Dicas para se criar um Universo Alternativo

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Por Blitzkrieg

Aqui serão analisados alguns procedimentos para se criar um universo vasto e original. 

Primeiramente, é preciso determinar qual tipo de universo para se criar. Será um mundo de fantasia medieval, como o da obra “Senhor dos Anéis”? Um mundo de ficção científica (sci-fi), como o de Star Wars? Ou até mesmo os dois, mesclados? 

Seja bastante seletivo neste processo inicial, pois dependendo do mundo, um leque de variadas opções é aberto. Um dos maiores exemplos de um mundo com características de fantasia medieval é o das Crônicas de Gelo e Fogo, do autor George R.R Martin. Focarei neste tipo de universo por enquanto, mas as dicas válidas para este, servirão para os outros, ok? Bom, vamos lá. 

Narração

Partindo destas noções primárias, o que seria preciso para a construção de uma história em um universo abrangente e com elementos de fantasia medieval, por exemplo? Por onde começar? Passa a ser necessário, primeiramente, determinar o modelo de narração, para orientar o leitor pela história. É vantajoso, no princípio, não focar na estrutura dos personagens. Bom, que espécie de autor conduziria melhor uma história de tal natureza? Logicamente, um autor que narrando acontecimentos em um mundo de proporções eloquentes, tivesse domínio sobre os pontos chaves para interligar todos os fatos importantes da história e que ao mesmo tempo revelasse a dimensão do universo que seria criado. Sendo assim, posso citar três modelos de narrativas que podem ser utilizados para concretizar o que foi explicado:

  • Narrador omnisciente.

Este narrador é praticamente Deus. Ele vê tudo, sabe de tudo, pode estar em qualquer lugar e controla o tempo (Relatos em feedback). É um tipo de narrador bastante comum, utilizado pela grande maioria dos autores profissionais. Existem vantagens em adotar a postura desse modelo narrativo, dentre elas a de poder rodar todo o mundo, poder descrever paisagens e tudo que possa estar fora do alcance da visão dos personagens e relatar acontecimentos em períodos simultâneos. Alguns autores podem se sentir desconfortáveis nesta narração, por não poderem explorar totalmente um determinado tipo de personagem que não seja um protagonista, pois seria necessário fornecer espaço para os demais, devido ao alcance omnisciente. Além disso, este tipo de narrativa dificulta o desenvolvimento do suspense e mistério. Em outras palavras, utilizando o ponto de vista, desta vez em primeira pessoa, diferente deste modelo, o autor mantém o mistério do personagem, pois o que o personagem vê o autor vê, tudo que o personagem conhece o leitor conhece. O que não acontece nesse caso. Exemplo: 

[SPOILER]

Via-se balaustradas, a maioria quebrada, nas quais se amarravam animais diante dos prédios. Antigamente houvera passadiços largos, mas agora quase todas as tábuas haviam desaparecido e o mato brotava pelas cavidades onde se encaixavam. Algumas tabuletas dos prédios, embora desbotadas, ainda eram legíveis...   [Stephen King – A Torre Negra. Vol 3] 

  • Narrador com focalização restritiva.

Aqui está o tipo de narrativa que predomina nas obras de George. Quem conhece as crônicas deve saber que seu estilo de narrativa é bastante peculiar, pois ele narra utilizando o ponto de vista de um personagem específico. Sendo assim, uma das vantagens, trata-se justamente de poder analisar de uma maneira mais profunda o psicológico dos personagens, assim como seu passado e sua maneira de enxergar os fatos que acontecem ao seu redor. Dentre as desvantagens, estão a necessidade de criar vários personagens para que vários eventos importantes possam ser descritos. O gerenciamento do destino de cada um, que devido a esse estilo de narrativa pode causar uma baita dor de cabeça, dando a impressão de que os “personagens possuem vida própria”. Além disso, pode ser necessário “matar” alguns deles à medida que a história avança, com o intuito de não sobrecarregar o foco narrativo, com pontos de vistas que não levem a história pra frente. Um exemplo deste tipo de narração:

[SPOILER]

“Dany olhou para a extremidade do longo salão sem teto e ali estava ele, encaminhando-se a passos largos na sua direção. Pelo desequilíbrio no andar, compreendeu de imediato que Viserys encontrara o seu vinho... e algo que se passava por coragem. 

