Ambientação

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Por: Humberto Cotrim
Um texto narrativo é, basicamente, o ato de contar uma história, seja ela real ou fictícia. Sendo assim, para que o enredo de uma obra literária faça sentido, ele deve ser construído sobre elementos alicerces, que são: as personagens, o narrador, o tempo e o espaço. Essas unidades estão conectadas e tornam a narração factível. Todo leitor já se deparou com esses elementos narrativos, certo? Sim. Mas existe sempre aquele algo a mais.
Ao iniciarmos o processo de escrita, todos os elementos destacados acima estarão lá. Porém, podemos nos complicar na hora de definir e descrever aonde a história irá acontecer, tornando-a pouco atrativa aos olhos de um leitor. Uma boa maneira de gerar um texto coerente com o espaço/tempo, por exemplo, é se prender à ambientação. Embora a palavra ambientação nos remeta a um ambiente, esse termo está longe de ser simplesmente o cenário ou local onde a narração acontece.
Podemos definir ambientação como o conjunto das circunstâncias ou condições em que existe certo objeto ou em que ocorre determinada ação. Este termo engloba ainda diferentes contextos, como a biologia, política e geografia.
Tudo fica mais fácil quando tomamos exemplos, não é? Então, para compreender melhor o que cada termo desses representa, vamos analisar uma obra cinematográfica bem conhecida: Avatar, de 2009. O enredo é todo ambientado com a ajuda da ficção científica e usa a lua Pandora como palco principal para desenvolver a trama. Daí já se pode observar o que seria a geografia da ambientação. Afinal, este “mundo” não existe e foi criado a partir da imaginação do roteirista. Ele teve que criar espaços físicos, relevo, fauna, flora e clima do local. A ambientação foi embasada ainda na biologia de Pandora, tanto na sua natureza diferenciada quanto na de seus habitantes humanoides, os Na’Vi. E para tornar esse “mundo” novo mais acreditável, montou-se também uma estrutura política dos nativos, um povo caçador-coletor que se dividiam em tribos e que tinham uma forte ligação com todos os seres vivos.
Dito isso, pode-se afirmar que a ambientação traz para a história profundidade e torna a leitura muito mais crível, pois possibilita que o leitor veja as personagens situadas nas condições em que vivem: seja no tempo, no espaço, na interação social e cultural em que estão inseridas.
Por vezes, a ambientação auxilia na hora de criar um conflito dentro da história. E isso é bom? Claro! Uma narração é preenchida com momentos-chave, que predem a atenção do leitor e servem de combustível para o andamento da trama. Quando o ambiente se opõe às personagens, estabelecendo com elas um conflito, o enredo se torna mais atrativo. Sendo possível até mesmo categorizar a ambientação como uma antagonista. Nestes casos, é comum haver uma caracterização mais aprofundada do ambiente.
Então, caro colega, que tal fazer uma ambientação legal em seu texto? Eu acho digno.
“Mas, tio, eu não sei fazer essas coisas.”
Sabe sim, jovem padawan.
A capacidade de narrar é um aspecto intrínseco dos seres humanos. Estamos sempre narrando episódios ou contando eventos de que participamos, assistimos ou sobre os quais ouvimos falar. Logo, fazer uma ambientação dentro de seu próprio mundo é totalmente possível. Quando tratamos de um enredo que é contextualizado de acordo com o mundo a nossa volta, fica muito mais fácil ambientar a história. Afinal, tudo que você precisa já existe, só é necessário um olhar mais observador para captar o essencial e, então, o traspor para o papel ou tela do computador. Há, claro, a possibilidade de sua narrativa ser ambientada no passado. Aconselho, nesse caso, a escrever após uma pesquisa em cima de registros históricos.
Há ainda a possibilidade de você querer escrever uma história mais distante do nosso mundo sensível, ou seja, um enredo voltado para a fantasia ou sci-fi, por exemplo. Diante disso, as coisas mudam de figura. Todos os três termos da ambientação podem necessitar de alterações e caberá a você uni-los em harmonia.
