Colocação pronominal

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Por Letícia Silveira 
(Liga dos betas team)

            
Sendo um erro muito comum em fanfics, a colocação pronominal é a causadora de diversas dúvidas. Porém, antes de começarmos, precisamos rever o que são pronomes. Existem os pronomes pessoais retos, responsáveis pelas ações, ou seja, são sempre os sujeitos das ações: eu, tu, ele, ela, você, nós, vós, eles, elas, vocês. Logo, observemos alguns casos:
Ele estendeu o produto para eu o pegar.
Porém, existem também os pronomes oblíquos, que, no singular, são: mim, me, comigo, ti, te, contigo, o(s), a(s) , si, consigo, se, lhe. Já no plural, são: nós, conosco, nos, vós, convosco, vos, eles, elas, si, se, os, as, consigo, lhes. Não se preocupem, aqui não se trata de nenhuma decoreba, apenas queremos entendê-los e ver o seu devido uso. Vejamos, pois, um exemplo de utilização de um pronome oblíquo:
“O papel, você entregou ele ao João?” (= Errado, pois “ele”, nesse caso, não faz a ação, quem faz é “você”. Podemos descobrir o sujeito ao perguntarmos para o verbo: “quem entregou ao João?”.)
“O papel, você o entregou ao João?” (= Certo) Ele lhe entregou o papel.
Podemos observar que “lhe” indica o uso de uma preposição, ou seja, “ele entregou o papel a alguém”. Poderíamos, porém, ter usado o pronome “o”, que vem da mesma pessoa do singular. Vejamos:
Ele o entregou a ela.
No exemplo acima, percebemos que “o” substitui “o papel”, pois “o(s)” e “a(s)” são utilizados quando a preposição não é necessária. De tal maneira, “o” e “a” não usam preposição, mas “lhe” usa. Assim, não teremos mais a dúvida de como substituir devidamente o “te” em nossas falas. Observe a exemplificação através da transformação da fala abaixo:
“Eu te falei o que eu queria contigo, mas tu não me ouviste”.
Suponhamos que queiramos passar da segunda pessoa do singular (do “tu”) para a terceira (o “você”). Normalmente, isso ocorre quando queremos tornar a fala mais culta e mesclar aquele “te” da fala que mescla o “você” com o “te”. Assim, a correção seria:
“Eu lhe falei o que eu queria com você, mas você não me ouviu”.
Ou seja, eu falei a você (logo, ao substituí-lo, devemos colocar “lhe”, não “o”) o que eu queria com você (não é “consigo”, pois “consigo” apenas reflete a ação para aquela mesma pessoa: “ele falava consigo mesmo”), mas você não me ouviu (concordância verbal).

Estamos entendidos quanto à diferença entre “lhe” e “o” ou “a”?


Além disso, cuidemos esse “consigo”. Não é raro encontrarmos casos em que, em vez de “consigo”, deveria ser “com você”. E sim, “com você” existe e é perfeitamente utilizável ainda quando não for sujeito.

Agora, vejamos outro caso que gera dúvidas: como juntar o verbo ao pronome oblíquo. Pois bem, temos de cuidar quando houver “o(s)” ou “a(s)” para unirem-se ao verbo. Caso haja qualquer outro (lhe, se, te, me, nos...), não haverá modificação no verbo como: “trazer-lhe” ou “chamar-te”. Entretanto, nos casos dos pronomes “o(s)” ou “a(s)”, teremos de cuidar os verbos que terminam em R, S ou Z e devemos retirar essas letras fora, cortá-las. Assim, “cantamos” perde o seu “S” e fica “cantamo”. Depois disso, devemos adicionar um “L” junto ao “o(s)” ou “a(s)” e ligar essa nova estrutura (lo, los, la, las) ao verbo através de um hífen. Obteremos, em seguida, “cantamo-la”, ou “cantamo-las”, ou “cantamo-lo”, ou “cantamo-los”. Veja alguns exemplos abaixo:


Fizemos um desenho na folha de papel. --> Fizemo-lo.

Fez um desenho na folha de papel. --> Fê-lo na folha de papel.

Vou fazer um desenho na folha de papel. --> Vou fazê-lo na folha de papel.