Vestia suas sedas escarlates, enodoadas e manchadas pela viagem. A capa e as luvas eram de veludo negro, desbotado pelo sol. As botas estavam secas e fendidas, os cabelos prateados, baços e emaranhados. Uma espada balançava, presa ao cinto, enfiada numa bainha de couro. Os dothrakis fitavam a espada enquanto ele passava.” [A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin.]

  • Narrador com focalização interventiva.

É o narrador que possui acesso a tudo, porém acaba se tornando um comentarista, como se assistisse toda a história e se limitasse a comentar sobre os personagens. É quase como um espectador. A vantagem deste tipo de narrativa é que é possível expressar opiniões e ideologias através de exemplos. A desvantagem é que a riqueza de determinados personagens é obscurecida, no sentido de que se perde a capacidade de descrever seus pensamentos e noções mais íntimas. 

D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons
ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre
como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo,
que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele
respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música
alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo
escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente
falavam de política. [ Conto: A Carteira, de Machado de Assis. ]

É lógico que existem outros variados tipos de narrativas. Procurei apontar aqui os tipos que podem contribuir para o desenvolvimento do universo que será criado. Além disso, é perfeitamente possível explorar os três tipos de narrativas em uma mesma história. Bastaria apenas tomar cuidado com a incoerência. Considerando que separar tais narrativas, alternando capítulos, poderia ajudar muito. Estas são as ferramentas e não há nada errado em utilizar todas elas. Uma obra de arte não se constrói com apenas uma ferramenta, não é? 

É preciso também definir se o universo será distinto da nossa realidade ou se fundirá com ela. Em outras palavras, a história se passará no mundo real ou em outra dimensão? Seja como for, mesmo que se crie um mundo totalmente novo, é necessário manter-se com os pés no chão. Assim, fica difícil cometer o erro de criar ambientes totalmente incoerentes e que possam afetar o desenvolvimento da história. Os livros do Harry Potter, por exemplo, revelam todo um universo original criado, porém, paralelo ao mundo real, de tal forma que os personagens trafegam livremente pelos dois mundos.

Personagens   

Levando em consideração tudo o que foi analisado até agora, vamos partir para um dos focos essenciais: as personagens. Ainda utilizando como base o mundo com características de fantasia medieval, seja coerente quanto ao desenvolvimento desta área, isto é, não faz muito sentido dotá-los de características impróprias ao universo que se está gerenciando (e não mais criando). Uma dica que pode ser bastante útil é a de separar um documento com a biografia dos principais. Se você deseja ter uma obra rica, é preciso trabalhá-los individualmente, construindo suas histórias de vida, construindo suas personalidades e depois interligando as histórias com as dos demais personagens.

Um ponto essencial é emprestar a mente do autor aos seus “filhos”. O que isso quer dizer? Se você não quer que sua história se torne um diário, com múltiplas versões inacabadas de você, é preciso seguir algumas dicas: 

  • Procure compreender um conflito de diferentes maneiras e perspectivas. Desta forma, a convivência entre seus personagens não se tornará incoerente e a qualidade da história não será prejudicada. 
  • Coloque-se no lugar de alguém que você discorda. Esse tipo de experiência no nosso dia a dia, deve sim ser importada para a obra que está sendo desenvolvida. Com isso, a aproximação do leitor é garantida pelas situações que ele vivenciará por meio da leitura do texto, e isso também despertará seu interesse.
  • Seguindo a mesma noção de importar vivências pessoais para a história, procure ver as pessoas e situações além das aparências. Para que os personagens sejam interessantes, eles devem possuir complexidade. Pinte as almas dos seus personagens de “cinza” e não “colorido” [Parafraseando George R.R. Martin]. A cor “cinza”, nesse caso, representa toda a complexidade humana (ou do que pode ser considerado humano). Deve haver personagens que tomam atitudes ambíguas na história. 
  • Tente entender suas crias, a partir das experiências individuais que constituíram suas personalidades e visões de mundo.  

