Como Criar um Mundo em (Talvez Mais de) Seis Dias – Parte 3/3

Por: MicheleBran Perfil:  https://fanfiction.com.br/u/5389/ Olá, leitores do blog da Liga dos Betas. Esse é meu primeiro po...



Por: MicheleBran

Olá, leitores do blog da Liga dos Betas.

Esse é meu primeiro post por aqui e, bem, já comecei com a tarefa complicada de continuar o trabalho de alguém. Para entrar no tema, é basicamente como se algum escritor de fantasia tivesse criado 60% do mundo e me desse nas mãos para que eu terminasse.O que ele estava pensando para os 40% que faltava? Como posso continuar bem essa tarefa, sem que nada se perca ou fique diferente da ideia original? O que eu posso acrescentar a esse trabalho?

Mil perguntas... Vamos lá tentar respondê-las.

Até aqui, já vimos como você pode criar as bases do seu mundo, começar a delineá-lo e povoá-lo. Hoje vamos mais além. Vamos tentar aprofundar tudo o que já temos, começando a dar dimensão ao nosso mundo de fato.

Prontos? Apertem os cintos para a reta final do seu “brincar de Deus” e construir um universo que faça sentido e seja verossímil. Come on!


Quinto Dia – Explicando
Ou “Por que tudo isso está acontecendo?”

Ao chegarmos aqui, o esperado é que você já tenha as bases do seu mundo. Isso inclui não apenas a criação dele, como também os povos e as raças, a história, a geografia, as leis físico-químicas e biológicas, além de já ter decidido quanto de magia e/ou tecnologia vai utilizar.

Se você já fez o mundo com uma história em mente, tanto melhor. Já temos o onde e o quem, a essa altura. É chegada a hora de pensar nos porquês, e aqui o passado do seu mundo é o ponto-chave.

Pense nas sociedades do nosso mundo. Por que estamos como estamos? Em termos de guerras, conflitos, relações entre diferentes povos, tecnologia, linguagem, organização social, cultura, ciência... Tudo isso é resultado de um processo milenar de evolução.

Agora vamos tentar aplicar isso ao seu mundinho.

Explicando tretas - Há uma guerra ou conflito entre povos? Se sim, vamos pensar no passado, em como tudo isso começou. Como essas sociedades se relacionavam? Normalmente, já há certa animosidade antes que o barril de pólvora (às vezes literalmente) exploda. Qual foi o evento inicial? Era algo simples, que poderia ser resolvido facilmente, mas saiu do controle? Há quanto tempo eles estão nessa briga? Com quem se aliaram e por quais motivos? Quem está ganhando? E perdendo? Por quê? Como esse conflito evoluiu ao longo dos anos? Como essa guerra mudou esses povos, não apenas social, mas também fisicamente? Há locais que foram abandonados? Destruídos? Que dificuldades esses conflitos vêm causando ao longo do tempo? É um conflito com vilões e mocinhos bem definidos (como na Terra-Média) ou é algo mais como Westeros, em que as pessoas possuem interesses conflitantes e os defendem, mas ora podem ser “bonzinhos” ou “vilanescos”, dependo do ponto de vista de quem observa? Para quem seu leitor deve “torcer”?

Muitas e muitas outras perguntas poderiam ser feitas ainda, mas como eu disse antes, explicar o mundo é basicamente investigar o que aconteceu no passado para saber o que e por que algumas coisas acontecem no presente, para daí tentar prever que consequências futuras esses eventos terão (o que vai facilitar até seu processo de construir o enredo da história em si, quando essa fase de worldbuilding acabar).

Explicando evoluções sociais – Semelhante ao tópico anterior em partes, aqui tentaremos explicar como os povos e raças se tornaram o que são hoje. Por quais dificuldades eles tiveram que passar? Que tecnologias desenvolveram e por quais razões? O quanto esse povo ou raça aumentou/diminuiu ao longo dos anos? Que alianças com outros povos ou raças foram firmadas ou quebradas esse tempo todo? Que preconceitos esse povo ou raça tem? Algum deles já foi quebrado? Como? O que esse povo ou raça tem produzido em termos de cultura (como pintura, escrita, música, etc.)? Como as ações desse povo mudaram o local onde eles vivem?

Com isso pronto, fica bem mais fácil explicar quem seus povos ou raças são e como eles se diferenciam uns dos outros (essa diferenciação é algo que você precisa ter em mente e deixar claro. Não tem nada mais maçante que todo mundo parecer muito igual aos olhos de quem está lendo). E, mais importante, como eles chegaram até aqui.

