Por: Mr Martell
Escrever
no ponto de vista de um personagem que não pertence ao mesmo sexo
que você pode ser bem difícil, hein? Eu, por exemplo, não consigo
escrever pela visão de uma mulher porque simplesmente não conheço
o seu universo muito bem — não conheço suas aflições, seus
pensamentos, seu dia a dia... e isso dificulta, e muito, a criação
de uma narrativa verossímil.
Já
até tentei amenizar essa situação ao usar a terceira pessoa —
tentando, ao máximo, me distanciar dos pensamentos da personagem —,
justamente por ter medo da minha história soar estereotipada
e
rasa
(não
tive muito sucesso com esse projeto). E, acreditem, infelizmente,
essa é a realidade de diversas histórias que se encontram no nosso
Nyah! (sim, yaois, é com vocês que eu estou falando).
Sem
perceber, é possível que a gente, ao entrar nesse universo não tão
conhecido, acabe pecando em vários pontos. Cansei de ver autoras
enchendo suas histórias de gírias como “mano, cara, maluco,
velho” numa tentativa fracassada de trazer mais “masculinidade”
às suas fics, sendo frios e insensíveis, mostrando sempre um quarto
bagunçado e dando ênfase em ações tão comuns como deixar a tampa
do vaso sanitário levantada; há também aquelas que colocam traços
genuinamente femininos em seus personagens sem ter ideia do que estão
fazendo — homens falando “obrigada” e que passam horas inteiras
olhando para a foto de uma mulher, dizendo para todos o quanto ele a
acha linda, perfeita e maravilhosa.
É
importante ressaltar que não quero determinar como você deve ou não
fazer seu personagem, qual deve ser a personalidade dele ou algo
assim. Nada — nada
—
impede você de criar alguém com traços do outro gênero, até
porque gênero não é nada absoluto. É preciso, porém, ter cuidado
para não cometer falhas como as citadas anteriormente.
Homens
podem ser amorosos, carinhosos, mandar flores para seu ficante? É
claro! Podem também não dar a mínima para o relacionamento? Sim!
Mas é necessário que você, autora, saiba dosar isso, não force a
barra e não deixe seu personagem parecendo muito forçado.
Homens
têm outro assunto para conversar além de futebol, assim como também
não vão nem se tocar se deixarem a tampa do vaso levantada (cito
esse acontecimento novamente porque a situação estava realmente
precária), porque é algo natural pra gente. Não estereopatize seu
personagem com palavrões e atitudes do estilo “homem não chora”.
Chegou em um momento da história em que seu personagem tem que fazer
uma decisão e você não sabe o que um garoto faria nessas
circunstâncias? Pergunte a um amigo seu! A visão de alguém de fora
é sempre importante na hora da construção da sua fic.
Tenha
cuidado para não deixar seu personagem raso, para não criar apenas
um reflexo de algum estereotipo. Não adianta criar o homem perfeito
se ele não tem profundidade alguma. Dê uma personalidade marcante
para o seu personagem! Dê-lhe conflitos, sentimentos, sucessos,
fracassos!
Trate-o
como uma pessoa real e lembre-se de que as pessoas, antes de ser um
garoto ou garota, são humanos; e como tal, não podem ser
categorizados. O ser humano é muito complexo, e é essa complexidade
que nós, autores, devemos usar ao criar os nossos universos — ou
ao usar universos já criados. A humanidade, no fim, é superior a
qualquer gênero, a qualquer etnia, a qualquer tudo.
(P.S¹:
Se seu personagem precisa tomar uma decisão importante e você não
faz ideia do que um cara faria naquela situação? Pergunte ao seu
pai, seu irmão, seus amigos! Nada melhor do que conversar com um
rapaz para entender como um garoto pensa.)
(P.S²:
Ler livros que são narrados por garotos também podem ajudar-lhe
bastante a não cair nessas ciladas. Obras conhecidas como Harry
Potter (J.K Rowling) e nem tão conhecidas como Supernova — O
Encantador de Flechas (Renan Carvalho) podem ser de grande ajuda.
Para ser uma boa escritora, é imprescindível que você seja uma boa
leitora. Procure livros com POV’s masculinos! Dessa forma, será
muito mais natural a criação do seu próprio personagem.)
