Como Criar Personagens Carismáticos

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Por: Asthera Maxwell


Olá, pessoas!

Aqui estou eu, tia Asth, estreando no blog da Liga com um tema que conforme o tempo passava, mais eu queria pedir para trocar porque o assunto é delicado, rs! Vamos falar de Personagens carismáticos! Há vários cursos e posts por aí dizendo como construir um, inclusive um que dá uma boa base para isso é o da Raven Hraesvelg, "Como desenvolver Personagens", deem uma olhadinha lá porque posso dizer que este é apenas um complemento!

Serei direta aqui. Minha tese é que não existe segredo para criar um personagem carismático. Mas personagens carismáticos cativam, então, vamos primeiro compreender o que significa cativar e como isso se insere no mundo da escrita, depois as visões mais frequentes de como cativar o leitor. Vem comigo!




1 – O QUE É CATIVAR

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas", quem se lembra dessa frase?

Pois bem, Exupéry expressou corretamente o significado da palavra de forma simples. Cativar significa tornar-se cativo de algo, prisioneiro, ou como definiu o tio Google "tornar(-se) cativo; prender(-se) física ou moralmente a; sujeitar(-se)", "guardar em seu poder; reter, conservar".

Esse termo também está relacionado ao ato de "ser carismático" e “ser líder”. Líderes carismáticos cativam seu público, independente das opiniões e/ou comportamentos que tenham. Se eles cativam, significa que uma parcela de pessoas se identifica e os seguem para onde for.

Se a pessoa consegue prender sua atenção, te envolver, convencer a fazer o que ela quer e/ou pensar da mesma forma, mesmo que você não perceba que está sendo coagido a fazê-lo, isso é cativar.




2 – O QUE É CATIVAR NO MUNDO DA ESCRITA

E quando transferimos isso para o mundo da escrita?

Pois bem, acima de tudo, livros são mundos que o autor compartilha conosco. Neles, o escritor é onipresente, onisciente e onipotente, então os leitores sentirão o que ele quer eles sintam. Quando o escritor faz tudo direitinho, sentiremos o que o autor quer que sintamos, ou seja, estaremos cativados pelo que aquele livro nos conta. Quando isso acontece com milhares de pessoas, temos o best-seller.

Em uma história, os elementos que nos cativam são os personagens. Para isso acontecer (ou como dizem: para comprarmos a ideia que o autor quer nos passar), há várias maneiras, mas pelas minhas leituras e pesquisas, identifiquei quatro formas de os personagens se mostrarem carismáticos.




3 – VISÕES DE COMO CATIVAR O LEITOR: ESTUDOS DE CASO

Importante ressaltar que a maioria dos exemplos que cito aqui uso como referência apenas os filmes e o que vi de spoiler dos livros. Como sabemos, há diferenças entre as formas as quais as pessoas retratam um mesmo personagem. Eu poderia usar exemplos mais clássicos, mas para ajudar o pessoal a se situar, quanto mais recentes, melhor.


3.1 – DEFEITOS

Atualmente, esta é a visão que está em voga. A gente não se identifica com aqueles personagens perfeitos, que não cometem erros de vez em quando. A visão pós-moderna talvez tenha um dedo nisso, tratando as coisas de forma mais crua e fazendo com que as vejamos como realmente são e não como deveriam ser.

Porém, isso se torna uma contradição, pois desde crianças nosso comportamento é moldado por concepções já existentes que os adultos consideram ideal (como deveria ser), em vez de, por exemplo, sermos forçados a voar do ninho com poucos dias de vida, como fazem os pássaros (como as coisas são).

Estes valores variam de cultura para cultura, então não haveria uma estrutura fixa capaz de ditar o que é um defeito ou qualidade em uma pessoa.

Exemplos de personagem: Haymitch Abernarthy e Gale (Jogos Vorazes).

Essa vertente de identificação foi a principal responsável pela migração massiva de leitores para o lado dos anti-heróis e vilões, ou como se popularizaram, bad boys. Essa categoria de personagem é o que eu chamo de repaginada do "se não puder ser os dois, é melhor ser temido do que amado", dito por Hobbes.

Tanto que é por isso que vemos por aí a enxurrada de homens dizendo para as mocinhas "ficarem longe, porque não são homens para elas".


