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Coluna: A Literatura Clássica nas Escolas

sábado, 10 de abril de 2021

 
Por: Rienne de Clairmont
 
 

Oi, blogueiros! To começando a perceber que eu sou muito eclética e sempre trago temas super diferentes um do outro e, obviamente, hoje não é exceção. Essa coluna age como uma opinião a mais (minha, no caso) sobre a discussão do Ep. #62 do Betacast, um ep sensacional, diga-se de passagem. Aí, eu decidi trazer uma espécie de artigo de opinião sobre o uso da literatura clássica e a literatura em geral nas escolas.

Pois bem, vamos dar início a esse texto.

Quando perguntamos a alguém que gosta de ler o que desencadeou o hábito, raramente a resposta será Machado de Assis ou José de Alencar. As respostas que mais ouvi, com certeza, são Harry Potter, Senhor dos Anéis e Percy Jackson; agora você me pergunta: qual a diferença entre essas obras e as obras clássicas da literatura brasileira? Não são todos livros? Pois bem, querido leitor, já ouvi de muitos os seguintes argumentos: “ah, mas olha o ano que esse livro foi escrito!” ou “a linguagem é muito difícil, não consigo entender”. E, de fato, a época e o período de escrita são fatores de imensa importância durante a redação de um livro e, digo mais, livros antigos são uma das melhores maneiras de compreender o ano em que foram escritos e publicados.

Em primeira instância, é perceptível uma semelhança entre Senhor dos Anéis e algumas obras da literatura clássica: ambas são antigas. O Hobbit, primeiro livro situado no universo de Senhor dos Anéis, escrito por J.R. Tolkien, foi publicado em 1937; já “Senhora” de José de Alencar e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de Assis, por exemplo, são publicações datadas do final do século XIX. Agora, o que as torna tão diferentes? Posso dizer que, além do gênero, a escrita, talvez, dado que a linguagem utilizada nas obras é mais rebuscada que a encontrada nas obras literárias atuais. Acredito que um sentimento de adversidade cresceu no cerne da sociedade brasileira quando mencionamos a literatura clássica; e posso ainda apontar a escola como uma grande causadora desse fenômeno.

É interessante analisar a experiência dos alunos com a literatura na escola, pois quando somos pequenos, os livros não possuem um caráter exato, estão lá para ajudar no nosso desenvolvimento e outra, são opcionais. Por outro lado, quando chegamos ao Ensino Médio, as coisas parecem desandar de maneira impressionante; acredito eu, que o fato se deva a obrigatoriedade imposta na disciplina de literatura, dado que ao prestarem o vestibular, os conhecimentos de determinados livros serão testados.

Eu adquiri meu hábito de leitura aos 11 anos de idade quando li pela primeira vez “O Ladrão de Raios” de Rick Riordan, e desde então venho desenvolvendo e aprimorando-o. Quando ingressei no Ensino Médio, foi como se uma bigorna caísse na minha cabeça e a leitura de clássicos se tornou algo extremamente dificultoso; ler para mim sempre foi um prazer, mas durante aqueles anos, se tornou um fardo. Minha escola sempre enfatizou a importância do vestibular e como todos deveríamos nos planejar para a prova (com três anos de antecedência) e já começar as leituras obrigatórias. Tive sorte de ter uma professora que se dispunha a explicar o livro e a sua linguagem e de se importar o suficiente para garantir que a leitura fosse proveitosa, não uma obrigação. Acontece que nem todos os institutos de ensino são assim.

Os livros deveriam atuar como uma exemplificação do conteúdo, como quando temos aula de plantas e vamos ao laboratório de ciências para compreender na prática. Mas não, os livros são tratados como uma matéria à parte, como algo que o aluno deve correr atrás; e, pior, o acesso aos livros vem ficando cada vez mais difícil, principalmente para jovens com condições mais precárias. Ademais, no Brasil há um gap gigantesco entre as escolas privadas e públicas quanto ao incentivo à leitura; em um país como o Brasil, que vem cada vez mais aumentando os preços dos livros, o acesso às obras é extremamente elitizado, fato este que contribui ainda mais para a rejeição da literatura clássica brasileira.

Diante dos argumentos supracitados, a sociedade brasileira tem um idolatrismo internacional gigantesco e intrinsecamente entrelaçado no cerne dela; resultado de todas as colonizações e influências estrangeiras as quais o Brasil foi submetido, a mais recente delas vinda dos Estados Unidos. Sendo assim, os indivíduos tendem a rejeitar tudo que é nacional e isso não só acontece com os livros, mas com diversas obras, em destaque o cinema, que sofre com o hollywoodismo norte-americano. Nesse ínterim, a literatura brasileira é descartada facilmente para dar lugar ao estrangeiro, além de que muitas vezes é censurada por conter temas considerados polêmicos (e, na maioria das vezes, crimes).

Agora, que já temos um panorama geral, analiso o conteúdo presente nas obras clássicas brasileiras e a sua importância. Como dito, muitos indivíduos argumentam a favor do “banimento” de certas obras, por conta de conteúdos racistas, machistas e etc; acontece que o banimento dessas obras não vai resolver o problema do preconceito enraizado no país, de modo que, deve-se olhar para essas obras e classificá-las como lentes do passado (obrigada, Lucas do BC), isto é, como uma das possíveis visões da época retratada. Os livros são, sim, uma ótima fonte de exemplificação para matérias como literatura, história e até mesmo geografia (como Os Sertões, de Euclides da Cunha, que narra tanto a descrição física do cenário quanto a Guerra de Canudos). Infelizmente, a história é sempre contada do ponto de vista dos vencedores, nunca dos perdedores, então ter em mãos uma obra que mostre a época escolhida por meio de outra lente, seja ela problemática ou não, é uma grande oportunidade de ensino. Não adianta esconder do mundo todas as obras preconceituosas, é preciso usá-las como um exemplo do que não fazer, do que não disseminar.

Eu não sei vocês, queridos leitores, mas eu sempre apresentei uma melhor compreensão da matéria sempre que ela era exemplificada, pois assim eu era capaz de aplicar os conceitos em uma situação real. E eu sei que a leitura de um clássico não é fácil, não é prazerosa para muitos, mas é uma das únicas maneiras de termos contato com alguém que viveu no período descrito, mesmo que seja por só uma das diversas lentes existentes (da época). Outro ponto que eu sempre repito é sobre a importância da história e sobre como ela e a literatura (com a arte) caminham juntas e estão sempre se complementando. Não faz sentido, por exemplo, você estudar a contemporaneidade do século XXI, sem antes entender todos os períodos anteriores que nos trouxeram aqui; é como querer aprender função antes de soma e multiplicação, simplesmente não dá.

Mediante isso, o sentimento nacionalista do brasileiro vem sendo corrompido a décadas, de maneira que se tornou facilmente influenciado por outros. A cultura brasileira vem sendo extinta aos poucos e a literatura, o entretenimento, é a primeira a desaparecer, pois ela atua em diversos campos, de diversas maneiras, mas principalmente como uma expressão de ideias, fato este pelo qual existem tantas obras racistas, como Monteiro Lobato. Não é uma questão de descartar e fingir que nunca existiu, mas sim de abraçar, aceitar, analisar e compreender os erros e os acertos, utilizando obras dessa estirpe como um exemplo do que não reproduzir. Não é apagando o passado que se avança, mas sim aceitando-o e analisando suas consequências, de modo a construir melhores escolhas de futuro. E não há nada melhor do que a literatura para ter como ponto de partida.


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Coluna: "Silent Hill 2", a visão de um homem perturbado

domingo, 4 de abril de 2021

 

Por: Tovarish

 

Recentemente eu vi algumas amigas conversando sobre momentos em que elas provavelmente queriam que todos os homens fossem extinguidos da face da terra, mas não se enganem, esse desejo tem motivos justos: elas conversavam sobre como homens são extremamente invasivos em relação às mulheres no dia a dia, e como muitos não param parar pensar nisso, ou ao menos se importam em mudar. Em busca de respostas sobre o por que homens tem determinados comportamentos com mulheres, e na urgência de voltar a escrever pro Blog, decidi fazer uma reflexão sobre isso com uma coluna. Vou tentar relacionar o comportamento invasivo (e abusivo) de muitos homens, com o enredo de um dos jogos clássicos da minha adolescência, Silent Hill 2, que demonstra ao jogador a jornada de um homem completamente perturbado. Vamos ver o que este enredo tem a oferecer e o que ele pode nos contar sobre a forma perturbadora com a qual os homens encaram as mulheres e seus corpos.

A primeira vez que eu tive contato com os jogos da série Silent Hill, — uma das muitas excelentes franquias próprias que a Konami conseguiu estragar no decorrer dos anos — eu esperava ter contato com jogos com ambientações envolventes, trilhas sonoras imersivas e monstros que me deixassem agoniado com a possibilidade de avançar. O que eu acabei encontrando foi tudo isso, ainda acompanhado de enredos extremamente intrigantes, especialmente nos quatro primeiros jogos.

Dentro desta franquia que muito sofreu com o tempo, e de seus enredos igualmente mal aproveitados, nós temos aquele que se tornou não apenas ícone do terror psicológico por suas especificações técnicas, mas também um ícone cult por seu enredo: Silent Hill 2 (2001), o segundo jogo da saga.

Para quem não sabe, (e explicando isso mais na lógica dos quatro primeiros títulos, que é o que nos importa), os jogos da série abordam a história de diferentes personagens que são de alguma forma atraídos para a cidade de Silent Hill. Aquele que parece ser um tranquilo e pacato destino de férias para famílias e casais que buscam descanso, — com hotéis, museus e uma enevoada vista do sorumbático Lago Toluca — é na realidade um lugar envolto em um passado cheio de crueldade, de certa forma, amaldiçoado, e que parece lançar em todos aqueles que tem alguma perturbação, um convite para que adentrem as dimensões sobrenaturais daquele sítio.

O título original, de 1999, contra a história de Henry Manson e Sherry, pai viúvo e sua filha pequena, que estão indo para Silent Hill em busca de férias tranquilas. Após um acidente na estrada a caminho da cidade, descobrem uma bizarra ligação entre a menina e um culto pagão ancestral daquela localidade. De forma que, deve ter sido uma surpresa para as pessoas que aguardavam um novo título, quando em 2001, a equipe de desenvolvimento resolveu trazer à tona um enredo com personagens e problemas totalmente desconectados em relação ao anterior, aproveitando apenas o cenário e os conceitos do universo que já haviam sido explorados.

James olha para seu reflexo no espelho sujo procurando respostas em si mesmo. De nada adianta, ele é ignorante sobre suas próprias ações. A continuação dessa cena é ele passando a mão no rosto, dando uma respirada profunda e pensando se ele realmente estava ali. Poderia Mary estar ali?

 Silent Hill 2 tem um plot que de cara já desperta interesse: um homem chamado James Sunderland, se olhando no espelho de um banheiro público próximo à entrada da cidade, pensa em uma carta que recebeu a poucos dias de sua esposa, Mary. A carta rememora férias que o casal havia tido anos atrás na cidade, e a mulher escreve que estaria lá, esperando-o agora, no “lugar especial” deles. O que intriga James e também o jogador, é o fato que Mary havia morrido três anos antes, vítima de uma doença degenerativa incurável.

A cidade, que normalmente tem ar de instância turística, também atraí de forma sobrenatural para suas dimensões paralelas pessoas com perturbações sobre seu passado e relacionamentos com outras pessoas, e não tenham dúvida alguma, James é uma pessoa transtornada.

Para quem não jogou os títulos da franquia, ou especificamente os dois primeiros, saibam que é essencial para o sentido dessa coluna sabermos que as criaturas que aparecem na névoa de Silent Hill e em suas várias dimensões são um reflexo de sentimentos de culpa, raiva, ou de alguma pendência que não superada pela pessoa, que ela leva para a vida como um fardo. Mas qual era o fardo de James? Qual a relação disso com a sua esposa? Essa uma resenha Silent Hill? Não.

As formas femininas dos monstros em Silent Hill 2 não é por acaso.

Vamos à primeira questão, e isso envolve spoilers sobre a trama de Silent Hill 2. Durante o jogo nós vamos aprendendo mais sobre o relacionamento de James e Mary, também vamos encontrando outros personagens (todos eles têm sentimento de culpa ou traumas que os atraem para aquele lugar, com exceção da pequena Laura, todos também parecem estar buscando alguma forma de redenção consigo mesmo), uma das personas que devemos destacar nessa parte Maria, uma bonita mulher, exatamente igual à Mary em aparência, mas totalmente diferente em todos os outros aspectos.

Mary, além de muito mais discreta no vestir, tinha também uma personalidade muito mais reservada.

Maria é bonita, extrovertida, se veste de forma provocativa, é idêntica a Mary e flerta com James em vários momentos do enredo. Maria parece ser tudo o que James queria que Mary fosse.

O contexto em que essa personagem é introduzida nos faz pensar se ela realmente existe: no inventário de James existe uma foto de Mary junto com a carta, não é preciso ser um detetive para concluir que ela era uma mulher recatada, tranquila, e que tentava ser a melhor esposa possível para James. O fato é que ele e Maria se encontram em um parque de Silent Hill que foi um dos lugares onde James e Mary haviam passeado em sua ida para lá anos antes, por causa disso, o homem em primeiro momento pensou que já havia encontrado sua esposa. Vendo que Maria não era Mary, James parece automaticamente perder o interessante na mulher, estando até disposto a deixar ela ali, mesmo sabendo que estranhas e perigosas criaturas estão rodeando a cidade.

