Por que quebrar as regras


Por: Rodrigo Caetano

Quem me conhece e já leu os meus artigos sabe muito bem que eu sempre trago algumas regras ditadas por autores famosos e consagrados na literatura, para servirem de dicas a quem se interessar. Outros betas também trouxeram dicas interessantes para o blog, e sempre somos muito bem recebidos. Já trouxemos dicas de Elmore Leonard, Margaret Atwood, Roddy Doyle, Geoff Dyer, e até mesmo de Neil Gaiman, George Orwell e Chuck Palahniuk, traduzindo-as para a nossa língua materna e deixando aqui para serem consultados a hora que vocês quiserem.

Acho um processo natural para nós, autores iniciantes, sendo amadores ou com aspirações profissionais, olhar para cima e observar aqueles que já alcançaram algo similar ao que almejamos. Assim, sempre vi as regras como um tipo de guia para nos ajudar a conseguir o que queremos alcançar.
Porém, a medida que fui lendo e estudando as diversas regras dos mais diferentes autores ao redor do mundo, percebi que nem sempre podemos segui-las. Na verdade, nunca podemos segui-las todas.
Sim, muitas vezes podemos usá-las como guias, mas, mesmo assim, com alguma reticência. Escrever é um processo muito pessoal, assim como qualquer tipo de arte. Arte que seja limitada por regras é justamente isso: limitada. A sua voz no papel é o que faz a literatura, e não um texto dentro dos conformes que quem veio antes ditou, quando fazia justamente o que você está tentando fazer.
Eles acharam o caminho deles, e por mais sucesso que tenham obtido, não podemos seguir atrás. Temos que achar um caminho próprio.
Foi lendo um artigo de autoria de Andrew Blackman, um autor britânico de menor expressão, que encontrei expresso em um estudo mais detalhado o que eu havia percebido inicialmente. “Escrever é, por natureza, um processo anarquista” diz ele. “Ele sobrevive de surpresas, quebra de regras, novos modos de ver as coisas. Se todos seguissem as mesmas regras, seguissem os mesmos caminhos, a literatura morreria rapidamente”.
Ele estudou as mesmas regras que eu estudei, todas baseadas em um artigo publicado pelo jornal “The Guardian”, chamado The Ten Rules of Writing Fiction (As Dez Regras para Escrever Ficção), que serviu de base para as minhas traduções. O que ele percebeu e provou foi a dificuldade imensa que alguém teria ao tentar seguir as regras ditadas pelos autores. Vou deixar aqui para vocês a minha tradução do que ele muito inteligentemente selecionou, desmontando as regras que, desde sempre, eu guardei com tanto carinho:

  • Roddy Doyle disse para “Encher as páginas o mais rápido possível – utilize espaços duplos, ou escreva pulando linhas”. Michael Morpurgo diz para “Escrever em letras muito pequenas, para que você evite acabar a página e ter que encarar a próxima em branco”;
  • Neil Gaiman te fala para ler o seu trabalho fingindo que você nunca o leu antes. Margaret Atwood diz que “você nunca vai conseguir ler o seu próprio livro como alguém que nunca o leu antes, logo, mostre para outra pessoa”;
  • Ian Rankin diz: “Seja persistente. Não desista”. Geoff Dyer diz: “Se algo se provar muito difícil, desista e faça alguma outra coisa”;
  • Geoff Dyer recomenda escrever em um computador com um auto-corretor bem refinado, para poupar tempo digitando. Zadie Smith fala para não usar um computador que seja conectado à internet. Annie Proulx lhe diria para escrever apenas à mão;
  • Richard Ford diz: “Não tenha filhos”. Helen Dunmore diz “Se você teme que cuidar da sua casa e dos seus filhos vai prejudicar a sua escrita, lembre-se de JG Ballard” (três filhos e vários prêmios na literatura);
  • Jonathan Frazen diz para “escrever na terceira pessoa, a menos que uma voz em primeira pessoa muito especial se ofereça de maneira irresistível”. Anne Enright diz “Escreva da maneira que bem entender”;
  • Margaret Atwood alerta que você precisará de um Thesaurus. Roddy Doyle manda deixar o Thesaurus numa prateleira no fim do jardim, pois “provavelmente as palavras que lhe vierem à cabeça servem”;
  • Michael Moorcock diz “Leia tudo em que você possa por as mãos... de Bunyan a Byatt”. Já Will Self diz: “Não leia ficção. É tudo mentira, de qualquer jeito”;
  • Andrew Motion lhe fala para “decidir quando no dia ou na noite você se sente melhor escrevendo”. Hilary Mantel fala que escrever pela manhã pode “ser a melhor coisa que você faz por você mesmo”;
  • PD James diz: “Quanto maior seu vocabulário, mas efetiva é a sua escrita”. Joyce Carol Oates prefere “usar palavras familiares e simples em vez de palavras polissilábicas e grandes”;
  • AL Kennedy diz: “as melhores coisas lhe farão lembrar delas, então você não precisa tomar notas”. Will Self diz para “sempre carregar um caderno... A memória de curto prazo apenas retém informações por cerca de três minutos”;
  • Jeanette Winterson diz: “Nunca pare quando você ficar preso”. Hillary Mantel diz que “se você está preso, pare e saia da sua mesa – dê uma volta, tome um banho, vá dormir; o que quer que você faça, não fique lá remoendo o problema”;
  • A única constância é conselho de cortar as coisas. Jonathan Fraze diz para evitar usar “então” como uma conjunção, e para ficar atento aos “verbos interessantes”. Sarah Waters aconselha cortar “frases redundantes, adjetivos distrativos, os advérbios desnecessários.” Elmore Leonard diz para cortar prólogos, descrições sobre o clima, qualquer verbo que não seja “disse” para diálogos, cortar advérbios, pontos de exclamação, dialeto regional e o termo “de repente”. Hilary Mantel diz para cortar o seu primeiro parágrafo. Esther Freud diz para cortar todas as metáforas e sorrisos. Não sei direito o que sobra, depois que cortamos isso tudo – talvez alguns substantivos.

Desejo-lhes Arrependimentos



Por: Rodrigo Caetano
Já faz algum tempo que venho querendo compartilhar com vocês aqui um pequeno tesouro que eu achei na internet, em inglês. É muito comum que em dez regras, ou menos, muitos autores renomados, reconhecidos pela crítica e premiados, compartilhem as suas visões sobre o ato de escrever um livro e como fazer isso.

Compartilho um desses sets de regras aqui pois acho que é para isso que este espaço serve. Toda semana temos um dos betas aqui lhes ajudando a entender esse processo e compartilhando com vocês dicas, sugestões e instruções. É para isso que o blog serve, não é? É para isso que estamos aqui. Então por que não trazer alguém com ainda mais experiência e reconhecimento do que nós, humildes leitores testes?

Assim sendo, o cara da vez é o Geoff Dyer. Ele é um autor britânico já com seus 57 anos, autor de livros de ficção e não-ficção, entre outros trabalhos. Em termos de descrição, isso é basicamente o que se pode dizer dele.  Normalmente ele é definido como “incategorizável”. Ele é pública e radicalmente contra uma fronteira bem definida e policiada entre a realidade e a ficção e, em um de seus livros, chega a dizer que “tudo que está escrito aqui realmente aconteceu, mas algumas das coisas aconteceram apenas na minha cabeça”.

O texto a seguir é a tradução de uma matéria do jornal The Guardian. Inspirados pelas regras ditadas por Elmore Leonard (também já traduzidas aqui), o jornal resolveu perguntar a Geoff e outros escritores que regras eles ditariam para alguém que quisesse escrever um livro.
Espero que encontrem aqui algo que lhes provoque, ou que lhes inspire. Que te faça pensar, ou que fique gravado na sua cabeça, nem precisar de esforço. Ou, no mínimo, que encontre pelo menos algum arrependimento. Como ele bem diz, todos nós precisamos deles...


