As regras de uma lenda desconhecida

Por Hairo-Rodrigo Perfil: http://fanfiction.com.br/u/82481/ Famoso e renomado escritor da literatura americana de décadas atr...


Por Hairo-Rodrigo



Famoso e renomado escritor da literatura americana de décadas atrás, quando ela ainda não era tão comercial quanto hoje, Elmore Leonard pode não soar como um nome conhecido a enorme maioria – quase me arrisco dizer totalidade - do publico do blog. Isso não quer dizer, porém, que ele mereça menos respeito ou admiração.

Escritor de mais de quarenta e cinco romances, ele foi primeiramente conhecido com seus livros no estilo Western, publicados na década de 50, mas foram os seus romances policiais e de suspense que mais fizeram sucesso e o colocaram na seleta lista dos premiados pela Fundação Nacional de Livros dos EUA, premio recebido em 2012, quando ele tinha 85 anos.

Para familiarizar vocês um pouco melhor com essa grande figura, vale lembrar que alguns seus livros já foram adaptados para o cinema, inclusive pelo famoso diretor Quentin Tarantino, que usou o roteiro do livro intitulado “Rum Punch” para o seu filme “Jackie Brown”. É do escritor, também, o roteiro do filme “Joe Kidd”, protagonizado por ninguém menos que Clint Eastwood.

O escritor faleceu no ultimo dia 20, em casa, já com 87 anos e ainda pensando em escrever mais livros, deixando para trás um legado que marca a história da literatura americana, e, com certeza, do seu incontável numero de leitores. 

O texto a seguir é a minha tradução de uma matéria que ele mesmo escreveu para o jornal “The New York Times” em 2001. Na época, o jornal publicava uma série com famosos escritores contando para o público as regras que costumavam seguir para escrever suas histórias de sucesso. Esbarrei nessa matéria há algum tempo, e ela tem me sido muito útil, além de ser uma leitura muito gostosa.

Aproveitem!



“Essas regras eu aprendi pelo caminho para me manter invisível enquanto estou escrevendo um livro, para me ajudar a mostrar em vez de contar o que está acontecendo na história. Se você tem uma facilidade com linguagem e com as imagens e o som da sua voz lhe agrada, invisibilidade não é o que você procura e você pode ignorar as regras. Ainda assim você pode passar o olho.


1. Nunca abra um livro com o tempo.

Se for apenas para criar uma atmosfera, e não a reação do personagem ao tempo, você não quer se demorar muito. O leitor é levado a pular a frente procurando por pessoas. Existem exceções. Se por acaso você for Barry Lopez, que tem mais jeitos de descrever o gelo e a neve do que um esquimó, você pode contar tudo sobre o tempo que quiser.


2. Evite Prólogos.

Eles podem ser irritantes, especialmente se for um prólogo que segue uma introdução que vêm depois de um prefácio. Mas esses são normalmente achados em não-ficção. O prólogo é a história por trás do romance e você pode jogá-lo no lugar que quiser.

Há um prólogo em “Doce Quinta-feira” de John Steinbeck, mas tudo bem porque o personagem do livro representa exatamente o porquê de todas as minhas regras. Ele diz: 

“Eu gosto de muita conversa em um livro e não gosto de ter alguém me falando como o cara que está falando se parece. Eu quero ir descobrindo como ele se parece pelo jeito que ele fala... descobrir o que o cara está pensando pelo que ele diz. Eu até gosto de um pouco de descrição, mas não muita... Às vezes eu quero um livro que se libere de todo esse hoopteddodle... Jogar lá umas palavras bonitas, talvez, ou cantar uma musica com a linguagem. Isso tudo é legal. Mas eu queria que isso fosse deixado de lado e que eu não tivesse que ler. Eu não quero que esse hooptedoodle se misture com a história.”


3. Nunca use um verbo além de “disse” para desenvolver um diálogo.

A linha de dialogo pertence ao personagem; o verbo é o autor se metendo onde não foi chamado. Mas “disse” é um verbo muito menos intrusivo do que “balbuciou, tossiu, avisou, mentiu”. Uma vez eu notei que Mary Macarthy terminou uma linha de dialogo com “Ela asseverou.”, e eu tive que parar de ler para pegar o dicionário.

4. Nunca use um advérbio para modificar o verbo “disse”...

... ele admoestou gravemente. Usar um advérbio dessa maneira (ou em quase todas as outras) é um pecado mortal. O escritor está se expondo gravemente, usando uma palavra que distrai e pode interromper o ritmo da troca com o leitor. Eu tenho um personagem em um dos meus livros que conta como ela costumava escrever romances históricos “cheios de estupros e advérbios”.

5. Controle seus pontos de exclamação.

Você tem não mais do que dois ou três pontos de exclamação por 100.000 palavras de prosa. Se você tem o jeito de brincar com os pontos de exclamação como Tom Wolfe brinca, então você pode jogá-los aos montes.


6. Nunca use a palavra “de repente” ou “o mundo desabou”

Essa regra não requer explicações. Eu tenho notado que autores que usam “de repente” tendem a exercer menos controles sobre seus pontos de exclamação.

7. Utilize-se esporadicamente de dialetos regionais, gírias.

A partir do momento em que você começar a soltar as palavras no dialogo foneticamente e encher a página de apóstrofos, você não vai conseguir mais parar. Note como Annie Proulx captura todo o sabor das vozes de Wyoming em seu livro de histórias curtas “Curto Alcance”.

8. Evite descrições detalhadas de personagens.
Essas o Steinback conseguiu seguir. Em “Colinas parecendo elefantes brancos” de Ernest Hemingway, como o “americano e a garota com ele” se parecem? “Ela havia tirado o chapéu e colocado sobre a mesa”. Essa é a única referencia a uma descrição física na história, e ainda assim nós vemos o casal e conhecemos eles pelos tons de suas vozes, sem um advérbio a vista.

9. Não explore muitos detalhes descrevendo lugares e coisas.

A não ser que você seja Margaret Atwood e consiga pintar cenas com a linguagem, ou escrever panoramas no estilo de Jim Harrison. Mas mesmo que você seja bom nisso, você não quer descrições que façam com que a ação, o ritmo da história, se estacione.

E finalmente:

10. Tente cortar as partes que os leitores costumam pular.

Uma regra que me veio à mente em 1983. Pense no que você pula lendo um romance: densos parágrafos de prosa que você pode ver que tem muitas palavras nele. O que o escritor está fazendo, ele está escrevendo, perpetuando o hooptedoodle, talvez voltando a falar do tempo, ou então entrou na cabeça do personagem e o leitor ou já sabe o que o cara está pensando, ou não se importa. Aposto que você não pula diálogos.

Minha regra mais importante é uma que resume as outras 10:

Se soar como escrita, eu reescrevo.

Ou, se o uso próprio da língua me atrapalha, ele precisará ser descartado. Eu não posso permitir que o que a gente aprendeu em redação atrapalhe o som e o ritmo de uma narrativa. É a minha tentativa de permanecer invisível e não distrair o leitor da história com escrita obvia. (Joseph Conrad disse alguma coisa sobre as palavras atrapalhando o que você quer dizer.)

Se eu escrever em cenas e sempre do ponto de vista de um personagem particular – aquele que traz mais vida a cena – Eu sou capaz de me concentrar nas vozes dos personagens dizendo quem eles são e como eles se sentem em relação ao que veem e o que acontece, e eu não estou em lugar nenhum.

O que Steinback fez em “Sweet Thursday” foi intitular seus capítulos como indicações, apesar de obscuras, do que eles cobrem. “Os Deuses enlouquecem quem eles amam” é um, “Quarta-feira preguiçosa” é outro. O terceiro capítulo é intitulado “Hooptedoodle 1” e o 38º “hopptedoodle 2” como aviso aos seus leitores, como se Steinback estivesse dizendo: “ Aqui é onde você irá me ver viajando com extravagância na minha escrita, e não vai atrapalhar a história. Pule se você quiser.”

“Sweet Thursday” foi publicado em 1954, quando eu estava apenas começando a ser publicado, e eu nunca esqueci aquele prólogo.

Se eu li os capítulos de hooptedoodle? Cada palavra.”


****


Fontes consultadas:

LEONARD, Elmore; Writers on Writing; New York Times; publicado em 21/06/2001; Disponível em:http://www.nytimes.com/2001/07/16/arts/writers-writing-easy-adverbs-exclamation-points-especially-hooptedoodle.html; Acesso em 27/08/2013.

???; “As dez regras para escrever ficção” de Elmore Leonard; Jornal O Globo online; publicado em 20/08/2013; Disponivel em: http://oglobo.globo.com/cultura/as-dez-regras-para-escrever-ficcao-de-elmore-leonard-9624731; Acesso em 27/08/2013.


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5 comentários

  1. Adorei este post, adoro ler estas dicas que escritores já conhecidos dão, é tão empolgante.
    Mostra onde podemos melhorar e onde onde estamos acertando. É muito bom ler estes artigos e continuar. Se eu pudesse continuava lendo isso para sempre, vou copiar este artigo e salvar, servira de inspiração com toda a certeza.

    Parabens pela tradução, e adoraria ler uma materia parecida, porem se fosse da Agatha Chriest ou do Dan Brown. Se voces souberem algum link eu ficaria agradecido!

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    1. Cara, é muito interessante reparar que tem mais gente por ai que teve exatamente a mesma reação que eu lendo o texto. Esbarrei nele pela internet e salvei pra inspiração. E hoje tenho a chance de traduzir e compartilhar ele com outras pessoas. É muito legal.

      Estive em contato com o pessoal da Liga e a gente deixou combinado uma série de posts periodicos com essa ideia, então fica de olho que teremos mais regras e dicas no futuro. Mas infelizmente meu arquivo não consta com os que você pediu, desculpe.

      Tenho um numero de outros escritores reconhecidos, mas não exatamente populares, pelo menos internacionalmente, e espero que você aproveite as proximas leituras da mesma maneira.

      Valeu mesmo e fica ligado no blog, que o pessoal daqui é bem legal! Abraços!

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  2. Eu adorei tanto esse post. E fiquei com uma vontade imensa de ler alguma obra de Elmore Leonard, embora seja eu daquelas que nunca tinha ouvido falar dele (nem dos filmes hehe). Queria ver como ele aplica as dez regras para se fazer invisível. Também quis ler as obras de cada autor que ele citou, vou anotá-los na minha lista mental e depois esquecer. Enfim, esse foi um dos melhores posts que já li aqui no blog (o que, claro, é dizer alguma coisa). Vou tentar aplicar as regras na minha escrita, mas talvez eu precise intitular todos os meus capítulos de Hooptedoodle. Também adorei a palavra hooptedoodle e agora vou repeti-la pelo resto da minha vida.

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  3. Eu fiz a mesma coisa que você. Guardei o nome do Elmore Leonard numa nota para nunca mais esquecer e sempre quis pegar um livro dele. Mas ainda não peguei infelizmente. AINDA...hahah

    Fico mega feliz que tenha gostado do post e mais feliz ainda de poder dizer que o blog deve ter mais posts do mesmo estilo no futuro.

    E tenta mesmo aplicar as regras, mas nao precisa ser muito rigida também... voce vai ver que cada escritor tem regras diferentes, e a gente tem que se espelhar neles, mas tambem temos que criar as nossas com o tempo ;D

    Brigadão pela presença e se liga no blog que eles sempre tem uma novidade legal!

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  4. NOOOOOOOOOOOOOOOSSA, esse cara é muito engraçado. Sério. x'D

    Eu vou salvar o nome dele no celular e tentar a todo custo encontrar algo dele para eu ler.

    Mesmo ele escrevendo há umas seis décadas as regras se permanecem tão atuais. c':

    Com certeza uma ótima fonte de inspiração. Aquele tipo de artigo que a gente imprimi e deixa do lado do pc, pra sempre ler antes de escrever. sz

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