Por: Jean Claude

As fanfics interativas estão ganhando um espaço incrível no mundo da escrita. Com a sua forma inovadora de criar personagens e uma interação bem mais direta entre autor e leitor, esse tipo de fanfic vem se tornado popular justamente por ser uma experiência diferente tanto para quem escreve quanto para quem lê.
No entanto, como organizar tudo isso? Como manter as características clássicas de uma história já que o autor não tem total controle das personagens? Este post do blog orientará como fazer uma fic interativa e como deixá-la nos padrões literários, afinal, a história tem que continuar sendo boa, não é mesmo?
Obs: O termo “fanfic interativa” utilizado nesse post se refere às conhecidas “fanfics de fichas” e não às fanfics que utilizam o sistema html para modificação dos textos.
Passo 1 – Montando o seu enredo
Como qualquer história comum, a primeira coisa que você precisa fazer é montar um enredo. Faça a si mesmo(a) as seguintes perguntas:
I - De quantas personagens eu precisarei?
Quando você está fazendo uma fic normal, você também pensa nas personagens principais, certo? E, geralmente, com o tempo, você vai criando os secundários, os figurantes, etc. No entanto, tratando-se de uma fic interativa, lembre-se de que todos os leitores (que tenham uma personagem participante) serão personagens principais. Nenhum leitor vai gostar de saber que a personagem do outro é mais importante que a dele, isso gerará desinteresse.
Precauções: Tenha cuidado com os extremos! Não vá fazer poucos personagens, senão você atrairá poucos leitores, as vagas terminarão rapidamente e a interação não será bem proveitosa. Entretanto, também não vá exagerar na quantidade de personagens, lembre-se de que todas precisarão da devida importância, portanto, não crie mais do que você consegue administrar. Crie o que o seu enredo precisa, sem forçar.
II – O que eu pretendo fazer com elas?
Será uma história com foco no romance e todos terminarão em pares? Será uma competição em que só um sairá vivo? Qual será o destino da vida das personagens? Independente do que você escolha, deixe isso claro desde o início para o seu leitor, afinal, ninguém gostaria de ver, por exemplo, a sua personagem morrer logo no segundo capítulo assim, de surpresa. Se a proposta for eliminar personagens, faça eliminações justas que despertem a interação.
Precauções: Não se prenda a gêneros. Se você decidiu que a fic terá 8 vagas, não as faça 4 masculinas e 4 femininas, mesmo que a sua intenção seja unir todos no final, até porque um desses 8 pode ter uma sexualidade diferente ou pode ser que ele simplesmente queira aparecer na história, mas não deseje ser fruto de um casal. Se você uniu os casais e tem gente que quer um casal, mas sobrou, crie novos personagens ou, melhor ainda, abra novas vagas! Se a proposta envolver eliminação das personagens (não digo só morte, afinal, sua fic pode ser um reality-show, por exemplo), não elimine a personagem de determinado leitor só porque, por exemplo, os reviews dele são curtos, faça uma proposta justa, também não vá dar preferência àquele leitor que recomendou a fic antes de todo mundo.
III – Elas poderão mudar, diretamente, o rumo da história?
Se tem uma coisa óbvia é que toda personagem tem a sua história. Todas terão um conflito, um problema, um objetivo e, claro, obstáculos. E, no meio disso, está a história principal, o seu enredo. Decida se as suas personagens podem, ou não, causar alguma mudança à história principal (devido às suas próprias histórias). Caso a resposta seja positiva, é um bom momento para interagir com o leitor e perguntá-lo o que ele gostaria que a personagem dele alterasse.
Precauções: Claro que você, como autor(a), não é obrigado(a) a concordar com todos os pedidos e sugestões, afinal, imagina se você dissesse “sim” para tudo? Ficaria um caos, não é mesmo? Então pondere tudo e, se necessário, passe as ideias dos leitores por uma “peneira” e as encaixe da maneira que achar melhor.
IV – Qual tipo de interação eu quero com o meu público?
É preciso definir se os leitores atuaram apenas como leitores (e confeccionadores da personagem) ou se eles poderão opinar nas mudanças da trama. É claro que, independente do que você escolher, sempre virá um leitor dar aquela sugestão básica. Contudo, quando eu digo “sugerir”, nesse caso, é se o leitor terá que tomar uma decisão – pela personagem dele – durante todos os capítulos ou não. Caso a resposta seja positiva, esteja preparado(a) para ter que sempre criar várias versões de um determinado acontecimento, pois nunca se sabe o que um leitor pode pedir.
Precauções: Lembre-se de que, caso você escolha que o leitor terá que decidir, será preciso muita paciência, afinal, cada leitor tem o seu tempo de leitura diferente, então uns darão sua opinião mais tarde que outros. Não desconte na personagem de um determinado leitor só porque ele demora a mandar a decisão dele. Se for o caso dele demorar muito, faça com que a personagem realize uma ação neutra.
Passo 2 – Criando uma ficha
Com um enredo pronto, aquele capítulo de introdução já feito, está na hora de pedir as fichas! Mas, caramba, o que eu peço na ficha, Roberto? Bom, as características mudam, afinal, as histórias são diversas, mas aqui vão algumas sugestões:
I – Nome – Talvez a citação mais óbvia do post. Não preciso explicar a importância desse quesito, né? Se preferir, pode pedir, também, um apelido.
II – Idade – É importante, independente do tipo de história, afinal, ajuda muito na hora de imaginar características, principalmente físicas.
III – Classe, Raça, Distrito, Ordem, Casa, etc – Se a sua fic exigir alguma dessas coisas, algo que o segregue em qualquer tipo de grupo, é obrigatório estar numa ficha.
IV – Gênero – Para fins de identificação. Masculino, Feminino, Bigênero, Agênero, etc, como a personagem gosta de ser tratada, chamada e afins.
V – Características Físicas – Também não é preciso explicar a importância. Minha sugestão é pedir características escritas mesmo, mas, se preferir, pode pedir fotos/imagens.
VI – Personalidade – É a chave da personagem, é o que vai diferenciá-la dos demais, portanto, seja bem exigente e peça bastantes detalhes. Cuidado para não cair num beco sem saída e ver que todos os personagens são muito iguais, como, por exemplo, todos serem frios, antissociais e sem comunicação, até porque a comunicação é outra chave da fic, certo?
VII – Habilidades, Armas, Elementos, Talentos, Vocações, etc – Se for necessário para o seu enredo, esse quesito é indispensável!
VIII – País, Localização, Origem, etc – É opcional, mais para fins culturais mesmo.
IX – História – Fundamentalíssimo! É aqui que você precisa pedir a maior quantidade de detalhes possíveis. Organize bem as ideias e molde-as conforme o seu enredo.
X – Gostos e não-gostos, medos, sonhos – Pode não parecer tão importante assim, mas uma informaçãozinha dessas pode fazer a diferença em determinados capítulos.
XI – Orientação Sexual – Se a sua intenção for jogar algum romance, pergunte a sexualidade da sua personagem, é claro. Também pergunte se o leitor quer que a sua personagem tenha um par.
XII – Observações – Campo que serve para colocar quaisquer informações não contidas nos demais campos. É muito útil quando não se sabe mais o que perguntar.
Passo 3 – Prosseguindo com a história
Não é muito bom todas as personagens já aparecerem de uma vez. Todavia, também não é bom isolar um capítulo para cada personagem (a não ser que sejam poucos). A sugestão que eu dou é tentar cruzar as informações das personagens disponíveis. Sempre tem uma coisinha que, mesmo que pequena, mesmo sendo apenas um detalhe, já é o suficiente para o cruzamento dos personagens e, se o seu objetivo for unir todos, junte aos poucos, uma hora você conseguirá.
Além disso, lembrando que as personagens não precisam – nem devem – ser todas amigas, aproveite a quantidade de possibilidades e crie rivalidades! Polêmicas, caos! E quem é que não gosta daquele momento novela em que descobrimos que uma amiga traiu a outra? A fic, independente do gênero, tem que ter esses pontos, afinal, estamos falando de comunicação entre pessoas, ninguém se dá só bem a vida toda, não é mesmo? Inove! Tente ousar com os personagens, os leitores adorarão e sentirão o gostinho da rivalidade fictícia.
E o mais importante: como finalizar uma fic assim? Nesse caso, não é diferente de uma história original, até porque os personagens já estarão bem desenvolvidos, conhecidos na trama, como se fossem personagens seus. Justamente termine da mesma forma que você fez com todos os capítulos anteriores. Chega uma hora que a história fica tão dinâmica que às vezes nem parece ser interativa, pois a familiaridade com as personagens dos outros passa a ser bastante notável.
Observações:
I – Quando for postar o seu capítulo introdutório, poste um capítulo mesmo! É contra as regras do Nyah postar capítulos de aviso ou capítulos somente com fichas, portanto, deixe a sua ficha nas notas finais.
II – Tome cuidado na hora de pedir fotos/imagens para descrição física, ainda mais se pretende postá-las como hyperlink. Abusar do recurso hyperlink também é contra as regras.
III – Lembre-se de classificar a sua história corretamente, com os devidos gêneros e avisos. Lembrando que as alterações podem ser feitas a qualquer momento, isto é, podem ser editadas conforme o andamento da história.
Conclusão:
Fanfics interativas precisam ser bem administradas. As personagens não são suas (totalmente), portanto, é preciso ter bastante cuidado na hora de representá-las. Não hesite em perguntar ao(à) criador(a) da ficha sobre como a personagem dela agiria em determinado momento, pergunte mesmo, afinal, isso também faz parte da interação desejada. Faça propostas justas com as personagens e mantenha seus leitores antenados do possível!
Bibliografia:
Não há material profundo relativo ao tema. Baseei-me nas experiências próprias com fanfics do gênero (seja como autor ou como leitor).