“1 – Nunca se preocupe com as possibilidades comerciais de um projeto. Isso é uma coisa para enlouquecer os agentes e editores — ou não. Conversa com meu editor americano. Eu: “Eu estou escrevendo um livro tão chato, de tão pouco apelo comercial, que se você resolver publicar, provavelmente vai ser demitido.” Editor: “É exatamente isso que me faz querer continuar no meu trabalho.”
2 – Não escreva em locais públicos. No começo dos anos noventa eu fui morar em Paris. As razões normais de um escritor: naquela época, se você fosse achado escrevendo em um pub na Inglaterra, você levaria uma porrada na cabeça, enquanto, em Paris dansles cafés... Desde então eu desenvolvi uma aversão a escrever em público. Agora acredito que deva ser feito exclusivamente em particular, como qualquer outra atividade de excreção.
3 – Não seja um daqueles escritores que se sentenciam a uma vida inteira de puxa-saquismo ao Nabokov.
4 – Se você usar um computador, constantemente refine e expanda o seu corretor automático. O único motivo de eu me manter leal ao meu computado horrível é que eu investi muito da minha inventividade para construir um dos melhores arquivos de autocorreção da história da literatura. Palavras perfeitamente digitadas surgem de alguns pequenos toques no teclado. “Niet” vira “Nietzsche”, “phoy” vira “fotografia” e assim por diante. Genial!
5 – Mantenha um diário. O maior arrependimento da minha vida literária é não ter mantido um registro ou um diário.
6 – Tenha arrependimentos. Eles são combustíveis. Na página eles se inflamam em desejo.
7 – Tenha mais de uma ideia para escrever ao mesmo tempo. Se a escolha for entre escrever um livro e fazer nada, eu vou sempre escolher a ultima opção. É só quando eu tenho ideias para dois livros que eu escolho um ou outro. Eu tenho sempre que sentir que estou deixando alguma coisa de lado.
8 – Cuidado com os clichês. Não apenas os clichês com quem o Martin Amis está em guerra. Tem clichês de reação e também de expressão. Tem clichês de observação e clichês de pensamento — até mesmo de concepção. Muitos livros, até mesmo alguns bem escritos, são clichês de forma, o que necessariamente leva a clichês de expectativas.
9 – Faça isso todo dia. Se habitue a botar as suas observações no papel e gradualmente isso vai se tornando instintivo. Essa é a regra mais importante de todas e, naturalmente, eu não a sigo.
10 – Nunca pedale uma bicicleta com os freios apertados. Se alguma coisa está se provando difícil demais, desista e faça outra coisa. Tente viver sem ter que recorrer à perseverança. Mas escrever é basicamente pura perseverança. Você tem que se prender a isso. Nos meus trinta anos eu costumava ir à academia apesar de odiar isso. Eu ia para academia com o único motivo de adiar o dia em que eu iria parar de ir à academia. É isso que a escrita é para mim: um modo de adiar o dia em que eu vou parar de escrever, o dia em que eu vou me afundar em uma depressão tão profunda que esta será indistinguível do mais puro êxtase.”



Fontes:

Como escrever uma história original



Por: The Escapist


Olá, caros leitores do blog da Liga dos Betas, é com imensa satisfação que venho conversar um pouquinho com vocês! 

O Nyah! Fanfiction, como todos sabemos, é um site dedicado às fanfictions, mas nós sabemos também que nem todas as histórias postadas no site estão incluídas em algum fandom, mas pertencem a uma categoria muito ampla, chamada de Originais. 

Mas então, qual a diferença entre escrever uma fanfiction ou uma história original? Bom, partindo do óbvio, na fanfic você utiliza personagens, cenários e outros elementos oriundos de outra história, adaptando-os e moldando-as à sua vontade. É importante lembrar, também, que fanfictions não devem ter fins lucrativos e sempre devem ter um aviso de propriedade intelectual — é o disclaimer que colocamos nas nossas histórias no Nyah!.

Ex:

“Harry Potter pertence a J. K. Rowling.”

Mas eu não vim aqui para falar sobre ficção criada por fãs. Meu objetivo é falar um pouco sobre histórias originais, mais precisamente, sobre como escrevê-las. Pessoalmente, eu sempre me senti mais à vontade escrevendo originais, mas algumas pessoas não se sentem assim. Às vezes, há um pouco de tensão envolvida no processo de deixar de lado as fanfictions e resolver entrar em um universo seu, lidar com personagens e enredo completamente criados por sua própria cabeça. Se você é desses, calma! Tudo tem jeito.

A seguir, vou falar um pouco sobre alguns pontos que eu considero importantes e têm peso na hora de escrever uma história original. Antes, porém, gostaria de esclarecer que as ideias apresentadas são frutos de experiência pessoal e leituras diversas. Além disso, o presente artigo não se propõe a encerrar a discussão sobre o tema. A escrita é uma atividade dinâmica e que exige prática.

Isso posto, vamos ao trabalho!

Pensando no enredo

Um dos maiores desafios na hora de escrever uma história original é criar um enredo que seja atraente, principalmente porque a ideia de originalidade por si é bastante ampla. Uma grande parte das histórias que conhecemos foi inspirada em alguma outra, que também já teve origem em algum ponto anterior e por aí vai. Às vezes, tudo depende da maneira como você decide trabalhar com determinado tema, mesmo que seja clichê. A sua missão é transformá-lo em algo diferente, ter uma visão diferente e transpor isso para a sua história. 

E os clichês?

Clichês não são proibidos. É aquela velha história de “é clichê por alguma razão”, o que não deixa de ser verdade. O cuidado principal que você precisa ter é a maneira como irá trabalhar com esse clichê, ok? Não há nenhuma regra que impeça você de escrever uma história sobre uma garota descolada, que ficou órfã e foi morar com os tios... na Inglaterra, ou algo assim.

Pode fazer? Pode. Mas lembre-se de acrescentar algo, encontre o diferencial, aquilo que tornará sua história única e diferente de tantas outras que seguem a mesma linha. 

Uma das formas de fazê-lo é criando personagens consistentes.

Invista nos personagens

Para conquistar seus leitores, você tem que criar personagens marcantes. Se, em uma fanfiction de Harry Potter, por exemplo, você pode contar com a prévia empatia dos leitores, numa história original, a missão de criar esses laços é toda sua. Seus protagonistas precisam ter alguma característica que atraia o leitor; mas além dos principais, procure criar personagens secundários que despertem interesse. Afinal, a história é sobre eles, o que eles pensam, do que gostam, como agem.

Ambientando sua história

Além de um bom enredo e personagens marcantes, um item que vai fazer diferença na sua história é a ambientação. Leve sempre em consideração o tempo e o espaço onde acontece a ação, os lugares que os personagens frequentam, usos e costumes da época que você escolheu para desenvolver o enredo.

A ambientação correta ajuda a conferir credibilidade à história. Considere, por exemplo, que o seu plot envolve personagens estrangeiros: você precisa tomar cuidado para não colocá-los fora de contexto.

Sua atenção será redobrada se a sua história for de fantasia, ficção cientifica ou algum gênero que não se encaixe no nosso mundo. Isso porque, quando você cria um enredo que se passa em São Paulo, por exemplo, toda a estrutura está pronta, a cidade, os lugares, os costumes, você precisa apenas de uma boa pesquisa, para então contextualizar suas ideias. Agora imagine que está escrevendo uma história fantástica, onde todo o universo será criado exclusivamente por você. Terá que pensar nas origens deste mundo, no povo que o habita, seus costumes e crenças, sua política, seus deuses, a geografia, o clima, enfim, tudo mesmo!

Escreva sobre algo que você conhece

Eu poderia dizer “sobre algo que você gosta”, mas isso tornaria tudo muito amplo. Não basta gostar de um assunto para poder escrever sobre ele, é preciso saber algo sobre tal. Eu, por exemplo, gosto muito de ficção cientifica, mas é difícil para mim escrever sobre esse tema, uma vez que não domino o jargão, por assim dizer.