3.2 – QUALIDADES

Aqui a gente se rende mais pela qualidade do personagem do que por seus defeitos. Em geral, essa visão serve como suporte da primeira, com um personagem para balancear o outro e, quem sabe, servir como elo emocional dele. O problema é quando esse tipo de visão recai sobre o protagonista, tornando-o "plano" e sem muitas motivações para fazer a história desenrolar.

Exemplos aqui seriam Arthur Pendragon (As Brumas de Avalon) e Peeta Mellark (Jogos Vorazes).

Arthur, na história, tem um caráter meio messiânico por sua função de salvar a Bretanha, servir como elemento unificador, baseado na estratégia do símbolo nacional. Sua aparência também não deixa a desejar, seu caráter muito menos. O cara perfeito que parcela da mulherada adoraria ter como namorado, não tem defeito nenhum! Atualmente, quando um marido descobre que a esposa está dormindo com outro, pelo menos um deles vai parar na delegacia.

O que o Arthur faz quando percebe o feeling entre Lancelot e Guinevere? Chamou o Lancelot pro ménage!

Certamente esse último aspecto faria muitas mulheres adeptas do relacionamento aberto urrarem de alegria, mas seu perfil permissivo, estável na linha de desenvolvimento de personagem, diplomático e passivo, oposto ao de sua irmã Morgana (inclusive amo muito, maravilhosa <3), enjoaria as mais espirituosas.

No caso do Peeta, tanto no livro quanto no filme, tudo é narrado pela Katniss, então só temos a visão dela. O que vemos de defeito no Peeta? Nada. Vemos umas falhas aqui e acolá desenvolvidas pela lavagem cerebral, mas nada ao ponto de ele se encaixar no modelo de identificação 3.1. No final do livro mesmo, Katniss diz que precisava da tranquilidade do Peeta e não da personalidade explosiva do Gale, porque ela, assim como o Gale já tinha fogo de sobra.

Como eu disse lá em cima, a ideia da criação do Peeta era complementar a Katniss, o foco era nela, então não se preocuparam muito em desenvolver os defeitos dele. Ao ser o bastião da humanidade, humildade, da gentileza, da proteção e da devoção, traços que em geral são as personagens femininas que incorporam na literatura, a mulherada se encanta. E o povo gosta dele mesmo assim, contradizendo o que atualmente o pessoal, entre outras palavras, diz sobre "o que o leitor quer é ver pessoas nas histórias, quer ver falhas". Ele te cativou?

Atualmente, o papel do herói está um pouco defasado. Grande parte pelo modo como as pessoas se agarram à estrutura da Jornada do Herói e saturam o tema, mas isso já é assunto para um outro post <3


3.3 – CONTEXTO SOCIOPOLÍTICO

Como estávamos dizendo, antigamente o que cativava era o herói. Pode ser que alguns gatos pingados digam que preferiam os vilões, mas a verdade é que na infância a tendência por gostar dos mocinhos é maior. Hoje, com a onda de popularidade dos vilões e anti-heróis, conclui-se que a população está mais consciente de que nem sempre somos obrigados a sermos o melhor que pudermos, podemos simplesmente ser. Sem motivações para agirmos como heróis (já que né, a única recompensa no fim será a morte), mas também sem razões para agirmos feito bobos pelo resto da vida.

As histórias de antigamente serviam para disciplinar crianças, então seguiam padrões que hoje não cativam mais as pessoas.

O que cativa hoje é aquele personagem falho e que reconhece, tenta lidar com isso e, se possível, superar. Por que essa mudança de gosto em tão pouco tempo? Eu digo, muito mais do que falhas do personagem, é o contexto sociopolítico.

Reflitamos, o que pode ter mais chance de cativar um leitor hoje, uma protagonista feminina ou masculino? E se essa protagonista feminina seguir a curva decrescente do desenvolvimento de personagem, chamará mais a atenção do que um protagonista masculino que segue a linha crescente?

Muitos dirão "ah, depende do desenvolvimento da história". Nossas convicções influenciam no conceito de cativar, porque nos identificamos com o personagem e com o contexto em que ele está inserido. Por isso, muitas vezes o pessoal prefere os personagens secundários, pois eles não estão presos àquela obrigação de salvar a todos no fim, então há um espaço maior para o inesperado, coisa que o protagonista não tem.