Como escrever uma fanfic interativa

Posted by : Ligados Betas
15 dezembro 2014
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Por: Anne



“Com seus lindos fios dourados sendo atiçados pela brisa tépida da tarde, Mariazinha corria pelos jardins da redondeza.
Mariazinha gostava do lugar. Vivia em Perfeitanópolis desde que nascera. Com seus três irmãos, Perfucto, Perféilo e Perfeitício, dividia uma herança milionária. Perfucto era uma graça. Desde cedo inclinado à Literatura e às Artes, parecia mesmo com uma escultura grega. O corpo escultural, os membros todos muito chamativos. O sonho de todas as amigas de Mariazinha. Perféilo era um bad boy de olhos azuis, pele branco-pálida e boca avermelhada; sempre havia gostado de boas danceterias e de paquerar as líderes de torcida. Perfucto tinha lindos olhos amêndoas, uma cabeleira ruivo-acastanhada e uns músculos de doer na alma de tão lindos!” 

Acredite você ou não, caro escritor (seja do Nyah! Fanfiction ou de qualquer outro lugar, ou mesmo do Nyah! e de qualquer outro lugar), essa é a onda. Imagino que você já tenha visto, pelo menos uma vez, uma história onde os personagens, todos — não só o(s) protagonista(s), como é de se esperar —, vestissem a perfeição física. É comum, mesmo cotidianamente, que classifiquemos o belo como irresistível. É mais comum ainda transferir seus gostos, suas preferências físicas e seus padrões, sejam eles quais forem, para as narrativas que faz. Não tô julgando, não. E, mesmo que tivesse, você poderia me dizer (a arma mais potente): “A história é minha, a fic é minha, o futuro livro é meu; faço como quiser!”. Sim, você pode e deve fazer como quiser...
Só que o pessoal da Liga tá aqui pra ajudar. Nem falo muito “o pessoal” nessa postagem, porque pode ser que eu diga coisas com as quais algum deles não concorde, quem sabe? Mas voltemos ao assunto: vestir a perfeição. Antes de falar ou criticar qualquer coisa, coloquei um texto exemplificando o que quero dizer com “vestir a perfeição”. Na maioria das vezes, a perfeição também vem em forma de caráter — o personagem que sofre demais por seu caráter benévolo, altruísta e sempre perfeito —, mas vamos falar só da perfeição física (por enquanto?), porque isso seria assunto pra outro post.
Agora vou soltar uma bomba com a qual as pessoas que estão lendo ou lerão esse post podem concordar ou discordar profundamente (mas não me xinguem):
  •      É falta de respeito vestir a perfeição nos seus personagens.

Sim, pasmem. É falta de respeito? What? O personagem não é meu? A história não é minha? Vou ter que ter regras de escrita, agora?!
Não, gente. Nada de regras de escrita. Mas é que já vi gente (e eu mesma) que se sente incomodado com essa perfeição toda. Às vezes o roteiro da história é legal, o conteúdo é até bacana, você tá interessado...
... mas aí descobre que o autor coloca padrões perfeitos em todos os personagens. Muitas vezes sem querer. Sei como é. Também sou autora, também já fui assim. E a gente sabe que, quando você começa a descrever um personagem “por alto”, sem falar como ele se parece para os demais (bonito ou feio), sempre tendemos a imaginá-lo do jeito (que achamos) bonito. Vou te condenar ou me condenar por isso? Não, é claro.
   Mas nem só de perfeição vive o homem. Sabemos que vivemos numa sociedade onde existem muuuitos tipos diferentes de beleza. Não dá pra tacar só o nosso tipo numa história, por mais que seja nossa e não vá ser publicada e que escrevamos só por hobby. Não dá, entende?
      Eu sei que a maioria dos autores que estão no Nyah! não escreve somente pra si mesmo — até porque, se fosse assim, qual seria o motivo de postar num site? Sendo assim, é sempre bom dar dicas pra que você consiga agradar seu leitor. Não que essa questão da desmistificação dos padrões perfeitos vá ajudar só ao leitor a se interessar mais pela sua fic. Nada disso. Vai te ajudar, amiguinho escritor, assim como me ajudou. O mais comum de uma escrita iniciante com poucos detalhes e pouca variedade é isso mesmo: narrar personagens sempre bonitos, usando todos os adjetivos já aprendidos nos clássicos-clichês-adolescentes. “Ah, agora você tá dizendo que tem problema com os clichês e que quem escreve clichê é amador e iniciante?!”. Não, não, para com isso. Até pra narrar clichê é preciso ter dotes. Aliás, “até” não, porque o clichê não tem nada demais, mesmo. É uma forma de escrever e roteirizar sua história como qualquer outra. Mas o fato é que, meu caro gafanhoto, nem em clichês podemos adocicar tanto as aparências. Nada disso.
    “Ah, mas cada caso é um caso, querida”. Sim, queridos, é verdade: cada caso é um caso. Ex.: numa história que envolva mitologia, a maioria dos personagens — se não todos, o que eu acho muito entendível — vai carregar detalhes estéticos quase perfeitos. Perfeitos mesmo, algumas vezes.
   O problema é quando isso acontece sem circunstâncias que justifiquem. “Mas eu ser o autor e querer que a história seja assim já não é uma circunstância que justifique, Anne?”. Bom... na verdade, é. Mesmo assim, só quero que você entenda que dá um cansaço crônico ler uma história formada por perfeição física. Dá um estorvo na leitura, dá uma ideia de que todo mundo nasceu bonito. Nos filmes, até que dá pra aguentar... Beleza atrai os olhos, isso é verdade. Mas em livros, meus caros, isso fica “vomitante”. Você cansa de ler que fulano de tal é atrativo, é sexy, é tão bonito quanto, é isso e aquilo mais. É importante que você saiba o seguinte: não quero te impor uma condição pra sua escrita ser boa e/ou sua história ser chamativa pros leitores. Eu só quero dar uma opinião construtiva.
   Alguns pontos importantes que podem modificar e desconstruir essa cultura da beleza fixa — apenas o seu tipo de beleza, e nenhuma outra — nas histórias:
  •          Aborde outras culturas — muitas vezes, abordar outras culturas é uma boa. Você diversifica as características, narra de uma forma mais rica e consegue construir detalhes mais ousados. Uma pesquisadinha aqui, outra ali e você vai andando!
  •          Baseie-se em pessoas à sua volta — quem nunca viu aquela pessoa, seja da escola, da faculdade, do dia a dia no trabalho ou das noites de saída, e quis se basear na aparência dela pra um personagem? Às vezes é muito eficiente que você pegue características físicas de pessoas que conheça e coloque lá, só pra tirar um pouco a tendência de colocar só os traços que lhe são agradáveis e bonitos esteticamente.
  •          Seja generoso em cores, físicos e consistências — aprenda a ser generoso com seus personagens. A cada 3 personagens brancos, 3 negros; a cada um negro, um pardo e assim vai. A cada 3 cabelos lisos, 3 ondulados, crespos, cacheados, afros etc. Vai misturando. A cada um esguio, um mais gordinho; a cada um mais alto, um mais baixo. Não fica em um tipinho.