Mas, Escapist, isso quer dizer que eu não posso escrever uma história sobre uma expedição de marcianos à terra?

Claro que pode! O que eu quero dizer é que você deve ter o mínimo de conhecimento sobre o assunto que deseja abordar para que sua história não fique devendo muito no quesito verossimilhança, ok? Por isso, quando estiver pensando no seu plot, não deixe de pesquisar o assunto que será o background da sua história.

Suponha que você queira escrever um romance medieval ambientado na Inglaterra do século XV. Você se sairá melhor se fizer uma boa pesquisa sobre os costumes da época, isso ajudará na hora de compor o enredo e nos detalhes de caracterização dos personagens.

Inspire-se no que você gosta de ler

Pense naquele seu escritor favorito, aquele que quando você lê, pensa: “quero ser assim quando crescer”, e seja ele.

É brincadeira, gente.

Alguns escritores são inigualáveis, a gente sabe disso; não existem dois Gabriel Garcia Márquez no mundo — infelizmente —, eu estou falando de ter uma referência, alguém em quem se inspirar, alguém cujo trabalho você admira por n motivos. O Stephen King, por exemplo, é uma das minhas referências. Por quê? Porque eu gosto do estilo dele, do tom irônico da narrativa, do tipo de personagens que ele cria, do fato de ele escrever bons livros com fim comercial. Se por acaso você ler alguma das minhas histórias, não será estranho encontrar várias referências ao King.

Então, pergunte-se quem são suas referências literárias? Que tipo de escritor você quer ser? Descobrir do que você gosta também é importante para te ajudar a trabalhar seus pontos fracos.

Não deixe a autocritica te destruir — lidando com as críticas.

Ser o principal crítico da sua escrita pode ser uma coisa boa. É uma maneira de você reconhecer suas fraquezas e saber que pode melhorar. Mas pode, igualmente, se tornar um problema, a partir do momento que você começar a não gostar de nada do que escrever.

Qual ficwriter nunca escreveu aquela fanfiction que parecia incrível, mas depois ficou se perguntando: que p*** é essa? (raise my hand). Bem, com Originais, isso acontece o tempo todo. Se você terminou o primeiro capítulo do seu original, releu e pensou que ficou horrível, você não está sozinho, é uma sensação mais comum do que eu gostaria. O que você não pode, de jeito nenhum, é deixar que isso te desanime. O ofício de escritor — de qualquer tipo — exige paciência e persistência. A menos que você seja alguma espécie de gênio, dificilmente vai conseguir escrever algo realmente bom logo na primeira vez (talvez nem depois de várias vezes, como diz minha própria experiência).

Se, ao terminar de ler sua Original, seu primeiro instinto for jogar tudo no lixo e esquecer que aquilo existiu, tenha calma. Não seja tão duro consigo mesmo. Seus erros, com certeza, poderão ser reparados com um pouco de trabalho duro. 

Peça ajuda de alguém: um segundo olhar sobre o seu texto vai ajudar a identificar o que precisa ser melhorado. Mas cuidado com os amigos! Eles são fofos e tudo, mas têm a tendência a achar tudo lindo e maravilhoso. Por isso, além deles, procure também a opinião de alguém imparcial — um beta reader, por exemplo. 

As críticas — sejam de terceiros ou suas — não devem deixá-lo desconfortável e inseguro; o efeito precisa ser exatamente o contrário: motivá-lo a aprender e desenvolver seu potencial.


Estas foram apenas algumas dicas para o caso de você querer se aventurar no mundo dos Originais. É importante lembrar que, escrevendo em um universo totalmente seu, ou navegando em águas conhecidas, o caminho é igualmente difícil. Os obstáculos que um ficwriter e um escritor de originais enfrentam são basicamente os mesmos. E ainda não existe uma fórmula mágica para escrever uma boa história, você tem que começar em algum ponto e ir aprendendo ao longo do caminho.


Tipos de Autor


Por: Elyon Somniare


Saudações, jovens bolinhos de caramelo!

Recordam-se do artigo cómico-mas-sabem-que-são-um-deles do tipo de leitores? Pois é, esta moeda tem duas faces e como podem os leitores existir sem autores? Também os autores são criaturas fascinantes capazes de serem categorizados em um ou mais (ou repartidos por!) tipos. Primeira distinção a fazer: os Tipos de Autores Atendendo às Histórias e os Tipos de Autores Atendendo ao Seu Comportamento.

Deixemo-nos então de paleio e passemos aos Tipos de Autores Atendendo às Histórias:


1) Autor Sean Bean: Morre tudo. Mete o Romantismo Português num sapato e George R. R. Martin é um amador ao seu lado. A sua lista de histórias está mais para um cemitério que para uma página de internet.

2) Autor Chorar as Pedras da Calçada: Quer as personagens morram quer não, este autor arranca a pele da nossa alma e deixa a carne viva dos nossos sentimentos em sofrimento profundo. Assim como o MACHO-QUE-É-MACHO nomeia os seus punhos, também este autor nomeia as suas mãos: a Angst e a Drama.

3) Autor Gato Pardo em Noite Escura: Pode ser fandom ou ship, mas qualquer uma destas opções tem algo que é garantido: é obscuro. Uma pessoa clica na categoria e tem duas fics. Do mesmo autor. Por vezes três, mas aí notamos que uma delas foi mal categorizada. É, este autor anda pelos becos escuros do fic world.

4) Autor .rar: Não importa quanta trama, quanto enredo, quantas personagens. O capítulo não vai passar das quinhentas palavras, e só não fica abaixo das cem porque o Nyah estabeleceu limite mínimo (rumores correm que o fez por conta deste Autor).

5) Autor TCC: Rumores correm que por conta deste Autor o Nyah estabelecerá um limite máximo (rumores são frequentemente falsos). Não importa quanta vagueza, quanta falta de enredo, se a personagem é só uma ou mesmo nenhuma. Cada capítulo é uma tese e o autor olha o mundo como olha um NaNoWriMo eterno.

6) Autor Kinder Ovo: No ovo que é a sua história, cada final é uma surpresa. Pode ser algo bom e extraordinário que nos faz ainda querer estes ovos vinte anos depois de termos deixado a infância.
Ou pode ser um puzzle.

7) Autor Nora Roberts: A história é Policial eeee… Olha, Romance. A história é Mistério eeee… Olha, Romance. A história é Fantasia eeee… Olha, Romance. Não importa a categoria da história. Não importa que a sinopse diga ser sobre as atribulações da primeira colónia da Terra em Marte. Não importa que o Prólogo apresente o relato pormenorizado de um assassinato com requintes de crueldade. Não-im-por-ta. O Romance vai dominar e prontamente colocará quaisquer outros elementos do enredo em segundo plano.

8) Autor Barroco: Se as suas histórias se materializassem, seriam um altar em talha dourada com tanto anjo, tanta parra, tanta uva e tanto detalhe que uma pessoa nem se sente tentada a rapinar aquilo só por conta do trabalho que seria desmontar tudo para venda no mercado negro. Este Autor quer tanto, mas tanto escrever de forma bonita e poética que se esquece de dar sentido ao conteúdo. Embelezar a escrita, ok. Arrancar-lhe o sentido, menos ok.

9) Autor Déjà-vu: Também conhecido por Autor Dan Brown. Lemos uma história, está fixe. Lemos outra história, sentimos uma ligeira comichão, algo como um eco… Lemos outra história “Espera aí… Eu já li isto!” Pois é, pois é. Este Autor é aquele que, descobrindo uma fórmula, não consegue usar outra coisa, acabando por dar a sensação ao leitor de estar a mascar uma chiclete que há muito já perdeu o sabor.