Podemos observar que a acentuação da palavra muda. Isso ocorre porque o verbo torna-se uma palavra oxítona (com a sílaba tônica, a mais forte, no final) ou um monossílabo tônico (que tem a mesma sílaba no mesmo local; porém, a palavra é formada por uma única sílaba). Assim, palavras terminadas em “I(s)” ou “U(s)” não serão acentuadas.

Além desse caso do R, S ou Z, há também o caso de terminação em “M” ou sílabas com o acento til (a “cobrinha” em cima de algumas palavras). Nesses casos, o verbo não perde nenhuma letra, nada “cai” dele. Apenas acrescentamos o “N” antes dos pronomes oblíquos “o(s)” ou “a(s)”. Por exemplo:

Fizeram um desenho na folha de papel. --> Fizeram-no.

Põe um vaso em cima da cima. --> Põe-no.

Tranquilinho? É preciso revisar, tirar dúvidas e entender a parte anterior para poder passar para o passo seguinte: aprender a temível próclise, mesóclise e ênclise. Digo temível por elas terem esses nomes apavorantes; porém, não são tão monstruosas assim.

A próclise ocorrerá quando uma palavra que estiver anterior ao verbo puxar o pronome, como nesse caso: “Não me machuquei jogando basquete”. Já a mesóclise é a mais desconhecida, pois, quando nada puxar o verbo e ele estiver no futuro, devemos colocar o pronome no meio do verbo: “Machucar-me-ei jogando basquete”. Mas não se estresse, caro leitor, pois nada nessa vida é impossível. Porém, para nossa tristeza, ainda há a ênclise, que acontecerá quando não houver mesóclise nem nada puxar o pronome: “Machuquei-me jogando basquete”. Agora, estudemo-las a fundo.

Assim sendo, o que devemos pensar sempre uma coisa ao refletir sobre onde devemos colocar o pronome é:


1º) se deve ser próclise;

2º) se deve ser mesóclise ;

3º) se não for nenhuma das anteriores, será ênclise.



Próclise

A próclise é a responsável por puxar o pronome para antes do verbo. Isso ocorrerá quando houver:


A) Advérbios antes do verbo:

Lembremos que advérbios são coisas que indicam tempo ou frequência (jamais, nunca, sempre), lugar, companhia, ou que negam algo (não). Na dúvida, devemos saber que os advérbios não têm plural: não existem “jamaises” ou “nuncas”, eles têm uma única forma.


Não a queria lastimar.
Jamais o havia visto assim.



B) Pronomes antes do verbo:

Há outros tipos de pronomes como os indefinidos (que não definem): alguém, algo, ninguém, nada, tudo, quem. Além desses, há os pronomes relativos que servem de conjunções, sendo “o qual”, “que”, “onde”, “cujo”. Também existem os demonstrativos: isso, aquilo, esse, este. Sempre é bom nos mantermos informados sobre todos os tipos de pronomes para podermos puxar os oblíquos quando necessário.

Algo me dizia que aquilo não iria prestar.
Ninguém me dissera antes tal coisa.

Observação: não esqueçamos que “eu, tu, ele, nós, vós, eles” também são pronomes, mas são pronomes retos. Eles têm o privilégio de nos deixar optar se queremos ou não puxar o pronome oblíquo. Assim, podemos escrever “Ele me disse” ou “Ele disse-me” de acordo com a norma culta.



C) Preposição seguida de gerúndio:

Lembremos que gerúndio é o verbo terminando em “ANDO”, “ENDO” e “INDO”, como em andando, comendo e rindo. Vejamos alguns exemplos:

Em se tratando de violência no trânsito, o Brasil é capaz de destacar-se.



D) Conjunção subordinativa:

Esse nome assustador nada mais é do que o nexo da frase. Quando uma oração depende da outra para ter sentido, o nexo utilizado para unir as orações é uma conjunção subordinativa. Observe a frase: “Ele me deu um presente, mas eu o recusei”. É possível compreender o sentido dela lendo apenas “Ele me deu um presente” e, depois, “Eu o recusei”? Sim, é perfeitamente compreensível (pois se utilizou um nexo coordenativo, não subordinativo). Agora vejamos outro exemplo: “Ele me deu um presente ainda que não fosse o meu aniversário”. Podemos entender o sentido lendo apenas “Ele me deu um presente” e, depois, “Não fosse o meu aniversário” ? Não o compreendemos porque aqui temos, justamente, a bendita conjunção subordinativa. Eis alguns exemplos:

A fim de que me animasse, minha amiga levou-me àquela festa.

Tinha certeza de que já a conhecia já que me era conhecida a sua face.



E) Uma frase exclamativa consagrada:

Frases como “Deus me acuda!” foram consideradas como consagradas e, por conseguinte, não devemos escrevê-las na forma de “Deus acuda-me”. Aqui, deve-se utilizar a próclise também.
Deus me livre!




Mesóclise


A mesóclise é a responsável por posicionar o pronome no meio do verbo. Isso ocorrerá quando houver verbos no futuro (no futuro do pretérito ou no futuro do presente, ou seja, os verbos com desinências como “ria”, “re” ou “ra”):

Entregar-lhe-ei o presente. (Antes a frase era “Lhe entregarei o presente”, mas o pronome oblíquo nunca deve estar no começo de uma frase.)


A partir do exemplo acima, podemos perceber que a inclusão do pronome será a partir do “R” do verbo. Devemos, então, procurar o “R” do futuro, incluir o pronome (cuidando se caso for “o” ou “a” e tivermos de retirar o “R” e adicionar um “L” --> “pensá-lo-ei”) e separá-lo com hifens entre as partes do verbo. Assim, observemos algumas transformações:


Faria o trabalho sem dúvidas. -->Fá-lo-ia sem dúvidas.

(Eles) Porão a jarra na geladeira. --> Pô-la-ão na geladeira.



Ênclise

A ênclise é a responsável por colocar o pronome após o verbo, sempre o ligando através do hífen. Isso ocorrerá quando a próclise ou mesóclise não exigir o uso do pronome, respectivamente, antes ou no meio do verbo. Porém, há alguns casos em que não há escapatórias para o uso de ênclise e são eles:


A) Quando o verbo iniciar a oração:


Disse-lhe o que ela não queria ouvir. (Não poderia ser “Lhe disse” de acordo com a norma culta.)
Fê-lo porque o quis.*

*Jânio Quadros, tendo sido professor de Português, disse a frase “Fi-lo porque qui-lo”; porém, alguns gramáticos contestam a afirmação, que nada mais era do que uma brincadeira, dizendo que o “porque” puxaria o pronome “o”. Apenas por curiosidade...




B) Quando o verbo estiver no imperativo afirmativo:

O imperativo afirmativo é uma ordem ou pedido mais exigente que se faz a alguém. Por exemplo:

Sigam-me os bons!
Façam-no agora!

C) Quando houver uma vírgula antes do verbo:


Depois, disse-lhe o que ela não queria ouvir. (Sem a vírgula, “depois”, por ser um advérbio, teria puxado o pronome.)
Se não está chovendo, visto-me diferentemente.


D) Quando houver um verbo no gerúndio:

Ela perguntou fazendo-se de boba.
Despediu-se, abraçando-me.


Agora, teríamos terminado a nossa missão de hoje se não fossem pelas locuções verbais: temos de fazer uma observação especial para elas. 

As locuções verbais ocorrem quando há mais de um verbo explicitando uma única ideia. Podemos ter esses casos:



A) Verbo auxiliar + verbo no infinitivo (verbos terminado em AR, ER, IR)

Quando isso ocorrer, o pronome poderá se posicionar antes, depois ou no meio da locução. Apenas não podemos esquecer as regras anteriores para aplicá-las aqui.

Vou me vestir de preto hoje. (Estilo mais brasileiro)
Vou-me vestir de preto hoje. (Estilo mais português)
Vou vestir-me de preto hoje.

(“Me vou vestir de preto hoje” estaria errado porque o pronome não pode iniciar a frase. Se o verbo estivesse no futuro, a única opção seria: “Vestir-me-ei de preto hoje”.)



B) Verbo auxiliar + verbo no gerúndio (verbos terminados em ANDO, ENDO, INDO)

Aqui, o pronome também pode ocupar qualquer lugar: início, meio ou fim.

Vou me vestindo à medida que ouço a música. (Estilo mais brasileiro)
Vou-me vestindo à medida que ouço a música. (Estilo mais português)
Vou vestindo-me à medida que ouço a música.