Bom, pessoal, é isso! Espero que tenha ajudado.
E, lembrem-se:
A diversidade é uma das maiores riquezas do ser humano no planeta e a existência de indivíduos diferentes numa cidade, num país, com suas diferentes culturas, etnias e gerações fazem com que o mundo se torne mais completo.” (www.brasil.gov.br)

  

Personagens que vestem a perfeição (física)

Posted by : Ligados Betas
08 dezembro 2014
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Resenha por Elyon Somniare





MENDES, Luiz Fabrício de Oliveira – O Legado de Avalon: o Garoto, o Velho e a Espada, Paracatu - Minas Gerais, Buriti, 2014



Sinopse: Quando a lenda termina, a aventura começa. Desde que a feiticeira Morgana Le Fay passou a perseguir e aniquilar os poucos descendentes do Rei Arthur, a Ordem de Excalibur encarregou-se de espalhá-los pelas colônias e países amigos do antigo Império Britânico, incluindo o Brasil do Segundo Reinado. Mais de 150 anos mais tarde, Aurélio Britto, garoto morador da periferia do Rio de Janeiro, fã de futebol de botão e games de estratégia, é atacado na casa do avô por um misterioso homem-onça. O dono do antiquário da esquina, senhor Campbell, revela-se na verdade o milenar mago Merlin, prestes a apresentá-lo a uma arriscada jornada de herói: sobreviver às investidas dos seguidores de Morgana e reencontrar a espada Excalibur, desaparecida nas mãos da Dama do Lago há mais de mil anos. Junto com a implicante Gui (e ai de quem chamá-la pelo nome inteiro, Guilhermina!), o fã de rock, Gabriel, o pessimista Bruno e o primo deste, Junior, além do avô Genaro é formado um pacto em torno de uma mesa de parquinho redonda, visando o objetivo de restaurar o sonho de Camelot na pessoa de seu último herdeiro.



Resenha: Virado para um público juvenil, O Legado de Avalon destaca-se no uso dos mitos, da acção e da aventura. Ao longo da sua leitura, são notados dois elementos muito comuns à literatura de fantasia: o jovem “Escolhido” e a estrutura da “Jornada do Herói”, cunhada por Campbell. Clichés, talvez, mas nem por isso negativos. O autor não só demonstra ter conhecimento sobre os mesmos (inclusive inserindo “Mr. Campbell” na narrativa), como uma capacidade em os utilizar a favor da sua narrativa.
Uma outra área em que o conhecimento do autor vem ao de cima é a histórica. Não são raras as ocasiões em que informações sobre a História brasileira são contextualizadas. Abrangendo locais, pessoas ou acontecimentos, os detalhes são inseridos de forma credível no enredo, ligando-se de alguma forma ao protagonista, ou à lenda de Arthur. Deste modo, o que poderia tornar-se num infodump, apresenta-se como um dosagem moderada de curiosidades, que ascendem a necessidade pelo contexto.
Esta capacidade de contextualização e ligação encontra-se ainda em evidência numa outra área: a fusão, chamemos-lhe assim, dos mitos arturianos com o folclore brasileiro. Torna-se difícil alongar muito nesta questão sem entregar spoilers, mas não haverá problemas em afirmar que o autor pegou nos elementos que existem em comum, e os trabalhou de forma que o leitor não estranhasse a presença de mitos da Inglaterra de séculos passados, no Brasil contemporâneo.
Como referido no início da resenha, o público-alvo do romance é o juvenil. Em consonância com essa faixa etária, a narrativa é acessível e perceptível sem, contudo, infantilizar os possíveis leitores. Um reparo a fazer prende-se, no entanto, com a pontuação: o excesso de reticências. Estas são usadas com uma abundância desnecessária, e que passou despercebida na revisão.
Apesar de o enredo apresentar um arco completo – princípio, meio e fim –, o livro acaba deixando mistérios e questões suficientes para o conectar com uma continuação, se não mesmo pedir por ela. O Legado de Avalon é, portanto, o primeiro de uma série, que pelo bem dos leitores, se espera continuar a ser publicada.





 






Resenha: O legado de Avalon: o Garoto, o Velho e a Espada

Posted by : Ligados Betas
04 dezembro 2014
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Olá, pessoal! Tudo belezinha?
É com grande prazer que a Liga traz para vocês mais uma novidade. Estamos dando início a um projeto no qual faremos entrevistas e resenhas — se assim o(a) autor(a) permitir — com aqueles escritores de fanfics que alcançaram a incrível façanha de publicá-las como livro físico.
Para abrir o projeto, temos como convidado o Goldfield, que agora está lançando o seu livro, “O Legado de Avalon”. Muitos de vocês provavelmente já ouviram falar dele, mas hoje saberão como ele fez para alcançar esse sucesso. Obrigada novamente pela entrevista, Goldfield.
A resenha de “O Legado de Avalon” saíra no dia 4 de dezembro. Fiquem ligados!
Se você, leitor do blog, tem alguma pergunta que gostaria que fizéssemos na próxima entrevista, ou conhece algum autor que publicou sua fanfic como livro físico, deixe-nos saber.


Goldfield, pseudônimo de Luiz Fabrício de Oliveira Mendes (baseado em um de seus personagens, o “superespião” Bruce Goldfield), nasceu em Casa Branca – SP, no ano de 1988. Escreve desde os 12 anos de idade (2001), produzindo contos, fanfics e noveletas. Já publicou trabalhos em diversas antologias de literatura fantástica (de editoras como Andross, Literata e Estronho). Formado em História pela Unesp (2010), atualmente leciona em escolas públicas. Além da escrita e da leitura, tem games, RPG, histórias em quadrinhos, miniaturas colecionáveis e cosplay como outras de suas paixões.
Diversos de seus textos podem ser encontrados na internet em sites como www.fanfiction.com.br e www.fanfiction.net, onde também publica com o pseudônimo “Goldfield”.


Liga dos Betas (LB): Na sua biografia você diz que escreve desde os doze anos de idade: qual foi essa primeira história e por que quis escrevê-la? Também foi por volta dessa altura — e com essa primeira fic — que começou a postar online?
Goldfield (G): Bem, antes de escrever, eu criava histórias na minha cabeça. Elas geralmente tomavam a forma de filmes ou jogos de videogame (um entretenimento com o qual convivo desde pequeno). Até imaginava as fases, chefe e tudo mais. Até que em 2001, quando estava na sexta série, meu pai deu a dica de eu começar a colocar minhas ideias no papel.
Minha primeira história veio em outubro daquele ano: um enredo de ação bastante baseado em filmes de Hollywood (e bem clichê, por sinal) em que uma equipe de elite do exército caçava Saddam Hussein no Iraque. Fui muito influenciado pelos atentados de onze de setembro daquele ano. O mais curioso é que essa história jamais foi escrita até o fim e ela desapareceu do meu computador, provavelmente deletada por engano.
Não foi essa história a primeira que postei online. Na verdade, escrevi por muito tempo apenas deixando as histórias no PC, no máximo as enviava por disquetes a alguns colegas de escola. A minha primeira história online, por sinal minha primeira fanfic (antes já tinha escrito vários originais, que não mostrava) foi "Ares-1 Vs. Nemesis: A Batalha do Século", uma história baseada nos games da série Resident Evil, que só comecei a postar em fóruns e sites em 2004, ou seja, um tempo considerável após já começar a escrever.



LB: Você já publicou diversos contos e agora um livro, já é bem experiente nessa área. Como foi o processo de publicação? Foi difícil? Demorado? Qual a diferença entre um e outro?
G: Infelizmente publicar de forma impressa não é fácil e requer bastante insistência e perseverança — embora seja um embate que valha, e muito, a pena lutar.
Quando estive no colegial, cheguei a publicar dois livros de contos em uma gráfica local com tiragem de 100 exemplares cada um — ou seja, uma publicação independente —, mas foram livros quase artesanais e confesso que desde então eu aprendi e ganhei bastante experiência na área.
A partir de 2009 comecei a publicar contos em antologias literárias de literatura fantástica, promovidas por editoras como Andross, Estronho e Literata, que abriam antologias com temas diversificados (Idade Média, histórias policiais, história alternativa, mitologia grega, etc.) e, após o envio de textos pelos escritores, selecionavam os melhores para compor o livro — sendo a publicação paga, em alguns casos, e gratuita em outros. Atualmente ainda há diversas editoras que realizam esse tipo de publicação e elas se mostram um bom meio de introdução ao meio literário, para fazer colegas e contatos.
Desde 2009, ao longo dessas publicações, vim revisando histórias antigas e criando novas, até ter em mãos um livro que me satisfazia 100% quanto a "ser publicável": "O Legado de Avalon", que comecei a escrever no desafio NaNoWriMo (escritores de fics, se não conhecem esse desafio, fica a dica: conheçam!) de 2012 concluí nos primeiros meses de 2013. Minha intenção era lançar o livro por editora, fosse por publicação gratuita ou paga – e aconteceu pelo segundo caso (algo acessível desde que comecei a trabalhar como professor) — eu, autor, realizando um investimento em parceria com a Editora Buriti para publicar minha obra. Meu principal intuito com o Legado é, além de contar uma história pela qual tenho muito carinho desde o início de sua escrita, divulgar mais meu trabalho e abrir caminho para mais publicações no futuro.


