Como Escrever Cenas Trágicas e/ou de Morte?

segunda-feira, 23 de abril de 2018



Como abordar a tensão dos últimos minutos de vida? Qual a melhor forma de se representar a tragédia da partida de um personagem? O que podemos fazer para aumentar o impacto desse tipo de cena? Qual o caminho mais razoável para se seguir ao descrever uma cena fatal? Tudo isso e mais um pouco no artigo de hoje.

Saudações, amigos leitores! Eu sou Trubluu no Nyah Fanfiction, também conhecido como MK lá no Betacast e Maycon Stuartt no VLOG da Liga (e no resto da vida). Algum tempo atrás decidi pegar o tema mais encalhado de todos no banco de sugestões de artigos que temos para postar aqui e superei um grande estigma que vinha assombrando os escritores de artigos do nosso singelo blog. Como resultado, surgiu o fatídico artigo sobre “Como escrever cenas hentai debaixo d’água”.

No maior espírito de nobre cavaleiro, aceitei mais um desafio e peguei outro tema encalhado no banco de ideias: Como escrever cenas trágicas/de morte em 1ª e 3ª pessoa. Pois é. Não sei quem sugeriu isso, mas obrigado pela oportunidade, adianto que as pesquisas para esse artigo foram bastante proveitosas.

Enfim, sem mais delongas, vamos direto ao assunto. Desta vez quero ser um pouco mais didático, então vou destrinchar por completo as ideias, separando as coisas em tópicos, a começar pela tragédia.

Muito bem amiguinhos, o artigo vai ficar um pouco longo, então pegue a pipoca e vem com o tio.

A tragédia

Pra começar, é importante saber o que é uma “cena trágica”, que, antes de mais nada, independente do resultado morte estar presente ou não. Geralmente entendemos como tragédia a história que tem um final doloroso, mas adianto que esse gênero vai muito além dessa percepção comum e tão rasa.

Vocês já devem saber, mas vale lembrar que a tragédia surgiu na Grécia Antiga e já foi objeto de estudo de muitas figuras importantes ao longo do tempo. Dentre outros, o conceito a seguir é um que acredito resumir a ideia mais abrangente de tragédia para nosso artigo:

A tragédia é uma forma dramática de arte, em geral solene, cujo fim é excitar o terror ou a piedade, baseada no percurso e no destino do protagonista ou herói, que termina, quase sempre, envolvido num acontecimento funesto. Nela se expressa o conflito entre a vontade humana e os desígnios inelutáveis do destino, nela se geram paixões contraditórias entre o indivíduo e o coletivo ou o transcendente. Em sentido lato, pode abranger qualquer obra ou situação marcada por acontecimentos trágicos, ou seja, em que se verifique algo de terrível e que inspire comoção.”


Vendo dessa forma, a tragédia deixa de ser apenas um final triste e acaba possuindo uma estrutura e requisitos a serem levados em conta na hora de se escrever a história. Dentre outras coisas, vale citar que a tragédia clássica deve cumprir, segundo Aristóteles, três condições básicas: 1 - possuir personagens de elevada condição (heróis, reis, deuses), 2 - ser contada em linguagem elevada e digna e 3 - ter um final triste, com a destruição ou loucura de um ou vários personagens sacrificados por seu orgulho ao tentar se rebelar contra as forças do destino.

Observando tais requisitos levantados por Aristóteles, resumo e aponto os pontos determinantes dentro da tragédia para nosso artigo:

Impotência e inevitabilidade.

Quando escrever uma tragédia, ou uma cena trágica, que seja, assegure-se de garantir que aquele que sofrerá com o fim trágico não tinha força ou tempo para impedir o resultado. É como uma fatalidade. Em geral, nada pode ser feito frente a tragédia. Os gregos falavam muito em castigo divino ou destino quando chegavam ao Êxodo da história justamente pela sensação de impotência dos heróis frente ao destino. Não à toa os desastres naturais são chamados de tragédias.

A inevitabilidade e a impotência do personagem frente ao final é algo que caracteriza a tragédia e nos dá a catarse que permeia esse gênero. Para Aristóteles, a função da tragédia é provocar, por meio da compaixão e do temor, a expurgação ou purificação dos sentimentos. Sendo assim, precisamos nos assegurar que a cena trágica transborde compaixão e temor, para que se gere empatia com o personagem e seu fim.

Ainda sobre a estrutura, é comum a citação de três etapas na construção da narrativa trágica:

Prólogo (exposição inicial): Onde os personagens e o conflito é apresentado. É o trecho onde se dá motivação e empatia para os protagonistas.

Episódios (os atos que constituíam a intriga): É o desenrolar da trama de maneira geral. Nesse ponto se tem uma grande tensão durante o conflito. Geralmente o protagonista que sofrerá com o final trágico se vê determinado, mas impotente frente ao possível fracasso inevitável. Aqui apresentamos o medo, a paixão e os demais sentimentos que vão gerar a catarse final.

Êxodo (desenlace ou desfecho): É o encerramento fatal do conflito, onde esvaziamos todas as emoções que outrora uniram o público em expectativa.

Nota pessoal: Eu, particularmente, gosto de mortes com “significados escondidos”. Digo, quando alguém morre em algum texto que produzo, não costumo enfeitar sua partida (no sentido de dar-lhe um propósito maior, para que o leitor fique com pena do personagem). Geralmente eu simplesmente mato, sem glória ou choro, sem condolências, sem drama. E acredito que esse também é um dos aspectos da tragédia. Você simplesmente morre e não segue na história, tal como acontece em desastres naturais inesperados. Diferente de mortes poéticas, cheias de significados em si mesmas, deixo que o personagem morto fale por si e não a cena que o matou.



A morte

Agora vamos falar sobre alguns aspectos da morte nas histórias. Vou tentar ser o mais objetivo possível e começar dando uma grande dica que tenho carregado para minha vida de escritor: Em regra, morte é um resultado, salvo quando causa.

Eu explico.

Enquanto escritores, acredito que não devemos cair na tentação de matar um personagem só por matar. Eu sei que tem dia que acordamos com a “pá virada” e dá vontade de cometer alguns homicídios por aí, mas entenda: a história precisa de motivos. A morte de um personagem sempre deve ser o resultado de algum conflito, de algumas escolhas, de alguma coisa. Seja uma luta que ele não conseguiu ganhar ou seja porque ele não olhou pros dois lados na hora de atravessar porque estava com pressa para algum compromisso, o motivo não importa muito, desde que você tenha apresentado a sequência lógica justificativa da morte.

Deve-se entender também que a morte precisa, acima de tudo, mover a história e os personagens pra frente, progredindo o enredo. Não adianta matar um personagem por mero capricho. Mortes gratuitas, feitas com a simples intenção de chocar o público não são muito recomendadas, nem é o foco de discussão deste artigo. Quando queremos fazer uma morte trágica precisamos dar a ela um motivo:

“Por que essa morte vai acontecer?” é a pergunta que precisa responder antes de tomar qualquer decisão.

As mortes, portanto, devem ser o resultado de diversos eventos justificados. Não é muito apreciável que você, quando bem entender, mate determinado personagem simplesmente com um tropeção ou uma bala perdida. As mortes precisam ser justificadas e também mover a história para frente, mudando as coisas e progredindo o enredo. Se a morte de determinado personagem atrapalhar mais a sua história do que ajudar, salve-o.

Agora, existem mortes que são a causa dos eventos. Como eu disse: a morte é um resultado da história, salvo quando ela mesma é a causa da história. Existe também a possibilidade da morte iniciar uma trama. Nesse caso dispensa-se muito as justificativas, causas, razões e circunstâncias. As explicações ficam pra depois (e às vezes nem aparecem ou importam). As consequências daquela morte, porém, é que são relevantes para a história. Um exemplo bem claro são enredos e tramas que giram em torno de vingança. A morte de alguém pode motivar e impulsionar as coisas.

Então, se a morte que quer escrever não for o resultado de vários acontecimentos devidamente explicados e registrados na sua história, nem for a causa da história ou de algo importante nela, repense: Essa morte precisa MESMO acontecer?


Respondida essas questões, vamos unir os dois tópicos e falar sobre outra coisa, que acho interessante e tem bastante relação com a sugestão inicial do artigo:

mortes trágicas.


Qual a diferença de uma morte “normal” e uma morte trágica, afinal? Falamos um pouco sobre a tragédia e a morte, de maneira separada, mas como abordar os temas juntos? 

Como vimos mais acima, para se ter uma cena trágica precisamos de alguns requisitos, dentre eles um elevado panteão de personagens, ou seja, alguém relevante, de poder considerável na sua história. Seja um guerreiro, um Deus, o chefe de departamento ou a mãe de alguém, em suma o personagem precisa, necessariamente, ter uma relevância para o público e também para o universo em que sua história acontece.

Agora, mesmo que seu personagem não esteja no ápice da hierarquia do seu universo, sendo ele — talvez — um mero plebeu ou um reles funcionário da firma, você precisa ter o cuidado de dá-lo alguma relevância dentro do contexto fatal em que vai inseri-lo se quiser construir uma morte trágica nos moldes que estamos estudando aqui. Para a morte ser trágica o personagem precisa ter alguma importância para aquele contexto. De repente ele guarda um segredo importante da história, ou tem relações relevantes com outros personagens-chave. Nesse sentido não existem muitas dicas que posso dar. Tudo vai da sua sensibilidade como criador da história para saber expor ao público os motivos do personagem ser relevante e digno de alguma comoção.

Depois de arrumar completamente os motivos da morte do personagem, esteja atento aos fatores que permeiam a tragédia propriamente dita, como a impotência do personagem frente a fatalidade e a imprevisibilidade ou inafastabilidade do destino.

A ideia é que você digite tudo em um tom mais amargo que o comum, procurando palavras que incitem a compaixão com o personagem e o temor da situação que ele vive, como mencionamos anteriormente. Para tanto, tenho uma dica extra: modalização.

A modalização é um fenômeno discursivo em que um sujeito falante se coloca como fonte de referências pessoais, temporais, espaciais, e, ao mesmo tempo, toma uma atitude em relação ao que diz ou ao seu co-enunciador. Ela pode ser evidenciada nas manifestações escritas e orais da linguagem, nos mais variados contextos.

Modalizar um texto nada mais é do que torná-lo parcial, argumentativo em algum nível. É algo que é usado em abundância no meio jurídico, por exemplo. Para tanto, nos aproveitamos de algumas artimanhas, como o uso generoso de adjetivos, por exemplo. Modalização, por si só, já renderia um artigo inteirinho por ser um assunto extenso, por isso vou tentar resumir o papo aqui.

Tipos Básicos de modalização:

a) Modalidades Epistêmicas: referem-se ao eixo do saber (certeza/ probabilidade);

· Crer – eu acho, é possível: Provavelmente irei ao acampamento de verão.
· Saber – eu sei, é certo: Irei sem falta ao acampamento de verão.

b) Modalidades Deônticas: referem-se ao eixo da conduta (obrigatoriedade/ permissibilidade).

· Proibido: Não se deve fumar na sala de espera do consultório.
· Obrigatório: A vida tem que valer a pena.


A ideia de se modalizar o texto é, basicamente, dar alguma carga sentimental de maneira parcial. Talvez essa seja a melhor forma de se conseguir uma narrativa a altura da cena trágica que quer representar. Embora eu quisesse falar mais sobre modalização, como disse, não é o foco do artigo, por isso vou me resumir a esse pequeno e definitivo exemplo:

Fato da história: Pedro morreu, esfaqueado.
Fato da história, modalizando: Pedro, pobre e infeliz jovem, sofreu com estocadas violentas de faca pelo corpo, até morrer.

A ideia de se ter uma atenção maior na transição dos Episódios da tragédia até o Êxodo é justamente criar no leitor alguma tensão, compaixão ou temor para com o personagem.

> Importante dizer que, em regra, temos a missão de dar ao personagem o protagonismo da cena, e não a cena em si. Em outras palavras, a morte deve ser trágica em função do personagem que morreu e não em função da simples cena em si. Vamos trabalhar sempre no sentido de valorar os personagens da nossa história.

Ainda sobre modalização, tem um quadro que eu tenho guardado na minha pastinha de imagens importantes e vou deixar aqui com vocês também para darem uma olhada. Podem dar uma estudada nos modalizadores com mais calma depois. :)


Prosseguindo… (Que assunto extenso, meu Deus, me ajuda).

Agora vamos terminar de juntar as peças. Já falamos sobre tragédia, sobre as mortes, sobre as mortes trágicas e demais influenciadores, regras, dicas e recomendações. Agora, qual a diferença de se escrever isso tudo em primeira ou terceira pessoa?

A princípio, posso adiantar que eu prefiro digitar cenas como essa em primeira pessoa, justamente por causa do fácil acesso aos modalizadores. Em primeira pessoa eu consigo ser mais parcial e dar uma carga dramática aos fatos, impondo a ótica de um determinado personagem sobre a história, usando sempre modalizadores para acrescentar a carga de temor e compaixão necessária para compor a catarse final.

Já com o texto em terceira pessoa, as coisas costumam ficar entre dois extremos: o épico e o indiferente.

Quando escrevo cenas de morte em terceira pessoa não tenho meio termo: ou a morte se torna uma epopéia épica e poética (pleonasmo pra reforçar), ou a pessoa simplesmente morre, como eu disse, sem glória, sem louros, sem lástimas. Nesse sentido, pela minha experiência e preferência pessoal, recomendo usar os recursos do texto em primeira pessoa para escrever cenas trágicas, de maneira geral.


De qualquer forma, acho importante abordar um ponto pertinente sobre a história e a morte trágica antes de encerrarmos: “Como essa tragédia vai acontecer, afinal?”

Se for um desastre natural alheio aos personagens, uma fatalidade, acidente ou afins, sugiro que seja em terceira pessoa, em função da amplitude narrativa. Com um narrador onisciente ficaria muito mais fácil descrever e justificar os acontecimentos que resultam na morte (lembrem-se que a morte, em regra, é resultado de alguns eventos. Certifique-se de registrá-los)

Agora, se a morte for em função de algum personagem, um homicídio, por exemplo, sugiro a narrativa em primeira pessoa, para capturar a essência do assassino ou da vítima através dos modalizadores.

ENFIM!

O tipo de narrativa que você vai preferir adotar, por si só, já rende um artigo inteiro e, graças a Deus, ele já existe aqui no Blog. Então se quiserem mais detalhes, tá aqui o link: http://ligadosbetas.blogspot.com.br/2013/03/modos-de-narrar-1-pessoa-ou-3-pessoa.html

ENFIM, ENFIM!

Mesmo que eu digite mais cem páginas não vou conseguir esgotar completamente o assunto, já que um tema puxa outro, que puxa outro e a coisa só estica cada vez mais. Mas acredito que abordei os principais pontos que imaginei quando li a sugestão do artigo para o Blog. Acho que por hoje é só. Estou tragicamente morto de cansado. Até mais e tudo de bom sempre. Abraços. ~Trubluu.

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