O objetivo dos personagens

Por: Daniel Cavalcante “O homem mais pobre não é o homem sem dinheiro: é o homem sem sonhos”. (Max L. Forman)           Se há a...

Por: Daniel Cavalcante


“O homem mais pobre não é o homem sem dinheiro: é o homem sem sonhos”. (Max L. Forman)
         


Se há algo em comum entre todos os seres humanos, é o fato de que todos sempre querem alguma coisa. Pode ser um desejo consciente ou inconsciente, uma vontade vaidosa ou necessidade, um objetivo egoísta ou uma meta altruísta: o fato é de que todos querem algo.

Isso é tão básico que soa até desnecessário fazer uma postagem a respeito, mas não é. Muitos autores iniciantes se esquecem de que seus personagens precisam de um objetivo para impulsionar a história. Imagine como seria seus personagens favoritos sem os seus objetivos e desejos. Como seria o Batman sem querer combater o crime? Como seria o Neo sem querer libertar as pessoas da Matrix e proteger os habitantes de Zion?

Tendo isso em mente, cabe uma paráfrase da citação acima:


“O personagem mais pobre não é o personagem sem caracterização e capacidade: é o personagem sem objetivos”.


As pessoas estão o tempo todo fazendo algo para atingirem um objetivo. Existem diversos tipos de objetivos, e todos eles servem para construir cenas, tramas e fazer toda a história girar.

Os objetivos devem ser trabalhados sistematicamente. Cada cena contém, pelo menos, um objetivo. Se houver dois personagens ou mais, cada um terá o seu objetivo. Mesmo quando o sujeito está apenas pensando – talvez o objetivo seja chegar a uma conclusão ou decisão.

Quando um personagem está andando, ele tem o objetivo de chegar a algum lugar. Quando está se coçando, ele também está tentando alcançar algo, seja o alívio de alguma alergia, seja disfarçar sua insegurança enquanto fala com uma garota. Até mesmo nas microações de cada personagem. É claro que eles não precisam ficar anunciando o que querem. Ninguém fica por aí dizendo: “vou tomar banho porque estou fedendo”. Mas deve ficar implícito ao leitor o objetivo do personagem ao ir realizar aquela ação. Você pode colocar pessoas fazendo caretas ao sentir um mau odor ou, até mesmo, colocá-las retorcendo o nariz desgostosas com o próprio cheiro.

A preocupação do autor deve ser determinar o objetivo principal de cada personagem em cada cena e na história como um todo. 

Existem diversos níveis de objetivos:


Necessidades Básicas

Dizem que o principal impulso do ser humano – e de todos os seres vivos – é a sobrevivência. Talvez esse seja o mais primordial de todos os objetivos e desejos. Tem-se a noção de que, se não fizer aquilo que precisa/quer, não sobreviverá – ainda que isso não seja verdade.

Para sobreviver, as pessoas buscam realizar uma série de necessidades básicas. Algumas delas, todos os dias. Comem, bebem, fazem suas necessidades fisiológicas e lutam ou se defendem contra algum agressor. Como elas farão isso, dependerá de seu caráter, crenças pessoais e condições físicas. Mas o importante é que elas farão isso, a menos que o autor estabeleça que um personagem seja diferente de toda a raça humana. Por exemplo, Jesus não lutou para sobreviver à cruz. Mas calma lá, que ele tinha outros objetivos para isso.

Pessoas precisam respirar. Caso algo as impeça, elas farão algo para sobreviver. Pessoas precisam de sangue. Caso percam muito, farão algo para mudar a situação. E assim por diante.

Qualquer uma dessas necessidades podem criar apenas uma parte do enredo ou acompanhar o personagem por toda a história. Um dos episódios especiais de Naruto gira em torno de sua necessidade de ir ao banheiro! A cada tentativa, um conflito surgia e o impedia de “aliviar”, surgindo situações engraçadas.


Vontades e Desejos

As pessoas costumam ter vontades que não são importantes para sua sobrevivência, mas que alimentam seu ego, seu conforto, seus sentidos ou sentimentos. Comem simplesmente pelo sabor, e não por estarem com fome. Bebem coisas que não são necessárias para hidratar o corpo. Tomam banhos quentes demorados, com leite de rosas. Compram o carro do ano, com a cor que mais a agrada. Escolhem o livro pela capa, a embalagem pela cor, a comida pelo cheiro. Usam perfume, relógios de ouro. Querem um parceiro romântico ou sexual (alguns podem sugerir que esta é uma necessidade básica, mas ninguém jamais morreu por falta de romance ou sexo).

Normalmente, são objetivos que nos fazem sentir bem e confortáveis. E, muito provavelmente, atrapalharão nossos heróis caso busquem outros tipos de objetivo, como veremos a seguir. 