LB: Você mencionou que começou a trabalhar como professor de História, correto? De que modo essa profissão influencia os seus escritos?
G: Influencia de uma forma que hoje acho ser quase impossível separar uma coisa da outra. Meu fascínio por História, que me fez optar por essa carreira, é tamanho que, atualmente, situo praticamente tudo o que escrevo em algum contexto de épocas passadas — em alguns casos até "brincando" com a História e criando realidades paralelas (como em meu atual projeto "Os Guaranis", postado no Nyah!). Além disso, como professor, possuo certa veia didática no que escrevo, querendo ensinar uma ou duas coisinhas sobre períodos e lugares passados a quem lê — claro, sem tornar algo maçante ou prejudicando o fluir do enredo. Em "O Legado de Avalon", que é mais voltado para um público infanto-juvenil, essa minha intenção está mais forte e, em alguns pontos, os personagens adolescentes até precisam usar conhecimentos de História para desvendar alguns mistérios do enredo. E não preciso nem falar que me divirto à beça ao escrever essas inserções.


LB: Aproveitando que citou o Nyah, qual você acha que é a maior diferença entre o você–escritor–de–fanfics e o você–autor–de–livro–físico? O que mudou de lá para cá?
G: Acho que, essencialmente, ganhei experiência. Hoje olho meus escritos de quatro, cinco anos atrás, e percebo o quanto evoluí em minha escrita — desde vocabulário, passando por gramática, até a estruturação de frases. Também noto como, com tudo isso, que fui e ainda estou criando minha identidade como autor. Mas fora isso, creio que ainda há muito em comum por trás dos meus textos: a vontade de contar uma boa história, a empolgação quando o enredo avança da maneira que me agrada, e a realização com o retorno dos leitores. Acho muito importante um escritor nunca perder sua motivação artística para se encaixar a moldes editoriais ou tendências mercadológicas, correndo o risco de se perder naquilo que faz. O aprendizado serve para que as asas de nossa imaginação fiquem mais estáveis, mas não percam a emoção do voo.


LB: Sobre o retorno dos leitores: antes de publicar suas histórias como livro físico, era possível receber reviews e interagir com o leitor pela internet, agora isso não é tão fácil. Qual é a sua opinião sobre isso?
G: Acho que não é tão difícil na verdade. Hoje a internet está bastante difundida e é bem mais simples os leitores encontrarem e terem contato com seus autores favoritos pelas redes sociais, como Facebook, Twitter, Skoob e blogs. Na orelha interna de "O Legado", por exemplo, incluí o link de minha página de autor no Facebook com a intenção de já deixar um meio de contato para os leitores. Acho que a publicação em livro na verdade amplia ao invés de reduzir o escopo de leitores aos quais tenho acesso, já que meus escritos deixam a redoma da internet e podem se difundir por praças, escolas etc., atingindo mais pessoas. E há sempre a opção de me encontrar online para conversar sobre a obra. Sem contar os livros já publicados em "ebook" e outros formatos digitais que já permitem um retorno ainda mais direto online.


LB: Então você também utiliza a internet como um meio de divulgação do seu trabalho? Quais são as estratégias que utiliza para divulgar o livro e os contos? A editora costuma ajudar nessa parte?
G: Sim, há ajuda sim. Além de divulgação tanto em minha página de escritor quanto na página e perfil da Editora, os exemplares encontram-se à venda no site da Editora. Também costumo fazer divulgação em grupos do Facebook voltados à literatura e escritores, no Skoob, avaliar parcerias com blogs (que podem render ótimas divulgações e resenhas, se bem feitas), dentre outros meios.


LB: Ao publicar na internet, você teve medo de plágio ou já sofreu algum? Como lidou com isso?
G: Sempre tive medo, confesso. Já sofri algumas vezes com fanfics — nunca com originais, felizmente. De início me importava muito quando acontecia, brigando com o plagiador assim que descobria o ocorrido e forçando-o a tirar o conteúdo do ar, ou dar créditos. Com o tempo acabei ficando mais tranquilo nesse quesito quanto a fanfics, já que elas não podem ser comercializadas e nem terem registro autoral realizado — sendo que o plagiador acaba, de toda maneira, divulgando meu trabalho na verdade. Além disso, posto minhas fics numa gama de sites diferentes, e é muito difícil o indivíduo colocar o trabalho em algum lugar em que já não esteja com meu nome. Quando acontece, geralmente é desmascarado por algum leitor que me conhece.
Quando o assunto é originais, aí a questão é mais séria. Para evitar dores de cabeça, costumo registrar tudo que escrevo na Biblioteca Nacional — uma boa estratégia a qualquer escritor, mesmo que não pretenda publicar sua história fora da internet de imediato. É simples, barato e garante amparo legal em caso de problemas.


LB: Sempre há momentos bons e ruins, mas houve algum em que você realmente pensou em desistir?
G: Não, acredito que nunca. Há mesmo momentos de grande desânimo, em que achamos que nossa arte não vingará e que acabaremos condenados a apenas meia dúzia de leitores lendo nossos escritos — mas então vieram vitórias, ainda que pequenas, que me fizeram perseverar. E continuam fazendo, como meu livro.


LB: Sabemos que escreve, mas você gosta também de ler fanfics? Ou lê apenas livros? Por quê?
G: Leio ambos, porém já fui um mais assíduo leitor de fanfics do que hoje em dia. O motivo é a falta de tempo: livros eu carrego comigo na mochila e leio nas brechas do trabalho, assim como HQs e mangás, mas as fanfics ainda me são restritas ao PC em casa, e geralmente o acesso à noite durante a semana, quando estou cansado demais para ter ânimo de ler online. Porém, sempre que posso e encontro alguma história que realmente me interesse, leio e comento para dar apoio ao autor, além de fazer críticas construtivas.


LB: E como é o seu processo criativo? Você é o tipo de autor que inventa tudo na hora ou que prefere ter tudo planejado antes de escrever? Você tem algum ritual ou dificuldade na hora de passar para o papel?
G: Sou um pouco dos dois: tanto planejo quanto escrevo na hora. Tanto que, às vezes, os próprios personagens me sabotam e, na "hora H", sai no papel algo totalmente diferente do que planejei.
Meu processo criativo envolve muito processo mental, com pitadas de observação do cotidiano para dar verossimilhança aos enredos. Por exemplo, posso estar escrevendo uma história de ficção científica com super-heróis, mas terá sempre aquela cena X com o personagem no bar ou na rua em que eu incluo uma adaptação de algo que aconteceu comigo na realidade, como testemunhar uma briga de casal ou ouvir uma conversa engraçada.
Ouço muita música para me inspirar, tanto que em meu celular quase só há trilhas orquestrais de filmes, jogos e animes — divididas em gêneros de acordo com o tipo da história em que eu estiver me focando. Costumo andar sozinho pelo quarto enquanto refino minhas ideias, até falo sozinho (inclusive em inglês). Quanto a ambientes, costumo ter muitas sacadas decisivas às tramas no banho ou andando de ônibus — algo frequente, visto que trabalho em cidades vizinhas à minha.
Raramente faço mapas, fluxogramas ou listas para não me perder, visto que não tenho problemas em guardar esses detalhes das histórias em minha cabeça — a não ser que o universo da trama tenha uma complexidade muito grande. Quanto à sequência, geralmente tenho facilidade com inícios e finais, o desenvolvimento do enredo exigindo mais — e sendo o que mais muda em relação ao que planejo e o que efetivamente vai para o papel.


LB: E sobre a revisão, como funciona? Você possui um beta reader, um revisor ou prefere fazer tudo sozinho?
G: No tocante a publicações online, confesso que pouquíssimas vezes usei beta readers. Geralmente reviso sozinho, durante e após escrever, embora seja um processo mais trabalhoso e exigente. Porém, quanto a publicações impressas, prefiro ter a ajuda de terceiros.


