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[Pedido] Como narrar cenas de briga verbal

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Por: Letícia G (Beta reader – Liga dos Betas)

“Sem contrários não há progresso. Atração e repulsão, razão e energia, amor e ódio, são necessários à existência humana.” William Blake, poeta inglês, em O casamento do Céu e do Inferno.

Grandes histórias são nascidas de conflitos, físicos ou não. Há sempre aquele momento em que ficamos tensos aguardando o próximo movimento do personagem, ou a palavra dita que mudará toda a história. E isso é fato. Narrativas nascem e se desenvolvem em torno de embates. E qual é a melhor maneira de se expor um conflito do que através de uma discussão? 

Não há dúvidas de que, se convenientes e condizentes com a história, brigas físicas são um excelente recurso de avanço da narrativa, mas quando se trata de um desentendimento oral, o nível dramático que se pode alcançar é muito maior, pois é ali que segredos e sentimentos são revelados. Assim, exponho aqui algumas dicas e orientações que podem auxiliá-los na construção de uma discussão, e da própria história, por consequência.


Não crie conflito a partir do nada

Grandes discussões não começam porque Fulano decidiu sentar no banco da janela, mas o Cicrano queria ver a paisagem. Desenvolva o conflito através de momentos anteriores, ou questões acumuladas que vêm à tona. Crie um embasamento para o problema, senão ficará completamente sem sentido e desanimará os leitores. Certamente é algo mais trabalhoso de se construir, mas se deve prezar pela qualidade do texto, não pela rapidez dos acontecimentos.


Não distorça as personalidades dos personagens

Conflitos são trabalhosos, traiçoeiros. Às vezes uma expressão mal elaborada pode confundir toda a cena, e deve-se estar constantemente atento para evitar uma descaracterização do personagem. Quem não acharia no mínimo estranho ver o todo poderoso e orgulhoso Tywin Lannister chorando numa discussão com o Jaime? Situações como essa até poderiam ocorrer, mas apenas depois de um enredo muito bem construído, e que levasse o leitor aos poucos a ver o personagem de outra forma. De qualquer modo, é algo perigoso, evite fugir dessas mudanças. 


Mantenha o foco da discussão em mente

Esse e um dos maiores problemas quando se escreve uma briga verbal: desviar-se do assunto principal. Dificilmente uma briga plausível começaria porque Fulano teve um caso e traiu o outro e terminaria com Cicrano chorando porque a mãe morreu e o outro não estava lá. A situação pareceu confusa? Pois é assim que o leitor fica quando as brigas perdem seu propósito ou abordam coisas demais. Mantenha o foco.


Utilize-se de sentimentos e descrições psicológicas

A dica parece um tanto óbvia, mas nem tudo é tão perceptível assim. Já vi várias cenas de discussão secas, onde eram apenas as falas dos personagens, e nenhuma narração sobre o seu estado psicológico. Ainda que essa prática dê mais velocidade à cena, não é muito aconselhável por manter em aberto os sentimentos dos personagens. Nem tudo fica claro através de uma fala, e é necessário expor isso. Descreva no que o personagem está pensando, se alguma lembrança vem à mente, ou se alguma palavra ativou um sentimento nele. Mas tome cuidado: não escreva longos parágrafos descritivos entre as falas, ou, ao chegar ao final, o leitor já terá se esquecido do que o personagem falou.


Combine o cenário com o teor da briga

Quando digo isso, não quero dizer que é para colocar os móveis da sala sacudindo e pulando porque Fulano está com raiva. Mas, geralmente, quanto um sentimento está muito forte numa pessoa, ela tende a ver as coisas daquele jeito. Quem nunca viu uma cena de filme em que o personagem está tão feliz que o mundo parece sorrir para ele? Um perfeito exemplo é no filme 500 dias com ela, logo depois que o casal passa a noite juntos pela primeira vez.

A seguir está um exemplo de uma pessoa vendo a mesma cena sob duas ópticas: quando está se sentindo feliz e leve, e quando está no meio de uma discussão com o namorado.

Alana saiu do prédio e franziu os olhos sob a luz forte do sol. O dia estava quente, e a cidade parecia mais viva do que nunca. O barulho das ondas batendo nas rochas era fraco, suave, mas nunca nada pareceu tão confortável à jovem. Sentia-se livre, feliz, e inatingível. Era só ela ali, e nada a afetaria.
Alana saiu do prédio e logo se incomodou com o sol quente em sua pele. Escutou os passos apressados de Connor tentando lhe alcançar, quem sabe para se explicar, quem sabe para mentir. Talvez os dois. A jovem caminhou em direção à calçada oposta, irritantemente consciente do barulho das ondas batendo nos recifes. A cidade estava cheia, e tornava difícil a caminhada, mas Connor a alcançou mesmo assim.

           Perceberam a diferença? Espero que sim. Usem disso com confiança em seus textos, mesmo em cenas que não se restringem a brigas e conflitos.


NÃO ESCREVA TUDO EM CAIXA ALTA, É IRRITANTE!!!!!

E não coloquem mais de um ponto de exclamação ou de interrogação, ou qualquer outra coisa. Por favor. O texto fica esteticamente feio, incomoda. Se você precisa falar que o personagem está gritando, só escreva isso. “... — Fulano gritou.” Viu? Não é difícil, e há milhões de verbos e advérbios que podem perfeitamente explicar a urgência da fala do personagem. Também é importante deixar claro que discussões nem sempre precisam ser aos berros. Uma pessoa parece muito mais ameaçadora quando fala num tom mais baixo, por exemplo. 


Faça listas

Antes de começar a escrever a cena, liste quais são as partes essenciais da discussão, quais são os tópicos que necessitam ser abordados, que são obrigatórios para a continuação do enredo. Parta deles e crie outros núcleos para a briga, mas não se estenda demais, ou o foco se perderá. Também não utilize frases compridas demais, seja o mais sucinto possível em sua listagem, para que, no momento da escrita, não se limite apenas ao que já foi pensado. Particularmente, sugiro que se faça um esquema radial, pegando a ideia principal, colocando-a ao centro, e adicionando ideias posteriores e anteriores ao fato central na narrativa. Acrescente detalhes psicológicos, frases impactantes, descrição física. Não se preocupe com repetição de palavras, apenas você verá o esquema. Segue um exemplo:


Connor alcança Alana, e vê que ela está chorando
Alana tenta se esquivar, mas Connor a faz olhar em seus olhos
Alana confronta Connor sobre a traição – fato principal

Ele procura, mas não encontra desculpas. Arrepende-se

Ela se despede com pesar, raiva e mágoa

Connor fica para trás, encarando o chão


Isso foi um exemplo bem básico, basicamente um clichê, mas apenas para facilitar a compreensão. Tente inserir em seu planejamento, os momentos anteriores e posteriores à discussão em si, como ela surge como termina, assim ela não ficará solta dentro do enredo.

Por último, mas não menos importante, não faça discussões sem propósito, apenas para movimentar a história. Fica cansativo e enjoativo, e geralmente conflitos arranjados duram muito pouco, o que não traz profundidade alguma ao texto. 

Leiam também, todo tipo de texto é bem vindo para quem procura evoluir. Encontrem seu próprio estilo narrativo e desfrutem dele, inspirem-se nos grandes escritores, modernos e clássicos. Sempre há brigas verbais e toda uma obra escrita a partir disso. Façam, portanto, a sua própria.



Material consultado: 



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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana