Por: Anne L
É sempre necessário centrar a história em um romance para que ela seja boa?
A maioria dos escritores de fanfiction diria que “sim! É sempre necessário”. Muito embora boa parte das histórias postadas por aí girem em torno de um casal (ou vários), eu temo em discordar. Primeiro, vamos ver algumas definições.
O enredo (chamado às vezes também de “plot”) é o conteúdo da história, uma sequência de fatos e ações feitas ou sofridas pelos personagens. É ele que faz a história caminhar, desenvolvendo-se para alcançar o clímax e, então, seu desfecho.
Shipping, termo em inglês muito usado em fanfics, vem de “relationship”, relacionamento, e se refere a uma relação amorosa entre duas pessoas.
A princípio, eles não têm uma relação direta. Então, por que tantos autores escrevem como se um completasse o outro, como se fossem mutuamente excludentes?
Acredito que seja o puro e simples desejo de fazer seus personagens favoritos “se pegarem”. A história em si, o enredo, acaba deslocado para se tornar um mero pano de fundo para o romance explorado pelo autor, especialmente se envolver sexo. O casal se conhece, interage e nada mais acontece, às vezes como se nem houvesse um mundo ao redor deles. Outro motivo seria um medo de que os leitores não mostrem tanto interesse no texto, se a pitada (uma concha cheia, na verdade) de romance não estiver no meio. Mas tudo isso que mencionei não é pré-requisito para uma boa história.
Podemos pegar um exemplo real para ilustrar, como a famosa trilogia “O Senhor dos Anéis”. É uma narrativa épica sobre um grupo que se une e, com o intuito de destruir o Um Anel, fonte de poder do vilão principal, viaja pela fictícia Terra Média, encontrando todo tipo de adversidades e aventuras. O romance está presente, pode-se evidenciá-lo, por exemplo, com Arwen e Aragorn, mas, em meio a guerras e conflitos, ele nem de longe é o foco da história.
E desenvolver um enredo sem apelar para o romance não é tão difícil. A primeira coisa a se fazer seria estabelecer os pontos principais dele, saber como andaria a história. Voltando à definição, temos algumas partes a serem decididas:
1. Introdução – Como o nome sugere, é a introdução da história, seu começo, parte em que você apresenta seus personagens, a história, as relações entre as pessoas, o espaço em que tudo está ambientado;
2. Desenvolvimento – Aqui começam a aparecer e tomar forma os conflitos, o corpo da história, o enredo em si é apresentado, desenvolvendo-se até convergir em seu clímax. É nessa parte que a maioria das fics que foca no romance desanda ou acaba se rendendo a clichês. E tudo por falta de planejamento, de uma análise mais extensa na sequência de acontecimentos escolhidos para formar o enredo e em como eles se relacionam, se entrelaçam;
3. Clímax – É para onde toda a história caminha, seu auge. É o motivo pelo qual todo o desenvolvimento existe, pois resulta nele. E aqui muitas vezes ocorre o mesmo que no item anterior, apenas por falta de planejamento e análise;
4. Desfecho – marca o fim da história. Tem a resolução dos conflitos, o desenlace do clímax e tudo volta ao equilíbrio fazendo um contraponto com a situação inicial.
Com isso em mente, é perfeitamente possível escrever uma história sem precisar recorrer ao romance para que ela fique interessante.
Não me entendam mal, não repudio textos desse tipo, inclusive um dos meus livros preferidos tem seu enredo, em poucas palavras, em volta da personagem e seus encontros e desencontros com um homem que inicialmente ela odeia (Orgulho e Preconceito). O objetivo deste post é apenas ajudar as pessoas a pensarem além do romance, além do casal que querem tanto juntar e, assim, escrever histórias mais complexas, mais envolventes.
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Material consultado:
Ricardo Sérgio. O Enredo na narrativa. Disponível em:
http://www.recantodasletras.com.br/teorialiteraria/1616518. Acesso em: 18/5/2013
Anne L é beta reader, moderadora do Nyah! Fanfiction, supostamente escritora e estudante de Engenharia Mecatrônica. É louca por seriados, mangás, HQs e livros e gosta de manter coleções de tudo apesar de não ter lugar para guardar.