O criador das crônicas utilizou o sistema de casas para formar “grupos” de personagens. Ele criou famílias, de certo modo, e inseriu detalhes específicos para cada uma, como símbolos, lemas e uma história de origem. Independentemente do meio que utilizar para separá-los em grupos, os mais importantes, os chamados primários, devem possuir uma história mais bem trabalhada. Tudo o que os envolve deve ser desenvolvido com cuidado e concentração. Até aqui, já foi possível notar que o número de personagens se excede bastante em uma história desse tipo. Um universo grande deve ser preenchido por muitas vidas, não? Caso contrário, não fará sentido criar um universo alternativo. 

Um efeito bastante característico que será notado ao trabalhar com um universo povoado por muitas personalidades é o de que algumas delas irá se tornar bastante carismática. Algumas vezes, este efeito virá de maneira acidental e outras, não. Às vezes há tanta convicção de que um dos habitantes daquele mundo irá cativar o leitor devido à sua história de vida, que foi desenvolvida de maneira árdua, apaixonada, etc, e este personagem, depois, simplesmente, não chama a atenção daquele que lê a fic. Em contraste, um personagem, até mesmo secundário, que nem foi muito bem trabalhado, acaba se destacando e ofuscando os demais e até pior, acaba mudando o rumo da história que é desenvolvida pelo autor, por seu carisma influenciar até mesmo o criador da obra. É como se ganhassem vida própria e, suas ações, mesmo previamente planejadas, acabassem mudando o rumo da história. Esse fenômeno é bastante conhecido por escritores profissionais.

George R.R Martin disse em uma de suas entrevistas que os personagens parecem ter “vida própria”. Na verdade esse efeito ilusório é causado pela necessidade de manter a coerência ao longo do enredo, exatamente como se a coerência fosse um rio, as nossas intenções o barco e o vento os personagens. Dependendo de como o vento sopra, o barco se torna difícil de conduzir ao nosso favor. Sendo assim, independentemente da maneira como explorar o mundo pessoal dos habitantes do seu universo, a seleção parcialmente aleatória do leitor de afeição por eles, irá influenciar o rumo que a história tomará de forma indireta. Contudo, existem certas dicas que podem ser adotadas para guiar os sentimentos dos leitores, de tal modo que eles se afeiçoem pelos que são interessantes para o autor do texto e com isto a história siga um rumo próximo do previsto inicialmente. Tais dicas podem ser encontradas no tópico “Personagens Marcantes“, aqui mesmo, no blog da Liga dos Betas, na categoria de Generalidades.

Muitas vezes o protagonista e o antagonista acabam não sendo identificáveis em um modelo de história como o citado neste tópico. A não ser em casos específicos, como a obra de Harry Potter e de Percy Jackson e os Olimpianos, em que o esforço em destacá-los acaba se tornando evidente. Esta característica é típica das histórias que não são maniqueístas. O que é isto? Maniqueísmo é um tipo de filosofia que defende a existência de apenas dois princípios opostos: o Mal e o Bem. Atualmente essa noção maniqueísta está sendo pouco utilizada em obras de literatura, pelo simples motivo de que hoje há uma compreensão mais aprofundada da natureza humana. Portanto, procure não guiar seus personagens pela filosofia maniqueísta, principalmente para o antagonista e o protagonista, se houver esta distinção na fic. Insira uma dose de complexidade nas almas desses dois personagens principais, especialmente.  

