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Como Fazer Críticas Construtivas?

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Por Ana Coelho


Como expressar uma opinião com pontos negativos e positivos sem ofender o outro, e como transformar essa opinião num incentivo para levar alguém a melhorar o seu trabalho?

Comecemos com uma coisa que, por vezes, deixa muita gente confusa:

Em que consistem as críticas construtivas?

Bom, para podermos ter uma noção do conteúdo de uma boa crítica construtiva, temos de entender qual é a função dessas críticas. Quando alguém escreve uma, a sua intenção nunca é deitar um autor abaixo, mas tentar arranjar maneira de o fazer melhorar. Quer-se levar o escritor de uma história tanto a reconhecer as suas falhas, para as poder superar, como a reconhecer as suas maiores capacidades, para poder continuar a apostar nelas sem medos.

Assim sendo, depois de isso estar esclarecido, é-nos mais fácil entender que uma crítica construtiva aborda tanto pontos positivos quanto pontos negativos. Nelas é sempre explicado o porquê de algo ter funcionado menos bem ou de ter sido mal desenvolvido, para que o escritor possa vir a trabalhar nesses problemas e possa procurar resolvê-los. Por outro lado, também é sempre mencionado aquilo em que o escritor tem mais jeito, para que este possa ficar ciente das coisas que desenvolve, descreve ou cria melhor, e possa tentar algo semelhante noutra história, ou para que dedique o seu tempo a desenvolver outras áreas da sua escrita (não se preocupando tanto em aprender mais sobre um assunto que já domina relativamente bem).

O objetivo de uma crítica construtiva é sempre ajudar um autor a melhorar e, para isso, todos os aspetos bons e menos bons podem e devem ser mencionados — sempre com uma explicação para que o autor compreenda cada aspeto mencionado, compreenda que a crítica é justificada e tenha um caminho a seguir para poder tentar melhorar.


O que diferencia uma crítica construtiva dos outros tipos de comentários?

Nenhum comentário simples alguma vez se compara a uma crítica construtiva. Os comentários maldosos ou cheios de elogios bonitos, mas vazios, por exemplo, falham exatamente naquilo que é mais fundamental numa crítica: a intenção de levar um autor a melhorar. Um bom crítico, como já disse acima, explica todas as coisas que indica, boas e más, para que um autor possa ter algo com que trabalhar e melhorar.

Por exemplo, um comentário com más intenções somente indica pontos negativos, sem contrapeso algum, e o seu objetivo é, pura e simplesmente, atirar um autor para baixo. Usualmente os seus comentários são até de caráter pessoal e não recaem sobre a obra, não têm quaisquer argumentos que fundamentem aquilo que é dito ou, às vezes, não chegam a passar de insultos e xingamentos, melhor ou pior disfarçados.

Um comentário positivo mas sem conteúdo também falha porque, apesar de subir a autoestima a um autor, este não se irá tornar melhor por causa dele — não irá ter uma análise à sua obra feita por outros que têm um ponto de vista diferente do seu, não saberá o que a pessoa interpretou ou achou realmente do seu trabalho, não saberá quais são os pontos menos bons do seu trabalho e não terá uma base sobre a qual se apoiar para melhorar. O comentário pode estar cheio de elogios, muitas vezes adjetivos positivos para elogiar o autor, mas ele não ficará a saber o que motivou essa opinião, quais são os pontos fortes do seu trabalho que surpreenderam e agradaram tanto ao seu público.


Como escrever uma crítica construtiva?

Como fui dizendo ao longo do texto, há várias coisas que compõem uma crítica dessas e que devem estar presentes no resultado final.

Antes de mais nada, é preciso analisar o trabalho na sua totalidade. Foi maioritariamente bom? Ou foi maioritariamente mau? No caso de ser maioritariamente bom, e tendo em conta que nada é perfeito, como é que se pode transmitir ao autor que a história é boa, sim, mas que tem coisas que também podem ser melhoradas? E, no caso de ser maioritariamente mau, como é que se pode transmitir isso ao autor sem que ele fique ofendido ou magoado, e sem nos esquecermos das pequenas coisas boas que há no texto?

O "truque" está no equilíbrio e na forma como todos esses aspetos são abordados.

Assim, se o texto for maioritariamente positivo, não te esqueças de dizer que mesmo assim há coisas que podem ser melhoradas.
Por exemplo:

«A história tem uma linguagem fluída e natural, as personagens estão todas bem criadas e os diálogos são super realistas. No entanto, acho que poderás melhorar as tuas descrições; elas são um pouco pesadas e longas, tornando o texto mais aborrecido em certas ocasiões.»

E, depois, expande a tua ideia e tenta explicar por que algo não foi feito da melhor maneira:

«As descrições devem ser longas quando isso é necessário, e mais curtas quando aquilo que está a ser descrito for menos importante para a história. Por exemplo, quando a protagonista passeia junto à praia e descreves as lojinhas espalhadas pela areia, poderias simplesmente ter descrito uma loja ao pormenor. Elas são todas iguais e, quando as descreveste a todas com extrema minúcia, o texto tornou-se repetitivo e aborrecido. A tua história não se ia passar nas lojas, elas não eram importantes para o desenvolvimento do enredo. Por muito bonitas que aches que certas descrições são, às vezes é melhor cortar ou reduzir o que é acessório... Porque, mesmo que nem toda a gente tenha achado isso aborrecido, podes ter criado expectativas erradas nos leitores. Se dedicas tanta atenção às lojas e aos seus produtos, seria de esperar que eles fossem importantes para a história, certo? Num filme nunca vês coisas secundárias a ocuparem o plano principal por muito tempo. Isso acontece porque o que é secundário deve ser deixado para segundo plano, para que os teus leitores possam concentrar-se no que é realmente importante. Este foco tão grande apontado às lojas na praia tirou a atenção da trama principal e nunca deves querer que isso aconteça. Os "figurinos" nunca devem ser mais chamativos do que os "protagonistas".»

O mesmo vale para histórias maioritariamente negativas.