10) Autor Kamasutra: É Orange, é Lemon, é Hentai. A salada pode ser de uma só fruta ou de várias, a certeza é esta: cada história, cada capítulo, terá sexo. Bem ou mal descrito, bem ou mal inserido, com ou sem enredo, o sexo está lá. E se reclamar tem especial de suruba.

11) Autor Eu Devia Estar a Pagar Para Ler Isto: Ah. Este Autor. Este Autor é aquele autor perfeição que uma pessoa se questiona se não será também missionário para colocar assim aquela maravilha de história na net, de graça, para toda a gente ler. Este, meus queridos, é o Autor que deveria ter publicado a sua história em livro, livro esse que iria direitinho para a nossa biblioteca privada, e irá mesmo caso o Autor se decida ainda em publicar.

Há mais? Pois claro que há mais, mas o artigo prolonga-se e ainda temos uma outra categoria a listar. Levantados assim os principais Tipos de Autores Atendendo às Histórias, fiquemos então com o mais comuns Tipos de Autores Atendendo ao Seu Comportamento:
1) Autor Nova Temporada de Sherlock, Moffat: Ninguém sabe, ninguém viu, ninguém ouviu. Este Autor escreve divinamente, eleva os nossos parâmetros de leitura de fics, deixa-nos a salivar pelo capítulo seguinte… E desaparece. Para voltar com novo capítulo, de umas dez mil palavras, um ano depois. Por vezes traz também umas desculpas consigo, a promessa de não voltar a desvanecer-se por tanto tempo. Outras nem se dá ao trabalho. Já sabe que voltará a fazer o mesmo – e nós também.

2) Autor Atlântida: Dizem que a sua história existiu. Por vezes aparece alguém a contar sobre um amigo de um amigo que ainda leu uns capítulos. Ou com vestígios que dizem ser tudo o que resta dessa história. Não sabemos. Dizem que existiu, mas que o autor, do nada, lançou o apocalipse sobre a história e apagou-a da eternidade. Pior ainda é quando isto parece acontecer com várias das suas histórias ou *arquejo de horror* com o próprio perfil do Autor.

3) Autor Pontualidade Britânica: Àquele dia, àquela hora, àquele minuto, o capítulo está postado para leitura. Não há preguiça, não há bloqueio, não há compromisso social que impeça este Autor de cumprir escrupulosamente a meta que ele próprio determinou. A pontualidade britânica pode já ser mais fama que realidade, mas a deste Autor never!

4) Autor Olha a Chantagem: Não tem 7578392276 comentários na fic? Não tem 752816562 recomendações? Pois que se lixe quem está a acompanhar a história com reviews no momento em que o novo capítulo sai, ou que opta por usar o pouco tempo livre que lhe aparece para se dedicar àquela fic. Isto a partir de agora é uma vending machine: sem enfiar a moedinha e chegar ao numerário X, não há actualização.

5) Autor Alagoinha: Este Autor nunca sabe muito bem onde está. Acordou despassarado ao pé de uma mini-lagoa e não sabe ainda o que fazer. Também anda meio atarantado. “Epah, esta minha história de Naruto não é Original? Mas se a história é minha…” “Como assim, sexo tem de ser +18? Mas se eu é que escrevi e tenho treze…” “Quer ler minha história? Como assim, vai denunciar por enviar propaganda por MP?”
Usualmente este Autor é o casulo da maioria dos Autores, deixando a Alagoinha enquanto borboleta quando decide ler as regras de uma vez por todas, ou ganha idade e experiência, ou ganha Noção.

6) Autor Saco de Doçura: Ele faz notas iniciais. Ele deixa notas finais. Ele responde às reviews. Ele responde às MPs. Ele envia MPs a agradecer favoritos e recomendações. Ele é hoje e sempre um amor de pessoa em tudo o que escreve (excepto em relação às próprias histórias, que são descrições detalhadas de desmembramentos humanos, numa narração em primeira pessoa do sádico psicopata). A impressão que temos deste Autor é que um dia que nos encontremos, surgirá a voar numa nuvem de algodão-doce com um saco de guloseimas para nos entregar.

7) Autor Monólogo de Camões: Se tivessem prestado atenção aos Lusíadas, saberiam dizer de imediato qual a principal característica deste Autor. Mas não prestaram, pois não, seus malandrecos? Então cá vai: também Camões acusou os seus contemporâneos de não saberem valorizar a Literatura-da-Boa (vulgo, ele próprio). Mais do que isso, conseguiu tornar esse “mimimimi” em versos que fazem agora parte do “grande livro da Língua Portuguesa”. Este Autor pode ou não ter as capacidades de Camões, pode ou não vir a ter a sua fama (pista: a maioria não terá nem uma coisa nem outra) e pode ou não ter a mesma capacidade de vir a ser odiado em massa por estudantes que desejavam muito, mas mesmo muito, que o predicado estive seguidinho ao sujeito. Mas só uma coisa é certa: também este Autor sabe reclamar quão subvalorizado é. E fá-lo. Longa e repetidamente. Para nosso bem, não em verso.


Mais uma vez: há mais? Claro que há mais. Mas é tarde e tenho de me fazer à vida, pelo nos ficaremos por aqui. Lembraram-se de mais algum? Deixem nos comentários. Identificaram-se com um? Com vários? Com mais do que gostariam? É, pois, acontece. Haja alegria (e muita escrita).

REFERÊNCIAS
Experiência pessoal.
Experiência de outros betas e autores (especial agradecimento à Ana Luísa Coelho, à Last Rose of Summer, ao Jean Claude, à Lady Salieri e à Anne L).

Resenha: A Sorte do Perdedor


Resenha por: Elyon Somniare


BARCELLOS, Renan – A Sorte do Perdedor, Minas Gerais, Buriti, 2014

Sinopse: Dick Randy, um exímio piloto e cara de pau, prometeu a se mesmo nunca retornar ao planeta de Valhalla. No entanto, o que ele descobre na carcaça de uma nave, acaba mudando tudo. Os rebeldes pretendem causar uma guerra entre as três raças que habitam aquele sistema e só Dick Randy pode impedir que isso aconteça. E, claro, arrancar alguma recompensa do exército. Porque, afinal de contas, um cowboy à moda antiga sempre pode usar uma grana extra.

Resenha: Noveleta SciFi, a narração começa com o background do protagonista, Dick Randy, e, por conseguinte, com a construção da personagem. Apesar de este início pender mais para o tell que para o show, o facto de não ser expositivo e de utilizar a construção frásica e os vocábulos a favor de uma construção vívida dos pontos importantes do passado de Dick faz com que não se torne aborrecido, ao mesmo tempo que cria um interesse imediato, seguido por empatia para com a personagem.
Após estabelecer o background e a construção do protagonista, o autor avança demonstrando ao leitor qual a situação actual. Informações sobre as raças alienígenas e as suas relações entre si, necessária à contextualização do enredo e do worldbuilding, são expostas através de conversa e interacção de bar, dando-lhe um travo das narrativas do Velho Oeste. Para aqueles leitores mais atentos e de melhor memória será fácil aperceberem-se, já no final do conto, terem tido os primeiros indícios de foreshadowing a bailar neste episódio narrativo.
O enredo encontra-se bem planeado e estruturado, com uma sequência de acontecimentos onde até o mais banal demonstra importância para o encadeamento da linha da história. Não são raras as vezes em que o protagonista, um anti-herói com esperteza de sobra e falta de filtro na língua, se vê em posições difíceis – criadas ou pioradas por si próprio. Procurar saber como escapa delas torna-se numa sensação de antecipação durante a leitura. Alerto, no entanto, que atendendo ao cardápio que vemos da sorte do Perdedor, o twist final pode tornar-se previsível para alguns dos leitores.