Para James, apenas Mary importa. Ao longo da jogatina, em diversas ocasiões fica claro que depois da morte da esposa, James perdeu noção das coisas ao seu redor e até o amor vida: em uma das primeiras áreas do jogo, ele coloca a mão em um buraco na parede buscando um item, e dentro deste buraco ele é picado por uma criatura que parece ser um inseto, e ele pouco se importa; na mesma área ele enfia a mão em uma privada suja e entupida, também em busca de um item, sem hesitar; em VÁRIOS momentos, próximos ao final do jogo, ele pura em buracos sem fundo visível para avançar, demonstrando que morrer ou continuar vivo, ali, faz pouca diferença.

 

Isso definitivamente não é uma boa ideia.

Todavia, o sentimento de culpa de James está atrelado diretamente em sua relação com Mary. Lembra quando eu disse lá no começo que a causa da morte da Mary foi uma doença degenerativa incurável? Pois então, essa foi a causa parcial.

Nos estágios mais avançados do enredo é exposto que a doença de Mary fez com que ela primeiro ficasse internada por longos períodos, e depois de algum tempo, definitivamente. Com o passar do tempo a doença também foi degradando a aparência de Mary, destruindo a sua beleza, que James tanto admirava. Inicialmente, o marido sempre esteve com a esposa, visitando-a frequentemente no hospital e dando apoio, mas com o tempo as visitas foram se tornando cada vez menos frequentes, e quando aconteciam, eram marcadas pela irritação de James. Acontece que quanto mais a doença de Mary avançava, mais a frustação de seu companheiro ia aumentando, e fica claro para o jogador: James não amava a pessoa de Mary, ele amava tê-la como esposa, amava possuí-la. Com ela estando em uma cama de hospital e tão frágil, ter qualquer tipo de relações sexual era impossível.

 

James, prestes a fica viúvo, tem um diálogo cheio de uma estranha calma com sua esposa convalescente. Reparem no rosto de Mary, a visão da beleza de sua mulher estar sendo dilapidada parecia atormentar mais James do que o fato de que ela estava, de fato, morrendo lenta e dolorosamente.

Spoilers pesadíssimos nas próximas linhas, vou tentar fazer uma história longa ficar curta. James e Mary chegam a discutir essa questão, e obviamente Mary fica indignada em saber que o homem que ela ama exige tanto dela em uma situação tão horrível, e quanto mais o tempo passa, mais Mary vai ficando debilitada peça doença, até não conseguir mais falar com autonomia. Em sua última visita, James assiste Mary em estado terminal pela última vez, e logo em seguida, começa a sufoca-la com o travesseiro, provocando a morte de Mary por asfixia. Achou tenso? Parece que ele também, aparentemente ele suprimiu essa memória para conseguir viver sem surtar, e nós só temos acesso a essa informação quando, ao chegar no “lugar especial” deles em Silent Hill, o Lake View Hotel, James encontra uma fita que ele havia gravado quando eles estiveram lá da última vez. As primeiras imagens da fita mostram momentos felizes do casal, em seguida, a verdade.


Apenas Mary importava, certo? Não, apenas determinadas coisas importavam em Mary, e para James, uma delas era o fato dela ser mulher, e de ser uma bela mulher. O motivo de James ser perseguido por monstros de formas femininas, e a maioria deles modelados da cintura para baixo, em posições de sofrimento, é um reflexo da mente dele, demonstrando qual era a parte do corpo de Mary que ele mais amava.

 

Esta aqui é chamada de Lying Figure, um dos monstros mais frequentes no jogo. Reparem como ela tem um corpo com curvas e parece ter algo parecido com um salto no pé, a pele deformada e acinzentada, se parece com a pele de Mary nos estágios finais de sua doença. Esse monstro sempre solta ruídos de agonia.

 


A Mannequin é mais comum em espaços internos. Repare só como ela não tem cabeça, braços, apenas as pernas com uma parte do tronco. Esta é uma das imagens que mais representa a perversão sexual de James.

A própria figura da Maria, idêntica a Mary, só que muito mais ativa, muito mais voluptuosa, também é outro reflexo da mente de James se materializando na névoa de Silent Hill: é daquela forma que ele desejava que sua esposa se vestisse, se comportasse e fosse em sua totalidade.