«A história tem bastantes erros ortográficos e gramaticais, que tornam a leitura difícil e confusa. Muitas vezes, por as frases não estarem muito claras, torna-se bastante complicado de entender o que queres dizer ou a quem te estás a referir... As tuas personagens sofrem alterações muito repentinas e não justificadas, o que faz com que seja difícil para um leitor levá-las muito a sério. Elas não reagem a nada, elas simplesmente vão andando pela história. Verosimilhança é algo muito importante numa narrativa e as tuas personagens não são muito realistas.»

A seguir tens de te focar em ajudar o escritor, desenvolvendo o porquê de algo não estar bem tratado no seu trabalho:

«Sugiro que consultes gramáticas e dicionários online para esclareceres as tuas dúvidas sempre que não souberes muito bem como algo se escreve. Podes sempre pedir ajuda a um amigo que seja bom a lidar com português, ou até a um beta reader. Mas não lhes peças correções; pede-lhes explicações dos teus erros, para que possas aprender e escrever cada vez melhor!
Sobre as tuas personagens, deixa-me explicar isso melhor, dando-te exemplos. Imagina que eu quero muito ser médica. Aqui em Portugal, tens de ter notas altíssimas para entrares em Medicina, é o curso em que é mais difícil entrar. No entanto, se eu não tivesse entrado por duas décimas, eu ficaria destroçada. Seria incapaz de, dez minutos depois de saber dessa novidade, ir sair com amigos e de estar sorridente e bem-disposta. As pessoas sofrem com coisas más, têm de ter tempo para as digerirem. Quanto mais importante algo for para alguém, de mais tempo esse alguém precisará para superar a dita coisa. Se eu tivesse tentado entrar em Medicina por acidente, então não ficaria triste. Mas, se ser médica tivesse sido o meu sonho de criança, a única coisa que eu me conseguiria imaginar a fazer no futuro, se fosse o meu objetivo de vida mais importante... eu quebraria por dentro e teria de me recompor antes de poder retomar à minha vida normalmente. E, ainda assim, em momentos chave, como ao ter os meus colegas a falar das suas faculdades, ou ao ter amigos a perguntar-me se eu entrei no curso, eu iria abaixo novamente. As pessoas reagem às coisas ao seu redor... Vivem, respiram, sentem e sofrem. E as tuas personagens devem fazer o mesmo. Devem agir como pessoas reais, e reagir como pessoas reais também. Quando as tuas personagens são contraditórias naquilo que pensam, sentem, querem ou fazem, parecem demasiado superficiais. Por vezes parece que não tiveste cuidado ao desenvolver as personagens, e não valorizas o que sentem ou pensam, e chegas até a ter momentos de contradição. É preciso ter cuidado com isso, e pensar sobre a forma como elas devem reagir e comportar-se nas situações que lhes apresentas.»

E tens de tentar compensar, dizendo coisas boas:

«Por outro lado, tenho a dizer-te que crias diálogos incríveis! São realistas e vivos, cheios de energia e sem conversa vazia aborrecida. Usaste sempre os diálogos para fazeres a história avançar, para criares ou resolveres conflitos, para dares a conhecer as tuas personagens.
As tuas descrições também são fenomenais! Não te prendes com detalhes irrelevantes e dás a informação certa para que o leitor se possa situar nos teus cenários, sem nunca abrandares a ação por causa delas. Consegues equilibrar muito bem as imagens que crias com o avançar do enredo.»

Para terminar, em qualquer uma das críticas, a destinada a uma história maioritariamente boa ou a uma com muitos problemas, menciona novamente tudo o que houver de bom antes de concluíres o texto, para subires a autoestima ao escritor. Isso é importante para que ele não se sinta humilhado e consiga ver que não pretendes deitá-lo abaixo, mas ser realista. Focar o lado bom é muito, muito importante porque, sem ele, destruirás uma obra e um autor. Lembra-te que o "truque" está no equilíbrio, e o lado positivo costuma ser o mais esquecido.
Esta é também a altura certa para dares uma opinião mais pessoal, se quiseres.

«Gostei muito da tua história! Os problemas e conflitos que foste desenvolvendo foram super originais e divertidos, e as personalidades de todos os protagonistas são muito engraçadas. Diverti-me muito!»


E pronto. Basicamente é isso. Espero ter-vos ajudado!

Se tiverem dúvidas, não hesitem em entrar em contacto com a Liga pelo nosso ask.fm/ligadosbetas, não hesitem em aparecer pelo nosso grupo de Facebook, o SBLAN, e falem conosco :) .
Podem sempre pedir sugestões de temas aqui para o blog por todos os nossos canais de comunicação :D .

Até a próxima.


Esse artigo pede por notas finais:

  • Críticas construtivas podem ser feitas a qualquer tipo de trabalho, criativo ou não, escrito ou não, e não só a histórias. Podes criticar um prato cozinhado por um chef, podes criticar um cachecol que a tua tia tricotou para ti, podes criticar um filme, podes criticar o que quiseres. No entanto, tendo em conta o universo em que a Liga dos Betas se insere, mantive o post sobre críticas de histórias, normalmente deixadas como comentários em plataformas como o Nyah, que servem para a divulgação dos ditos trabalhos escritos.
  • Sei bem que as críticas dadas como exemplo têm um vocabulário e uma forma pessoal/informal. Novamente, foram criadas tendo em conta a maior fatia do público do Nyah, e adequados ao meio informal da partilha de histórias online que é esse site.
  • As críticas de exemplo não foram feitas a nenhuma história específica. Foram exemplos elaborados a partir da minha imaginação. Se estiverem confusos, por favor, avisem-me, que eu criarei outros.
  • Normalmente, nas críticas que eu faço, costumo ser muito mais pessoal e menos "fria" (apesar de as críticas de exemplo terem um tom informal). Tentei criar os exemplos da forma mais neutra que consegui, para que a forma possa ser usada como base para todo o tipo de comentário. Sintam-se à vontade para serem menos frios nas vossas críticas, por favor! O que interessa é o conteúdo e a ajuda que quiserem dar a um autor, e não as palavras ou o nível de linguagem escolhidos para passar a ideia. Não precisam de ser duros ou parecer austeros para se fazerem e terem a vossa crítica reconhecida pelos outros. O que lhe dará o valor e o reconhecimento será sempre o seu conteúdo informativo, preocupado com as justificações para os apontamentos e em ajudar os outros. Desde que a crítica cumpra a sua função, em sites ou situações como no Nyah!, com um ambiente descontraído e "não-profissional", procurem divertir-se enquanto ajudam os outros!
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Como pontuar diálogos?

segunda-feira, 17 de novembro de 2014


Por Ana Coelho

     Olá a todos! Como vão? Espero que esteja tudo ótimo com vocês!

