Sexualidade e Verossimilhança (3/3)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Por: Roberto Lasneau

Nos dois posts anteriores, vimos as principais informações sobre a homo, bi e assexualidade, a fim de mostrar, da maneira mais clara possível, como funciona esse universo que muitos desconhecem, visto que nossa sociedade é heteronormativa.
Este post tratará sobre os principais tópicos da Transsexualidade e da tão conhecida Heterossexualidade. O post também terá um grande foco numa situação que é facilmente confundível: a diferença entre sexualidade e identidade de gênero.
Parte 3.1 – Transsexualidade
O mais importante de tudo:
Sexualidade x Identidade de gênero
A primeira coisa que precisa ser desmistificada é que a transsexualidade tem a ver com homossexualidade. Seja na hora de construir suas personagens ou tratando-se de pessoas reais, esses dois termos (sexualidade e identidade de gênero) são totalmente independentes. Nenhum tem relação com o outro.
Para entender melhor, podemos fazer uma simples relação da sua personagem e, você, escritor, verá que não é nada tão complicado. Vamos pegar um exemplo aleatório:
Mulher¹ cisgênera² homossexual³
¹É a sua identidade de gênero. Ela se identifica como mulher. Gosta de ser mulher e de tudo que o gênero lhe proporciona. Gosta que a tratem por meio de pronomes femininos.
²O termo “cisgênera” indica a “concordância” entre a identidade de gênero e o sexo biológico (que se difere do sexo psicológico). Falando de forma mais simples, ela se identifica com o gênero que lhe foi determinada no nascimento (biologicamente falando).
³É a sexualidade dela. Perceberam como isso não interfere na identidade de gênero? Como eu disse mais acima, ela se identifica como mulher; logo, não tem interesse por coisas de identidade masculina, não se sente como um homem. Ser homossexual, no caso, não significa que ela queira ser homem.
Vamos criar outra personagem aleatória para visar melhor:
Homem¹ transgênero¹ bissexual¹
¹É a identidade de gênero do personagem. Ele se identifica como homem, gosta disso e gosta de que o tratem como homem.
²O termo “transgênero” indica a “não-concordância” entre a identidade de gênero e o sexo biológico, isto é, ele não se identificou com o gênero que lhe foi determinado no nascimento.
³Independente da identidade de gênero, sua orientação sexual é definida pela bissexualidade, ou seja, ele sente atração por mulheres e homens, o que mostra mais ainda que esses três itens não influenciam uns aos outros.
Não-binários
Ainda há outro grupo de pessoas que são classificadas como não-binárias, que, como o próprio nome já diz, são aqueles que não se prendem aos dois gêneros: masculino e feminino. Nesse caso, sendo tanto uma pessoa bigênera (que se identifica com os dois sexos) quanto uma agênera (que não se identifica com nenhum). Além disso, existem casos de gêneros fluídos e até mesmo algumas culturas que nomeiam terceiros sexos.
Sexo: a necessidade e o ato
Não vou me estender muito nesse tópico porque o assunto já foi abordado. Identidade de gênero não tem a ver com sexualidade, portanto, uma pessoa transgênera terá as mesmas necessidades da sua orientação sexual, sendo iguais a todos os outros da mesma sexualidade.
F.A.Q. sobre a Transsexualidade
1 – Eu tentei pesquisar sobre o assunto, mas são tantos termos que eu me confundi. Queria criar uma personagem trans, mas vi tantos nomes que não sei como farei a devida referência. Como proceder?
Bom, as principais nomenclaturas conhecidas são “Transexual”, “Transgênero”, “Travesti” e “Não-binários”. O transexual é aquele que, por desconforto, acaba por optar a fazer a operação da genitália, “mudando” para o sexo com o qual se identifica. O transgênero é aquele que simplesmente não criou uma “concordância” com o sexo que lhe foi designado (o que inclui os travestis e os transexuais). O travesti é aquele que tem o desconforto com o gênero, mas não necessariamente com a genitália, isto é, com a necessidade de fazer uma operação. Já os não-binários são aqueles que não se prendem aos dois gêneros, como foi explicado mais acima.
2 – Um transgênero pode ser homossexual? E assexual?
