Os clichês e o mito da originalidade

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Por Senhorita Ellie

O ingresso no mundo da escrita, mais especificamente no mundo das fanfics, pode se mostrar como um momento de insegurança para o escritor. O autor está em frente ao seu primeiro projeto de história e pretende postá-la em um site de grande circulação, onde, obviamente, ele espera acessos e comentários.
Em muitos grupos de escrita, é comum encontrar tais escritores de primeira viagem. Eles pedem dicas para suas histórias e são bombardeados com conselhos sobre coisas para se fazer e não fazer, sobre caminhos que eles devem ou não tomar, sobre coisas que eles devem definitivamente evitar e sobre coisas que eles devem idealizar. É aí que entram os conceitos de originalidade e clichê.
Clichê, segundo o dicionário, é uma frase repetitiva e sem originalidade, ou expressão que peca pela repetição, ou banalidade repetida com frequência – é fácil encontrar listas dos clichês mais comuns, histórias rotuladas por esses tropos, pessoas que evitam ler histórias que tenham essa ou aquela situação repetitiva – enquanto originalidade é definida simplesmente como o caráter daquilo que é original. Mas tais definições frias como essas não exprimem bem a situação: em grande parte dos autores, clichês são vistos como coisas a serem combatidas e, a originalidade, como o objetivo do escritor ao começar uma história. Supõe-se que todo escritor quer que a sua história seja diferente das outras, que seja inovadora, que conte algo nunca contado antes...
É interessante notar que isso, de fato, não existe.
Todas as ideias que temos para escrever são baseadas em alguma coisa e, muito provavelmente, todas as histórias que vamos contar já foram contadas por alguma outra pessoa em algum lugar do mundo. Não com as mesmas palavras, não do mesmo jeito, não com a mesma abordagem. Isso não torna as nossas histórias piores, nem as das pessoas que tiveram a ideia primeiro “melhores”. É simplesmente o fato de que duas pessoas têm visões diferentes sobre uma mesma ideia e a partir dela, duas histórias diferentes podem surgir.
A originalidade está nos detalhes. Não está na história, mas na forma como é contada. Não está na situação, mas em como ela se desenvolve, em como os personagens reagem a ela, no cenário... Está nos personagens, nas figuras que criamos e em como elas agem, porque personalidades são recriação dos seres humanos e não há duas pessoas iguais. Muitos autores se assustam pelo fato de encontrar histórias com o mesmo tema que as suas, ou se esforçam demais para tentar encontrar um tema pouco desenvolvido, quando a chave não é essa; não é procurar uma ideia diferente, mas fazer da sua história algo diferente.
Por isso, é interessante não deixar que o medo do clichê nem a expectativa da originalidade sejam uma pressão para os escritores.
Uma história clichê não é necessariamente ruim, assim como uma história dita “original” não é necessariamente boa. Não é saudável ter medo de escrever uma passagem apenas porque, no fim, a ideia já está batida. Você sempre pode acrescentar uma nova perspectiva, um novo detalhe, ou encaixar a ideia de um jeito diferente... Ou simplesmente escreva a coisa como a vontade surgir, porque até mesmo as histórias mais clichês têm público. Muitas pessoas apenas querem uma história leve para passar o tempo, algo que lhes distraia a cabeça.
Só não é bom tornar a escrita um ato cheio de restrições. Acima de tudo, ela deve ser algo divertido, não uma coisa que faça você se preocupar o tempo inteiro se está ou não fazendo direito. Não tenha medo do clichê, não coloque a originalidade num pedestal. É bom ter em mente o objetivo de escrever a melhor história que podemos, mas que isso seja confortável para nós, e não uma fonte de sofrimento.



4 comentários:

  1. Gosto muito de histórias clichês, mas com aquele "quê", entende? Não me importo na previsibilidade, do tipo a mocinha tímida e o rapaz bad boy que se apaixonam. Como tu disse, a diferença está nos detalhes e apresentação da ideia. Já li histórias do tipo que citei muito ruins e sem originalidade alguma, como também li várias que faziam da narrativa uma coisa muito gostosa de ler, por conta do desvio de "mesmisse".

    Descobri o blog de vocês ontem e leio tudo o que encontro por aqui. Me ajudaram em muitas questões que eu tinha dúvidas, obrigada! Beijos ♥

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    1. Ainda bem que gostas do nosso blog! ♥ Se tiveres alguma dúvida, não hesites em perguntar! ^.^

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  2. Não gosto de historias clichês, mas atualmente o que mais temos visto publicado é história clichê com um fim meio que óbvio. Autores como Augusto Cury com uma abordagem praticamente igual em todos os livros, no entanto, as pessoas adoram, para quem quer vender, recomenda-se história clichê. Para quem quer expressar seu pensamento, escreva uma história "original".

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O blog da Liga é um espaço para ajudar os escritores iniciantes a colocarem suas ideias no papel da melhor maneira possível.



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