Hoje trago aqui ao blog um post que penso que vos será muito útil. Inspirado em e mais aprofundado até do que um post que eu tenho no meu blog pessoal, venho falar de diálogos.

Afinal, vocês sabem pontuar diálogos corretamente ou não? Sabem onde devem aparecer os pontos finais, as vírgulas, as maiúsculas…? Usam aspas ou travessão? E que tipo de aspas? E, afinal, como podem inserir o símbolo do travessão no texto?

Pois é, essas são algumas das questões mais frequentes que eu espero que fiquem esclarecidas quando este post chegar ao fim!

Vamos saltar já para a primeira parte:

Aspas ou travessão? Afinal, qual é a diferença?

Na verdade, podem pontuar como quiserem. Quer escrevam com um, quer escrevam com o outro sinal de pontuação, a escolha é vossa. Lembrem-se apenas de optar por um ou pelo outro ao longo de toda a história ou poderão confundir os vossos leitores. Decidam qual opção querem e mantenham-na até o final, porque misturarem as duas já é errado.

Mas… como é que é possível que haja duas opções? De onde saiu isso?

Reza a lenda que, tradicionalmente, em português, se deve usar o travessão para marcar diálogos. (O travessão é esse sinal “ — “ . No final do post eu explico como o podem arranjar.) Aliás, nem as aspas tradicionais do português são iguais àquelas que estão habituados a ver por aí. As aspas tradicionais (e que ainda aprendemos a usar em Portugal, apesar de pouco se falar no assunto) são as típicas das línguas latinas, as retas ( « » ). No entanto, com o tempo, isso tem vindo a mudar. No Brasil é muito mais usual usarem-se as aspas curvas (essas), nem há teclas próprias para as aspas retas duplas como há nos teclados portugueses. Apesar de tudo, em Portugal também se tem passado a usar muito mais as aspas curvas duplas. Parece que elas estão cá para ficar, quer as usemos nos diálogos quer não.

Teclado de Portugal, com a tecla das aspas duplas retas assinalada. Ela existe, mas é bastante ignorada.

De facto, a história das aspas é curiosa e há vários tipos diferentes usados em línguas diferentes. Há aspas retas duplas ( « » ) ou simples ( ‹ › ), e há aspas curvas diferentes, como ( “ ” ), ( ‘’ ’’ ), ( ‘ ’ ) ou ( ” “ ), entre muitos mais tipos. Tudo depende da língua em que se está a escrever ou até do país de onde vem o texto. Aconselho-vos a verificarem a página da wikipédia que fala do assunto para mais esclarecimentos e podem até investigar por conta própria, se continuarem curiosos.

Mas, se é assim, então quais são as diferenças de se usar o travessão ou as aspas? Têm regras diferentes?

Como eu já expliquei anteriormente, nas línguas latinas o usual é usarem-se as aspas retas, mas as aspas usadas nos diálogos por aqui, hoje em dia, são as curvas (“essas”). E as regra são ligeiramente diferentes.

Isso acontece porque a forma de pontuar diálogos com aspas curvas também não é nossa, dos países com língua latina. Essa forma de escrever diálogos foi adquirida por influências de outras línguas onde essa é a forma predominante. Hoje em dia também é aceite (/aceita, em português do Brasil) na língua portuguesa e é por isso que as aspas são uma opção válida que podem considerar quando escreverem as vossas histórias.

Convém ressaltar que este texto tem em conta a pontuação em inglês americano, já que é seguindo essa norma que as aspas duplas são usadas, e que o inglês britânico tem regras de pontuação próprias, que explicarei por alto no final do texto.

Aconselho-vos a escolherem a forma que vos deixar mais confortáveis, juntamente com as regras correspondentes.

Mas vamos avançar e vamos falar logo dessas regras! Elas são fáceis, vocês vão ver.

Vamos começar com uma questão simples:


Sabem quando devem usar letra maiúscula ou minúscula?

Esse é o erro que eu mais vejo no Nyah!, quer pontuem os textos com aspas quer os pontuem com travessão. Apesar disso, e contrariamente ao que pode parecer, a solução é bem simples.

Nos diálogos, as regras mais importantes dependem do texto. Isso quer dizer que, dependendo daquilo que escreverem junto com a fala, a letra ou será maiúscula ou será minúscula.

Mas daqui a pouco eu entro em mais detalhe sobre isso. Para já, vamos começar com os exemplos sem grandes acessórios!

— Gosto de bolo.
~~
Gosto de bolo.”

Pronto, aí temos uma frase bem simples, pontuada das duas formas mais usuais. E quem não gosta de bolo?

Nessa frase, duvido que haja dúvidas na pontuação. É só colocar a fala a seguir a um travessão ou dentro de aspas, com letra maiúscula no início e ponto no final. Sem problemas aqui.

Mas assim não sabemos quem falou, ou como a fala foi dita, ou em que circunstâncias se desenrolou esse diálogo. Nas nossas histórias, costumamos ter muita coisa a dizer sobre as falas. E como fazemos nesses casos? Como fazemos se quisermos transmitir uma ideia com mais pormenores, como “O Pedro disse que gosta de bolo”? Como e onde colocamos esse “disse o Pedro”?

Comecemos pela forma mais simples e mais usual — depois da fala, na parte final da frase.
Exemplos A.
Queres um sapato? — perguntou a Joana.
~~
Queres um sapato?” perguntou a Joana.