Entrevista: Renan Barcellos



Renan Barcellos é baiano, nascido em 91 e está fazendo faculdade de Jornalismo mais na esperança de que isso vai ajudar na sua arte do que por vontade de trabalhar na área. Escreve principalmente Fantasia, mas gosta em igual medida de Ficção Científica (se não mais) e às vezes escreve algo por fora desses gêneros. Sua vontade é de escrever coisas realmente significativas, tem um problema com o tamanho de suas obras; mais de um conto já se transformou em um romance ainda inacabado.
Publicou pouco, mas pretende publicar mais. Por enquanto foram só dois contos na antologia Sinistro! 2, o conto “O Último Dia de Bad Block”, na antologia Imaginários 5 e publicou também um livro chamado de A Sorte do Perdedor, através da editora Buriti. Alguns trabalhos podem ser encontrados no blog “E Outros Cenários” (eoutroscenarios.wordpress.com) e no seu perfil do wattpad (http://www.wattpad.com/user/RenanBarcellos)




Liga dos Betas (LB): Antes de mais, muito obrigada por teres aceitado esta entrevista para a Liga. “Antes de menos”, a pergunta de abertura: como começaste a escrever e como se iniciou o processo de publicares os teus escritos no Nyah?

Renan Barcellos (RB): Eu não me lembro muito bem, já devem ter uns oito anos que eu comecei a escrever para o Nyah. Quando eu comecei a escrever fanfics, eram fanfics sobre Resident Evil e no falecido Orkut tinha uma comunidade chamada "Contos de Resident Evil" onde o pessoal postava o que tinha escrito. Depois de começar a postar lá, em algum momento fiquei sabendo do Nyah e "migrei" aos poucos para lá.

LB: Sentiste grandes diferenças quando começaste também a publicar no mercado editorial? A nível do processo, da recepção, de ti mesmo enquanto escritor, entre outros?

RB: Pra falar a verdade, não muita. O que eu escrevia no Nyah não tinha muito público, a maioria dos leitores eram amigos mesmo, e minhas publicações no mercado são pequenas, de tiragem baixa, então não houve realmente um "impacto". Mas já aconteceu de alguém que eu não conhecia vir me perguntar se era eu o autor de A Sorte do Perdedor, ou se tinha participado da antologia Imaginários 5, o que foi bem legal. Eu diria que o que mudou de lá pra cá foi meu próprio "autoconhecimento" enquanto escritor, mas eu não sou, digamos, "deslumbrado" pelas minhas publicações. Na maior parte do tempo nem lembro delas.

LB: E a faculdade de Jornalismo está a revelar-se a ajuda que esperavas?

RB: Na verdade eu não esperava que fosse ajudar realmente, era só uma esperança. Mas acabou trazendo uma ajuda sim, embora não tenha sido exatamente a parte de Jornalismo. Não acho que as oficinas de escrita tenham me ajudado a melhorar em questões literárias, por exemplo. Mas o que aprendi sobre Teorias da Comunicação, Semiótica e Estética tem sido muito interessante. Talvez não me façam escrever melhor, mas acho que me ajudam a ser um escritor melhor e entender mais sobre arte, literatura e o meio literário. Acho que isso é importante. O jornalismo em si ajuda muito porque quem exerce passa a conhecer um monte de coisas novas, conceitos, ideias, lugares, acontecimentos, pessoas... Isso não vem tanto com a faculdade, mas depois dela, trabalhando mesmo. E no momento eu ainda estou trabalhando com computação.

LB: Tanto n’A Sorte do Perdedor como nas fics que tens disponíveis no Nyah os protagonistas são homens de língua afiada e mente rápida, com características peculiares, mas que parecem não ser muito amados pela maioria das pessoas que os rodeiam. Diria mesmo serem anti-heróis. Algum motivo em particular para gostares de trabalhar com este tipo de personagens?

RB: Acho que um dos principais motivos é que nunca gostei de brucutus. Não cheguei nem a assistir o filme Mercenários. Então as virtudes dos meus personagens acabam se voltando mais para inteligência. Além disso, eu não curto muito o estereótipo do herói bonzinho, mas também não gosto de personagens muito arrogantes e prepotentes, embora eu tenha personagens dos dois tipos. Em A Sorte do Perdedor, a personagem ser dessa forma foi extremamente proposital, a personagem precisava ser assim para a história seguir em frente, ele é exageradamente debochado e irritante. Em outras histórias, os protagonistas são mais tridimensionais. Mas eu não acho que a maioria dos meus protagonistas seja desse jeito. A maioria deles realmente é meio espertinha, mas acho que poucos são difíceis de se gostar, do ponto de vista das outras personagens.

LB: Na tua biografia referes que a tua vontade é escrever coisas realmente significativas. Poderias elaborar? Há algum relacionamento com o teu “autoconhecimento” enquanto escritor?

RB: Essa é um pouco complicada, mas vou tentar. Assim, eu gosto das minhas histórias, acho que (algumas) são divertidas, outras interessantes, talvez algumas sejam emocionantes, não sei dizer, e, em geral, acho que são bem escritas, ou pelo menos escritas tão bem quanto eu poderia escrever na época que trabalhei nelas. Mas eu sinto vontade de escrever algo que parecesse realmente belo (ou quem sabe belamente grotesco, a depender da situação), que estivesse carregado de poesia. Que falasse sobre o mundo, sobre os dramas dos seres humanos, que, em geral, tivesse uma sensibilidade e realmente tocasse as pessoas. Não acho que minha história seja o tipo que exprime sentimentos. O que eu quero normalmente é apenas contar uma boa história, na qual o leitor se aproxime da situação e dos personagens, mas como um todo, acho que não passam nenhum sentimento, em geral. Mas eu acho que tiveram coisas que eu escrevi que eu consegui, ou pelo menos cheguei mais perto, dessa "significância", que foi no conto “O Despertador” e na noveleta A Última Torre.

LB: De certo modo é como se te desdobrasses em dois escritores a quererem coisas diferentes, mas não necessariamente opostas. Atrevo-me a dizer que vimos os teus objectivos, então fica a questão: como é o processo de escrita que os torna possíveis? Planeias ou vais inventando conforme escreves? Bloqueios criativos são um problema?

RB: Eu tenho vários daqueles caderninhos pequenos, só com anotações de histórias que eu ainda nem comecei a escrever. Tem um livro, que pretendo escrever, que terá doze protagonistas (parece muito, mas a estrutura permite isso, foi planejado), e eu estou fazendo um resumo da história inteira do ponto de vista de cada um deles. Então, é, eu planejo bastante. Mas de vez em quanto eu escrevo contos curtos em que vou pensando tudo na hora. E tem também uma experiência que eu faço que é escrever uma história longa colocando a primeira coisa que vier em minha cabeça. Bloqueios criativos não são um problema há muito tempo. Eu simplesmente não tenho eles há muito tempo (na verdade, excesso de ideias é que é um problema para mim). Só que eu me distraio fácil e às vezes perco o foco. Ou então paro algo que estava trabalhando para trabalhar em outra coisa porque me chamou mais a atenção.

LB: E em relação à revisão? Sabemos que utilizas beta-readers para algumas das tuas histórias, mas como funciona a escolha desses mesmos betas e o equilíbrio entre aquilo que todos eles dizem e aquilo que tu próprio pensas?

RB: Acho que não tenho um método para escolher beta readers; três amigas minhas, a Iara, a Juliana e a Rebeca, normalmente lêem as coisas que escrevo, pelo menos as que eu consigo terminar. Às vezes peço para outros amigos lerem também. Mas os betas normalmente me ajudam mais com revisão e dizer como foi a experiência da leitura. Em se tratando da história em si, personagens e estrutura, normalmente eu converso sobre o assunto no grupo de escrita que eu participo, A Taverna do Trapeixe. Agora, em questão do equilíbrio eu não sei muito o que dizer. Não sei se tem um método que eu uso. A maioria das coisas que apontam eu modifico, mesmo que não seja exatamente para a sugestão que deram. Mas às vezes não acho apropriado modificar, ou mesmo que esteja estranho, prefiro manter como já estava. Varia muito.