Explicando avanços tecnológicos – Aqui você deve pensar em como a produção intelectual dos povos avançou no período de tempo determinado. O que foi criado em termos de tecnologia de comunicação? E na medicina? E nos transportes? Que povo criou o quê? Há tecnologias ou criações em geral de um povo que foram adotadas por outros?

Definindo a mitologia – Outra dimensão interessante para explicar seu mundo e os principais acontecimentos dele é a mitológica/religiosa. Imagino que, a essa altura, você já tenha definido se vai usar o tema ou não em seu mundo (ou se usará de forma mais sutil), então é interessante pensar se as pessoas usam a mitologia para tentar compreender, por exemplo, fatos que ainda não possuem explicação científica (como fazíamos nos primórdios da humanidade), mas essas histórias são apenas mitos ou se o deus ou deuses realmente existem e interferem no mundo. Com isso decidido, caso tenha optado por também abordar religião e mitologia em sua história, podemos passar adiante e pensar em possíveis questões para ser respondidas. Segundo a perspectiva religiosa/mitológica, como o mundo foi criado? Há apenas um deus ou vários? Qual é ou quais são eles? Se há vários deuses, como eles se relacionam entre si?Como esses relacionamentos divinos afetam as relações dos povos ou raças do mundo? Há uma religião, ou mais de uma, que seja institucionalizada (com templos ou igrejas, doutrinas e regras a seguir, rituais, etc.)? As diferenças religiosas causam conflitos entre os povos ou raças? Se sim, como e por quê?

E poderíamos seguir perguntando infinitamente aqui, e sobre muitos mais outros temas...

A ideia desse tópico é ajudar você a entender que explicar algo é basicamente voltar no tempo. Se eu fosse explicar a qualquer pessoa como me tornei escritora e beta, não poderia falar apenas do que estou fazendo nesse momento. Teria que voltar anos e anos no tempo para falar como surgiu meu interesse pela escrita e como fui me desenvolvendo nessa área até o momento, tudo o que aprendi e com quem, porque quis aprender algumas coisas e outras não, porque quis escrever sobre alguns gêneros e outros não.

O importante é você ter em mente que explicar seu mundo usando a perspectiva histórica, social e religiosa dará muito mais profundidade e o fará parecer mais crível aos olhos do seu leitor. Tomando esse cuidado, os leitores terão a sensação de que as coisas realmente passaram por todo um processo até chegar ao que são no “atualmente” que você deseja contar.

Em resumo: explicar o presente é voltar no passado. Não precisa falar tudo ainda, explicar as minúcias das coisas por agora. Apenas registre os pontos mais importantes, que de fato expliquem o que quer que deva ser explicado nesse momento.
Com isso, poderemos passar para o dia seguinte...

Sexto Dia - Detalhando
Ou “Dando vida e dimensão ao seu mundo”

O simples exercício de explicar coisas já vai ajudar você a começar a detalhar alguns aspectos do seu mundo. Quanto mais você pensar no porquê das coisas, mais informações sobre cada aspecto do seu mundo vão aparecer.

Quanto mais você pensar nos porquês, ondes, quandos e com-quens dos eventos que deseja contar (ao menos, dos principais, que influirão positiva ou negativamente na configuração do mundo), mais ele ganhará vida e detalhes, seja geográfica, histórica ou socialmente falando.

Particularmente, gosto de começar no ponto inicial, de como tudo foi criado, e a partir disso seguir em frente com a história do mundo, então essa parte para mim não é tão difícil.

Mas não se desespere.

Há formas de aprofundar tudo e fazer seu universo parecer real mesmo que você siga outro método. O que não falta na internet, tanto na do Braza quanto na gringa, é formulário e tabela para ajudar você a pensar detalhadamente em todo esse lado de sua criação. Desde perguntas específicas sobre o aspecto físico, até questionamentos sobre seus povos e raças, religião, magia, tecnologia, cultura, educação, interação entre as populações, fauna, flora e por aí vai. Alguns são mais detalhados que outros e sempre é possível você acrescentar partes se achar necessário. Use a seu critério.

Tenho dois preferidos, um em pt-br e outro na língua do Obama, caso você compreenda, que estão linkados no final do post — junto com mais sites bacanudos que podem ajudar em vários aspectos do worldbuilding.

Outra dica fundamental é você rascunhar um mapa, nem que seja bem rudimentar, do seu mundo e destacar os principais lugares onde sua história se passa (vilas, cidades, reinos, estados, países, etc.). Assim você também evita ficar perdido sobre quanto chão sua história cobre e sabe exatamente onde estão e para onde vão seus personagens. Mesmo que você não seja desenhista (eu sou péssima, só faço boneco-palito e olhe lá), é interessante ter algo nesse sentido. Aliás, justamente para quem não é desenhista há vários sites que podem fazer esse trabalho por você. Novamente, linkei um deles ao fim do post.