Nesse contexto, irei exibir algumas dicas básicas para auxiliar a construção da ambientação de um enredo.
Dica um: defina o gênero.
Ok, pode parecer meio óbvio, mas é bom lembrar. O gênero da sua narrativa diz muita coisa sobre o enredo. Ele guiará a história por dentro de seu mundo fictício. Sem falar que muitos gêneros direcionam a mente criativa por trás da obra, ou seja, você! ao criar coisas novas ou a adaptá-las de maneira adequada.
Dica dois: encare o mundo atentamente.
Se você optar por uma história original que pretende usar a sociedade atual como plano de fundo, um olhar mais atento pode ajudar bastante. Cada tempo é caracterizado por um estilo diferente. O contemporâneo não é diferente, a sociedade age de uma maneira e você pode transpor isto para seu texto. Sem falar que diversos eventos atuais, que variam de conflitos a transformações sociais, podem virar palco para a trama.
Dica três: a ambientação também ajuda os fandons.
Você fará uma fanfiction sobre um fandom existente, mas não é por isso que negligenciará a ambientação. Certo? Certo. Pense em como as personagens estão estabelecidas dentro daquele ambiente narrativo. Procure compreender como o tempo/espaço afeta o desenvolver da história e de que forma ele se relaciona com as personagens. Isso irá te auxiliar até mesmo na hora de compor as personagens.
Dica quatro: a literatura fantástica não requer tantas explicações.
Polêmica!
Temos diversas referências de histórias de fantasia ou sci-fi que exploram bastante a ambientação, descrevendo com riqueza de detalhes o mundo da qual faz parte; sem falar das línguas, cultura, mitologia etc. Isso é ruim? Não, mas pode cansar o leitor. Existem narrativas que exploram tanto o ambiente, que acabam por esquecer-se do principal, do enredo. É como se as personagens existissem somente para que o autor pudesse descrever seu universo particular. Dessa maneira, aconselho uma descrição sucinta e gradual. Assim, a leitura se torna mais natural e você não deixa de dar destaque para os detalhes da ambientação. Seria ótimo também se você conseguisse mesclar as descrições com momentos-chave. Desse modo, a trajetória não seguiria aquela linha de documentário, que por vezes dificultam a fluidez da leitura. Vale lembrar que a literatura fantástica não é única que sofre com o excesso de detalhes. Existem inúmeras histórias que descrevem tudo a todo o momento e fazem nossa animação em ler diminuir consideravelmente. Por isso, siga o conselho do Balu, de Molgi - O Menino Lobo, e faça “o necessário, somente o necessário”.
Dica cinco: evite incoerências.
Você estava lendo aquela fic, quando algo que lhe soou estranho? A história se passava nos Estados Unidos, mas estavam comemorando uma data tipicamente brasileira? Esse tipo de situação deprecia a qualidade da fic aos olhos do leitor. Fique atento. Pesquisar sobre a cultura que sua personagem vive é algo muito importante na hora de ambientar. Contradições de diversos gêneros poderão ser evitadas. Outra coisa legal é não limitar a diversidade étnica de suas personagens. É comum você encontrar histórias que padronizarem personagens ou até mesmo o seu tipo físico. Altos, ruivos e de olhos claros. Isso soa irreal. Por isso, fuja dos clichês e traga representatividade para seu texto.
***

Bem, pessoal, é isso. Espero que as dicas tenham ajudado vocês, mas não se limitem a elas, é claro. Pesquisem bastante. Todo conhecimento é válido e só a prática irá lapidar a sua habilidade em fazer a ambientação. Enfim, até mais!

BLOG ABISMO INFINITO. O que é  Ambientação? Disponível em: https://abismoinfinito.wordpress.com/2010/02/25/o-que-e-ambientacao/. Acesso em: 6 de novembro, 2015.
COSTA, M. M. Teoria Da Literatura II. In: COSTA, M. M. (Ed.) A Estrutura da narrativa: romance. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2008. p. 127-131.
PINNA, D. Animadas Personagens Brasileiras: A linguagem visual das personagens do cinema de animação contemporâneo brasileiro. 2006. 448 f. Tese (Mestrado em Artes e Design) – Departamento de Artes e Design do Centro de Teologia e Ciências Humanas. PUC-Rio. 2006.


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