LB: Então, para finalizar, você tem algum conselho para aqueles autores de fanfics que querem transformar suas histórias em livro físico?
G: Primeiro, nunca desistam. Continuem escrevendo sempre. Aceitem críticas. Deem atenção ao que seus leitores disserem e procurem melhorar nos pontos que eles apontarem. Leiam muito. Quem não lê não melhora sua escrita por falta de referências. E não se prendam a só um tipo de leitura: prezem pela variedade de gêneros e estilos, mesmo que você se interesse em escrever um gênero e estilo só.
Procurem se informar a respeito do meio literário, frequentem blogs, sigam escritores nas redes sociais, enviem material para antologias (em muitas delas vocês poderão publicar sem desembolsar um centavo), participem de NaNoWriMos para aprenderem a criar hábito de escrita, pesquisem editoras. Estudem, trabalhem e tentem guardar algum dinheiro para auxiliar as publicações no início. E, acima de tudo, acreditem no próprio potencial. Valorizem o que escrevem e lutem para que consigam ser grandes autores. É só querer e se dedicar.

Histórico de publicações:
- “À Margem da Idade” (livro independente) – 2004
- “Colombo-2035” (livro independente) – 2006
- Conto "Previsão" (Antologia "Dias Contados", Andross Editora) – 2009
- Conto "Para Sempre" (Antologia "Dimensões BR", Andross Editora) – 2009
- Conto "Justine" (Antologia "Jogos Criminais", Andross Editora) – 2011
- Conto "Epifania" (Antologia "Contos Cotidianos", Editora Regência) – 2011
- Conto "Agoniste" (Antologia "Olympus", Editora Literata) – 2011

- Conto “Belum Arammu” (Antologia em e-book “Deuses”, Editora Virtual Infinitum Libris) – 2011
- Conto “Lucy in the Sky with Diamonds” (Antologia em e-book “Psyvamp”, Editora Virtual Infinitum Libris) – 2011
- Conto “Sanguineus Regium” (Antologia “História Fantástica do Brasil – Inconfidência Mineira”, Editora Estronho) – 2012

- Conto “Cacciatori di Mostri” (Antologia “História Fantástica do Brasil – Guerra dos Farrapos”, Editora Estronho) – 2012
- Conto “Dádiva e Punição” (Antologia “Angelus”, Editora Literata) – 2012
- Conto “Luísa” (Antologia “Sombras Escrituras”, Editora Literata) – 2012
- Conto “Lorem Ipsum” (Antologia “Sala de Cirurgia”, Editora Literata) – 2014, ainda não impresso
- Romance “O Legado de Avalon: O Garoto, O Velho e a Espada” (Editora Buriti) – 2014



Sites em que publica histórias:

Entrevista: Goldfield

Posted by : Ligados Betas
01 dezembro 2014
2 Comments
Por: Senhorita Ellie

One-shot é o termo usado no mundo das fanfics para denominar histórias contadas em um único capítulo, geralmente, com contagem maior que 100 palavras. Por serem fanfics que apresentam uma história que é contada em um único capítulo, muitas pessoas têm dificuldades em trabalhar com as limitações que o tamanho mais restrito pode trazer. Esse post serve para dar alguma luz sobre como lidar com ele e desenvolver boas one-shots.
1 – Entenda que a sua one-shot não é uma long-fic: Isso pode parecer óbvio e meio bobo, mas há toda uma questão de adaptar seu planejamento para um modelo mais curto, que não te dá muitos capítulos de margem para trabalhar. A história deve ser iniciada, desenvolvida e terminada em um único capítulo, ou seja, ela deve ser mais concisa, objetiva, resumida.
2 – Tenha em mente o que você quer escrever, planeje: Você teve uma ideia para uma oneshot e está louco para começar a escrever, mas antes de fazê-lo, pense sobre o que você quer escrever. Longfics te dão a liberdade de se deixar levar, mas com one-shots, um bom planejamento pode ser a chave de seu sucesso. Qual é a sua ideia? Qual é começo, o meio e o fim? Qual será o seu clímax? Ter todas essas coisas em mente antes de começar sua one-shot pode ajudar você a não se empolgar muito e a não render a história para além de onde ela pode ir.
3 – Pense antes de sair da sua zona de conforto: Você se sente confortável escrevendo em primeira pessoa? Escreva sua one-shot em primeira pessoa. Você gosta de romance? Escreva uma one-shot de romance. Por ser um gênero limitado, a one-shot pode ser ao mesmo tempo uma dádiva e uma maldição quando se trata de inovações a respeito de seu próprio estilo. Se você vai fazer uma coisa diferente, pense bastante sobre isso antes de começar, porque, por estar experimentando, sempre há a chance de você render demais e sua história se tornar uma long-fic... Ou de render de menos e a sua história nunca ver a luz do sol.
4 – Desenvolva seu enredo: É importante que a história tenha um enredo que conquiste o leitor, que o intrigue, e isso não se aplica apenas à long-fics. O enredo de uma história longa é mais lento, dá a possibilidade de um desenvolvimento extenso, de dar foco a várias narrativas e personagens. Uma one-shot pede maior objetividade. Enquanto uma história longa explica toda a história dos personagens e o porquê de eles estarem ali, a one-shot não pede isso. Você pode apresentar seus personagens e contar apenas os fatos que acontecem no tempo da história, sem se preocupar com o passado deles ou com qualquer outra coisa. O que importa são os fatos, porque numa história curta, são eles que vão fazer o seu leitor ir até o final. A história dos personagens ou os pormenores dela não são tão importantes. Também pode ser interessante usar um estilo de narrativa mais enxuto, com poucas descrições, focado mais nos acontecimentos.
5 – Pense na possibilidade de não desenvolver seu enredo: É comum, no universo das fanfics, as histórias centradas em um único personagem, onde, em poucas palavras, o autor descreve uma situação relacionada ao protagonista de maneira intimista e assim a história termina. Isso também é uma one-shot e também é uma possibilidade! One-shots intimistas, que se focam em apenas uma situação de maneira bastante emocional, funcionam tão bem quanto histórias curtas que apresentam começo, meio e fim. Tudo depende do tipo de abordagem que você quer mostrar, afinal.
6 – Escolha seu protagonista: Se você tem facilidade para trabalhar com vários personagens ao mesmo tempo, isso talvez não seja um problema, mas se a ideia te deixa inseguro, é interessante escolher apenas um personagem no qual se focar e limitar o número deles na sua one. Quanto mais personagens você colocar, mais palavras você terá que gastar para desenvolvê-los, ou eles servirão unicamente como “figurantes” no seu enredo. Assim, quando for começar a sua história, tente se focar e aprofundar em apenas um personagem. Está errado quem pensa que é necessário muitas palavras para isso.
As dicas principais para aprofundamento de personagens em uma história curta são:
  1. O desenvolvimento dos diálogos. Eles não precisam ser longos, mas dê atenção para eles, porque grande parte da essência do seu personagem vai ser mostrada ali.
  2. A descrição de tarefas simples do cotidiano do personagem que ajudem a construir um quadro geral sobre ele. Seu personagem é preguiçoso? Gaste algumas palavras descrevendo a luta dele para sair da cama de manhã. É muquirana? Descreva-o pechinchando na feira, recusando-se a comprar algo só porque não gosta de gastar, etc.
  3. Descreva-o, tanto em aparência quanto em personalidade. Não é necessária uma grande descrição, apenas o suficiente para o leitor ter o que imaginar e criar suas antipatias e simpatias. Seu personagem é tímido, é extrovertido, é maníaco? Faça-o mostrar isso.
7 – Não se preocupe muito se a coisa render: Se a história ficar muito grande, não se preocupe muito com isso. Pense na possibilidade de trabalhá-la como uma shortfic — histórias com no máximo cinco capítulos —, ou de desenvolver o enredo como uma long. É interessante notar que existem one-shots de 300 palavras coexistindo com one-shots de 32000, por exemplo, e isso não faz de uma mais one do que a outra. Por isso, quando for começar a escrever, não encare a limitação de um único capítulo como um problema ou como uma obrigação. As boas ideias trabalhadas em ones podem ser também trabalhadas em longs e vice-versa.
Por hoje é só isso. Espera-se que essas dicas ajudem, mas cada escritor desenvolve seu estilo único de escrever histórias curtas com o tempo — assim como ele desenvolve um estilo particular para as longas — e não tenha medo de desenvolver seu próprio método também. Arriscar é sempre interessante e, na maior parte das vezes, rende resultados admiráveis.