Este homem — que certamente deve estar provocando asco nas leitoras do Blog que não jogaram o jogo, e provocou asco àquelas que jogaram — em sua busca onírica por redenção, cria também um punidor para seus pecados, em algum lugar de sua mente ele sabe que precisa ser punido pelo que pensou, falou, e especialmente pelo que fez para Mary. O inquisidor de James é o icônico Pyramid Head: alto, forte, armado com uma grande faca e com um capacete metálico em forma de pirâmide que parece ser um fardo.

 

O monstruoso Pyramid Head persegue James durante todo o jogo. Ele aterroriza James, o jogador e até os outros monstros.


Uma das cenas mais chocante do jogo mostra o Pyramid Head violentando e sodomizado duas Mannequins. Isso não é só uma violência gratuita: o cabeça de pirâmide também representa James, ele é o executor e também o executado.

Obviamente que nem Silent Hill 2 e nenhum outro enredo voltado para o terror psicológico busca criar uma história de jornada do herói. A única “libertação” que James encontra é admitindo para si mesmo que ele é uma pessoa horrível, que fez e pensou coisas horríveis e que merece sim sofrer o que está sofrendo. Inclusive, em um dos finais (são seis, ao todo), James tira a sua própria vida, não conseguindo viver com o fardo dos seus atos.

A reflexão que eu queria trazer é que olhando para as redes sociais, para os chats de jogos online, para a nossa vida cotidiana, nas viagens de ônibus dentro na cidade, dentro das empresas e em muitos outros lugares, nós podemos tirar uma conclusão aterradora: a maioria dos homens, se não todos, são tomados total ou parcialmente pelo espírito perturbado do James. A maioria não tem a falta de noção ou a falta de amor a vida do protagonista de Silent Hill 2, mas todos tem o ponto em comum: dificilmente enxergam a mulher como uma pessoa, como o ser humano que tem o nome e interage de tal maneira; mas sim como uma mulher desejável e possivelmente “disponível”.

Para as mulheres, muitas vezes, resta se defender dos impulsos que partem em direção a ela. Na visão dos James do dia a dia, elas acabam sendo Maria, mesmo que queiram ser Mary, ou simplesmente queiram ser elas mesmas, como qualquer um tem o direito de ser. Para defender seu espaço, e muitas vezes sua própria integridade física, a mulher precisa ser o próprio Pyramid Head (as vezes, com uma faca, literalmente).

No final das contas, quem escreve este texto é um homem. E ao contrário do que normalmente acontece, na Liga dos Betas os homens são minoria. Isso quer dizer que eu sou casto como um padre? Não, longe disso. Ao mesmo tempo, acho que a solução para tornar melhor a vida das minhas amigas é pedir desculpa por ser homem? É lógico que não. A solução para prevenir e combater os maus tratos que as mulheres sofrem parte de cada um de nós, de cada homem, em pensar como nós tratamos os outros seres humanos e como nós queremos ser tratados.

Por que é tão difícil pensar nas camaradas mulheres como humanos? Por que é tão difícil ver elas primeiro como intelectuais, poetisas, escritoras, betas, trabalhadoras, CEO’s, políticas bem quistas; ou invés de tentar enxerga-las do nada como possíveis namoradas, esposa, ou um possível caso? A conclusão destas perguntas gera de novo a resposta aterradora: os homens tem dificuldade em ver as mulheres como humanos. E se isso não mudar rápido nós corremos o risco de criar uma sociedade em que os Direitos Humanos não chegam nas mulheres com a mesma efetividade. Mas na prática, eles chegam?

Como professor de História na rede pública de ensino, eu preciso saber sobre História, saber sobre ensinar e saber sobre a rede pública de ensino. Mas se existe algo que eu aprendi com a minha vivência, é que frases como “respeito é algo que pode mudar a sua vida e a vida das pessoas que estão ao seu redor”, são essências de serem faladas aos mais jovens. Muitos são sabem dentro de casa o que é respeitar outro ser humano e ser respeitado como um humano. Como faze-los ter respeito por si mesmo? E com o próximo? O desafio é grande, mas se um existe um caminho para fora desta crise, e se existe algum principio que pode responder todas as questões que eu fiz ali em cima, este é o respeito. Precisamos semear o respeito.

  Não façam como James Sunderland, não peçam para um Pyramid Head capar os seus desejos e te punir pela eternidade. Respeitem as camaradas mulheres da mesma forma como vocês gostariam de ser respeitados, é bem mais simples.


 
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