LB: Passando para a leitura, há alguma obra que tenhas como sendo uma grande influência na tua escrita?

RB: Definitivamente a minha maior influência foi O Senhor dos Anéis, que eu li aos doze anos. Eu li Harry Potter um ano antes de SdA, mas SdA me conquistou muito mais, provavelmente porque eu jogava e lia coisas sobre RPG. Depois disso, creio que fui muito influenciado pela série Torre Negra de Stephen King e as obras de Lovecraft. Mais ou menos quando entrei na faculdade, em 2009, descobri os clássicos, e Os Miseráveis e Guerra e Paz me marcaram bastante. É engraçado que eu gosto de pensar em Ficção Científica, e inclusive um dos contos que publiquei é de Ficção Científica, mas não acho que tenha nenhum livro do gênero que realmente tenha me marcado. O que é engraçado, já que é o gênero que eu mais admiro. Já ia esquecendo, a leitura de histórias em quadrinho me influenciou bastante também.

LB: Alguma razão em particular para gostares tanto de Ficção Científica enquanto leitor, mas não teres nenhuma obra em específico desse género que te tenha influenciado enquanto autor?

RB: Acho que é porque quando comecei a realmente ler Ficção Científica eu já escrevia há certo tempo. Então, algumas obras de Ficção Científica me impressionaram bastante, como Duna, A Máquina Diferencial e Neuromancer, mas não chegaram a afetar, de modo geral, a forma como eu escrevo. Eu tenho histórias cyberpunk e steampunk, e Neuromancer e A Máquina Diferencial são duas grandes referências do gênero, mas eu já tinha tido contato com os gêneros em jogos, ou HQs ou RPGs, então não exatamente me abriram os olhos para algo novo, embora sejam livros muito bons.

LB: E enquanto leitor de fanfics? Que opinião tens dessa experiência?

RB: Eu acabei lendo bem poucas fanfics. Na maior parte das vezes só coisa escrita por amigos mesmo, ou na comunidade Contos de Resident Evil. No Nyah, acabava lendo mais histórias originais. Em geral, eu não gostava muito dos fandons de alguns animes. Muitas vezes a história era escrita de forma relapsa e sem muito esmero. Divertidas pra quem gosta só de escrever baseado em algo que gosta e divertidas para quem gosta de ler coisas do fandom. Mas eu preferia ler originais mesmo.

LB: Que terias então a dizer sobre essas originais que leste no Nyah?

RB: Ah, em geral as originais eram muito boas, ou pelo menos tinham potencial (quando não eram fanfics disfarçadas). E eu digo fanfic disfarçada não só pelo tema ou por ser basicamente igual a alguma obra. Mas a maioria dos fandoms tem seus tropes e seus vícios de linguagem. E acho que muitas vezes o estilo do fandom pode acabar suplantando o estilo do escritor. Claro que não acontece com todo mundo, mas acho que acontece bastante. Às vezes eu lia uma original no Nyah e conseguia adivinhar que fanfics o autor escrevia (quando escrevia). Um exemplo rápido, na maioria das fanfics de Naruto, se referiam a Naruto como "o loiro", Sasuke como "o moreno" e Sakura como "a rosada". E já vi usarem esse modo de diferenciar personagens em obras originais (inclusive com o "a rosada"). O autor, óbvio, escrevia fanfic de Naruto. Isso que estou mencionando não é SEMPRE ruim. Na verdade não é necessariamente ruim, mas acho que é algo que precisa se ter atenção. Lembro de uma vez que me passaram uma passagem de Cinquenta Tons de Cinza e eu perguntei "Que fanfic é essa?", porque algo na estrutura me fez pensar que era de uma fanfic.

LB: Para finalizar, há algum conselho que possas dar àqueles ficwritters que desejem entrar no mundo editorial?

RB: Em se tratando de escritores ainda novos, acho que é importante escrever também histórias curtas. A maioria das pessoas quer escrever um romance, ou uma trilogia, ou uma série maior do que Wheel of Time, mas muito provavelmente não vai ter experiência para escrever algo desse tamanho que fique realmente legal para ser publicado. Embora, claro, isso seja apenas uma opinião baseada no que eu vi e vivi. Um conselho valioso, e esse não é meu, mas de Neil Gaiman, é para que quem escreve não só comece a escrever, mas também termine. Eu digo isso porque eu escrevo há mais de oito anos e nem de longe terminei tantas coisas quanto poderia. Tem histórias que eu deixei de lado faltando 10% para terminar. E, afinal de contas, para conseguir ser publicado é preciso ter uma história completa. Ninguém vai publicar uma história incompleta (e em se tratando de autores iniciantes, provavelmente também não vai publicar o primeiro livro de uma série por concluir). Eu recomendaria que as pessoas não se preocupassem em publicar, que se preocupassem em melhorar enquanto escritoras, em entender os próprios processos e limitações e criar algo que seja verdadeiramente "seu". Mas em se falando de quem realmente deseja publicar, o início normalmente vem a partir de contos ou histórias curtas em antologias que dificilmente vão dar o retorno que gostariam. Mas ainda assim, é uma alegria publicar um conto, mesmo que não seja uma graaaande publicação. E a cada conto publicado, mesmo que seja pequeno, pode se fazer mais contatos, ter mais destaque no meio literário e entender mais do ambiente. Eu, por exemplo, conheço uma entrevistadora portuguesa que tinha planos malignos de dominar as antologias brasileiras, lançando contos em todas que conseguisse. Eu acho uma ideia interessante e viável.

LB: Não faço ideia de quem falas, ahah. Muito obrigada pelo tempo disponibilizado e pela entrevista, que tenho a certeza será de interesse para os leitores do blog!


Na próxima Quinta-feira postaremos a resenha à noveleta A Sorte do Perdedor, de Renan Barcellos, publicada pela editora Buriti.

Resenha: Cidades de Papel



Por: Takahiro Haruka

Olha quem chegou! Olha quem tá aqui! A Noni, gente! De novo! Ai, eu adoro vocês! Faz um tempinho que não passo por aqui. Desta vez trago mais uma resenha, espero que gostem.

Título Original: Paper Towns 
Título Brasileiro: Cidades de Papel 
Autor: John Green
Editora: Intrínseca
Tradução: Juliana Romeiro


Sinopse: Quentin Jacobsen tem uma paixão platônica pela magnífica vizinha e colega de escola Margo Roth Spiegelman. Até que em um cinco de maio que poderia ter sido outro dia qualquer, ela invade sua vida pela janela de seu quarto, com a cara pintada e vestida de ninja, convocando-o a fazer parte de um engenhoso plano de vingança. E ele, é claro, aceita. 

Assim que a noite de aventuras acaba e um novo dia se inicia, Q vai para a escola e então descobre que o paradeiro da sempre enigmática Margo é agora um mistério. No entanto, ele logo encontra pistas e começa a segui-las. Impelido em direção a um caminho tortuoso, quanto mais Q se aproxima de Margo, mais se distancia da imagem da garota que ele achava que conhecia. 




Resenha: Cidades de Papel conta a história de Quentin Jacobsen, um rapaz que está a dias de se formar no ensino médio. O livro conta sua aventura procurando por Margo Roth Spiegelman, sua vizinha que, de repente, some, deixando pistas que só ele é capaz de desvendar. É um livro espirituoso e cheio de autorreflexão. No prólogo, Margo e Quentin se deparam com o corpo de um homem morto no parque perto de suas casas. O fato em si não tem grande influência no enredo, mas contribui para a construção da parte moral e intelectual — detalhes de suma importância para a história.