Como escrever ones

Posted by : Ligados Betas
24 novembro 2014
2 Comments


Por Ana Coelho

     Olá a todos! Como vão? Espero que esteja tudo ótimo com vocês!

Hoje trago aqui ao blog um post que penso que vos será muito útil. Inspirado em e mais aprofundado até do que um post que eu tenho no meu blog pessoal, venho falar de diálogos.

Afinal, vocês sabem pontuar diálogos corretamente ou não? Sabem onde devem aparecer os pontos finais, as vírgulas, as maiúsculas…? Usam aspas ou travessão? E que tipo de aspas? E, afinal, como podem inserir o símbolo do travessão no texto?

Pois é, essas são algumas das questões mais frequentes que eu espero que fiquem esclarecidas quando este post chegar ao fim!

Vamos saltar já para a primeira parte:

Aspas ou travessão? Afinal, qual é a diferença?

Na verdade, podem pontuar como quiserem. Quer escrevam com um, quer escrevam com o outro sinal de pontuação, a escolha é vossa. Lembrem-se apenas de optar por um ou pelo outro ao longo de toda a história ou poderão confundir os vossos leitores. Decidam qual opção querem e mantenham-na até o final, porque misturarem as duas já é errado.

Mas… como é que é possível que haja duas opções? De onde saiu isso?

Reza a lenda que, tradicionalmente, em português, se deve usar o travessão para marcar diálogos. (O travessão é esse sinal “ — “ . No final do post eu explico como o podem arranjar.) Aliás, nem as aspas tradicionais do português são iguais àquelas que estão habituados a ver por aí. As aspas tradicionais (e que ainda aprendemos a usar em Portugal, apesar de pouco se falar no assunto) são as típicas das línguas latinas, as retas ( « » ). No entanto, com o tempo, isso tem vindo a mudar. No Brasil é muito mais usual usarem-se as aspas curvas (essas), nem há teclas próprias para as aspas retas duplas como há nos teclados portugueses. Apesar de tudo, em Portugal também se tem passado a usar muito mais as aspas curvas duplas. Parece que elas estão cá para ficar, quer as usemos nos diálogos quer não.

Teclado de Portugal, com a tecla das aspas duplas retas assinalada. Ela existe, mas é bastante ignorada.

De facto, a história das aspas é curiosa e há vários tipos diferentes usados em línguas diferentes. Há aspas retas duplas ( « » ) ou simples ( ‹ › ), e há aspas curvas diferentes, como ( “ ” ), ( ‘’ ’’ ), ( ‘ ’ ) ou ( ” “ ), entre muitos mais tipos. Tudo depende da língua em que se está a escrever ou até do país de onde vem o texto. Aconselho-vos a verificarem a página da wikipédia que fala do assunto para mais esclarecimentos e podem até investigar por conta própria, se continuarem curiosos.

Mas, se é assim, então quais são as diferenças de se usar o travessão ou as aspas? Têm regras diferentes?

Como eu já expliquei anteriormente, nas línguas latinas o usual é usarem-se as aspas retas, mas as aspas usadas nos diálogos por aqui, hoje em dia, são as curvas (“essas”). E as regra são ligeiramente diferentes.

Isso acontece porque a forma de pontuar diálogos com aspas curvas também não é nossa, dos países com língua latina. Essa forma de escrever diálogos foi adquirida por influências de outras línguas onde essa é a forma predominante. Hoje em dia também é aceite (/aceita, em português do Brasil) na língua portuguesa e é por isso que as aspas são uma opção válida que podem considerar quando escreverem as vossas histórias.

Convém ressaltar que este texto tem em conta a pontuação em inglês americano, já que é seguindo essa norma que as aspas duplas são usadas, e que o inglês britânico tem regras de pontuação próprias, que explicarei por alto no final do texto.

Aconselho-vos a escolherem a forma que vos deixar mais confortáveis, juntamente com as regras correspondentes.

Mas vamos avançar e vamos falar logo dessas regras! Elas são fáceis, vocês vão ver.

Vamos começar com uma questão simples:


Sabem quando devem usar letra maiúscula ou minúscula?

Esse é o erro que eu mais vejo no Nyah!, quer pontuem os textos com aspas quer os pontuem com travessão. Apesar disso, e contrariamente ao que pode parecer, a solução é bem simples.

Nos diálogos, as regras mais importantes dependem do texto. Isso quer dizer que, dependendo daquilo que escreverem junto com a fala, a letra ou será maiúscula ou será minúscula.

Mas daqui a pouco eu entro em mais detalhe sobre isso. Para já, vamos começar com os exemplos sem grandes acessórios!

— Gosto de bolo.
~~
Gosto de bolo.”

Pronto, aí temos uma frase bem simples, pontuada das duas formas mais usuais. E quem não gosta de bolo?

Nessa frase, duvido que haja dúvidas na pontuação. É só colocar a fala a seguir a um travessão ou dentro de aspas, com letra maiúscula no início e ponto no final. Sem problemas aqui.

Mas assim não sabemos quem falou, ou como a fala foi dita, ou em que circunstâncias se desenrolou esse diálogo. Nas nossas histórias, costumamos ter muita coisa a dizer sobre as falas. E como fazemos nesses casos? Como fazemos se quisermos transmitir uma ideia com mais pormenores, como “O Pedro disse que gosta de bolo”? Como e onde colocamos esse “disse o Pedro”?

Comecemos pela forma mais simples e mais usual — depois da fala, na parte final da frase.
Exemplos A.
Queres um sapato? — perguntou a Joana.
~~
Queres um sapato?” perguntou a Joana.

Pois bem, sim, pode parecer-vos estranho, e o Word pode até sugerir que façam aí uma mudança drástica, mas essas duas frases estão bem pontuadas e bem escritas. Comecei de imediato com frases com pontos de interrogação porque quero que entendam uma coisa importante: na pontuação dos diálogos, o que conta realmente é o verbo que acompanha as falas. Mais nada.

Vamos comparar estas com as seguintes.
Exemplos B.
Queres um sapato? — A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.
~~
Queres um sapato?” A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.

Conseguem ver o que há de diferente dos exemplos A para os B? Nos A, depois da pergunta, havia letra minúscula. Nos B, depois de escrevermos exatamente a mesma pergunta, surge uma frase com letra maiúscula. Então os exemplos A estão certos e os exemplos B estão errados? Não. Então são os B certos e os A errados? Também não. Ambos os exemplos estão certos.

Eu disse ainda há pouco que o que diferenciava a pontuação do diálogo era o verbo que acompanhava a fala, certo? Vamos lá olhar para os verbos. E não se preocupem, não há nada gramatical aqui.

Nos exemplos A, o verbo era “perguntar”. Nos exemplos B, os verbos são “esticar” e “apontar”. Conseguem ver aqui a solução?

Pois, a verdade é que, para se descrever uma fala, nós usamos verbos que exprimem essa ideia de falar. Verbos como “dizer”, “perguntar”, “berrar”, “inquirir”, mesmo que seja através de metáforas (“chutar”: “— Gostas da Mariana? — chutou o Pedrinho.”). Todos os verbos que descrevam o ato de falar e que estejam diretamente ligados à fala têm de vir ligados a essa fala. Essa ligação é expressa através da letra minúscula, que indica que a ideia da fala ainda continua na narração, que uma complementa a outra.

E agora reparem nos exemplos B. Os verbos “esticar” e “apontar” referem-se à fala? Não, claro que não. Referem-se a duas ações que a Joana fez, imediatamente a seguir a ter falado. Então isso quer dizer que temos duas ideias diferentes e que não há um verbo de fala que una diretamente a linha do diálogo à narração. Dessa forma, temos de usar letra maiúscula.

Deixo aqui mais exemplos, para irem percebendo melhor. E vou apenas usar pontos de exclamação e de interrogação.

Gostas de chocolate? — questionou a Madalena.
Gostavas de dançar comigo? — O olhar de Rodrigo era sincero.
Tu és louco! Afasta-te de mim! — berrou o João.
Sou alérgica a chocolate! — A Rita afastou-se do bolo sobre a mesa.
Gostas de gatos?” inquiriu o Pedro.
Tenho um enorme gato preto chamado Chinelo!” O Ricardo sorriu ao relembrar as patas fofas do seu Chinelito.
Não gosto nada de ti!” exclamou a Bárbara.
Detesto baratas!” A Marina fugiu para a cozinha.

Perceberam até aqui tudo?