Pode, em ambos os casos. Lembrando que, no caso da homossexualidade, leva-se em conta o gênero com que a pessoa se identifica, portanto, se for uma pessoa transgênera que se identifique como mulher, a homossexualidade será definida pelo fato de ela sentir atração por outras mulheres. O sexo biológico não tem relevância nisso.
3 – Como eu posso fazer a insatisfação de gênero da minha personagem sem parecer algo forçado?
Creio eu que não há como fazer isso forçadamente, afinal, insatisfação é algo fácil de explorar num personagem, algo bem abrangente também. No entanto, acho que cair em contradição possa tornar o texto forçado, isto é, escrever, por exemplo, dois desejos totalmente opostos que, juntos, gerariam algum conflito.
4 – Supondo que minha personagem nasceu homem, mas sempre se sentiu incomodada com isso. Minha fic falará sobre esse processo de “transformação” dele e eu pretendo que na primeira metade da fic ele ainda esteja como homem e, na segunda metade, já como mulher. Como devo me referir à personagem na primeira metade da fic?
Se sua narração for em primeira pessoa, use pronomes femininos (caso contrário, seria uma contradição). Se a narração for em terceira pessoa, fica a seu critério, já que este tipo de narração é impessoal. Já sobre as personagens restantes, sempre terão aqueles que respeitarão e os que não respeitarão a identidade de gênero da sua personagem, mude conforme as ocorrências.
5 – O que é drag queen? Tem algo a ver com o tema?
Não tem muito a ver com o tema, mesmo se tratando de um ser travestido. As drag queens (ou drag kings, para mulheres que se travestem de homem) são apenas manifestações artísticas, ou seja, trata-se de arte ou até mesmo de profissão. Existem homens héteros que trabalham como drags, então não há nenhuma relação.


Parte 3.2 – Heterossexualidade
Por último, e não menos (ou mais) importante, temos a orientação sexual mais comum na nossa sociedade, indicada por cerca de 90% da população mundial, a heterossexualidade. Apesar de ser muito conhecida, ainda existem alguns (poucos) erros que muitos enfrentam, principalmente quando se trata da relação entre um hétero com outra pessoa de outra sexualidade.
Heterossexualidade x Curiosidade
É normal que o ser humano, principalmente na adolescência, queira experimentar coisas novas e diferentes do habitual. No entanto, com a heteronormatividade presente na nossa sociedade, nem sempre esses “experimentos” são muito bem vistos. Há dois tipos de heterossexuais: os convictos e os curiosos.
O heterossexual convicto é aquele que não está aberto a experimentar. Então, no caso de um homem heterossexual convicto, ele somente ficará com pessoas do sexo oposto, exclusivamente. Já o heterossexual curioso é aquele que aceita experimentar uma pessoa do mesmo sexo (seja pra ver como é ou simplesmente por experimentar mesmo) e isso não o faz de indeciso ou de menos hétero; ele continua hétero, ele apenas experimentou.
Concluindo, curiosidade não torna ninguém mais/menos homem ou mulher heterossexual. É uma coisa comum do ser humano, apesar de existirem seres convictos.
Heterossexualidade x Comportamento
Não é todo rapaz hétero que se comporta de forma 100% masculina. Assim como não é toda moça hétero que se comporta de forma 100% feminina. O mesmo vale para pessoas de outras sexualidades. Isso acontece porque os seres humanos são diversificados, cada um é diferente do outro e a sexualidade não influencia no comportamento. Sexualidade não tem relação direta com comportamento!
Existem, sim, rapazes héteros com trejeitos, assim como existem rapazes homossexuais totalmente discretos, e o mundo é repleto dessas diferenças. E ninguém é mais homem (no caso do exemplo) que ninguém, porque ser homem é questão de identidade de gênero e não de quem é mais “macho” que o outro. Pensar dessa maneira já é considerado uma ideologia machista (por machismo temos aqueles que pensam que ter mais masculinidade que alguém é sinônimo de superioridade).
