Alicerces de Enredo: As Estruturas Mais Comummente Usadas [3/3]

Por: Elyon Somniare Perfil:  https://fanfiction.com.br/u/18441/ Boas, juventude! Eis-nos aqui reunidos para a terceira e última (...


Por: Elyon Somniare

Boas, juventude!

Eis-nos aqui reunidos para a terceira e última (Ufa!) parte das estruturas mais comuns que encontramos nas histórias desta vida. Se não leram as duas anteriores, não é essencial lerem a segunda (embora fosse engraçadito), mas convinha passarem os olhos pela primeira: é uma introdução importante que não irei resumir pelo facto de este artigo só por si já ser beeeem longo. E não gostaríamos de o prolongar ainda mais, não é?

Mas avante, camaradas! No artigo anterior vimos dez das estruturas mais comuns, e para nos mantermos dentro do planeado, temos mais dez pela frente:

11) Metamorfose

Esta é uma favorita pessoal minha. Aborda a mudança, tanto física como psicológica. São exemplos deste tipo “A Bela e o Monstro”, “Drácula” e “Metamorfose”. Usualmente há uma maldição e uma saída, a qual é com frequência a “cura” da maldição através do amor (de qualquer tipo, e não apenas romântico, cara-metade e afins).

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: No primeiro acto conhecemos o amaldiçoado, mas não as razões da maldição (eis a pitada de suspense!). E quem mais? O antagonista, claro, que aqui raramente coincide com o vilão. Pelo contrário, o antagonista neste tipo de enredo surge como o cataclismo que reverterá a maldição: o escolhido. Pode não saber que o é, e frequentemente é uma vítima (vide, a Bela de “A Bela e o Monstro”). É costumeiro o antagonista sentir uma repulsa inicial, mas não incomum ceder ao feitiço da metamorfose. A sensação que se transmite é que o antagonista é directa ou indirectamente cativo do metamorfo, que, a adicionar a isto, não pode explicar a sua situação de amaldiçoado. Um fervilhar de possibilidades para mal-entendidos, portanto.

Acto 2: Centra-se na relação entre o metamorfo e o antagonista.Este último torna-se menos severo em relação ao metamorfo, mas ganha também poder sobre ele. A haver amor, é aqui que ele começa, assim como a possibilidade de quebrar a maldição. A repulsa inicial vai, portanto, desaparecendo.

Acto 3: Os termos que regem o quebrar da maldição atingem o ponto crítico. Usualmente há um incidente que serve de cataclismo final, e a maldição e suas causas são, por fim, explicadas.

12) Transformação

Enquanto na Metamorfose temos uma mudança literal, aqui a mudança é “apenas” interior. O enredo acompanha o protagonista durante um período de mudança significativa, examinando o processo da vida e o seu efeito na pessoa.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: É neste acto que figura o incidente transformador que leva à crise, ou seja, é onde começa o processo de mudança.

Acto 2: Explora os efeitos da transformação, o que na maioria dos casos implica uma auto-examinação.

Acto 3: É a altura do incidente clarificador, que representa a fase final da transformação. A personagem compreender a verdadeira natureza da sua experiência e como isso a afectou. O ganho de uma maior sapiência costuma ser acompanhada por uma maior tristeza. (Porquê? Porque somos uns tristes.)

13) Maturação

É um dos enredos mais positivos, abordando o tema do crescimento. Sou incapaz de olhar para ele sem me lembrar de “Inside Out” <3 (Está tudo proibido de falar mal desse filme!). Ao longo do crescimento, há lições a aprender que podem ser difíceis, mas que no final tornam a personagem numa pessoa melhor. Difere da Transformação porque aborda uma mudança que acontece durante a passagem de criança para adulto, em vez de se centrar em adultos em processo de mudança.

Em vez de apresentar a estrutura em actos, irei deixar alguns dicas a ter em consideração da elaboração deste tipo de enredo:

♦ O protagonista encontra-se na iminência de se tornar adulto, tendo os objectivos confusos ou ainda não muito claros. O leitor deve conhecê-lo bem e saber como ele se sente e pensa antes de a acção começar.

♦ A vida inocente, algo naïve, do protagonista deve ser contrastada com a realidade.

♦ A histórica foca-se no crescimento moral e psicológico da personagem.

♦ Como já vimos em estruturas anteriores, também aqui é necessário um incidente que abale as crenças do protagonista e os seus entendimentos sobre como funciona o mundo. Não precisa ser algo rebuscado, pelo contrário. No já referido filme “Inside Out”, este incidente foi algo bem mundano: a mudança de cidade.

♦ A personagem aceita ou rejeita a mudança? Acaba por rejeitar primeiro e aceitar depois? Ou vice-versa? Estas questões devem ser ponderadas, pois delas vai depender muito o rumo da história.

♦ O processo de mudança deve ser demonstrado ao leitor, não esquecendo também que este é um processo gradual: tal é necessário para a verosimilhança. O leitor não irá confiar se a mudança for brusca e demasiado rápida porque, na realidade, isso não acontece. Assim, é aconselhável que seja feito através de pequenas lições.

♦ Não se esqueçam que estão a caracterizar uma criança, não um adulto em corpo de criança!
Para terminar a história, terão de decidir qual o preço psicológico da lição, e como lhe reage a personagem.
14) Amor

Chegou o Cupido! Sendo do tipo de enredo mais frequente, existem, naturalmente, vários tipos. A estrutura mais comum é, no entanto, a dos amantes que se encontram e são separados (oh, crueldade) e, por isso, será o aqui abordado.

Como se pode estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Os protagonistas são apresentados ao leitor (e por vezes um ao outro), começando e estabelecendo a sua relação. No final desta fase estão apaixonados (theyfondlove!), mas algo acontece que os separa.

Acto 2: Os amantes separam-se. Pelo menos um deles tenta reaproximar-se do outro, o qual ou espera pacientemente, ou rejeita as tentativas de aproximação. Pode haver uma luta com um antagonista.

Acto 3: Os amantes reúnem-se, devido ao amante activo, que encontra um modo de ultrapassar todos os obstáculos. E não podem ser os dois activos e fazer isso? Podem. O que interessa é que o amor foi testado e é agora maior e melhor.

Algumas dicas extra:

♦ Clichés não são necessariamente maus, mas é aconselhável que se evite o óbvio.

♦ O amor não acontece com facilidade. Sério. O leitor está cada vez menos disposto a suspender a crença para amor de bater o olho e tcharan!

♦ Não tem de ter um final feliz. (Boas notícias para quem gosta de angst, más notícias para quem gosta de fluffy.)

♦ As emoções das personagens são um ponto-chave, então é aconselhável que sejam beeem trabalhadas.

15) Amor Proibido

É todo aquele que vai contra as convenções duma sociedade, e, por isso, temos uma força implícita ou explícita a ir contra os amantes. São exemplos romances que se centram em adultério (“Anna Karenina”), incesto (“Os Maias”), homossexualidade (“Um Toque de Veludo”), diferença de idades, etc.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Define as personagens, a sua relação, e o contexto social onde se inserem. Que tabus são quebrados? Como lhes reagem as personagens e aqueles à sua volta?

Acto 2: A relação é posta à prova e ou começa a dissolver-se, ou fica sob grande pressão para o fazer.

Acto 3: Retrata a fase final da relação, onde usualmente os amantes são separados (por morte, por deserção, ou à força). Não é, contudo, obrigatório que o sejam, podendo continuar com uma relação secreta, fugir juntos… Apenas não é o mais comum e, ao fazê-lo, convém que o final seja credível.

16) Sacrifício

Assim como em enredos anterior, também este foca em uma transformação do protagonista, contudo, o foco encontra-se nos sacrifícios feitos ao longo do caminho, tendo um forte dilema moral como o centro da história.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O sacrifício vem a um grande custo pessoal, físico ou psicológico. O protagonista deve percorrer uma transformação importante para um estado moral mais alto que o possuído.

♦ Os eventos devem forçar a decisão do protagonista. Todos eles devem ser um reflexo do protagonista, testando-o e desenvolvendo-o.

♦ O protagonista deve estar bem construído, de modo a que o leitor compreenda o seu progresso ao fazer o caminho do sacrifício. As motivações devem, também, estar claras.

♦ A linha de acção equivale à linha de pensamento do protagonista.

17) Descoberta

O foco e o interesse estão mais na personagem a fazer a descoberta que na descoberta em si. Começa demonstrando quem é a personagem antes de as circunstâncias mudarem a forçarem em novas situações. Passado, presente e futuro são cruzados para alcançar isto, mas atenção para não se exagerar.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ O cataclismo que força a mudança de equilíbrio para desiquilíbrio não pode ser trivial, mas algo importante para a personagem e interessante para o leitor.