C) Verbo auxiliar + particípio (verbos terminados em ADO, IDO ou ITO)

Aqui, o pronome pode estar no início ou no meio, mas nunca pode estar após o particípio. Por exemplo:

Tinha me vestido de preto. (Estilo mais brasileiro)
Tinha-me vestido de preto. (Estilo mais português)

(“Tinha vestido-me de preto” está errado de acordo com a norma culta assim como “Me tinha vestido de preto”.)


Por conseguinte, finalizamos essa parte de verbos e pronomes! Espera-se que, a partir de agora, não haja dúvidas na hora de posicionar o pronome. Entretanto, nunca é demais aprender, e, portanto, antes de encerrarmos essa matéria, podemos ver a diferença entre os alguns pronomes demonstrativos.


Pronomes Demonstrativos

Eles são responsáveis por apontar a aproximação do objeto com aquele que fala, com aquele que escuta e com aquele que está longe de quem fala e de quem escuta. Assim, temos:



A) ESTE, ESTA, ISTO

São usados para se referirem a algo que está perto de quem fala.

Este vestido é lindo para você usar na festa! (O vestido se encontra próximo de quem fala.)

Também são usados, em textos, para se referirem a algo que está por vir:

O meu pensamento é este: odeio preconceitos! (O pensamento a que o “este” se refere está especificado em seguida.)

Em termos de temporalidade, esses pronomes podem se referir a algo temporalmente próximo (mais atual). Por exemplo: “Esta sociedade caótica...”.



B) ESSE, ESSA, ISSO

São usados para se referirem a algo que está perto de quem escuta.

Esse vestido é lindo para você usar na festa! (O vestido se encontra próximo de quem escuta.)

Também são usados, em textos, para se referirem a algo que foi citado anteriormente:


Odeio preconceitos, esse é o meu pensamento (O “esse” se refere ao pensamento citado anteriormente.)



C) AQUELE, AQUELA, AQUILO

São usados para se referirem a algo que está longe de quem fala e de quem escuta.

Aquele vestido é lindo para você usar na festa! (“Aquele” indica certa distância.)

Observação: em textos, os pronomes podem desfazer ambiguidades (sentidos duplos). Por exemplo: “Se as amigas das minhas irmãs decidirem fazer uma única festa, aquelas irão à festa”. (“Aquelas” desfaz a ambiguidade que imporia o “elas” e se refere às primeiras, às amigas, pois elas estão mais longe na frase.) Ou “Se as amigas das minhas irmãs decidirem fazer uma única festa, estas terão trabalho”. (Nesse caso, “estas” desfaz a ambiguidade e aponta para o mais próximo.)


Agora, podemos descansar, queridos. Já vencemos palavreado demais para um único dia. Entretanto, espero que o cansaço tenha valido a pena, que tenham aproveitado essa lição de hoje. E, procurando evitar o uso inevitável dos pronomes, desejo-lhes um bom descanso.



4 comentários:

  1. Putz, acho que vou ter que reler isso umas 20 vezes pra entrar no sangue... odeio mesóclise! Toda vez que ela entra no meu papel sinto-me totalmente jogada numa oração insubordinada sintética vocálica! (me sinto uma idiota ao escrevê-la)

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  2. Mesóclise. Esse sim é um belo bicho de 7 cabeças! Fa-lo-ia, Po-la-ão, meu cérebro interpreta essas frases como erradas. É um pouco difícil de se lembrar disso, na hora da escrita.

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  3. É mais difícil ainda se lembrar do modo certo quando ninguém o usa no dia a dia.
    Só tem um problema: E se o modo estiver no imperativo negativo, por exemplo:
    "Não me sigam os bons!"
    "Não sigam-me os bons!"
    Qual frase está certa?
    A regra diz que deve ser próclise quando tem pronome antes, mas outra diz que se estiver no imperativo é ênclise...

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    1. Na minha opinião, seria "Não me sigam os bons!" (embora possa ser uma questão de pronúncia, visto que sou portuguesa). Mas tendo em conta o texto do blog, o autor disse "imperativo afirmativo", realçando o facto se isso só ser usado no imperativo afirmativo, por isso acho que é a primeira opção :)
      Espero ter ajudado.

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