Quando o verbo descreve a fala (são chamados verbos dicendi universalmente), o verbo vem com letra pequena, unindo a narração ao que foi dito. Quando o verbo descreve uma ação paralela ou seguida à fala, então passamos a ter duas ideias diferentes e a letra que vem depois do ponto é maiúscula.

Nesta altura devem estar a perguntar-se por que só optei por usar frases com pontos de interrogação e de exclamação. A minha intenção era que entendessem e não se voltassem a esquecer de que, nos diálogos, é o verbo quem manda e o resto só lhe obedece. É uma ideia bem simples e é ela que rege todas as outras regras.

Tendo isso em mente, vamos agora ver o que acontece em frases mais comuns, frases que tenham pontos finais. Aqui as coisas tornam-se diferentes para o travessão e para as aspas, mas vamos avançar por um de cada vez.

Acho que o melhor é dar um exemplo para vocês poderem pensar e analisar a explicação em seguida.
Não gosto de cães — disse o Ricardo.
Não gosto de gatos. — O Ricardo afastou-se do animal.
Tenho pena de ti. — O tom da voz de Madalena era de pura compaixão.

Analisemos estes exemplos. Como podem ver, a letra maiúscula ou minúscula ainda está dependente do tipo de verbo. “Dizer” é um verbo de fala, então vem com letra pequenina. “Afastar-se” e “ser” são verbos que descrevem ações e não se aplicam diretamente sobre a fala, mesmo que indiretamente falem dela, como acontece no terceiro exemplo. Nesses últimos dois casos, usou-se letra maiúscula.

Conseguem reparar agora na outra diferença entre o primeiro caso e os outros dois? No primeiro não há ponto final, mas nos outros há. Percebem porque usei apenas pontos de exclamação e de interrogação há bocado, certo? Porque as regras são diferentes para um e para o outro tipo de ponto.

Podemos dizer que, em certos casos, os pontos de exclamação e de interrogação não funcionam realmente enquanto pontos. Eles são marcadores visuais que nos dão a entoação da frase, mas não servem para lhe colocar um final. Nos diálogos, é assim que eles funcionam e é esse o seu papel.

Comparando esses pontos com o ponto final, vemos que o ponto final já serve para colocar um final real nas frases sempre que aparece. Quando a frase não termina na fala e continua na narração através de um verbo dicendi, o ponto não aparece. Quando a frase da fala termina e é seguida de uma outra frase que se refere a uma ação completamente diferente, temos lá o ponto, para mostrar que as ideias são diferentes.

Entendem agora o que eu quis dizer com ser o verbo a mandar na pontuação? O tipo de verbo define como a pontuação se comporta a cada caso.

Vamos agora ter mais exemplos, com tudo:

Adoro gatos! — declarou a Maria.
Não gosto muito da tua tia… — disse a Matilde.
Tens quantos cães? — perguntou a Mariana?
— Tens olhos bonitos — afirmou a avó.
Detesto pó! — A Maria estava com os olhos vermelhos de alergia.
Não gosto do meu pai. — A voz de Pedro era fria como gelo.
O que te aconteceu? — A Mariana estava genuinamente preocupada.

Compreenderam tudo direitinho até aqui?

Vamos avançar e ver, afinal, o que distingue a pontuação com aspas da pontuação com travessões. Vamos introduzir mais exemplos, que eu acredito que eles tornam tudo mais simples.

Adoro camaleões!” disse a Vânia.
Amas mais o teu marido do que eu pensava, não é?” perguntou a sogra.
O golfinho sabe nadar.” Matilde bocejou.

Até aqui, é tudo igual, certo? Mas, quando se relaciona uma frase com a narração com um verbo de fala, deixa de ser.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde.

Notaram ali aquela vírgula? Bom, com as aspas é necessário colocar uma vírgula quando a mesma frase tem fala e tem narração, e se passa de uma para a outra.

Ficou claro o porquê da vírgula aparecer ali? Mudou de fala para narração, tem de haver alguma coisa que o indique, então surge a vírgula.

Vamos expandir o exemplo e vamos colocar-lhe uma vírgula para eu falar de mais alguns pormenores e da posição na vírgula nessas frases. A fala que vai ser dita será O golfinho sabe nadar, mas o morcego não sabe.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde, “mas o morcego não sabe.”

Notem que a vírgula vem sempre junto do primeiro elemento e não junto do segundo. Assim, se primeiro vier algo entre aspas, a vírgula vem dentro das aspas, junto à última palavra desse primeiro elemento. Se a vírgula separar narração de fala, e primeiro vier a narração, a vírgula vem fora das aspas, junto à última palavra da narração (vejam a segunda vírgula do exemplo). Assim, a vírgula que pertencia à fala acaba por aparecer logo de início. É bem simples, não é?

Agora, aproveitando o exemplo, vamos ver como ficaria intercalada uma pequena narração dentro de uma fala maior com travessão. Reparem no que acontece à vírgula:

O golfinho sabe nadar — disse a Matilde —, mas o morcego não sabe.

Ao contrário do que acontece com as aspas, nunca se coloca uma vírgula junto do primeiro elemento, ela vem sempre junto do segundo. Isto quer dizer que não podemos ter vírgulas antes de travessões. Se a fala tiver uma, temos de colocar a narração antes dessa vírgula, para que o travessão possa ficar antes dela, e a vírgula virá a acompanhar a fala.

Vejam os exemplos:
1. *— O golfinho sabe nadar — disse a Matilde — mas o morcego não sabe.
2. *— O golfinho sabe nadar — disse a Matilde, — mas o morcego não sabe.
3. *— O golfinho sabe nadar —, disse a Matilde — mas o morcego não sabe.
4. *— O golfinho sabe nadar, — disse a Matilde — mas o morcego não sabe.

Todas estas frases estão mal pontuadas (geralmente, um asterisco representa uma frase errada, e é o que está a representar aqui). Pensem assim: a vírgula existe na fala, então tem de estar lá, não pode desaparecer (1). A vírgula pertence à fala, então não pode vir junto da narração, isso não faz sentido (2 e 3). E a última regra é a mais simples: a vírgula nunca vem antes de um travessão (4).

Assim sendo, só a primeira frase dada anteriormente estava correta:
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde —, mas o morcego não sabe.

E eu agora pergunto: e se vier um verbo de fala dentro de duas frases diferentes?
O golfinho sabe nadar. O morcego, por sua vez, sabe voar.
Quero colocar “disse a Matilde” entre as frases.

Vamos lá pontuar isso corretamente. Ficaria:
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde. — O morcego, por sua vez, sabe voar.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”

Sim, a narração vai restringir-se apenas a uma frase. O verbo “dizer” está ligado à primeira parte da fala. Depois, a frase termina e começa outra, sem verbo na narração. Assim, temos de assinalar a separação das duas frases da fala com o ponto antes da segunda, separando a primeira da segunda. A narração fica “embutida” nas falas se tiver um verbo dicendi. É como se a fala se estendesse e perdurasse durante a narração que a descreve. Só aí é que termina e, terminando a narração, termina a fala que lhe estava ligada.

Noutros casos, se tivermos uma ação no meio da fala, fica assim:

O golfinho sabe nadar.” A Matilde sorriu. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
O golfinho sabe nadar. — A Matilde sorriu. — O morcego, por sua vez, sabe voar.

A ação não está ligada à fala por um verbo dicendi, então temos três ideias e três frases diferentes.

Se tivermos um verbo de fala MAIS uma ação, unindo as regras anteriores, fica assim:

O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde, sorrindo. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde. Ela sorriu. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
~~
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde, sorrindo. — O morcego, por sua vez, sabe voar.
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde. Ela sorriu. — O morcego, por sua vez, sabe voar.

Vamos terminar agora ao falar dos casos com frases maiores.
Apesar de ser correto intercalarem uma narração com verbos de fala no meio de uma linha de diálogo longa sem a quebrarem, não podem intercalar ações no meio de uma linha de fala grande sem a interromperem. Lembrem-se, os verbos de fala completam o diálogo, a fala estende-se para os verbos dicendi… mas os verbos de ação interrompem a fala, abordam ideias completamente diferentes e não se ligam entre si.

Peguemos na frase longa:
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.”
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.

Podemos ter um enunciado de fala no meio:
Eu gosto de caracóis,” disse a Mariana, “mas detesto porcos.”
Eu gosto de caracóis — disse a Mariana —, mas detesto porcos.

Ou podemos ter um enunciado de fala no final:
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos,” disse a Mariana.
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos — disse a Mariana.