Ainda tratando daqueles que podem ser considerados os guias do enredo, é importante salientar um dos meios clássicos para sua organização em grupos. A elaboração de raças distintas, no sentido puramente biológico, e até mesmo o estabelecimento de certo tipo de cultura diferenciando-os. Sendo assim, considerando que uma raça é o conjunto de indivíduos com determinada combinação de caracteres físicos geneticamente condicionados e transmitidos de geração a geração, em condições relativamente estáveis, este conceito pode muito bem ser aplicado na história, para diversificar os personagens. George utiliza este método, enriquecendo sua história ao descrever uma raça em sua obra, a dos membros da casa Targaryen. Veja o exemplo:

[SPOILER]

   “12. Lhe emprestara e disse: — Tendes a certeza de que Khal Drogo gosta das suas mulheres assim tão novas? — Ela já teve o seu sangue. Tem idade suficiente para o Khal — respondeu Illyrio, e já não era a primeira vez que o dizia. — Olhai para ela. Aquele cabelo louro prateado, aqueles olhos púrpura… ela é do sangue da antiga Valíria, sem dúvida, sem dúvida… e bem nascida, filha do antigo rei, irmã do novo, não é possível que não arrebate o nosso Drogo. ” [ Daenerys – A Mãe dos Dragões, versão pt-pt. ]

Temos aqui a descrição física de uma raça no mundo de George, a dos Targaryen. Em outro tipo de universo que explore as características de ficção científica fica mais fácil seguir por este caminho. O uso da genética em uma história de tais proporções é algo que contribui diretamente para expandir a riqueza dos personagens. 

Logicamente, ao desenvolver um mundo com uma grande quantidade de personagens, atribuindo complexidade na construção dos mesmos e também se utilizando da genética para a formação de raças, torna-se interessante organizá-los em sociedades, sendo assim, culturas podem ser desenvolvidas. Talvez seja difícil sair do que melhor conhecemos para criar uma cultura totalmente distante, em comparação com aquilo que lidamos no nosso mundo real. Mas se você deseja tentar criar algo completamente novo e distinto do que temos em nosso mundo, será um desafio interessante, ao qual eu desejo toda a boa sorte. O autor das Crônicas de Gelo e Fogo acabou se , de certa maneira, nas culturas orientais de nosso mundo real, ao descrever os povos do “leste” no continente de Essos, onde se encontram as cidades-estados livres, como podemos ver neste exemplo:

[SPOILER] 

“– Os dragões serão uma maravilha tão grande em Astapor como foram em Qarth. Pode ser que os negociantes de escravos façam chover presentes sobre você, como os qartenos fizeram. Se não... estes navios transportam mais do que os seus dothraki e seus cavalos. Embarcaram mercadoria em Qarth, eu percorri os porões e vi-a com meus próprios olhos. Rolos de seda e fardos de pele de tigre, esculturas em âmbar e jade, açafrão, mirra... os escravos são baratos, Vossa Graça. Peles de tigre são caras.

    – Essas peles de tigre são de Illyrio – ela objetou.

    – E Illyrio é um amigo da Casa Targaryen.

    – Mais um motivo para não roubar sua mercadoria.

    – Para que servem os amigos ricos se não puserem a sua riqueza ao seu dispor, minha rainha? Se o Magíster Illyrio lhe negar isso, é apenas um Xaro Xhoan Daxos com quatro queixos. E se for sincero em sua devoção à sua causa, não se mostrará relutante em dar-lhe três navios carregados de mercadoria. Que melhor uso poderá haver para as suas peles de tigre do que comprar o início de um exército para você?

    Isso é verdade. Dany sentiu uma excitação crescente.” [As Crônicas de Gelo e Fogo – A Tormenta de Espadas.] 

Espero que essas dicas lhe sejam úteis. Na próxima parte, irei tratar de assuntos referentes ao desenvolvimento de mitologia, política e economia, para se inserir no universo alternativo.  

Referências:

. Stephen King – A Torre Negra. Vol 3
. A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin.
. Conto: A Carteira, de Machado de Assis.
. Daenerys – A Mãe dos Dragões, de George R.R. Martin, versão pt-pt.
. As Crônicas de Gelo e Fogo – A Tormenta de Espadas, de George R.R. Martin.

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