Quando o enredo se inicia, Quentin se apresenta como um estudante nerd, viciado em sempre falar tudo gramaticalmente correto, enquanto que Margo, sua amiga de infância, é a típica garota popular que todos adoram. Ele é apaixonado por ela e sofre bullying por seus amigos. Em uma noite, Margo invade seu quarto pela janela e o convida a viverem uma aventura — mal imaginava ele que ali era o início de tudo. Margo quer se vingar de seu namorado, que a traía, e de seus amigos, que sabiam sobre a sucessão de traições e nunca lhe contaram. Para isso, ela precisava que seu vizinho servisse como motorista particular por algumas horas. Quentin aceita.

A suposta aventura se mostra um sucesso, e Quentin acredita que, no dia seguinte, tudo terá mudado entre ele e sua vizinha. Mas não é isso o que acontece. Margo Roth Spiegelman está desaparecida. A 23 dias de sua colação de grau. Parece, aos pais dela, que é só mais uma das muitas tentativas de Margo de chamar atenção, mas Quentin não vê assim.

E quando ele começa a achar pistas de para onde Margo foi, ele tem certeza de que não é só isso mesmo. Ele acha que Margo está morta e começa uma busca implacável por ela, com a ajuda de seus dois amigos — Radar, um rapaz negro cujos pais são obcecados por Papais Noéis negros, e Ben, que foi apelidado de Ben-Mija-Sangue por causa de uma Infecção Renal. Na busca por sua amiga e paixão não tão secreta, Quentin faz coisas que, em situações normais, não faria, como faltar às aulas, fingir estar doente, invadir propriedade alheia e dirigir acima da velocidade permitida. Em sua busca por pistas que o levem até Margo, ele se redescobre como pessoa e passa a ver o mundo e as pessoas com olhos diferentes.

Depois de horas viajando por interestaduais, de Orlando a Nova York, e de fazer xixi em garrafas de cerveja dentro do carro, e quase colidir o carro com uma vaca branca no meio da estrada, Quentin finalmente encontra Margo. Mas nada do que ele imaginava era verdade. Ela não deixou pistas para ele procurá-la. Ela só queria que ele nunca se esquecesse dela.

O livro, em si, é um ótimo suspense. Quando Margo desaparece, você logo se interessa em saber onde ela está. E quando as pistas vão aparecendo e se encaixando, você fica ainda mais ansioso em saber o que aconteceu com ela e como tudo vai acabar. Mas, conforme a história vai se desenvolvendo, você se cansa. É uma característica de John Green chegar em um momento em que o leitor começa a se entediar e a querer que acabe logo. O personagem começa a ser repetitivo, e você começa a se injuriar dele. As pistas não levam a lugar nenhum e você pensa: "é tudo perda de tempo". Até que a pista final aparece, e um rumo é tomado, é muito fácil você simplesmente desistir da leitura.

E, finalmente, o desfecho. Talvez por termos esperado tanto, vencido o tédio, acreditado no Quentin e xingado a Margo por suas pistas incompreensíveis, o final deixa um gostinho amargo na boca e você simplesmente descobre que é isso: ela não queria ser encontrada. Ela age como uma garota idiota e mal-agradecida, simplesmente pouco se importando com o esforço que o grupo — Quentin, Radar, Bem e Lacey, namorada de Ben e amiga de Margo — fizeram para encontrá-la. Margo reconhece, depois de conversar com Quentin, que estava errada por sumir daquele jeito, eles fazem as pazes e fim. Ela vai ficar em Nova York, viver uma vida de aventuras, e ele vai voltar para Orlando, para uma vida normal — estudar, trabalhar, casar, ter filhos.

Não há nada de surpreendente em "Cidades de Papel", na minha opinião. É uma aventura que talvez soasse melhor em animação (no sentido de virar um filme e, opa, já virou, só falta estrear), mas com um final tão superficial que é como se John Green não tivesse realmente se preocupado com isso. Exato, talvez seja isso: tão preso à importância de construir um bom meio, ele se esqueceu do fim. Ou talvez a intenção fosse ser um livro mais reflexivo do que uma aventura com um final emocionante. As reflexões que Quentin faz, refazendo seu modo de pensar para descobrir uma Margo que, no fim, não existia (era fruto de sua mente), nos leva a refletir se não somos assim também: vemos as pessoas como as imaginamos serem e, quando descobrimos que elas erram como nós, possuem rachaduras como nós e sucumbem aos sentimentos pessimistas e melancólicos como nós, nos decepcionamos. É, talvez seja um livro para refletir sobre inter-relações.



Gostaram da resenha? Que tal ler o livro e deixar um comentário com a sua opinião sobre ele?

Títulos Nobiliárquicos


Por: SayakaHarume

Saudações, jovens de todas as idades que acharam o caminho para este artigo! Hoje vamos falar de um assunto um tiquinho complicado à primeira vista, mas depois que se pega o jeito, você vai estar escrevendo praticamente no modo automático, juro. Já tivemos um artigo falando sobre Títulos de Nobreza e Pronomes de Tratamento, mas como eu sou obcecada por isso, resolvi expandir a explanação. Então, vamos lá?

Antes de passar para os títulos propriamente ditos, gostaria de falar um pouco sobre como eles eram adquiridos e/ou herdados. Essas leis mudavam com o passar dos anos e também variava dependendo da localização do reino. Como não pretendo fazer disso uma aula de história, vou me prender à realeza britânica e francesa da Alta Idade Média, de onde é mais comum os autores retirarem informações para criar a nobreza de seu novo mundo, além de serem mais simples. Se houver pedidos, posso fazer depois um outro artigo falando também sobre como era na Baixa Idade Média, mas acredito que não é estritamente necessário.

Alta Idade Média (476 D.C ― 1000 D.C)


Nessa época, a nobreza era constituída de cinco graus gerais: Duque, Marquês, Conde, Visconde e Barão. Cada um tinha uma função dentro do reino e respondia ao Rei e à família real.

No Império Romano, esses títulos podiam ser revogados pelo Imperador a qualquer instante e seus portadores eram remunerados em dinheiro por meio dos impostos arrecadados pelo Império. Isso mudou durante o Império Carolíngio (que, para quem não é bom em história, foi o Império que tomou a Europa entre os anos 800 e 888), onde os títulos viraram hereditários, vitalícios e inseparáveis da propriedade feudal de um território. Ou seja, o título estava ligado àquele pedaço de terra. 

Como o feudalismo estava se estabelecendo, não existia muito comércio, então a forma de recompensar alguém seria dando um feudo ao dito-cujo, junto com o título que o feudo levava. Quem recebia esse feudo se tornava um vassalo do superior, seu suserano. Era possível ser vassalo e suserano ao mesmo tempo. Um Duque poderia ceder um pequeno feudo a quem lhe prestara um serviço de grande valia, mas continuava sendo um vassalo de seu soberano.

Por exemplo, em Westeros, todas as grandes Casas são vassalas da Casa Baratheon, que é a atual portadora do trono de ferro, mas cada uma tem também seus vassalos. Entenderam? 

Nessa época tranquila, quem recebia o título podia ficar com ele por toda a vida com tranquilidade, uma vez que a lei não permitia que ele o perdesse, nem as suas terras, a não ser se cometesse um crime grave ou não cumprisse suas obrigações para com seu suserano e as leis do reino.

Quanto à hereditariedade do título, quando o portador falecia, seu filho mais velho herdava tudo e ia até o suserano fazer o juramento de fidelidade. Mas e aí? E quando o falecido não tinha filho homem? Na Inglaterra, Itália, Península Ibérica e na maior parte da França, ia tudo para a filha mais velha. Embora ela pudesse usar o título, era algo apenas no papel, por que o controle de tudo iria para o marido, se ela fosse casada. Já em outros lugares, mulheres nunca herdavam. Na falta de um filho, o herdeiro seria um irmão do falecido, e, se este também estivesse morto, o título iria para o sobrinho. Se não houvesse filhos, irmãos ou sobrinhos, mas uma filha casada, o título iria direto para o neto. 