Um último conselho ou dica. Ou sugestão. Ou pedido. Whatever. Está mais para opinião impopular, mesmo, mas vamos lá: é totalmente liberado se inspirar em eventos reais para criar coisas para seu mundo, seja no esboço ou nesse processo de detalhamento, mas... Se for para criar culturas completamente idênticas às que já existem em nosso mundo, com os mesmos costumes, o mesmo visual, os mesmos valores, não seria mais simples pesquisar mais sobre nosso mundinho e escrever nele? O mesmo vale para raças de mundos de fantasia que você use de base.

Há sempre algo de seu que você pode criar ou acrescentar. Há sempre coisas novas que você pode fazer, basta exercitar sua imaginação. Lembre-se de que por mais que seu leitor possa não se importar com clichês, o que não falta é história de fantasia usando certos conceitos por aí. Não custa nada quebrar essas expectativas de vez em quando, aliás, é excelente até para seu crescimento literário que faça isso.

Escolha suas referências, adicione sua própria criatividade, bata no liquidificador e sirva como preferir. De qualquer forma, boa sorte nesse caminho árduo.

BÔNUS: Sétimo dia – Organizando
Ou “Achou que ia descansar, né?”

Spoiler: Descanso? Seu trabalho está só começando. Ajeite essa postura, abra esse Word e volte ao trabalho!


Agora que, pelo menos, o grosso de seu mundo já está criado, que já há pessoas, animais e plantinhas vivendo em harmonia (ou não rs) nos diferentes locais geográficos criados por você, que tal ordenar isso de uma forma lógica e simples, que não vá deixá-lo confuso procurando onde está X coisa na hora de escrever?

De minha parte, tenho TOC em organização. Estou literalmente desde o começo do mês passado organizando minha pasta de fics e alguns escritos dos últimos meses e sinto que não vou conseguir trabalhar direitinho até que tudo esteja devidamente no seu lugar. Se você também é assim, já deve estar em polvorosa pensando em como vai arrumar tudo isso de forma que fique fácil de consultar.

Calma, seus problemas acabaram (????).

Se você fez uso de algum daqueles worksheets lá em cima, já tem boa parte de seu trabalho na parte de organização pronto, a não ser que tenha respondido de forma não-linear em múltiplos arquivos.

Se for o caso, tente separar seu material em diferentes pastas. Uma para as raças, outra para as civilizações humanas, outra para história do mundo, outra para geografia, e por aí vai.

É altamente recomendado que você use imagens para se ajudar a criar as referências visuais dos ambientes (naturais e criados), das raças e etnias que compõem esse mundo, etc. Nesse caso, talvez o melhor a ser feito é separar uma pasta apenas para as imagens e subpastas para cada um desses tópicos em que você vai utilizá-las.
Também é desnecessário dizer que, para o bem de sua sanidade mental, a história em si deve estar separada desses arquivos todos, certo? Tenha duas pastas, uma para o processo de criação completo e outra para seu plot e escrita em si da história.



Ao final de todo esse processo, dependendo de como você trabalhou, espera-se que pelo menos a maior parte do mundo já esteja devidamente criada e “pronta para uso”. Daqui em diante, dependendo de seu gosto, você pode se aprofundar e detalhar mais, procurar por furos e inconsistências e trabalhar em como superar esses problemas, ou já começar a escrever mesmo.

O que importa é que você sempre pesquise e busque novas formas de criar seu mundo com o máximo de detalhes possíveis que deseja colocar, que se dedique e procure sempre dar o melhor de si em seu trabalho. É isso o que faz mundos parecerem reais.

Foi o suor no rosto de seus respectivos autores que criaram universos incríveis, como a Terra-Média, Nárnia ou Westeros, e tantos outros que eu poderia citar aqui (mas não vou poder porque esqueci). Não é um processo fácil, não é simples e certamente você vai quebrar a cabeça muitas vezes até tudo ficar como você quer/precisa (experiência própria aqui, eu poderia ser exagerada e dizer que não tenho mais cabelo pra arrancar, mas convém não mentir).

Mas, ao final, quando seus leitores se sentirem tão ansiosos para visitarem seu mundo quanto você fica interessado no mundo dos autores que admira, tudo terá valido a pena.

Até as sugestões de internação em clínicas psiquiátricas.

Boa sorte com essas histórias e espero que esta última parte do artigo tenha sido útil.

Nos vemos por aí, beijo nessas bunda :*


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