Romantização de Problemas Psicológicos

segunda-feira, 6 de agosto de 2018


Por: HikariNoHime


Hello, pipous! Novata estreando aqui, espero que gostem do artigo. Creio que esse seja um assunto importante de ser discutido, principalmente com a propagação da romantização na mídia em geral. Antes de mais nada, eu deixo uma pergunta:


O que exatamente é a romantização?

De acordo com o dicionário nosso salvador de cada dia romantizar é “romancear, escrever, narrar, contar de maneira sentimental, fantasiosa, imaginosa, poética”. Nós podemos ver isso nos contos de fadas, com os príncipes europeus perfeitos em cavalos brancos; nos filmes e novelas em que o casal sempre tem um final feliz; ou, em um exemplo mais prático, na imagem perfeita que todos passam da maternidade. Em outras palavras, romantizar é idealizar, mostrar uma perfeição em algo que não existe ou é problemático.
Mas, mana, onde você quer chegar? Simples. Quero que percebam que a romantização não é saudável e que, mesmo que não notemos sua presença no dia a dia, está lá e pode vir a nos influenciar, além de nos levar a banalizar assuntos sérios. E é aí que entram os problemas psicológicos.
Vivemos em uma era onde dizer que ter depressão no Tumblr e Instagram é cool. Se automutilar é tão legal quanto ter uma tatuagem nova. Psicopatia e TDI são marcas para os fortes, ansiedade e ataques pânico no convívio social são sinais de inteligência superior — ou, como já encontrei em algumas fanfics da vida, são marcas registradas de nerds antissociais. E as coisas só pioram a partir daí.
Segundo os dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) de fevereiro de 2017, o Brasil é o país com maior índice de ansiedade do mundo — 18,6 milhões ou 23,9,3% da população sofre com a doença — e o quinto maior em depressão — cerca de 11,5 milhões ou 5,9% da população. Em uma escala global, 322 milhões de pessoas sofrem com depressão — 4,4% da população mundial, média 18% maior do que há 10 anos. E as estimativas é que esse número aumente ainda mais no futuro não apenas para esses, mas também para todos os outros transtornos psicológicos. Alguns cientistas, inclusive, apontam como causas para esses aumentos o ritmo de vida urbano, as taxas de desemprego, desigualdade social, níveis de pobreza e a situação econômica de cada país.
Grandes empresas hollywoodianas se aproveitaram do cenário para lucrar — sim, lucrar — com uma “representação” do problema. Um bom exemplo é a série da Netflix, 13 Reasons Why, também chamada de Os 13 Porquês, que conta a história de Hannah Baker e a trajetória que a levou ao suicídio — uma sequência de cenas que foi exibida sem cortes ou censuras. Até hoje a Netflix enfrenta duras críticas quanto a sua abordagem irresponsável do assunto que possivelmente serviria de gatilho para aqueles que já enfrentam seus próprios problemas psicológicos, além de ser quase um manual de como cometer suicídio.
Outro marco da romantização — e creio que muitos de vocês já tenham ouvido falar dele — é a obra Lolita, escrita por Vladimir Nabokov e adaptado ao cinema em 1962 por Stanley Kubrick e em 1997 por Adrien Lyne. Nabokov escolheu usar Humbert, um professor pedófilo de 40 anos, como seu protagonista e narrador não confiável de seu livro. Usando de toda uma artimanha com a escolha de palavras, ele faz do “romance” entre Humbert e Dolores, apelidada de Lolita, de 12 anos, algo nem de perto tão grotesco quanto teria sido se outro personagem estivesse narrando o livro.
Com a adaptação cinematográfica, entretanto, os maiores sinais do quanto a situação é problemática foram apagados com a censura que impediu que cenas de cunho sexual fossem gravadas. Como se já não bastasse, isso piorou com a omissão da doença de Humbert e a escolha de uma atriz de 17 anos para atuar o papel da Lolita na versão do filme de 1997 que tornou a relação mais “aceitável” aos olhos do público.
Como resultado, várias pessoas, em especial o público juvenil, vai manter sempre na cabeça uma imagem distorcida dessas doenças. Para elas, não serão nada mais do que um fator dramático numa história romântica. E, no caso de Lolita, não apenas a doença do protagonista, mas também os abusos acabam sendo banalizados.
É, é mesmo ruim, mas... como isso vai acabar?  Por mais que eu quisesse, esse é um problema que não vai desaparecer do dia para a noite com um único post no meio de tantos outros que já estão por aí. Mas nunca é demais relembrar e compartilhar, né non?
Então também tem algo que eu possa fazer? Claro que sim, meu querido pandawan. E esse é o maior motivo para eu ter feito esse texto. Como já dizia minha mãezinha, toda ajuda é bem-vinda. Uma única palavra pode fazer toda a diferença na vida de alguém. Se para pior ou melhor, só depende de nós mesmo. Por isso...

·         Pesquise. Se você for um autor que pretende escrever sobre determinada doença, não poupe esforços ao reunir todas as informações que conseguir. Jogue no Google, vá atrás de documentários, procure em livros, pergunte a alguém que entenda do assunto, tudo é válido para uma representação mais realista em sua história. Com isso, além de evitar cometer alguma gafe, também estará levando um conhecimento novo ao seu leitor que, em algum momento, poderá repassar isso adiante e diminuir um pouco a desinformação que circula na internet.
·         Cuidado com as palavras. Isso vale para todos. Uma escolha errada pode causar um grande problema. Tenho uma amiga com ansiedade, às vezes acabamos dizendo algo na brincadeira, sem intenção alguma de machucar, e ela acaba se desculpando e se torturando por isso por horas, dias seguidos. Não é algo que ela possa controlar, mas algo que podemos evitar. Quando se trata de fanfics e redes sociais nós não sabemos quem está do outro lado da tela. Não sabemos quando alguém como a minha amiga vai aparecer e ler o que escrevemos, muito menos o impacto que isso pode ter nela. Por isso, pense sempre duas, três vezes antes de apertar o enter. Esses segundos que alguns podem considerar perdidos podem salvar o dia de alguém.
·         E por último, mas não menos importante, tenha empatia. Essa parte é mais que essencial para que o item anterior se concretize. Nós nunca saberemos toda a luta e esforço de alguém. Seja um alguém próximo de você ou um amigo virtual, lembre-se de ser gentil, de apoiar, não ignorar. Em suma, faça a essa pessoa o que você gostaria que fizessem a você se estivesse na mesma situação.

E para fechar, deixo aqui um trecho da carta aberta publicado por John Green, autor dos best-sellers A culpa é das estrelas e Cidade de papel, logo após o lançamento do livro Tartarugas até lá embaixo (que, coincidentemente, retrata uma personagem com depressão):

Por fim, sinto que romantizar a saúde mental é tão perigoso e destrutivo quanto estigmatizá-la. Então, quero dizer que, sim, eu tenho uma doença mental. E não tenho vergonha disso. E escrevi meu melhor trabalho não quando estava à beira do precipício, mas quando tratei meu problema crônico de saúde com uniformidade e cuidado. Obrigado.

E é isso. Obrigada por lerem até aqui. Espero ser de alguma ajuda para vocês!
Beijinhos de Chocolate



~/~


Referências:

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