Sexo: a necessidade e o ato
Diferente das outras sexualidades, creio eu que não preciso explicar muita coisa aqui, visto que é bem conhecido (o clássico homem e mulher). No entanto, existem alguns pontos pequenos que merecem ser ressaltados. Um deles é o polêmico fio-terra (para os que não sabem, consiste no ato da mulher introduzir o dedo no ânus do homem, pois, em alguns casos, ele vem a sentir prazer). Muitos dizem que prazer anal é sinônimo de homossexualidade (para homens) e isso é um absurdo total. Não existe isso, gente. Homens héteros podem, sim, sentir prazer anal e isso não faz com que eles sejam menos homens e mereçam desprezo. É preciso respeitar o prazer de cada um. E comparar com homossexualidade não faz sentido, pois existem homossexuais que não possuem prazer anal, por exemplo.
Outro ponto que ocorre muito é a questão da lubrificação feminina e a penetração na mulher. Tudo bem que a vagina é uma área maior, mais lubrificada e mais preparada para a ação de uma penetração, mas isso não é sinônimo de penetração extremamente mais fácil. O erro que ocorre muito são os caras que conseguem penetrar com uma facilidade assustadora (às vezes as meninas são até virgens ainda). Gente, não funciona assim. Além disso, a lubrificação feminina não é um líquido milagroso e inesgotável do puro prazer, isto é, ela não soltará litros e litros com facilidade, e a penetração tem que ser cuidadosa, tanto para o homem (que pode ter o membro lesionado/entortado caso exagere nos movimentos) quanto para a mulher (que pode ter umas lesões internas dependendo de como forem feitos os movimentos). Resumindo, não é pelo fato de, naturalmente, a penetração heterossexual ser mais facilitada que significa que é totalmente mais fácil e sem preocupações.
F.A.Q. sobre a heterossexualidade
1 – Você disse que existem héteros curiosos que só experimentam, mas são héteros. Por que então, no caso, eles não são bissexuais? E nos casos em que o hétero experimentou e viu que só gosta do mesmo sexo?
Para a primeira pergunta, eles não são chamados de bissexuais pelo simples motivo de não serem bissexuais. Lembrando que bissexuais são aqueles que sentem atração por pessoas de ambos os sexos e que, experimentar não tem nada a ver com isso. Você pode escolher ficar com alguém de qualquer sexo, mas não pode escolher sentir (ou não) atração.
Já para a segunda pergunta, se ele percebeu que só gosta de pessoas do mesmo sexo, convenhamos que ele não é um hétero curioso, mas, sim, um homossexual que acabou por se descobrir. Por vivermos numa sociedade heteronormativa, é comum que todos “comecem” como héteros até que se percebam.
2 – Os héteros são contra a população LGBT?
Não todos. Sexualidade não define personalidade. Existem LGBTs que são contra a própria população.
3 – Afinal, o que é essa tal de heteronormatividade? Posso usar isso numa fanfic?
A heteronormatividade é a ideologia que define a heterossexualidade como a sexualidade mais comum, isto é, a qual a sociedade está, culturalmente, acostumada. Com isso, temos muitas coisas sempre se referindo a héteros, inclusive no nascimento (pois, antes de uma pessoa se descobrir de outra sexualidade, ela mesma se considerava hétero). Alguns costumam associar esse termo também ao comportamento (masculino e feminino), mas eu, particularmente, não concordo, pois, como eu disse, existem homens héteros afeminados e homens homossexuais discretos. No caso dessa associação ao comportamento já entra o conceito de “sexismo” (que consiste em rotular os comportamentos e responsabilidades do homem e da mulher). A heteronormatividade é uma questão cultural, flui naturalmente na nossa sociedade, creio que, numa fanfic, ela já apareça por conta própria, não tem como evitar, pelo menos não nos dias atuais.
Conclusão

Respeite sua personagem. Não importa sua sexualidade ou identidade de gênero, não importa se você quer tratá-la como uma pessoa de boa ou má índole. Não se esqueça do principal: sexualidade, identidade de gênero e personalidade não se misturam. Esses três termos são independentes. Não rotule seus personagens. Entenda que seres humanos são diversificados por natureza. E, principalmente, que ninguém quer passar por cima de ninguém, que cada um tem seus interesses e gostos, que, mesmo não sendo aprovados, podem ser respeitados.
Como sempre, meu material foi muito grande, portanto, estou resumindo em poucos links:




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