Na França da Baixa Idade Média, as mulheres foram ainda mais excluídas. Para explicar esse método complexo, vou ilustrar com o seguinte exemplo: O Duque de Tangamandapio teve três filhas, e todas se casaram e lhe deram lindos netos. Tristemente, o Duque morreu sem ter um filho homem. Seus irmãos estavam mortos e nenhum deles teve filhos. Podia um dos netos do Duque herdar o título? Não. Podia o filho de uma irmã herdar o título? Não. A hereditariedade seguia uma linha masculina direta. Então quem herdava o título e o ducado? Ninguém. Voltava tudo pra mão do soberano. Isso tudo pra evitar ingleses de herdarem qualquer coisa durante a Guerra dos Cem anos e centralizar o controle dos feudos na mão do suserano.

Então vamos, enfim, para os títulos!

Posição/Título
Saudação
Função
Imperador/Imperatriz
Vossa Majestade Imperial/ Vossa Majestade¹
Soberano de Império
Rei/Rainha
Vossa Majestade/ Vossa Graça
Soberano de Reino
Príncipe Imperial/Princesa Imperial/ Príncipe Real/ Princesa Real/ Príncipe/ Princesa²
Vossa Alteza Imperial/ Vossa Alteza Real/ Vossa Alteza²
Filho e herdeiro do Imperador/Rei/ Senhor semi-independente do Reino/Chefe de Estado de um Principado²
Duque/Duquesa
Senhor Duque de Z/ Vossa Graça, o Duque³
Governador ou comandante militar de uma ou mais províncias.
Marquês/Marquesa
Vossa Senhoria/ Senhor Marquês de Z/ Meu Lorde, Minha Lady
Controla territórios nas fronteiras estrategicamente importantes, que podiam ser invadidas
Conde/Condessa
Vossa Senhoria/ Senhor Conde de Z/ Meu Lorde, Minha Lady
Governador de uma região menor do ducado/ Ministro, cortesão ou emissário do Imperador/Rei
Visconde/Viscondessa (*)
Vossa Senhoria/ Senhor Visconde de Z/ Meu Lorde, Minha Lady
Braço direito do Conde, e controlava o território na ausência deste, e quando o Conde possuía mais de um condado, era comum estes serem administrados pelos Viscondes
Barão/Baronesa (*)
Senhor/Madame
Geralmente possuíam cargos políticos envolvendo fiscalização
Senhor/Senhora
Vossa Senhoria/ Senhor de Z
Administradores de pequenos territórios importantes
Cavaleiro
Sir
Título dado por suseranos a soldados/oficiais que tenham demonstrado bravura no campo de batalha ou em torneios ou outra ocasião pertinente
Aristocratas e homens ricos, mas que não possuíam título de nobreza
Vossa Senhoria/ Mestre
Basicamente, cumprir suas funções como vassalos e súditos do Rei


(*) Títulos que só surgiram na Baixa Idade Média, embora existam registros da origem deles ainda na Alta Idade Média.

Nota 1: Mas tia, como o Imperador e o Rei podem ser chamados só de ‘Vossa Majestade’? Meu pequeno gafanhoto, como em um Império não tem reis, o Imperador entre amigos era chamado só de ‘Vossa Majestade’, mas em eventos oficiais, era ‘Vossa Majestade Imperial’.

Nota 2: E você pode me perguntar, com toda a razão: tia, que confusão é essa na linha de Príncipe/Princesa? Esse título é dado para os herdeiros do soberano. Para diferenciar entre os herdeiros da coroa e os outros, os herdeiros da coroa recebem um nome a mais no título, se for Império ou Reino. Também pode ser Príncipe/Princesa Herdeiro(a), Príncipe/Princesa da Coroa. Só que esse título não é exclusivo de filhos do soberano, mas também de Chefes de Estado do Principado, que é um território, dentro do Reino ou Império que cresce tanto a ponto de funcionar quase totalmente independente do resto do Reino. Ainda segue as mesmas leis, o Rei ainda tem a soberania, mas deixa o barco correr livremente (desde que não queira a independência total). Então o Duque (esses territórios que cresciam tanto assim geralmente eram ducados) clamava o título de Príncipe, porque não podia clamar o de Rei.

Nota 3: Esse segundo não tem flexão para o feminino, já que a Duquesa só era assim chamada por ser a esposa do Duque. Segundo as leis vigentes, uma mulher não poderia administrar um ducado. Aqueles chatos...

Erros Comuns


― Dirigir-se ao Rei ou ao Imperador como ‘Sua Majestade’. ‘Sua’ é usado só quando colega x está falando com colega y sobre o soberano. O mesmo ocorre nos outros casos. Quando se fala diretamente ao portador do título é ‘Vossa’, referindo-se a ele a uma terceira pessoa, usa-se ‘Sua’.

― Chamar os descendentes de um Duque ainda vivo também de Duque. Não é uma classe, é um título pessoal e intrasferível, como o CPF e o RG. Vale para os outros títulos também. Ah, e o filho de um Conde nem sempre é Visconde. Só se o pai resolver dar uma parte do condado para um filho mais novo. Ou mesmo pro mais velho, mas quando o Conde morrer, esse mesmo filho mais velho herda o título.

― Chamar um nobre de Lorde João ou uma nobre de Lady Maria. Lorde/Lady é sempre usado com o nome completo da pessoa ou apenas com o sobrenome. As princesas britânicas são exceção (Salve Lady Diana!). O mesmo vale para Senhor/Senhora.

― Chamar um cavaleiro de Sir Smith. Esse título é o contrário de Lorde/Lady, pois é usado com o primeiro nome, Sir João, ou com o nome completo, Sir João da Silva. O mesmo para Dama ou Dom (monarquia portuguesa/espanhola/brasileira).

― Usar Lorde para mulher que não seja a cantora Lorde (que piada horrível, eu sei). É sempre Lady, salvo em casos raríssimos, que eu sei que existem, mas não sei onde se escondem, porque são muito raros. Também não se pode usar Lorde para Imperador, Rei, Príncipe ou Duque.

― Confundir ‘nobre’ com o portador de um título de nobreza. Nobres eram pessoas bem nascidas e bem relacionadas, mas nem todas possuíam títulos.

― Agora, metendo o bedelho na construção do enredo, outro erro comum é fazer um impostor se passar por alguém com uma distinção mais alta, como um Duque, por exemplo, com facilidade. Seria como alguém tentar se passar por um governador. Faz sentido? Não, não faz.

― Chamar Rei por nome e sobrenome, quando isso nunca foi usado. Aliás, muitas famílias reais sequer tinham sobrenome, os filhos de reis e imperadores recebiam apenas o nome de batismo. Não pensamos muito nisso, mas... qual é o sobrenome de Sua Majestade Real, a Rainha Elizabeth II? Pois é, não tem. Você pode até me perguntar sobre a Casa Windsor, mas não é o sobrenome, é só a Casa da família real. Em Game of Thrones, série de livros que popularizou esse conceito, o Martin fez uma adaptação para seu próprio mundo. Se ele tivesse seguido a regra, os Baratheon (Casa que está no Trono de Ferro, apesar de só ter Lannister por lá) sempre seriam mencionados não como Robert Baratheon, ou Stannis Baratheon, mas Robert da Casa Baratheon, Stannis da Casa Baratheon, etc. Sinta-se livre para fazer adaptações na sua história de fantasia, mas se estiver escrevendo algo que se passa no nosso mundo, recomendo que siga a regrinha.

― Pensar na hierarquia dos títulos de nobreza como uma carreira, com promoções. Promoções são raras. Raramente aconteciam dentro da linha hereditária de uma família, e mais raramente ainda na vida de uma só pessoa. 

Como toda a regra, tem suas exceções, e se existe algo que você queira mudar, é só bolar aquela explicação bem legal e lógica, dentro do costume montado na sua história.

Enfim, gente, foi isso! Espero que esse artigo lhes tenha sido útil e que ajude a escreverem suas fanfics históricas ou fantásticas!

Milhões de beijos e abraços e cupcakes!