Pois bem, sim, pode parecer-vos estranho, e o Word pode até sugerir que façam aí uma mudança drástica, mas essas duas frases estão bem pontuadas e bem escritas. Comecei de imediato com frases com pontos de interrogação porque quero que entendam uma coisa importante: na pontuação dos diálogos, o que conta realmente é o verbo que acompanha as falas. Mais nada.

Vamos comparar estas com as seguintes.
Exemplos B.
Queres um sapato? — A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.
~~
Queres um sapato?” A Joana esticou um dedo e apontou para os seus pés.

Conseguem ver o que há de diferente dos exemplos A para os B? Nos A, depois da pergunta, havia letra minúscula. Nos B, depois de escrevermos exatamente a mesma pergunta, surge uma frase com letra maiúscula. Então os exemplos A estão certos e os exemplos B estão errados? Não. Então são os B certos e os A errados? Também não. Ambos os exemplos estão certos.

Eu disse ainda há pouco que o que diferenciava a pontuação do diálogo era o verbo que acompanhava a fala, certo? Vamos lá olhar para os verbos. E não se preocupem, não há nada gramatical aqui.

Nos exemplos A, o verbo era “perguntar”. Nos exemplos B, os verbos são “esticar” e “apontar”. Conseguem ver aqui a solução?

Pois, a verdade é que, para se descrever uma fala, nós usamos verbos que exprimem essa ideia de falar. Verbos como “dizer”, “perguntar”, “berrar”, “inquirir”, mesmo que seja através de metáforas (“chutar”: “— Gostas da Mariana? — chutou o Pedrinho.”). Todos os verbos que descrevam o ato de falar e que estejam diretamente ligados à fala têm de vir ligados a essa fala. Essa ligação é expressa através da letra minúscula, que indica que a ideia da fala ainda continua na narração, que uma complementa a outra.

E agora reparem nos exemplos B. Os verbos “esticar” e “apontar” referem-se à fala? Não, claro que não. Referem-se a duas ações que a Joana fez, imediatamente a seguir a ter falado. Então isso quer dizer que temos duas ideias diferentes e que não há um verbo de fala que una diretamente a linha do diálogo à narração. Dessa forma, temos de usar letra maiúscula.

Deixo aqui mais exemplos, para irem percebendo melhor. E vou apenas usar pontos de exclamação e de interrogação.

Gostas de chocolate? — questionou a Madalena.
Gostavas de dançar comigo? — O olhar de Rodrigo era sincero.
Tu és louco! Afasta-te de mim! — berrou o João.
Sou alérgica a chocolate! — A Rita afastou-se do bolo sobre a mesa.
Gostas de gatos?” inquiriu o Pedro.
Tenho um enorme gato preto chamado Chinelo!” O Ricardo sorriu ao relembrar as patas fofas do seu Chinelito.
Não gosto nada de ti!” exclamou a Bárbara.
Detesto baratas!” A Marina fugiu para a cozinha.

Perceberam até aqui tudo?

Quando o verbo descreve a fala (são chamados verbos dicendi universalmente), o verbo vem com letra pequena, unindo a narração ao que foi dito. Quando o verbo descreve uma ação paralela ou seguida à fala, então passamos a ter duas ideias diferentes e a letra que vem depois do ponto é maiúscula.

Nesta altura devem estar a perguntar-se por que só optei por usar frases com pontos de interrogação e de exclamação. A minha intenção era que entendessem e não se voltassem a esquecer de que, nos diálogos, é o verbo quem manda e o resto só lhe obedece. É uma ideia bem simples e é ela que rege todas as outras regras.

Tendo isso em mente, vamos agora ver o que acontece em frases mais comuns, frases que tenham pontos finais. Aqui as coisas tornam-se diferentes para o travessão e para as aspas, mas vamos avançar por um de cada vez.

Acho que o melhor é dar um exemplo para vocês poderem pensar e analisar a explicação em seguida.
Não gosto de cães — disse o Ricardo.
Não gosto de gatos. — O Ricardo afastou-se do animal.
Tenho pena de ti. — O tom da voz de Madalena era de pura compaixão.

Analisemos estes exemplos. Como podem ver, a letra maiúscula ou minúscula ainda está dependente do tipo de verbo. “Dizer” é um verbo de fala, então vem com letra pequenina. “Afastar-se” e “ser” são verbos que descrevem ações e não se aplicam diretamente sobre a fala, mesmo que indiretamente falem dela, como acontece no terceiro exemplo. Nesses últimos dois casos, usou-se letra maiúscula.

Conseguem reparar agora na outra diferença entre o primeiro caso e os outros dois? No primeiro não há ponto final, mas nos outros há. Percebem porque usei apenas pontos de exclamação e de interrogação há bocado, certo? Porque as regras são diferentes para um e para o outro tipo de ponto.

Podemos dizer que, em certos casos, os pontos de exclamação e de interrogação não funcionam realmente enquanto pontos. Eles são marcadores visuais que nos dão a entoação da frase, mas não servem para lhe colocar um final. Nos diálogos, é assim que eles funcionam e é esse o seu papel.

Comparando esses pontos com o ponto final, vemos que o ponto final já serve para colocar um final real nas frases sempre que aparece. Quando a frase não termina na fala e continua na narração através de um verbo dicendi, o ponto não aparece. Quando a frase da fala termina e é seguida de uma outra frase que se refere a uma ação completamente diferente, temos lá o ponto, para mostrar que as ideias são diferentes.

Entendem agora o que eu quis dizer com ser o verbo a mandar na pontuação? O tipo de verbo define como a pontuação se comporta a cada caso.

Vamos agora ter mais exemplos, com tudo:

Adoro gatos! — declarou a Maria.
Não gosto muito da tua tia… — disse a Matilde.
Tens quantos cães? — perguntou a Mariana?
— Tens olhos bonitos — afirmou a avó.
Detesto pó! — A Maria estava com os olhos vermelhos de alergia.
Não gosto do meu pai. — A voz de Pedro era fria como gelo.
O que te aconteceu? — A Mariana estava genuinamente preocupada.