A ideia é que, realmente, enunciados com verbos dicendi completam a fala, venham onde vierem, e ela segue sem problemas, esteja o enunciado onde estiver, e desde que não quebre nem interrompa nenhuma ideia que componha a frase.

Mas se tiverem uma ação já não têm essa liberdade. Vejam como se inicia uma frase nova no final por causa do verbo em questão:

Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.” A Mariana coçou o queixo.
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos. — A Mariana coçou o queixo.

A única maneira de intercalarem uma ação durante uma fala é cortando a fala em várias frases distintas, assim:

Eu gosto de caracóis…” A Mariana coçou o queixo. “Mas detesto porcos.
Eu gosto de caracóis… — A Mariana coçou o queixo. — Mas detesto porcos.


E pronto! Eu disse que estávamos a terminar! Já abordámos todas as exceções e todas as situações básicas de pontuação de diálogo!

Foi um post longo, mas espero que vos tenha ajudado!

Vou agora deixar aqui uma lista com exemplos de diálogos um pouco maiores e intercalados com mais narração para as duas formas de pontuação. Espero que não tenham mais dúvidas! Estudem os exemplos agora do final e reparem nos verbos e na pontuação usada ao intercalar o diálogo com os enunciados.

Boa escrita para todos!
~~
Queria um pouco mais do teu incrível café mágico.” Lourenço deu um toque na caneca à sua frente, sorriu para a sua filha. “Por favor, claro.”
Está bem, está bem… Mas só porque o senhor é um bom cliente!” Ela saiu da cozinha a correr e no segundo seguinte berrou do quintal, “Com muita ou com pouca terra?”
Lourenço suspirou e depois respondeu de volta, “Com muita, minha senhora!” Ele só esperava que desta vez não houvesse minhocas.
~~
Odeio-te! — exclamou Renata. Ele tentou aproximar-se dela, mas a mulher foi mais rápida. — Não me toques! — Antes que ela sequer pudesse pensar no que fazia, a sua mão subiu e acertou no rosto dele.
~~
Não acredito nisto!” disse Linda. Olhou à sua volta e ainda lhe custava reconhecer a jarra que fora da sua avó entre os cacos espalhados no chão. As flores jaziam sobre uma poça de água suja. Ela voltou a sua atenção para os seus filhos. “Quem foi que fez isto?” As crianças recusavam-se a olhá-la. “Eu fiz uma pergunta!” exclamou. Eles tremeram, e ela tornou a insistir, “Quem foi o pobre infeliz que fez isto? Juro que se vai arrepender de ter achado que brincar às espadas com a vassoura era uma boa ideia!”
~~
De certeza que sabes conduzir isto?
Flávia apertou mais as mãos à volta de Hugo. Ele sorriu, mas estava de costas para ela sobre a mota e ela não o viu.
Sim, de certeza, boneca. — De travão bem preso, ele acelerou um pouco, só para fazer barulho com o motor. Ouviu o guincho dela com prazer e o seu sorriso aumentou. — Estás com medinho? — perguntou. — Se tens medinho, diz-me. Não precisas de vir agora.
Ela mordeu o lábio e apertou-se mais contra ele.
Claro que não tenho medo! — disse. A sua voz soou surpreendentemente mais firme do que ela estava à espera, e isso agradou aos dois.
Mas Flávia tinha tanto medo que nem sentia as pernas. Apesar de tudo, ela deu por si a incentivá-lo:
Estás à espera de quê? És tu quem tem medo agora?
Hugo riu-se alto e no momento a seguir a sua risada deixou de se ouvir sobre o som ensurdecedor da mota a arrancar a toda a velocidade.
~~
Já não sei o que mais posso fazer, sabes?” disse Inês. Tinha as sobrancelhas franzidas e a boca contraída numa linha fina. “Tudo me parece tão… estranho,” concluiu. “Não confio em ninguém aqui.”
Sim, eu sei o que queres dizer,” respondeu Rodrigo, pegando na cerveja que tinha sobre a mesa. Fez o líquido girar no seu interior e depois bebeu um gole rápido. “É como se o tempo corresse de forma diferente, não é? As prioridades aqui são diferentes. Mas as pessoas têm-nos ajudado,” concedeu.
Ela suspirou e retrucou, “Esta cidade deixa-me confusa.” Formou-se um beicinho amuado no seu rosto. “Quanto tempo ainda vamos ficar aqui?”
Isso depende.” Rodrigo coçou a sobrancelha direita e pareceu pensativo por um momento. Depois olhou para ela. Não disse nada e tornou a coçar a sobrancelha, com o olhar perdido na parede atrás de Inês. “Isso depende e não é só de nós os dois…”
~~
Gostas de mim? — perguntou ela. O seu sorriso era confiante. Ela sabia que a resposta seria positiva. Ela só queria torturá-lo por mais um momento.
Ele indicou que sim com um meneio de cabeça.
Diz-me — insistiu —, gostas realmente de mim?

...



Extras:

1. COMO COLOCAR TRAVESSÕES
Se o vosso teclado tiver o number pad (o “num lock”) do lado direito, é muito simples. Mantenham o dedo sobre a tecla ALT e primam os números 0151. Esse é o código ASCI para o travessão aparecer.
Se tiverem um notebook/computador portátil e ele não tiver o number pad, podem colocar o travessão ao acederem à aba INSERIR do Microsoft Word, acederem a SÍMBOLO e o encontrarem na lista que aparece.
Uma sugestão muito boa é criarem um atalho próprio no programa que usam para escrever para poderem ter o travessão facilmente. O meu atalho é ALT + A. Sempre que eu primo essas teclas, eu coloco um travessão no Word. No Word podem ir a SÍMBOLOS e depois escolher TECLA DE ATALHO para definirem qualquer atalho à escolha para qualquer símbolo que queiram.
Se não tiverem um processador de texto que permita essas edições ou essas inserções de símbolo, podem fazer o que eu faço quando uso o Google docs. Procuro literalmente “travessão Wikipédia” no Google e acedo à página da Wikipédia sobre o travessão. Aí só tenho de copiar o símbolo diretamente da página e colá-lo sempre que precisar de colocar um no texto. Em vez de fazer ALT+A, faço CTRL+V.


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2. UMA ÚLTIMA DICA SOBRE DIÁLOGOS — O VOCATIVO
Esta dica é um extra. Acrescento-o aqui porque é outro erro grave que incontáveis diálogos no Nyah! têm e que é realmente simples, se quiserem tentar descobrir qual é esse erro.
O vocativo é o que se chama ao “nome” da pessoa com quem estamos a falar.
Se eu me viro para um grupo de pessoas e falo “Gente, socorro!”, esse “gente” é o que eu estou a chamar a esse grupo de pessoas. “Gente” é o vocativo.
Se eu digo “Professor, tenho uma dúvida!”, “professor” é o que eu estou a chamar à pessoa com quem falei. “Professor” é o vocativo da frase.
Se eu digo “Meu amor, podes passar-me o sal?”, “meu amor” é a forma que eu tenho de chamar a pessoa com quem estou a falar, então é o vocativo.
Caso tenham reparado, tudo aquilo que eu identifiquei como vocativo veio entre vírgulas nas frases. É uma regra gramatical muito importante e simples, que basta que interiorizem para não errarem. O vocativo tem sempre de vir entre vírgulas. Ele vem só com uma se estiver encostado ao início ou ao final da frase, mas tem de vir sempre isolado do resto.
Deixo aqui outro mini exemplo de diálogos, mas com alguns vocativos em todas as falas para servir de exemplo:

— Sabes, Pedro, eu detesto o frio…
— Sei sim, Maria, estás sempre a falar disso…
— Estou? Deixa de ser chato, deixa-me em paz, seu… seu chato!
— Eu sou chato? Tu é que és irritante, sua irritante!
— Não sejas mau, irmão, não me quero chatear contigo.
— Nem eu contigo, maninha. Tens razão.
— Vamos fazer as pazes, cabeça de mula?
     — Vamos, ancas de cegonha, vamos…


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3. DIFERENÇAS DE PONTUAÇÃO US VS UK
As diferenças de pontuação com aspas são poucas. Basicamente, nos Estados Unidos da América usam as aspas curvas duplas (“ “) e no Reino Unido e na Austrália usam as aspas curvas singulares (‘ ‘). Para além disso, na norma norte-americana, a posição da vírgula entre fala e narração com verbos dicendi é fixa. Na norma britânica e australiana, essa posição é normalmente um pouco relativa.



Como pontuar diálogos?

Posted by : Ligados Betas
17 novembro 2014
4 Comments

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