanfic dessa rodada é a do Rodrigo:
O Primeiro de seus Últimos Dias escrita por Hairo Rodrigo

Sinopse: “O dia 31 de Outubro de 1981 foi especialmente decisivo na história do mundo da magia. Coincidentemente ou não, foi justamente no dias das bruxas do mundo trouxa que o maior bruxo das trevas de todos os tempos saiu para cumprir uma missão importante: garantir a segurança de um império do medo, que era ameaçado por um bebê de pouco mais de um ano. Hoje, sabemos que aquele foi o primeiro de seus últimos dias.

Classificação: Livre
Categorias: Harry Potter 
Gêneros: Dark Fic, Death Fic, Drama, Tragédia

Para participar da próxima rodada do Clube de Leitura, as resenhas deverão ser enviadas para o e-mail ligadosbetas@gmail.com, em arquivo .doc ou no próprio corpo do e-mail, e deve conter os seguintes dados:

• Seu nick
• Link do seu perfil no Nyah
• Sua resenha
• O link da sua one-shot ou short fic (concluídas e postadas no Nyah)

O prazo limite para o envio de resenhas é até: 12/04/2014
(Não serão aceitas resenhas enviadas para qualquer outro lugar que não seja o email)

Clube de Leitura: 10ª Rodada

Posted by : Ligados Betas
25 março 2014
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