Compreenderam tudo direitinho até aqui?

Vamos avançar e ver, afinal, o que distingue a pontuação com aspas da pontuação com travessões. Vamos introduzir mais exemplos, que eu acredito que eles tornam tudo mais simples.

Adoro camaleões!” disse a Vânia.
Amas mais o teu marido do que eu pensava, não é?” perguntou a sogra.
O golfinho sabe nadar.” Matilde bocejou.

Até aqui, é tudo igual, certo? Mas, quando se relaciona uma frase com a narração com um verbo de fala, deixa de ser.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde.

Notaram ali aquela vírgula? Bom, com as aspas é necessário colocar uma vírgula quando a mesma frase tem fala e tem narração, e se passa de uma para a outra.

Ficou claro o porquê da vírgula aparecer ali? Mudou de fala para narração, tem de haver alguma coisa que o indique, então surge a vírgula.

Vamos expandir o exemplo e vamos colocar-lhe uma vírgula para eu falar de mais alguns pormenores e da posição na vírgula nessas frases. A fala que vai ser dita será O golfinho sabe nadar, mas o morcego não sabe.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde, “mas o morcego não sabe.”

Notem que a vírgula vem sempre junto do primeiro elemento e não junto do segundo. Assim, se primeiro vier algo entre aspas, a vírgula vem dentro das aspas, junto à última palavra desse primeiro elemento. Se a vírgula separar narração de fala, e primeiro vier a narração, a vírgula vem fora das aspas, junto à última palavra da narração (vejam a segunda vírgula do exemplo). Assim, a vírgula que pertencia à fala acaba por aparecer logo de início. É bem simples, não é?

Agora, aproveitando o exemplo, vamos ver como ficaria intercalada uma pequena narração dentro de uma fala maior com travessão. Reparem no que acontece à vírgula:

O golfinho sabe nadar — disse a Matilde —, mas o morcego não sabe.

Ao contrário do que acontece com as aspas, nunca se coloca uma vírgula junto do primeiro elemento, ela vem sempre junto do segundo. Isto quer dizer que não podemos ter vírgulas antes de travessões. Se a fala tiver uma, temos de colocar a narração antes dessa vírgula, para que o travessão possa ficar antes dela, e a vírgula virá a acompanhar a fala.

Vejam os exemplos:
1. *— O golfinho sabe nadar — disse a Matilde — mas o morcego não sabe.
2. *— O golfinho sabe nadar — disse a Matilde, — mas o morcego não sabe.
3. *— O golfinho sabe nadar —, disse a Matilde — mas o morcego não sabe.
4. *— O golfinho sabe nadar, — disse a Matilde — mas o morcego não sabe.

Todas estas frases estão mal pontuadas (geralmente, um asterisco representa uma frase errada, e é o que está a representar aqui). Pensem assim: a vírgula existe na fala, então tem de estar lá, não pode desaparecer (1). A vírgula pertence à fala, então não pode vir junto da narração, isso não faz sentido (2 e 3). E a última regra é a mais simples: a vírgula nunca vem antes de um travessão (4).

Assim sendo, só a primeira frase dada anteriormente estava correta:
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde —, mas o morcego não sabe.

E eu agora pergunto: e se vier um verbo de fala dentro de duas frases diferentes?
O golfinho sabe nadar. O morcego, por sua vez, sabe voar.
Quero colocar “disse a Matilde” entre as frases.

Vamos lá pontuar isso corretamente. Ficaria:
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde. — O morcego, por sua vez, sabe voar.
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”

Sim, a narração vai restringir-se apenas a uma frase. O verbo “dizer” está ligado à primeira parte da fala. Depois, a frase termina e começa outra, sem verbo na narração. Assim, temos de assinalar a separação das duas frases da fala com o ponto antes da segunda, separando a primeira da segunda. A narração fica “embutida” nas falas se tiver um verbo dicendi. É como se a fala se estendesse e perdurasse durante a narração que a descreve. Só aí é que termina e, terminando a narração, termina a fala que lhe estava ligada.

Noutros casos, se tivermos uma ação no meio da fala, fica assim:

O golfinho sabe nadar.” A Matilde sorriu. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
O golfinho sabe nadar. — A Matilde sorriu. — O morcego, por sua vez, sabe voar.

A ação não está ligada à fala por um verbo dicendi, então temos três ideias e três frases diferentes.

Se tivermos um verbo de fala MAIS uma ação, unindo as regras anteriores, fica assim:

O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde, sorrindo. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
O golfinho sabe nadar,” disse a Matilde. Ela sorriu. “O morcego, por sua vez, sabe voar.”
~~
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde, sorrindo. — O morcego, por sua vez, sabe voar.
O golfinho sabe nadar — disse a Matilde. Ela sorriu. — O morcego, por sua vez, sabe voar.

Vamos terminar agora ao falar dos casos com frases maiores.
Apesar de ser correto intercalarem uma narração com verbos de fala no meio de uma linha de diálogo longa sem a quebrarem, não podem intercalar ações no meio de uma linha de fala grande sem a interromperem. Lembrem-se, os verbos de fala completam o diálogo, a fala estende-se para os verbos dicendi… mas os verbos de ação interrompem a fala, abordam ideias completamente diferentes e não se ligam entre si.

Peguemos na frase longa:
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.”
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.

Podemos ter um enunciado de fala no meio:
Eu gosto de caracóis,” disse a Mariana, “mas detesto porcos.”
Eu gosto de caracóis — disse a Mariana —, mas detesto porcos.

Ou podemos ter um enunciado de fala no final:
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos,” disse a Mariana.
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos — disse a Mariana.

A ideia é que, realmente, enunciados com verbos dicendi completam a fala, venham onde vierem, e ela segue sem problemas, esteja o enunciado onde estiver, e desde que não quebre nem interrompa nenhuma ideia que componha a frase.