Exemplo? Toma: Severo Snape. Nos primeiros anos em que os leitores descobriram sobre o passado do Snape, suas convicções e motivações, não faltava gente na internet chorando horrores por conta de Snape x Lily. Um anti-herói em sua essência, mas herói de qualquer maneira. Tempos depois, com a voz feminina se fortalecendo, como Snape é visto agora? Toda essa ideia de herói foi para o espaço, pois ele é visto como um cara com fortes tendências a relacionamento abusivo. Ele te cativou?

Outro exemplo? Rue. É uma criança, negra, tinha tudo para ser uma baita candidata a vencedora dos jogos se não tivesse se aliado à Katniss (só vi o filme, então acho que se ela tivesse ficado escondida o tempo todo, nada daquilo teria acontecido). Esse conjunto de fatores pesa na nossa visão, ainda mais considerando o cenário étnico brasileiro e o debate acerca disso. Ela te cativou?

Outro exemplo mais recente? Thanos. Quem assistiu Guerra Infinita viu a vibe Malthusiana que permeou o propósito dele. Ele te cativou?

O modo como os personagens reagem a essas situações também presentes no nosso dia a dia faz com que nos afeiçoemos.


3.4 – ESCOLHAS (AKA: "NÃO SÃO NOSSAS CARACTERÍSTICAS QUE DEFINEM O QUE SOMOS, SÃO NOSSAS ESCOLHAS")

Essa frase do Dumbledore define o propósito do post de hoje.

Um dos problemas que enfraquecem os personagens atualmente é justamente esse ponto. Na vida, algumas vezes precisamos escolher entre duas coisas que não podemos ou queremos abrir mão.

Porém, nas histórias esses momentos se tornam mais fracos porque o personagem é geralmente posto para escolher entre algo bom ou ruim, são decisões previsíveis e se reforçadas pela Jornada do Herói, podem matar a sua história, o leitor já saberá o final assim que o primeiro ato acabar.

Segundo Truby (2007), escolhas são resultados de possíveis dilemas morais do personagem. Porém, muitos autores dão a ele uma "fake choice", onde ele é posto para escolher entre algo que resulte em algo bom ou em algo ruim. Um exemplo que Truby cita é: você força seu personagem a escolher entre ir para a prisão ou conquistar a garota. A escolha aqui é óbvia.

Para ser um verdadeiro dilema moral, seu herói precisa escolher entre dois resultados bons ou, em situações piores, evitar o "menos pior" entre duas escolhas ruins.

Exemplo? Peguemos o Peter Pettigrew: No terceiro livro de Harry Potter ele fugiu em busca de seu mestre. No quarto, vemos que ele tem cuidado de Voldemort desde então. Nesse intervalo de tempo, Peter podia ter fugido. Mas entre ser caçado por Comensais por sua covardia, pelas autoridades bruxas por sua traição aos Potter e perder uma mão para ajudar Voldemort a reviver, já sabemos o que foi menos pior. Ele te cativou?

(Depois que ele se redimiu nos últimos livros, não duvido que tenha cativado)




4 – CONCLUSÃO

Bem, o que aprendemos hoje?

Sua parte como escritor, na hora de construir um personagem carismático é desenvolver relacionamentos sólidos dele com os outros, motivações fortes para suas ações, independente se o que predomina nele são comportamentos ditados por suas qualidades ou defeitos.

Não tenha medo de inserir assuntos “atuais” no enredo, se quiser e convergir com o que você quer escrever. Isso pode motivar o autor a pensar sobre o assunto e inclusive acender uma faísca para comentar. Quando o personagem lidar com aquilo, poderá despertar ódio ou aprovação do leitor e é isso que você quer, arrancar uma reação dele. Em determinado ponto, será mais sobre "como o público recebe o personagem", baseado em suas vivências, do que "como você o transmite" ao escrever.

Então é isso, pessoal, espero que tenha sido útil e se tiver qualquer dúvida, só comentar! Estamos aqui para acompanhá-los nessa empreitada <3





REFERÊNCIAS:

TRUBY, John. The Anatomy of the Story: 22 steps to becoming a master storyteller.

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