♦ A proporção é essencial! A emoção e a acção devem ser balanceadas, e convém evitar melodrama.

♦ Coloco particular ênfase aqui, porque detesto quando o autor faz isto: não forçar ou doutrinar mensagens através da personagem. Deixem que sejam as acções da personagens, ou os eventos, a falar.

18) Excesso Infeliz

Geralmente é sobre o declínio psicológico duma personagem, o qual deverá ser baseado numa falha de carácter da dita personagem.

Como posso estruturar este enredo em três actos?

Acto 1: Como é a personagem antes dos eventos a começarem a mudar.

Acto 2: Como é a personagem à medida que ela gradualmente se deteriora.

Acto 3: O que acontece depois de os eventos alcançarem o ponto crítico, forçando a personagem a ceder completamente à sua falha (no caso de tragédia) ou a recuperar dela.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ Desenvolver a personagem não como um lunático, mas como alguém cujo declínio evoque simpatia, até mesmo empatia. O seu desenvolvimento é particularmente importante, pois o leitor tem de sentir a personagem como real. É aconselhável que se evite melodrama e que não se force mais sentimento do que aquele que o episódio pode abarcar.

♦ Não esconder informação que leve à simpatia do leitor pela personagem. Pelo mesmo motivo, não colocar a personagem a cometer crimes sem que haja uma grande compreensão de quem ou o que a personagem é. No ponto crítico ela deve mover-se ou para a redenção, ou para a total destruição, não permanecendo no limbo: o leitor não costuma gostar de final em aberto e não encara tal situação lá muito bem.

♦ A acção deve estar sempre ligada à personagem: os eventos acontecem porque ela faz ou não faz certas coisas.

♦ Sejam realistas. Pesquisem para saber e compreender a natureza do excesso que caracteriza a vossa personagem, não caindo na facilidade de desculpar com “loucura”.

19 e 20) Ascensão e Queda

Duas faces de uma mesma moeda, os nomes destes tipos de enredo são já auto-explicativos. O foco tende a ser numa única personagem (o protagonista), a qual deve ter força de vontade, ser carismática e aparentemente única. Todas as outras personagens revolvem à volta desta. Também aqui o enredo se centra num dilema moral, que testa a personagem e é a origem do cataclismo de mudança.

O que é aconselhável ter em conta na estruturação deste enredo?

♦ A personagem e os eventos são próximos: tudo o que acontece é por causa da personagem.

♦ É uma mais-valia tentar mostrar a personagem como ela era antes do acontecimento de maior mudança, de modo a que haja uma comparação. Mostrem a mudança progressiva da personagem como resultado dos eventos. Se é uma história sobre uma personagem que ultrapassa circunstâncias horríveis, mostrem a sua natureza ainda nessa fase. Mostrem como a personagem foi de uma fase para outra sem saltar entre elas.

♦ As razões da queda devem existir, não sendo a dita queda um mero acaso. Ao longo do enredo, podem tentar pequenas/médias ascensões e queda, não fazendo apenas uma só grande ascensão e queda. Procurem variar as circunstâncias de vida da personagem e a intensidade dos eventos (com certeza não têm todos o mesmo peso na vida da personagem).

Respiremos fundo. Porque chegamos ao fim e, não sei quanto a vocês, mas eu estou exausta. Com certeza notaram que muitas dicas e sugestões cruzam os vários tipos de enredos abordados, o que só demonstra que algumas coisas são comuns aos enredos em geral. E, mais um vez, isto não se trata de regras, mas de ajudas.

Espero que estes artigos vos facilitem a hora de planear e escrever as vossas histórias!

Até uma próxima.


REFERÊNCIAS:
TOBIAS, Ronald B. - “Twenty Master PlotsandHowto Build Them”, [s.l.], Piatkus Books, 1999

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2 comentários

  1. Olá :)

    Parei de escrever há uns 2 anos e voltei essa semana com força total. Comecei a desenvolver a ideia e estava com medo de virar uma bola de neve, por mais que tudo ainda esteja sob controle hehe. Achei o blog por acaso mesmo, e estou amando. São dicas muito preciosas!
    Bem, espero de coração que continuem com as postagens, esta me ajudando muito e com certeza ajudando outras pessoas <3

    Beijos de luz :*

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    1. Olá!
      Ficamos muito contentes por saber que os nossos posts te estão a ajudar! E para garantir, não temos nenhumas intenções de parar tão cedo!
      Beijos

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