Mas se tiverem uma ação já não têm essa liberdade. Vejam como se inicia uma frase nova no final por causa do verbo em questão:

Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos.” A Mariana coçou o queixo.
Eu gosto de caracóis, mas detesto porcos. — A Mariana coçou o queixo.

A única maneira de intercalarem uma ação durante uma fala é cortando a fala em várias frases distintas, assim:

Eu gosto de caracóis…” A Mariana coçou o queixo. “Mas detesto porcos.
Eu gosto de caracóis… — A Mariana coçou o queixo. — Mas detesto porcos.


E pronto! Eu disse que estávamos a terminar! Já abordámos todas as exceções e todas as situações básicas de pontuação de diálogo!

Foi um post longo, mas espero que vos tenha ajudado!

Vou agora deixar aqui uma lista com exemplos de diálogos um pouco maiores e intercalados com mais narração para as duas formas de pontuação. Espero que não tenham mais dúvidas! Estudem os exemplos agora do final e reparem nos verbos e na pontuação usada ao intercalar o diálogo com os enunciados.

Boa escrita para todos!
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Queria um pouco mais do teu incrível café mágico.” Lourenço deu um toque na caneca à sua frente, sorriu para a sua filha. “Por favor, claro.”
Está bem, está bem… Mas só porque o senhor é um bom cliente!” Ela saiu da cozinha a correr e no segundo seguinte berrou do quintal, “Com muita ou com pouca terra?”
Lourenço suspirou e depois respondeu de volta, “Com muita, minha senhora!” Ele só esperava que desta vez não houvesse minhocas.
~~
Odeio-te! — exclamou Renata. Ele tentou aproximar-se dela, mas a mulher foi mais rápida. — Não me toques! — Antes que ela sequer pudesse pensar no que fazia, a sua mão subiu e acertou no rosto dele.
~~
Não acredito nisto!” disse Linda. Olhou à sua volta e ainda lhe custava reconhecer a jarra que fora da sua avó entre os cacos espalhados no chão. As flores jaziam sobre uma poça de água suja. Ela voltou a sua atenção para os seus filhos. “Quem foi que fez isto?” As crianças recusavam-se a olhá-la. “Eu fiz uma pergunta!” exclamou. Eles tremeram, e ela tornou a insistir, “Quem foi o pobre infeliz que fez isto? Juro que se vai arrepender de ter achado que brincar às espadas com a vassoura era uma boa ideia!”
~~
De certeza que sabes conduzir isto?
Flávia apertou mais as mãos à volta de Hugo. Ele sorriu, mas estava de costas para ela sobre a mota e ela não o viu.
Sim, de certeza, boneca. — De travão bem preso, ele acelerou um pouco, só para fazer barulho com o motor. Ouviu o guincho dela com prazer e o seu sorriso aumentou. — Estás com medinho? — perguntou. — Se tens medinho, diz-me. Não precisas de vir agora.
Ela mordeu o lábio e apertou-se mais contra ele.
Claro que não tenho medo! — disse. A sua voz soou surpreendentemente mais firme do que ela estava à espera, e isso agradou aos dois.
Mas Flávia tinha tanto medo que nem sentia as pernas. Apesar de tudo, ela deu por si a incentivá-lo:
Estás à espera de quê? És tu quem tem medo agora?
Hugo riu-se alto e no momento a seguir a sua risada deixou de se ouvir sobre o som ensurdecedor da mota a arrancar a toda a velocidade.
~~
Já não sei o que mais posso fazer, sabes?” disse Inês. Tinha as sobrancelhas franzidas e a boca contraída numa linha fina. “Tudo me parece tão… estranho,” concluiu. “Não confio em ninguém aqui.”
Sim, eu sei o que queres dizer,” respondeu Rodrigo, pegando na cerveja que tinha sobre a mesa. Fez o líquido girar no seu interior e depois bebeu um gole rápido. “É como se o tempo corresse de forma diferente, não é? As prioridades aqui são diferentes. Mas as pessoas têm-nos ajudado,” concedeu.
Ela suspirou e retrucou, “Esta cidade deixa-me confusa.” Formou-se um beicinho amuado no seu rosto. “Quanto tempo ainda vamos ficar aqui?”
Isso depende.” Rodrigo coçou a sobrancelha direita e pareceu pensativo por um momento. Depois olhou para ela. Não disse nada e tornou a coçar a sobrancelha, com o olhar perdido na parede atrás de Inês. “Isso depende e não é só de nós os dois…”
~~
Gostas de mim? — perguntou ela. O seu sorriso era confiante. Ela sabia que a resposta seria positiva. Ela só queria torturá-lo por mais um momento.
Ele indicou que sim com um meneio de cabeça.
Diz-me — insistiu —, gostas realmente de mim?

...



Extras:

1. COMO COLOCAR TRAVESSÕES
Se o vosso teclado tiver o number pad (o “num lock”) do lado direito, é muito simples. Mantenham o dedo sobre a tecla ALT e primam os números 0151. Esse é o código ASCI para o travessão aparecer.
Se tiverem um notebook/computador portátil e ele não tiver o number pad, podem colocar o travessão ao acederem à aba INSERIR do Microsoft Word, acederem a SÍMBOLO e o encontrarem na lista que aparece.
Uma sugestão muito boa é criarem um atalho próprio no programa que usam para escrever para poderem ter o travessão facilmente. O meu atalho é ALT + A. Sempre que eu primo essas teclas, eu coloco um travessão no Word. No Word podem ir a SÍMBOLOS e depois escolher TECLA DE ATALHO para definirem qualquer atalho à escolha para qualquer símbolo que queiram.
Se não tiverem um processador de texto que permita essas edições ou essas inserções de símbolo, podem fazer o que eu faço quando uso o Google docs. Procuro literalmente “travessão Wikipédia” no Google e acedo à página da Wikipédia sobre o travessão. Aí só tenho de copiar o símbolo diretamente da página e colá-lo sempre que precisar de colocar um no texto. Em vez de fazer ALT+A, faço CTRL+V.


...