Metas Estipuladas

Existem algumas metas que as pessoas estabelecem por si mesmas ou por outros com autoridade sobre elas: estudar para passar de ano, trabalhar, praticar exercícios físicos, se tornar o aluno/trabalhador número um... Normalmente são acompanhadas por um prazo. É comum que seja contra a vontade de quem terá de realizá-lo.


Ambição

Provavelmente virá com egoísmo e egocentrismo. O personagem quer dominar o mundo, controlar as finanças da empresa, conquistar todas as mulheres ao seu redor, colecionar Ferraris, ser o número um, ser famoso, ganhar o Oscar ou prêmio Nobel. O ambicioso não pensa pequeno – ele quer esgotar as possibilidades. Normalmente vem nos vilões, mas heróis e parceiros também podem ter essa característica.


Sonhos

Sonhos estão relacionados à realização pessoal e objetivos aparentemente distantes para os quais é necessário realizar diversas etapas. Comumente, vem de infância. Sonho de se tornar um grande escritor, um médico, um policial, um herói, casar com a princesa, ter uma banda são alguns exemplos. Para alcançar esses sonhos, as pessoas precisam de uma verdadeira jornada, em que cada etapa apresentará um objetivo por si próprio, obstáculos e desafios. Por essa característica, sonhos são bons de utilizar ao longo da história, seja em personagens principais ou secundários, para que o leitor acompanhe a realização do mesmo, etapa por etapa.


Utopias

São sonhos impossíveis de se realizar. O personagem tem como objetivo uma situação idealista e fantasiosamente perfeita. Seja uma sociedade impecável, um casamento sem brigas, uma vida sem problemas ou qualquer outro tipo de coisa contrária ao mundo real e extremamente otimista, do jeito que querem. Utopias, se não caem por terra com uma boa dose de realidade, levam o sonhador à loucura.


Ideais

Diferente da utopia, o personagem vê aqui um objetivo que, por mais otimista que seja, é possível ser alcançado. É aqui que ele provavelmente terá de abrir mão de desejos e vontades. Pois lutar por um ideal geralmente é uma atitude altruísta. Não há muito espaço para o conforto; pelo contrário, muitas vezes, terá de amargar as mais duras condições de vida.

Um ideal pode ser libertar escravos, enfrentar algum sistema opressor ou injusto, agir contrariamente a sociedade ou meio em que vive, estabelecer um novo governo ou filosofia, reciclar culturas, revolucionar, proteger os mais fracos, salvar vidas onde a vida não tem valor. Ocorre quando ele vê algo com o que não concorda e quer iniciar algo novo ou trazer de volta algo antigo.

Algumas dessas categorias talvez se confundam. Por exemplo, uma meta pode ser, ao mesmo tempo, uma ambição, ou um sonho pode ser um ideal. Essa lista não visa ser conclusiva e talvez seja editada. Ela foi criada para facilitar a visualização das possibilidades de objetivos de um personagem. O importante é você usar sabiamente os objetivos de seus personagens, encaixá-lo em qualquer categoria, entender como ele funciona e determinar por que seu personagem está buscando aquilo.

Também note que os objetivos de um personagem podem perfeitamente mudar durante a história.

Objetivos justificam as ações. Em uma história, nenhum personagem que sai espancando pessoas sem objetivo algum merece crédito. Não é convincente, e o leitor não identificará seu herói ou vilão como um ser humano.


Desafio: Você sabe dizer os objetivos de seus personagens favoritos? Conhece alguma categoria não listada aqui? Compartilhe conosco comentando ali embaixo. Tem um blog? Faça um post a respeito, completando a nossa lista. Coloque o link deste post no seu, e eu colocarei o seu aqui também. Será uma boa forma de enriquecermos esse tema e divulgar um ao outro.

Desafio 2: Faça uma lista com seus cinco personagens favoritos e explique o objetivo deles. Poste no seu blog, grave em vídeo, faça o que quiser. Mencione esta postagem e me avise, colocarei o link aqui. E desafie seus leitores a fazer o mesmo.

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Daniel é escritor, autor de contos publicados nas antologias Extraneus - Em Nome de Deus (ed. Estronho) e Crônicas da Fantasia (ed. Literata). Esse texto foi um presente para a Liga dos Betas, postado antes na sua extinta Revista eletrônica Quadrinize, especializada em auxiliar os autores iniciantes na composição de seus textos ficcionais . É possível conferir outros trabalhos do autor na seguinte página: http://abismoinfinito.wordpress.com/


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3 comentários

  1. Adorei o post! "O que o fulano quer?" é uma pergunta que faço sempre pra mim mesma quando vou criar um personagem. Percebi a necessidade disso desde minha primeira estória.

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  2. NOSSA! ME ESCLARECEU BEM, SOBRE OBJETIVOS, MUITO AGRADECIDO, UM ABRAÇO!

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