2. UMA ÚLTIMA DICA SOBRE DIÁLOGOS — O VOCATIVO
Esta dica é um extra. Acrescento-o aqui porque é outro erro grave que incontáveis diálogos no Nyah! têm e que é realmente simples, se quiserem tentar descobrir qual é esse erro.
O vocativo é o que se chama ao “nome” da pessoa com quem estamos a falar.
Se eu me viro para um grupo de pessoas e falo “Gente, socorro!”, esse “gente” é o que eu estou a chamar a esse grupo de pessoas. “Gente” é o vocativo.
Se eu digo “Professor, tenho uma dúvida!”, “professor” é o que eu estou a chamar à pessoa com quem falei. “Professor” é o vocativo da frase.
Se eu digo “Meu amor, podes passar-me o sal?”, “meu amor” é a forma que eu tenho de chamar a pessoa com quem estou a falar, então é o vocativo.
Caso tenham reparado, tudo aquilo que eu identifiquei como vocativo veio entre vírgulas nas frases. É uma regra gramatical muito importante e simples, que basta que interiorizem para não errarem. O vocativo tem sempre de vir entre vírgulas. Ele vem só com uma se estiver encostado ao início ou ao final da frase, mas tem de vir sempre isolado do resto.
Deixo aqui outro mini exemplo de diálogos, mas com alguns vocativos em todas as falas para servir de exemplo:

— Sabes, Pedro, eu detesto o frio…
— Sei sim, Maria, estás sempre a falar disso…
— Estou? Deixa de ser chato, deixa-me em paz, seu… seu chato!
— Eu sou chato? Tu é que és irritante, sua irritante!
— Não sejas mau, irmão, não me quero chatear contigo.
— Nem eu contigo, maninha. Tens razão.
— Vamos fazer as pazes, cabeça de mula?
     — Vamos, ancas de cegonha, vamos…


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3. DIFERENÇAS DE PONTUAÇÃO US VS UK
As diferenças de pontuação com aspas são poucas. Basicamente, nos Estados Unidos da América usam as aspas curvas duplas (“ “) e no Reino Unido e na Austrália usam as aspas curvas singulares (‘ ‘). Para além disso, na norma norte-americana, a posição da vírgula entre fala e narração com verbos dicendi é fixa. Na norma britânica e australiana, essa posição é normalmente um pouco relativa.



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Conselhos do autor de Clube da Luta

quinta-feira, 6 de março de 2014

Por Deathless Nokas


Queres enriquecer a tua escrita, aprendendo a usar os verbos a teu favor e aprendendo a envolver mais o leitor nas tuas palavras?

Então não podes perder este artigo de Chuck Palahniuk, o autor de “Clube da Luta” e de inúmeros artigos sobre escrita muito aclamados. Aqui ele ensinar-te-á a deixar de usar verbos como “pensar”, “saber”, “compreender”, “entender” e “considerar”, por acreditar que eles te impedem de passar a mensagem que queres com a intensidade que desejas. Ah, e “acreditar” também é outro desses verbos...

A tradução foi feita por mim e, no final, ficará o link onde poderás encontrar o original e uma tabela que também compus, com alguns dos “verbos de pensamentos” que o autor recomenda que deixes de usar. 


“Daqui a seis segundos, vais odiar-me.
Mas daqui a seis meses serás um melhor escritor.”

De agora em diante ― pelo menos por meio ano ― tu não poderás usar verbos “de pensamentos”. Estes incluem: Pensar, Saber, Compreender, Perceber, Acreditar, Querer, Recordar, Desejar e centenas de outros que tu adoras usar.

Esta lista também deve incluir Amar e Odiar.

E deve incluir Ser e Ter, mas vamos falar desses mais tarde.

Até passarem esses seis meses, não poderás escrever “Kenny pensou se Monica não gostava que ele saísse de noite...

Em vez de isso, terás de desmembrar a ideia: “Nas manhãs seguintes às noites em que Kenny ficava na rua até depois do último autocarro/ônibus passar, até ele ter de cobrar uma boleia/carona ou pagar por uma viagem de táxi para casa onde encontrava Monica a fingir que dormia, a fingir porque, ela nunca dormia assim tão silenciosamente, nessa manhãs, ela punha apenas a sua chávena de café no microondas. Nunca a dele.

Em vez de teres os personagens a saber alguma coisa, tu agora terás de apresentar os detalhes que permitirão ao teu leitor ficar a saber essa coisa. Em vez de teres uma personagem a querer alguma coisa, agora terás de descrever essa coisa para que seja o teu leitor a querê-la.

Ao invés de dizeres “Adam sabia que Gwen gostava dele”, terás de dizer:

No intervalo entre as aulas, Gwen encostava-se sempre ao seu cacifo/armário quando ele o tinha de abrir. Ela reviraria os olhos e ir-se-ia embora ganhando impulso com um pé, deixando uma marca negra no metal pintado com o seu calcanhar, mas deixando também o seu perfume para trás. A fechadura ainda estaria quente pelo toque do seu traseiro. E no intervalo seguinte, Gwen estaria lá novamente.

Resumindo, nada de resumires as coisas. Deixa ficar apenas os detalhes específicos absorvidos pelos sentidos: ações vistas e cheiros, sabores, sons e texturas. 

Normalmente, os escritores usam estes verbos “de pensamento” no início de um parágrafo (desta forma, podemos chamar-lhes “Frases de Teses” e manifestar-me-ei contra elas mais tarde). De certa maneira, a frase de tese expõe a intenção do parágrafo. O que se segue, serve para a ilustrar.

Por exemplo:

Brenda sabia que não conseguiria cumprir com o prazo. O tráfego acumulava-se desde a ponte, até depois das seguintes oito ou nove saídas da estrada. A bateria do seu telemóvel/celular tinha morrido. Em casa, os cães precisariam de um passeio, ou haveria uma sujeira para limpar depois. Para além disso, ela tinha prometido que regaria as plantas do vizinho...

Vês como o começo com uma “frase de tese” roubou a importância ao que se seguiu? Não faças isto.
Senão tiveres mais nenhuma alternativa, corta a frase do início e coloca-a depois de todas as outras. Ou, melhor ainda, move-a e muda-a para “Brenda jamais cumpriria com o prazo.

Pensar é algo abstrato. Saber e acreditar são coisas intangíveis e intocáveis. A tua história será sempre mais forte se tu apenas mostrares as ações físicas e os detalhes das tuas personagens e permitires ao teu leitor que seja ele a pensar e a saber. E a amar e a odiar.

Não digas ao teu leitor “Lisa odiava Tom”.

Em vez disso, constrói o teu caso como um advogado num tribunal, detalhe a detalhe. Apresenta cada pedacinho das provas. Por exemplo:

Durante a chamada na aula, no instante a seguir ao professor dizer o nome de Tom, no momento anterior à sua resposta, nessa altura, Lisa iria sussurrar-gritar ‘Otário’, mesmo antes de Tom dizer ‘Estou aqui’."

Um dos erros mais comuns que os escritores iniciantes fazem é deixar as suas personagens sozinhas. Ao escrever, podes estar sozinho. Ao ler, os teus leitores podem estar sozinhos. Mas as tuas personagens devem passar muito, muito pouco tempo sozinhas. Porque uma personagem solitária começa a pensar, a preocupar-se ou a considerar.

Por exemplo: “Enquanto esperava pelo autocarro/ônibus, Mark começou a preocupar-se com o quanto a viagem iria demorar.

Um bom desmembramento dessa ideia poderia ser: “O horário dizia que o autocarro/ônibus chegaria ao meio-dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram onze e cinquenta e sete. Podia ver-se a estrada toda até ao centro comercial, e não se via nenhum autocarro. Sem dúvida que o condutor estaria parado numa rua ali ao lado, a dormir uma sesta. O condutor estaria recostado, adormecido, e Mark chegaria atrasado. Ou pior, o condutor estaria a beber, pararia ali bêbado e cobraria a Mark o bilhete para a sua morte num grandioso acidente...

Uma personagem sozinha deve submergir em fantasias ou memórias, mas mesmo assim não poderás usar verbos “de pensamento” ou nenhum dos seus parentes abstratos.

Oh, e podes começar a esquecer o uso dos verbos esquecer e lembrar.

Não haverá mais passagens como “Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar-lhe o cabelo.”

Em vez disso: “Na altura do segundo ano de universidade deles, Nelson costumava escovar o cabelo dela com longos e suaves movimentos da sua mão.”

Novamente: desmembra. Não aceites atalhos.

Melhor ainda, junta a tua personagem a outra personagem, depressa. Coloca-os juntos e faz com que se inicie a ação. Deixa que as suas ações e palavras mostrem os seus pensamentos. Tu ― fica fora das suas cabeças!

E enquanto andas a evitar os verbos “de pensamento”, toma cuidado ao usar os verbos sem sal “ser” e “ter”.

Por exemplo:

Os olhos de Ann são azuis.
Ann tem olhos azuis.”

Ao invés, usa:

Ann tossiu e passou uma mão sobre a face, limpando o fumo de cigarro dos olhos, olhos azuis, antes de sorrir...

Em vez das desinteressantes frases com “é” e “tem”, tenta enterrar os detalhes de o que as personagens têm ou são em ações ou gestos. Na sua forma mais básica, isto será mostrar a tua história, em vez de a contares.

E para todo o sempre, depois de também teres aprendido a desmembrar as tuas personagens, tu odiarás o escritor preguiçoso que se deixar ficar por “Jim sentou-se ao lado do telefone, pensando sobre o porquê de Amanda ainda não ter ligado.”

Por favor. Por agora, odeia-me o quanto tu quiseres, mas não uses verbos “de pensamento”. Daqui a seis meses, podes até endoidecer de tanto os usares, mas aposto o meu dinheiro em como não vais querer fazer isso.

Os teus trabalhos de casa serão passares os olhos pelos teus textos e circular todos os verbos “de pensamento”. Depois, encontra alguma forma de os eliminares. Aniquila-os desmembrando-os.

A seguir podes passar os teus olhos por livros publicados e fazer o mesmo. Sê implacável.

Marty imaginou peixes saltando à luz da lua...
Nancy recordou a forma como o vinho sabia...”
Larry sabia que era um homem morto...

Encontra-os. Depois disso, encontra uma forma de os reescreveres. Torna-os mais fortes.”


Achar­­­
Conceber
Desejar
Interpretar
Perceber
Relembrar
Acreditar
Concentrar-se em
Especular
Lembrar
Perguntar-se
Reparar em
Adivinhar
Concluir
Esquecer
Memorizar
Preocupar-se
Saber
Aperceber-se
Concluir
Fantasiar
Notar
Querer
Sonhar
Calcular
Considerar
Imaginar
Opinar
Reconhecer
Supor
Compreender
Deduzir
Inferir
Pensar
Recordar
Teorizar
Amar
Odiar


Não te esqueças que vários destes verbos podem ter mais do que uma função ou sentido, está bem? Tem em consideração que o CONTEXTO é que determina se um verbo é ou não “de pensar”. Não deves abulir estes verbos da tabela do teu vocabulário ou da tua história. O CONTEXTO é que determina essa necessidade. Se uma personagem disser “Eu penso que deverias cortar o cabelo,” isso não terá de ser desmembrado. Se algum verbo que não estiver nesta lista tiver a função de resumir o que se passa na mente da tua personagem, então também deve ser riscado do texto.


Publicação original por Chuck Palahniuck, “Nuts and Bolts: ‘Thought’ Verbs”, consultado a 22 de Janeiro de 2014. Disponível em: http://litreactor.com/essays/chuck-palahniuk/nuts-and-bolts-%E2%80%9Cthought%E2%80%9D-verbs

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As imagens que servem de ilustração para o posts do blog foram encontradas mediante pesquisa no google.com e não visamos nenhum fim comercial com suas respectivas veiculações. Ainda assim, se estamos usando indevidamente uma imagem sua, envie-nos um e-mail que a retiraremos no mesmo instante. Feito com ♥ Lariz Santana